domingo, 30 de junho de 2013

A HERANÇA (Romance de ALMA WELT)


A HERANÇA (Romance de ALMA WELT)


Ex-libris feito em litografia por Guilherme de Faria, a pedido da autora quando se conheceram. O mote latino AD AUGUSTA PER ANGUSTA significa "Chegar a resultados magníficos por vias estreitas." O curioso é que permite uma tradução muito legítima ao pé da letra: "à Augusta pela angústia", sugerindo o estado de espírito da poetisa no seu auto-exílio paulistano numa transversal bem próxima da rua Augusta, logo após a morte do seu pai (o Vati) em sua estância no Rio Grande do Sul.

A HERANÇA ( Romance de ALMA WELT)

PREFÁCIO ao romance A HERANÇA, de ALMA WELT
Por GUILHERME DE FARIA

Estamos diante do primeiro romance de Alma Welt, e ele me parece grandioso. Um romance autobiográfico. Uma saga de família. Passado nos pampas de sua terra natal, este livro merece o nome de romance, como poucos. Um romance...romântico, na grande tradição da literatura romanesca.
Última grande lírica do século XX, como costumo chamá-la, a poetisa Alma Welt, aborda a sua narrativa com o lirismo que lhe é característico, freqüentemente rasgado, como um canto, poesia em prosa em vários momentos, musical como uma rapsódia, noutros como uma sinfonia. Ouvimos a música que ela quer nos oferecer, fazer-nos ouvir. Como o rumor do vento minuano, como o ranger das portas e paredes que giram. Sentimos o mistério e a beleza de sua terra, de sua casa, de suas origens. Comovemo-nos com o seu amor à sua terra, ao Pampa que se estende como o mundo em torno da sua casa, e por onde ela galopa acompanhada por sua Aline, como duas “centauresas”, nuas e graciosas. Poucas vezes vi momentos tão belos num romance, como nesses parágrafos. Alma Welt não se peja de ser romântica, porque se sabe herdeira de uma grande tradição de seu sangue germânico. Ela nos conduz como Hoffmann, pelos corredores de sua casa, pelos subterrâneos das adegas misteriosas. Como Goethe, faz-nos passear nos jardins em torno da casa, em idílio com aquela outra bela mulher, Aline, coroadas de flores. As crianças, como abelhas, esvoaçam em torno de nós, buliçosas, e adoráveis. Mergulhamos nesse universo weltiano com um prazer raro, acompanhando os vôos, as divagações, os devaneios e as memórias reais, da personagem-autora. Ou da autora-protagonista. Ela nos seduz com seu universo, pela ótica da beleza com que enxerga o seu cotidiano, que não nos é estranho, porque verdadeiro, sutil, humano, sem rebuscamento, sem artificialismos. Alma Welt não quer ser fina. Ela o é pela altitude do seu pensamento claro, pela pureza evidente do seu coração romântico. Ela ama com paixão. E com erotismo explícito, ao mesmo tempo elevado, pela estética superior com que o descreve, naturalmente, sem segundas intenções. Ela esbarra no sexo, como nós, na vida, e não se desvia. Ela o encara, com volúpia. Ela ama o amor e o sexo, e nos convida a participar de sua intimidade encantadora, com uma liberdade cativante, que nos alicia. Como uma heroína moderna da liberdade e do prazer do sexo, fruído com dignidade e com a pitada de mistério que o sexo sempre esconde com aquelas pequenas perversões atraentes, de que ela nos faz ver a beleza, nos permitindo, portanto, reconhecê-las em nós mesmos. Essa é a sua delicadeza: amar tanto o ser humano, que a sua aceitação por ele é plena, quase total. Somente a maldade ela recusa, ela denuncia, como algo fora do humano, que se intromete e choca, nesta vida. Herdeira do idealismo alemão, comove-nos a sua visão humanista em alto grau, que dignifica o homem, pela sua aposta incondicional em sua pureza original, em sua beleza herdada dos deuses, senão de Deus.
Além disso ela nos emociona ainda com uma qualidade rara, a candura, de que ela não abre mão, mesmo em sua lucidez crítica. Como pôde, então, esta pequena Eva, manter a sua pureza tendo mordido a maçã da razão, sem se ver compelida a cobrir sequer com a mão o seu sexo? É isso o que mais me impressiona em seu texto. O orgulho com que se expõe, como uma ninfa, freqüentemente como uma menina travessa, cheia de deliciosa malícia inocente. Alma ama certa ambigüidade, certos paradoxos, elegante que ela também é. Deve gostar portanto de Oscar Wilde, que ela não reflete tanto no estilo, mas no espírito de certas atitudes, pois não há dandismo nela. Ela é simples, nunca rebuscada. Nunca art-nouveau, a não ser pela sua vertente simbolista menos formal. Lembra mais, uma Emily Brontë  das charnecas, do que o inglês dos salões e dos cassinos. Ama Turner, em suas pradarias, mais que o impressionismo que é seu descendente. Ouvimos Shumann, mas sobretudo Mendelsohnn em suas orquestrações de palavras, evocativas de belas paisagens. Alma Welt nos embevece.
Finalmente resta apenas evocar o tributo que ela faz, consciente ou não, ao grande autor de “O Tempo e o Vento”, nosso Érico Veríssimo, que ela não pode negar, como autora gaúcha. Preparem-se pois para penetrar no coração dessa terra fabulosa, o Pampa, numa estância, um casarão um tanto assombrado, batido pelo minuano, carregado de memórias heróicas e trágicas de batalhas revolucionárias, e onde julgamos avistar a sombra de Anita Garibaldi projetada, num relance, nas brancas paredes fantasmagóricas. 

São Paulo, 12/08/2004

GUILHERME DE FARIA

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ALMA WELT

A HERANÇA


Prefácio por GUILHERME DE FARIA........................................................3

Primeira Parte

 A Herança em perigo.............................................................7


Segunda Parte

A Ara dos Pampas...................................................................31

Terceira Parte

 O Sangue da Terra..................................................................64

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(Epígrafe):

"Espremo os tubos sobre a paleta
lanço estes versos no papel

e as tintas e as palavras me remetem
à nossa estância

que ainda está ali
como um fantasma

navegando
na amplidão do Pampa



Como uma nave
o casarão batido pelo minuano

recusa-se a afundar."

  (Versos finais do poema Pampa, de Alma Welt )

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Capítulo Primeiro

A Herança em perigo

Rôdo, meu irmão, quer vender a nossa estância. Não posso suportar sequer a idéia disso acontecer. Faço as malas apressadamente, sem esquecer, no entanto, de jogar por cima das roupas meus cadernos de poesia e de anotações.
Durante a viagem, de ônibus, percebi-me em estado de grande ansiedade e fiz, então um esforço para sintonizar-me naquele presente, mesmo sendo ele de transição, com a paisagem correndo veloz através das janelas. Depois de um dia inteiro e de duas baldeações, chego afinal à estaçãozinha para pegar o trem antigo que corta as nossas terras, em pleno pampa. Meu amado Pampa, eterno, imutável.
Quando afinal a charrete vem me buscar na pequena estação, eu já estou retornada à minha infância e primeira juventude. Comovida e tensa, cumprimento nosso caseiro, Galdério, cujas rugas emergem agora de um imenso bigode grisalho, e cujas bombachas me remetem ao meu universo verdadeiro. Estou em casa.

No caminho, embalada pelas coxilhas, e pela voz cantadíssima do nosso caseiro, percebo-me numa espécie de sonho, em que, ao fundo escuto os ruídos e a música do fandango e a canção da Nau Catarineta, que ouvia na infância, como um anti-acalanto, se posso dizer assim, que me tirava da cama e me fazia correr para a balaustrada, para observar a festa dos adultos, acompanhar aquela estória maravilhosa da nau quase maldita, que encontra a sua redenção pela fé inabalável do seu capitão.
Agora, a nau que se encontra em perigo é o nosso próprio casarão, que parece navegar, imóvel, no plano astral do Pampa, batido pelo minuano, na estação fria.
Mas estamos em pleno verão. E os dias estariam maravilhosos se essa ameaça não pairasse por dentro, em minha alma. Nossa estância em perigo, nossa casa prestes a se perder. O que está acontecendo com Rôdo? Como pode o meu irmão trair-me assim? Não foi ele auto-designado como o fiel guardião do espólio do nosso pai? Da nossa herança sagrada, das nossas raízes mesmo?
Anseio encontrar-me imediatamente com ele, e temo chegar gritando como uma fúria, o que definitivamente não faz o meu gênero.
Ao avistar Rôdo, entretanto na varanda, de pé, com as suas bombachas, e os cabelos pretos revoltos, majestoso em sua beleza jovem, meu coração se abranda, se aquece, e eu me distendo. Corro a abraçá-lo. Ele me aperta contra o seu coração, e eu me remeto novamente à nossa infância, quando nossos abraços eram mais freqüentes que o normal. Seu cheiro, seu perfume, a maciez dos cabelos pretos de Rôdo, meu primeiro amor, na verdade...
Mas logo me desprendo, afasto-me à distância dos braços e olho-o nos olhos, fuzilando-o.
—Rôdo, que se passa? Como pode pensar nisso? Vender a nossa estância...Prefiro a morte, fica tu sabendo. Queres matar-me? Queres matar-nos a todos?
—Alma, não exagera! Tu és sempre extremada nos teus sentimentos. Vê: não temos saída, é isso ou uma hipoteca, que não pagaremos jamais. Estamos falidos. Essa é que é a verdade. Não consigo tirar mais um tostão da propriedade. Os tempos mudaram. Tu és artista, não sabes nada desse universo, do mundo prático, das dívidas imensas que acumulamos desde antes mesmo da morte do Vati. Tu te iludes. Não temos mais saída.
–Mas, Rôdo—quase gritei—Tu prometeste, tu juraste defender a nossa herança, o legado do Vati, a nossa biblioteca, o piano, o jardim, o parreiral, o pomar, nossa macieira, mas sobretudo esta casa. Ai, Rôdo, eu não posso suportar essa idéia, de perder tudo!...
Caí num imenso pranto. Sentia-me desfalecer. Rôdo amparou-me. Pegou-me então em seus braços, como fazia quando atravessávamos o brejo, e carregou-me como a uma criança, para depositar-me no sofá da sala. Abandonei-me por um momento, como se isso fosse abrandá-lo, demovê-lo do seu intento, que eu sentia poderoso, já que a idéia da venda estava instalada dentro dele, já havia muito tempo, eu percebia.
Fiquei soluçando, até adormecer, exausta, num torpor de dor e cansaço acumulados, da viagem e do medo que me acompanhava.
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Acordei com o rosto do meu irmão, muito próximo do meu, com seus olhos pousados sobre os meus lábios. Teria ele beijado a minha boca, em meu sono? Ai, Rôdo, é tarde...
Passei-lhe a mão nos belos cabelos negros, sedosos, levemente ondulados, como se o pampeiro os agitasse sempre. Meu irmão, meu irmãozinho... Preciso falar-lhe, convencê-lo. Deve haver uma saída. Não me considero uma pessoa apegada a bens materiais. Mas, a estância? É nossa herança espiritual...materializada. Não, não é possível, será minha morte, a nossa morte. Estarei condenada para sempre àqueles Jardins vazios, de São Paulo, onde posso ter somente o meu ateliê, com conforto, cercado de galerias de arte, somente para prover a minha subsistência, para continuar criando a partir do manancial interno desta herança, deste solo, onde estão fincadas minhas raízes. Não, Rôdo, eu não permitirei. Lutarei contra tudo e até mesmo contra ti, se me traíres, se nos traíres.
Levanto-me e peço a Galdério para selar uma égua. Saio galopando por esta amplidão, a campina infinita. Galopo muito tempo acompanhada ao longe pelo olhar de meu irmão, que me vigia como outrora, quando esta galopada era feliz. Ai, que posso fazer, senão galopar? Como lutar, que sei eu da vida, dos papéis, das dívidas... desse mundo sórdido e triste das realidades comezinhas do mundo prático, real? Sou uma artista, sou poeta, ai de mim! Sou então, tão vulnerável? Eu não sabia que podia ser assim atingida, no meu cerne, onde brotam as minhas forças criativas, no meu coração, na minha alma. Vão me matar! Vão me matar se isto tudo se perder, esta casa, estes livros, o Steinway do Vati, com sua música que ainda ressoa. Minhas memórias sobreviverão? Sem seu lastro ouro, não se desvalorizarão? Eu sei, esta pergunta contradiz a essência da memória, sua permanência em espiritualidade, mas... a matéria, então, não é nada? Porque existe, então? E é tão bela! Tanto quanto o espírito, não menos. Essa é a verdade. Como artista, eu amo a matéria tanto quanto a alma que nela se instala. Por isso a descrevo, a pinto, a enraízo nas telas e nos versos. Descrevo a beleza amada, de tudo, a minha própria beleza. Quero fixá-la. Quero-a eterna. Quero crer na ressurreição da carne, com Deus, ou entre os deuses do Olimpo, não sei mais! Entre os deuses do Pampa!
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Ao jantar, na grande mesa, Rôdo numa cabeceira, eu na outra, percebo que estamos nas posições de nosso pai e mãe, em suas cadeiras, com a mesma imensa distância que os separava. Matilde, nossa cozinheira manda sua sobrinha nos servir. Matilde está muito calada, depois de chorarmos muito, abraçadas. Agora parece uma sombra e não tem coragem de aproximar-se dessa mesa vazia, com seus guris ( como ela diz )sentados assim, separados pela própria mesa vazia, vazia, para sempre.

Onde estarão Lúcia e Solange, nossas irmãs, tão omissas? Já aceitaram prontamente a perda da nossa estância. Aliás, ansiavam por isso, cheias de rancor, e cobiçosas dos despojos do nosso patrimônio, como harpias. Logo chegarão, disse Rodolfo. Logo estarão aqui, insuflando a venda, reivindicando, disputando. Ai! não vou suportar. Eu lutarei, não vou permitir que espoliem tudo. Não levarão um livro, um disco! Não ousem cobiçar o piano. Nada deve sair daqui, agora vejo.
Sim, eu mesma jamais me imaginaria, defendendo com unhas e dentes estas coisas. Mas eu sei que o Vati me quer assim! Sei que ele era apegado aos seus livros, ao seu piano, aos seus quadros, mais que às nossas terras mesmo! São a sua herança espiritual. Os símbolos do seu amor pela cultura de todos os povos. Pela arte universal, pela música dos Mestres. Ai! Não posso deixar isso se dispersar. A essência de uma coleção é a personalidade, o espírito do colecionador, que assim se plasma. Uma coleção dispersa, é a traição de uma vida, um ato de canibalismo, de mutilação, de depredação. Uma alma estraçalhada, como um corpo!
Vati, Vati, eu te defenderei! Mas como? Como? Que posso fazer?
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Chegam Lúcia e Geraldo, com meu sobrinhos, os gêmeos, Christian e Hans. Depois Solange e Alberto. Patrícia, quase uma moça, corre a abraçar-me, depois Pedro, menino lindo, quieto, sensível. Como puderam estas crianças maravilhosas sair dos ventres desse casal, é o que pergunto, na verdade, pois os pais já chegam brigando, disputando a carniça. Solange abraça-me, contudo, com aparente emoção. Talvez ela goste de mim um pouco, à sua maneira. Talvez por dever de irmã. Ela é assim, e logo começa a queixar-se do beberrão do marido, que já está por ali, procurando alguma coisa para beber. Nosso vinho, é claro, nossa adega ainda está ali, tínhamos nos esquecido dela, desde a morte do Vati. Mas Alberto não. Volta com uma garrafa meio empoeirada, olhando com satisfação o rótulo, desenhado por mim. Distribuindo as taças faz um brinde rápido e cínico à nossa estância. Ao dinheiro em que esperava meter a mão, na verdade. Ai, como tudo isso é patético... e doloroso. Afasto-me com Patrícia, de mãos dadas. Esta mocinha, quer abrir o seu coraçãozinho comigo, estou vendo. Está amando ( só podia ser) e a mãe, naturalmente a vigia, proibindo-a de ser aproximar do guri. Tudo tão previsível! Mas, a verdade é que meu espírito já não está sereno, centrado, ali. Estou perturbada pela ameaça que paira sobre a minha casa. Será que os meus irmãos podem viver assim desraigados do nosso chão, tão facilmente? E Rôdo? A estância parecia vital para ele, tanto quanto para mim. E foi ele que lutou por ela, por ocasião da partilha do espólio. Afinal, todos permanecemos juntos na posse, por minha influência. Se Rôdo a tivesse obtido, por acordo, na divisão dos bens, já não teríamos nada, agora vejo. Já estaria tudo perdido. Meu irmão revelou-se um estróina. Seu carro esporte, sua Ferrari, o revela.
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Sento-me sob a minha macieira e ponho-me a devanear. Começam a vir ao meu espírito imagens longínquas, de um outro tempo que não o meu, mas que está nas minhas raízes, talvez tão fundas quanto as desta árvore que contém meu coração, não só gravado em sua casca, mas no seu cerne.
Transportam-me imagens rurais de uma Morávia "alemã", sim, dos Sudetos, bem antes da segunda Grande Guerra. Meus avós, agricultores alemães, voltando para o seu chalé, em estilo bávaro, mas humilde. Trazem enxadas nas costas, e percebo-lhes as grossas mãos calosas. O lenço cobrindo a cabeça de minha avó, de aspecto rude, a cara embolachada, donde emergem olhinhos azuis, no meio da gordura avermelhada do rosto redondo. Meu avô, altíssimo, magro, de enormes mãos ossudas, segurando um cachimbo que o acompanha até o trabalho, no campo. Seus olhos azuis esverdeados, parecem obtusos, mas ao mesmo tempo obstinados. A mesma obstinação que o arrancará dessa terra onde se sente oprimido, como todos os agricultores que queriam-na sentircomo alemã, em pleno seio da Boêmia e Morávia. Essa revolta o trará, muito antes da guerra, para o sul do Brasil, terra prometida, que ouvira falar, um tal vale do Itajaí, palavra exótica que mal sabiam pronunciar. Aquele nefasto Hitler iria se aproveitar disso, com pretexto, para invadir a Polônia e Tchecoslováquia e destruí-las. Sua luta, sua campanha de ascendência ao poder já insistia nesse tema duvidoso.

Meus avós, eu os acompanho em meu retrospecto sonâmbulo, ali sob aquela árvore ancestral, cujos primeiros galhos correspondem a este casal de camponeses rudes, corajosos afinal, que iriam primeiramente parar na região de Blumenau, em Santa Catarina, numa colônia alemã, não tão distante de uma outra, açoriana, onde nasceria a jovem Ana Morgado, amada ardentemente, desde a infância, pelo meu pai, o jovem Werner Friedrich, sonhador, que queria estudar, sair dessa vida agrícola, ser músico ou médico e resgatar a linda açoriana, como ele dizia, daquele universo, para ele restrito, e carregá-la consigo para o mundo, tão mais vasto. Sonhava voltar à Europa, ele que havia nascido ali, naquele vale ideal, de algum modo brasileiro, alemão, português, italiano. Namoro rural típico, não fora o espírito predestinado ao cosmopolitismo do jovem Werner, cuja rebeldia foi tolerada pelos rudes alemães, porque revelava o herdeiro de uma tradição mais ampla, que incluía a música de Bach, Mozart e Beethoven, e a sabedoria de Goethe e Nietzsche, que ele descobrira praticamente sozinho, na biblioteca do pároco, o pastor da igreja Luterana daquele vale.
Agrada-me pensar que o embrião desta Alma aqui, já estava naquele vale... e naquele sonho do jovem casal de namorados meio clandestinos. Sim, porque não foi fácil esta união, e incorreu numa fuga, pois as duas colônias não se bicavam, e as famílias, tão diferentes, à parte as raízes rurais, que isso sim, era o único ponto comum. Ana, pequena católica, igrejeira, devota da virgem, da qual carregava a imagem numa medalha ao pescoço, como pôde ela apaixonar-se pelo jovem teuto-brasileiro? Na verdade mais alemão que qualquer um, no seu universalismo cultural que prenunciava uma erudição que havia de se tornar espantosa. Como pode ele apaixonar-se pela “portuguesinha” ingênua, mas ao mesmo tempo austera e dura, cuja religiosidade ainda continha tanto fetichismo, com tantas imagens veneradas, e tantas restrições morais, que na verdade eram o único ponto de encontro das duas culturas?
Mas meu pai, este era libertário, de larga visão... e aventureiro. Haveria de raptar a “rapariga”, filha dileta dos Açores, de pele muito branca e cabelos negros, que reapareceriam apenas no meu irmão Rudolf, o mais belo de todos, a meu ver. Mas antes de mim viriam Solange e Lúcia, nome caros aos brasileiros.
Quantas aventuras, na verdade, antecederam este estágio! O jovem Werner conseguira dos velhos, ser mandado à Alemanha para estudar. Aquela Alemanha da ascensão do futuro Führer, que, graças a Deus, produziu imediata aversão no jovem esclarecido.
Mas este jovem obstinado, concentrou-se nos estudos, apesar de tudo, da conturbação social daquela ascensão irresistível, daquele tirano, cujos berros ecoariam até aquele vale ideal, lá no Brasil, e fariam meus avós colocarem braçadeiras para desfilar em honra do fanático que prometia libertar os sudetos da Checoslováquia e Polônia, tanto quanto anexar a Áustria. Meu pai não veria essa cena deprimente, do meu avô com aquela braçadeira da suástica, e o braço direito estendido, gritando “Heil!” enquanto marchavam pelas ruas de Blumenau, tolerados até com certa condescendência pelo resto da população, num momento político sob a égide de Getúlio, que até então, não disfarçava sua simpatia pelo colega do III Reich. Foi preciso a guerra terminar, e os segredos escabrosos do nazismo virem a tona, para meu avô reconsiderar suas posições e renegar aquela ideologia. Pelo menos o fez. E botou uma pedra sobre o assunto, como, ao que parece, todo o povo alemão.
Daqueles anos, eu soube muito mais tarde os passos do meu pai, pelas cartas à minha mãe, que descobri nos seus guardados. Cartas e cartões postais, apaixonados, românticos, com linguagem cada vez mais elaborada, denunciando uma cultura crescente, que sem saber o distanciaria da pobre rapariga açoriana, mais afeita a um banco de jardim de praça, singelo, diante de uma igrejinha de aldeia, como a que escolheu para se casarem, ao seu retorno.
O jovem, alto, de louros cabelos, e olhar azul brilhante, voltaria com uma bagagem insólita: uma biblioteca imensa, que ele parecia ter digerido perfeitamente, tal a extensão do seu saber e as bases de uma erudição que ele iria fazer crescer cada vez mais ao longo de sua vida. E o piano? Um Steinway negro, maravilhoso, que trouxera de navio e que ele dedilhava com técnica apurada, aprendida sabe-se lá onde e como, com que tempo? Como pôde ele acumular tanto saber, e ainda tocar daquela maneira romântica, tendo se formado em Medicina, e se tornado mesmo um cirurgião (atividade que, na verdade, ele quase não exerceu )?
O que mais me impressionaria em minha infância, seria o seu ouvido musical, absoluto, e o seu conhecimento das obras do Romantismo, inclusive o mundo da ópera alemã, francesa e italiana, sobretudo. Sim, meu pai era um romântico e passaria essa tendência inata para mim, sua filha predileta. Mas antes, muita coisa aconteceria naquele seu retorno, às vésperas da conflagração que mudaria o mundo.

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Interrompem esse meu mergulho retrospectivo as vozes adoráveis dos meus sobrinhos que se aproximam correndo e brincando. Pré- adolescentes especialmente belos, mantêm uma agradável harmonia entre eles. É lindo observar a doçura das relações entre Patrícia e Pedrinho, sua cumplicidade, fruto talvez da necessidade de se unirem, num lar conturbado por um pai alcoólatra e uma mãe excessivamente controladora. Posso imaginar os conflitos e cenas, das quais já presenciei algumas, com que essas crianças são obrigadas a conviver. Quanto aos gêmeos, Christian e Hans, são dois doces enigmas. Só falta falarem em uníssono, como aquelas gêmeas do filme de Bergman, “Morangos Silvestres”. Junto-me a eles, que me cercam oferecendo-me frutas e sorrisos lindos. Andamos juntos, entrando por aquele pomar, e eu me entrego ao imenso prazer daquele momento, até o instante em que me lembro da ameaça que paira sobre tudo isso. A perda iminente deste paraíso, desses momentos que eu queria eternizados por gerações. Saio correndo subitamente, chorando, em direção ao casarão, para espanto das crianças. Eu precisava ver Rôdo, insistir com ele, demovê-lo do seu intento, de algum modo.
Encontro na sala o estrupício do Alberto com mais uma garrafa na mão, procurando uma taça. Logo estará bebendo no gargalo, sujo ou não. Solange, que aparece logo, com seu ar irritado como sempre, olha meu rosto molhado de lágrimas e abre ligeiramente os braços, para deixá-los cair sobre as largas ancas, num gesto de “paciência”.
—Aí estás novamente a debulhar-te em lágrimas. Viraste agora uma chorona, Alma? Não eras assim... Que queres? Não aceitas a realidade, não é? Nunca a aceitaste, não é mesmo? Tu e o Vati, dois sonhadores. Nunca souberam que as famílias precisam de dinheiro, dinheiro, estás ouvindo? Não se criam crianças só com livros e música, sabias? Não, não sabes. E bla, bla, bla...
Saio correndo daquela sala, e vou bater na porta do quarto de Rôdo. Não o encontro. Vou à biblioteca e ali está ele limpando uma arma, uma carabina de caça que meu pai nunca tocava e que mantinha apenas como recordação de meu avô. Causou-me imediata repulsa ver aquela arma, naquele momento. Porquê não o encontrei com um livro aberto? Um dos muitos livros ilustrados do Vati, tão caros à nossa infância?
— Rôdo, preciso que me ouças. Larga essa arma e raciocina comigo: deve haver uma saída. Em quanto monta a dívida da estância? Porquê não vendes tua Ferrari? Para quê precisas de um carro assim tão caro? Não é a estância mais importante para ti, para nós dois, pelo menos? E as crianças, Rôdo? Não vês que elas não podem ser privadas destes jardins, deste pomar, disto tudo? O Pampa, Rôdo, o Pampa!
Caí em lágrimas, sacudindo-o pela gola da camisa. Abracei-o fortemente e ele me apertou fundo, contra o seu peito, antes de rechaçar-me, exasperado.
— Alma, pára com isso. Estás tornando tudo mais difícil. Não és tu que sempre falaste em desapego? E a tua filosofia? E o Tao? São só balelas? Palavras? Veja, Alma, isto também é destino. Chegou ao fim a nossa estância, esta casa, a nossa infância. Então não vês, Alma? Acabou.
—Não, não, Rôdo! Não tente me confundir. Eu sei, eu sei que não acabou. Sinto o Vati pairar sobre esta casa, e a música que emanava dos seus dedos, ao piano, acorda-me à noite. Ele está aqui e nos quer juntos, pelo menos a nós dois, sob este teto, nesta biblioteca, relendo estes livros... ou venerando-os, simplesmente. Seu piano, Rôdo, o Steinway... não podemos, Rôdo, ele ainda está vivo!
Rôdo olhava-me desolado, agora com lágrimas nos olhos, e abraçou-me novamente, soluçando os dois. Rôdo também desabara, sua força era fictícia. Eu sabia.

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Ao jantar, todos à mesa, nossa grande mesa, cujas cabeceiras eram agora ocupadas por Rôdo e Solange, já que esta jamais me deixaria ocupar esse lugar, Alberto, inoportunamente, fez questão de fazer um brinde com mais uma garrafa da nossa adega. Tudo era pretexto para o beberrão, não importando a falta de verdadeira alegria neste encontro de família, em que as próprias crianças estavam mais caladas, como que pressentindo algo, o fim iminente daquelas reuniões. Suas anteninhas já captavam o desastre, a dispersão, o fim do sonho. Eu sabia o quanto o casarão e a estância eram importantes para eles, eram uma espécie de porto seguro ancorado na terra ancestral. Viviam na cidade, mas sempre estavam aqui a cada ano, nas férias escolares, e aqui cresciam, espichavam, a cada temporada maravilhosa. Seus olhinhos procuravam os meus buscando segurança, instintivamente. Eu percebia que eu era para eles a referência de estabilidade desta estância, apesar de tudo, apesar de ser somente uma artista. Mas o meu amor e minha alegria eram o termômetro da continuidade daquela casa dos avós, de suas raízes. Solange, eu percebia, se irritava com isso, uma vez que lhe parecia que cabia a ela esse papel, como a mais velha. Mas, como esta mulher árida, sem verdadeiro amor, segundo me parecia, poderia ocupar o lugar do Vati? Ele era puro amor e complacência, aliados a uma força e sabedoria raras. Ele era o verdadeiro espírito desta estância que meus avós compraram, na plena decadência de uma velha estirpe de estancieiros gaúchos autênticos, mas tão antigos neste Pampa que caíram de podres.
Quando meus avós, agricultores que prosperaram tanto, por puro esforço e disciplina germânicos, compraram esta fazenda, talvez a situação fosse análoga à deste momento. Deve ter havido ali uma Alma pampiana e... um Rôdo. Também uma Solange dura e seca. E crianças que perderam tudo. Imagino a carga de dor e ressentimento na mudança de mãos desta propriedade, cuja estabilidade dependia de enorme dedicação e amor. Talvez a propriedade, em si, tivesse um espírito que nos condicionava, que nos direcionava, e que não perdoava a nossa própria decadência... e nos expulsava por fim. Mas, não! Não me resignei ainda! Não estou pronta, eu pensava, naquela mesa, naquele jantar triste, na verdade, onde o brinde de um beberrão soava estranhamente inoportuno, e no qual ninguém estava interessado. Entretanto, ao tocar a taça após o brinde, meus lábios sentiram primeiro o gosto da terra maravilhosa deste pampa, o cheio frio do minuano, o aroma do charque, do mate na cuia, e das videiras sem fim. Então percebi a excelência daquele vinho no qual eu antes não reparava. E pareceu-me um sabor celestial, que apontava de algum modo o caminho, numa linguagem ou código que eu não pude, então, decifrar.

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Passeio com Rôdo à noite após o jantar no nosso jardim coruscante de pirilampos. Patrícia e as crianças, encantadas, correm atrás das luzinhas tentando apanhá-las. Esta cena se gravaria em mim para sempre, eu sabia, mas não acreditava que seria a última imagem noturna daquele jardim maravilhoso de minha infância extensivamente alargada ali por aquelas crianças lindas. Rôdo e eu em nossa meninice tínhamos feito tanto isso! Ele colocava centenas de pirilampos num vidro de compota ou mesmo numa garrafa vazia de vinho, para brilhar na noite, concentrados, enquanto eu protestava, até tomar-lhe a garrafa para libertar os bichinhos. Rôdo, na verdade, deixava que eu o fizesse, pois sua índole era amorosa, pelo menos comigo. Ele então me cobrava em troca, apenas beijos nos lábios, que eu ingenuamente regateava, excitada, meio temerosa. Uma vez ele me fez deitar atrás de uma sebe florida, ali no escuro, e cercados do piscar de mil estrelas no céu e na terra, ele me beijou longamente os lábios, desajeitadamente mas com doçura, enquanto sua mãozinha percorria o meu corpo, apalpando-me. Ali senti pela primeira vez aquelas coisas, quando sua pequena mão cobriu minha concha, por baixo da saia. Somente... ele quebrara o encanto, levando a seguir os dedos ao nariz e fazendo uma careta. “Cheira a xixi”, ele disse, e eu, perplexa e envergonhada, saíra correndo para dentro da casa.
Agora, ali, com ele, esta cena assomou do fundo da memória e me fez sorrir no escuro, um sorriso que ele não viu. Talvez ele também pensasse naquilo e também sorrisse no escuro, lembrando-se do meu cheiro e de como ele então ficara obcecado, a partir daquele momento, e buscara tantas vezes renovar aquela experiência, até o dia amargo em que, denunciados, fomos flagrados por nossa mãe, sob a nossa macieira.
Rôdo suspirou fundo, talvez daquele fundo da memória, e disse:
–Alma, não quero, tanto quanto tu, perder isto tudo. Aqui a nossa memória está viva, eu sei.. Farei o que você quiser, mas tenha uma idéia, pelo amor de Deus. Venderei a Ferrari, se for necessário, mas advirto-a que a dívida é muito, muito maior do que o que posso obter com essa venda. Pelo menos o dobro. E meu carro já não é novo, tu sabes como eu corro nessas estradas. A quilometragem está altíssima. Tu te lembras como já destruí um Porsche ... e quase morri. Poderei viver sem a velocidade? Talvez não... mas eu sei, estamos numa situação limite, e há mais pessoas em jogo. As crianças... Mas lembra-te: Solange e os cunhados estão loucos para se desfazerem da casa, da estância, de tudo. Eles odeiam nossas raízes, com excessão de Lucia, com quem acho que podemos contar, os outros são pessoas áridas, sem raízes verdadeiras, a não ser pelos belos filhos que tiveram, surpreendentemente. Então, Alma, pense, pense! Mas tenha uma idéia melhor, porque eu... já não sei o que fazer.
—Rôdo— eu disse—Vou orar, terei uma inspiração, eu sei. Mas vou orar aos deuses, do Olimpo e do Pampa, como o Vati me ensinou. Ele queria que a sua guria fosse pagã... e conseguiu. Procurarei nossa macieira, farei um ritual, amanhã à noite. Somente tu deves saber disso. Mantenha todos afastados. Disfarça. Para todos os efeitos estarei trancada no quarto. Tu me conheces, não brinco com certas coisas. Tu verás. Algo deverá acontecer, que nos tirará desse impasse.
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Preparo-me para o ritual que encasquetei de fazer junto à minha macieira. Recolho disfarçadamente ervas, durante todo o dia. Não esqueço de acrescentar à minha recolha a erva-mate sagrada dos pampas, e folhas do nosso parreiral. Passo o dia concentrada, tendo entregue a Rôdo a tarefa de despistar a bisbilhotice de Solange e Geraldo, o marido de Lucia. Quanto a Alberto, este está entretido demais com as garrafas, dizimando a nossa adega.. Temo somente que ele passe logo a dar vexames, chocando as crianças, e Patrícia, aquela flor preciosa que se mantém intocada como um lírio dos pampas, ou como um serafim. Como puderam estes guris preservarem-se assim, tão puros, com pais como esses? Bem, deixo isso para lá, nada posso fazer a não ser manter meus braços sempre abertos para acolher estas crianças maravilhosas.
Ao anoitecer, esgueiro-me com minhas ervas e outros acessórios, para escondê-los no pomar e voltar a tempo para a ceia. Rôdo ficou entretendo as crianças para que não vissem minhas manobras. No jantar, Patrícia manifestou a falta que sentiu de mim, ligeiramente magoada. Acarinhei-a muito, sob o olhar de esguelha de sua mãe. Seu pai já estava tão bêbado que não se sentou à mesa. Então bebemos água da fonte durante esse jantar. Entretanto, ao tocar a taça com água pura, voltei a sentir o sabor surpreendente e delicioso do vinho da noite anterior.
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Atravesso o jardim, cujas margaridas, sob o clarão da lua, ostentam um aspecto fosforescente e espectral. Árvores, arbustos e sebes projetam sombras que confundem minha visão, e me fazem sentir como num sonho. No pomar de copas prateadas, as sombras no solo, mais compactas, fazem destacar uma área de solo claro em torno da minha macieira, ela toda aparentando um aspecto mágico, de prata, coruscante.
Carrego comigo uma banqueta de três pernas, que será a minha trípode improvisada. Instalo-a próxima à macieira, frente ao coração gravado nela com as nossas iniciais. Essa é para mim a face da minha árvore. Como o banco é um tanto baixo, trato de mantê-lo sobre pedras empilhadas que o erguem à altura do meu peito. Espero que a ligação da minha trípode com o solo, esteja assegurada por estas pedras, e não a isolem. E necessário que a ligação entre o céu e a terra esteja perfeita em seu fluir de energias. Assim diz o meu instinto. Sou a Pítia, ou a pitonisa deste templo: o meu pomar. Sou tomado por esse sentimento, raro em mim, de intermediação de forças ocultas e esoterismo vago, como um terreno que, na verdade, não conheço. No entanto, um instinto desconhecido em mim, me orienta. Poderes ancestrais, muito antigos, confluem para mim, eu os sinto, vindos de uma antigüidade longínqua. Talvez uma druidisa atue, ou uma pitonisa grega, ou mesmo uma fusão desses oráculos, desde as suas vertentes celtas, germânicas e gregas, juntadas em mim nesta noite solene.
O coro dos grilos, sapos e outros cantores noturnos como o bacurau, e mesmo cães ao longe, uivando para a lua, preparam o momento de silêncio absoluto que se instalará, eu sei, no momento da invocação mágica.
Sou tomada de um fervor sagrado em relação a forças que pressinto, sem conhecê-las bem. Não são fruto da razão, e acho-me já em estado semi-delirante que se instala em mim, misteriosamente, nesta noite propiciatória. Certamente não poderia ser outra noite. Somente esta data esperava por mim, sacerdotisa de um único momento, vestal de virgindade refeita por algumas horas que não se repetirão jamais.
Começo a queimar as ervas que recolhi durante o dia e que escondera ali perto. Principio pela erva-mate dos pampas, invocando, enquanto o fumo se eleva, os numes pampeiros, inclusive aquele terno e trágico negrinho do pastoreio, emerso da memória da minha infância. Invoco o capitão santo da Nau Catarineta e o gaúcho da Salamanca do Jarau, invoco Martim Fierro, ou o seu modelo, um gaucho real, molde de todos os peões gaúchos valentes e telúricos. Prossigo, então, com a queima do fumo da nossa estância, fortíssimo e esquecido. Adiciono, afinal, folhas do nosso parreiral, invocando o eterno Dioniso, que aparece em meu espírito com o rosto de meu pai. Então, neste momento, o pomar parece saturado de presenças. Cada nume traz consigo o seu cortejo de agregados. Dioniso se apresenta com a barba loura de meu pai jovem, coroado de folhas de parreira, trazendo na mão a taça de seus vinhos, e com ele o séquito que o acompanha sempre. Eu os vejo, a todos: sátiros, ninfas, e os pequenos faunos buliçosos. Logo este pomar estala numa imensa bacanal sagrada. Encontro-me num estado hiperestésico, de confluência de todos os espíritos. Meu cabelo parece arrepiado e sinto a irradiação que exala de mim pelos meus poros, pelos meus dedos, que manipulam as ervas conclamatórias. Todos os deuses, algumas bruxas, feiticeiros e druidas para ali convergem. Vejo o Mago Merlim, do rei Arthur, e a fada Morgana, também Queen Mab* em sua casca de noz, seguida de toda a féerie. Deirdre*, filha da Irlanda ancestral, a segue, com Fingal* e Ossian*. Meu pomar saturado, se transforma numa grande “Noite de Walpurgis”*, com a presença errante de Fausto acompanhado de seu Mefistófeles; e a de Eros e Psiqué, e Helena de Tróia “aquela cujo rosto lançou ao mar mil navios”. Vejo Thor e Odim saídos do seu Walhala* e as Valquírias em cavalgada. Numa espécie de momento Alef, vejo tudo e todos, em torno à imensa barba de Leonardo da Vinci, neste Sabat universal, antes de desabar, desfalecida, com a minha camisola estraçalhada pelas minhas próprias garras, semi-nua no chão alcatifado de folhas secas e pequenos seres ariscos, espaço prateado por uma lua imensa que me faz levitar na horizontal, a um metro do solo.
Rôdo, gritando meu nome, chega, correndo, e recolhe-me no ar, estupefato, segundo me contaria depois. Teve de pousar-me sobre as folhas secas forçando-me para baixo. Nunca mais, ele disse, me olharia com os mesmos olhos.

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Passei os dois dias seguintes de molho, na cama, exaurida, a ponto de suspeitar que aquilo tudo, deuses e numes, tinham saído de dentro de mim mesma, e não da natureza em torno, do meu pomar, da terra e do ar, enfim.
Mas não importa, eu os conclamara... e eles apareceram. Eles se reuniram, vivos, de algum modo. Estavam todos ali, não faltaram ao encontro, o que me deixava a certeza de que não estava só, e que não abandonariam esta terra. E eu estaria sempre no meio deles, pois minhas raízes eram sólidas, e de algum modo, minha fé era tão poderosa, que eu não seria derrotada pelas divindades menores do dinheiro... ou da falta dele.
Minhas irmãs e cunhados atribuíram meu estado a uma depressão compreensível diante da nossa situação financeira. As crianças cercaram-me de carinho, subindo ao leito e entrando, à noite sob as minhas cobertas para me abraçar. Percebi o quanto era amada por estas crianças, e tive certeza de que estava no caminho certo. Patrícia, a donzelinha, disse-me:
—Tia Alma, estou sabendo que mamãe e papai querem vender a estância. Estou vendo também que tu sofres mais que todos por isso, e que estás lutando, de algum modo, para salvá-la. Conte comigo, tia. Farei o que quiseres. Não deixarei, também, que isso aconteça, sem lutar. Papai só quer saber de beber, eu vejo. Beberá o dinheiro todo que lhe cair nas mãos. Beberá a estância toda, se deixarmos( uma lágrima correu em sua face)— Mas, tia, tu deves dizer-me o que fazer. Eu te obedecerei, quaisquer que sejam as tuas instruções. Diga-me, tia Alma, que posso fazer?
—Patrícia, meu amor, tu és a minha guria predileta. Eu sabia que podia contar contigo. Mas não sei como podes ajudar. No momento certo, quando eu descobrir, eu te avisarei, continua atenta... e conta-me tudo o que ouvires de estranho. Não queria que fosses uma pequena espiã, simplesmente. Mas o tempo é de guerra e temos de tomar nossas posições. Sou-lhe infinitamente grata pelas tuas palavras. És uma guria de ouro.
Ao terceiro dia, recuperadas as forças, abandonei o leito e participei do jantar, quando Alberto aproveitou para abrir mais uma garrafa para fazer-me um brinde. E mais uma vez, o vinho me pareceu delicioso demais. Alberto passou o jantar bebendo, sem tocar a comida, muito animado, como se o tempo fosse de festa. E, de um jeito ou de outro, nos distraiu de nossas preocupações.
Rôdo, naquela noite, após o jantar, combinou comigo, aos cochichos, como criança, encontrar-me no escritório. Ali cheguei, na hora combinada, e encontrei-o com a bota sobre a escrivaninha e com a faca gaúcha de prata lavrada, na mão, no seu jogo de cena preferido, desde a infância. Fazia o gênero gauchão, com um sorriso na metade da boca. Mas logo compôs-se e disse:
–Alma, não sei o que fizeste, mas tu me assustaste. Como pudeste ficar assim, pairando acima do solo? O que aconteceu? O que aprontaste? És uma louca, quase tenho medo de ti. Que estás tramando?
—Rôdo—disse eu—os detalhes não são de tua conta, apesar de teres chegado numa boa hora para interromper o ritual, que não sei, realmente como poderia acabar. Só sei que o pacto foi feito, se posso chamar assim. Não estamos sós. Tu vistes as hostes de que estamos acompanhados?
—Alma, nada vi, a não ser o suficiente: tu deitada no ar, teus cabelos quase tocando a terra... e já foi demais. Não quero nunca mais ver isso, sua feiticeira. Tu me assustas. Desde criança que tens teus mistério, dos quais não posso compartilhar. Não é justo. Mas o que fizeste? Qual o resultado prático, vamos, diz lá!
—Olha, irmão, não te posso contar tudo. Eu mesma custo a acreditar, agora, no que vi. Nada foi dito, propriamente, mas as presenças que invoquei, e que compareceram trazidas ou não pelas nossas ervas, foram o suficiente para saber que não estamos sós, e sim acompanhados de entes poderosos, que velam por nós e por esta terra, esta casa. Isto me deu confiança, e o resultado, por enquanto, é só este: confiança. Sei que uma inspiração súbita me virá, deles. É só esperar.
—Bem, Alma, que venha logo essa inspiração. Não temos muito tempo. A pressão econômica, dos nossos credores não dá trégua, tu não fazes idéia... Até agora eu quis poupar-te dos detalhes, já que és uma artista, a quem isto tudo seria mais penoso ainda, do que para mim e as irmãs. Nossos cunhados, tu sabes, são dois zeros à esquerda, principalmente Alberto, o rei das garrafas.

Estávamos conversados. Calada, passei a acariciar os seus cabelos, que eu adorava desde a infância, e ele aninhou a bela cabeça nos meus seios.

Passeio de manhã entre as flores do nosso jardim, colhendo margaridas, dentes-de-leão, violetas, e fazendo um buquê. Patrícia me acompanha, encantada, e enfeitamos nossos cabelos com as mais miúdas. Como trajamos vestidos brancos, vaporosos, devemos certamente estar lindas. Nossos cunhados nos observam e até Alberto, o entorpecido, se mostra sensível à essa cena. Tenho consciência de que coisas como essa, estão no cerne de tudo, dão sentido a esta propriedade rural, cuja meta última é também a beleza. Nada teria significado sem isso, essa é a tradição desta terra gaúcha, no fim das contas, a tradição... de beleza, deste pampa e de nossa gente. Tenho a convicção disso, e não me acusem de artista... como se isso significasse uma visão parcial, subjetiva. Os gregos sabiam, como no poema da urna, de John Keats: “a verdade é a beleza, a beleza é a verdade. Isto é tudo o que há para saber”.*
De dentro da casa vem o som de um prelúdio de Chopin. Uma das “cinco peças fáceis”, que Rôdo sabe tocar com delicadeza ímpar, embora nunca pense em si mesmo como um artista. O pendor musical herdado do Vati se faz presente, nele, como em mim. Não sou capaz de tocar assim, somente de dançar, pintar e escrever sob o influxo desta música maravilhosa. Sinto-me, nos últimos dias, cronicamente comovida, como se a minha vida estivesse no seu limite, o que pode bem ser verdade. Está na hora de montar o meu cavalo baio, e mesmo com este vestido e estas flores nos cabelos, galopar por estas pradarias, pelo pampa infinito. Pois é o que farei, depois de pedir a Galdério a montaria selada. Solange aparece na varanda tentando deter-me, escandalizada.
—Alma, sua louca! Quando vais parar de te comportares assim? Estavas muito bem colhendo flores com Patrícia. Terás de galopar mais uma vez, como quando eras criança? Já cresceste, pára com isso! Podes machucar-te, não vês?
Já estou montada e ouço-lhes os gritos à distância. Disparo pelo prado, como se fosse o próprio pampeiro, zunindo nas coxilhas. Rôdo montará em seguida e me perseguirá, eu sei, como outrora, como outrora...
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Comunico a Rôdo que preciso de uma companhia feminina, de uma amiga, aqui, neste momento, e que penso em convidar Aline, que sempre quis conhecer a nossa estância. Agora é o momento. Estamos separadas, mas como amigas, e sei que ela não perderá esta oportunidade, além do fato de que quer estar comigo, eu sei, com um pretexto que aquele Pedro não poderá obstar. Rôdo concorda, claro, ele não precisa saber do timbre desta amizade, que não lhe diz respeito. Quanto à Solange, nem penso em lhe dar qualquer satisfação.
Logo passo a telefonar para a casa de Aline, até conseguir falar com ela. Digo-lhe que venha, que preciso dela...desesperadamente. Que se trata de um momento delicado, que preciso de seu apoio, de sua confidência, de seus conselhos mesmo. Na verdade, de seu amor. Ela, comovida ao telefone, diz que sim, que virá. Que eu a espere dentro de três dias, no máximo.
Enquanto a esperava, pela minha ansiedade e exaltação, escrevi esta carta desvairada, como se já não nos tivéssemos falado ao telefone:

"Estás a caminho, Aline, eu já te vejo voltando. Recebeste minha carta, e respondeste com um lacônico bilhete, mas tão sugestivo, que foi o suficiente: meu coração se iluminou. Estarei sonhando? Interpretei tuas poucas palavras pela ótica da minha apaixonada esperança? Não creio. Eu sinto teus passos na estrada, na longa estrada que nos separou. E meu coração segue o compasso dessa tua caminhada em direção aos meus braços, à minha alegria recuperada.
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Ah! Tudo o que faremos, Aline, quando tu voltares!"
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Ah! Que dias compridos, os que se seguiram, até o momento de buscá-la na estação. Galdério nos transportou na charrete, a mim e Patrícia, que está eufórica com a perspectiva do convívio de mais uma mulher jovem, que ela sabe bela e doce, pela minha descrição.
Ao avistá-la, na plataforma, com sua mochila, seus indefectíveis jeans e camiseta, seu tênis, tão moderna e ao mesmo tempo tão atemporal, Patrícia gostou dela à primeira vista, e quis ajudá-la com a mochila. Mas Galdério se encarregou disso e aboletamo-nos na charrete, tendo Patrícia passado para a parte de trás com os ouvidos atentos à voz macia de Aline, que sussurrava como era de seu feitio, com aquela suavidade que me conquistara desde o primeiro encontro. Diante dela, meu coração se distendia, eu queria abraçá-la para nunca mais largá-la. Seu cheiro doce me invadia e as lágrimas me vinham aos olhos. Ela sabia. Continuava, generosamente, deixando-se amar por mim, e eu... seria capaz de qualquer coisa por esta guria que completara a minha vida, a lacuna do meu coração insaciável de amor e de beleza.
O percurso do retorno não sairia nunca mais da minha memória. Deitei minha cabeça no ombro de Aline, despreocupada com qualquer possível julgamento do fiel Galdério, que se mantinha discretamente calado, e cantamos juntas, acompanhada pela vozinha aguda e juvenil de Patrícia, um lindo acalanto que minha babá, Matilde, irmã do charreteiro, entoava para mim no berço, na hora de dormir, e que falava de coisas maravilhosas, como um cavalo azul, uma ave de ouro e uma donzela que cantava tudo aquilo, numa meta-linguagem circular, sem fim.
Ao chegarmos diante da varanda do solar, eu estava semi adormecida, minha cabeça no colo de Aline, num aconchego antigo, que eu queria que nunca terminasse. Acordada por ela, eu queria ser pequenina para que me carregasse no colo, me pusesse no sofá ou no leito mesmo, e continuasse a cantar para eu mergulhar num sono perfeito, profundo. Ah! Mas Aline ansiava por saber de tudo, do que estava acontecendo e eu... esquecera de todos os problemas, como fazia sempre que estava com ela, o meu amor.
—Querida—disse eu—quase esqueço os problemas, como se te tivesse chamado apenas para repousar no teu colo. Mas é isso mesmo. Preciso mais do teu carinho, do que de qualquer conselho, pois sei que pouco poderás fazer, já que o problema é basicamente financeiro e entendes disso tanto quanto eu. Mas teremos tempo para tu te inteirares do que está acontecendo . Darei um jeito para que Rôdo te conte tudo. O importante é que estejas comigo, pois se meu coração estiver escorado, haverá mais probabilidade de vir a inspiração dos deuses que invoquei, para salvar a nossa estância, que é tudo para a nossa família, ou pelo menos para mim mesma, e para as crianças, que vivem metade do tempo na cidade. Aline, estou te envolvendo neste problema, em termos, mas se me apoiares com a tua companhia, cumplicidade e carinho, esta terra será tua também, eu te prometo. Aceitas?
—Alma, nada quero. Você sabe que eu a amo tanto quanto me ama, e se não deixei o Pedro, é também por coerência, porque não o amo menos. Você sabe que se pode amar assim, duas ou mais pessoas igualmente. Eu sei o que você sente pelo seu irmão, e fez-me compreender e aceitar isso desde o princípio da nossa relação. Somos abertas, é um fato, e nossa cumplicidade é tácita. Pode confiar em mim, mas me conte, o que você fez, cujo segredo vejo nos seus olhos? O que está acontecendo?
Contei a Aline tudo, a ameaça que pairava, e a minha aventura, o pacto com os numes e deuses, que desceram, ou apareceram em avalancha naquela noite assombrosa. Aline arregalava os grandes olhos azuis, assustada, balançando a cabeça. Temi que ela estivesse pensando que eu estava enlouquecendo. Mas ela não me decepcionou. Agarrou as minhas mãos dizendo:
—Pequena feiticeira! Você nunca me enganou. Eu sempre suspeitei de seus poderes, desde que me enredou na sua teia, naquele primeiro dia. Você me seduziu, e não há maior poder que esse: o da sedução. Você me prendeu para sempre em seu belo coração, de onde vem, na verdade, o seu poder. A sua pureza, Alma, é a sua força, não duvide disso, e não a perca nunca. Tal pureza pode tudo, e lhe assegurará a continuidade da posse desta terra, que você tanto ama.
Com as lágrimas escorrendo em meu rosto aproximei meus lábios de sua maravilhosa boca, saudosa de seus beijos e carinhos. Ela enlaçou-me e colou seus lábios aos meus aspirando a minha alma.

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Não muito longe daqui, estão as ruínas das missões, “Sete povos”, que meu pai me levou a conhecer, quando eu era ainda criança. A grandiosidade daqueles destroços, fortaleceu a minha convicção da grandeza desta terra, cujos índios, orientados pelos jesuítas, puderam construir tais paredes portentosas. Há quem diga que os índios não deveriam construir nada de pedra e cal, e que tudo isso não passa de violência e desvirtuamento de sua cultura, maravilhosa quando em seu primitivismo. Mas a verdade é que tudo foi destino, e faz parte integrante desta terra, cuja história não pode prescindir de nenhum dos seus dramáticos fragmentos: a colônia, o Império, a revolução Farroupilha, com Bento Gonçalves, Neto, e Garibaldi. E aquela maravilhosa Anita, de quem invejo a brasilidade integral, apaixonada por um herói italiano e morrendo em terra estrangeira. O sangue alemão, que corre em minhas veias, também está assimilado pela seiva dos Pampas, e nosso vinho de tantas cepas, tende a se tornar um dos melhores do mundo, perdendo somente para o francês. Quem sabe o desbancaremos num futuro remoto, quando aquele solo extenuado, da antiga Gália, ficar totalmente exaurido.
Assim meditando, dirijo-me ao nosso vinhedo, quase envergonhada de priorisar nosso pomar, à minha chegada. Ali encontro Rôdo supervisionando os trabalhos, consciensiosamente, como se, para ele também, ainda houvesse esperança. Admirei-o de vê-lo assim, já que ele me confidenciara o seu desespero, a sua derrota. Talvez ele quisesse entregar uma terra produtiva, para alcançar melhor preço, na venda que projetava.
Rôdo oferece-me um cacho de uvas, que brilhava, perfeito, e colocou-me folhas de parreiras dos dois lados da cabeça, exclamando, cinicamente:
—Ave, Anima Mundi, morituri te salutant!
Aquilo me soou irônico, mas auspicioso ao mesmo tempo. Retirei as folhas e pondo na boca uma única uva, coloquei o cacho na cesta para ser levado com os outros. Era a minha afirmação da necessidade de prosseguir, de dar continuidade à produção do nosso vinho, e de que não íamos morrer jamais. Assim quer a vida: que vivamos com se fôssemos eternos, desdenhando a oferta enganosa dos deuses, como se a imortalidade estivesse no instante presente, eternizada. Assim Odisseu rejeitara a oferta de Circe, e nisso consistira a sua honra humana imortal. Ele não renegara sua mortalidade porque a sabia relativa: o instante sublime, de coragem, aventura e curiosidade, já configurava uma eternidade, e ele não se deixaria corromper pela tentação dos deuses, que testavam as almas, como o Diabo faria mais tarde ao Cristo, e Mefistófeles, encarnação daquele, que iria tentar a Fausto, penúltimo herói moderno, já que os últimos foram Garibaldi e Anita.
O gosto do sangue da uva em minha boca, me deu, por bastante tempo a sensação do embrião indistinto de uma idéia que ainda não encontrara a sua configuração. Que seria? O que se insinuava, então, em meu espírito, assim de maneira ainda amorfa, sem rosto?
Aline veio encontrar-me no vinhedo, e andamos por ali, bastante tempo, chupando uvas e acenando para as colhedeiras, com seus lenços na cabeça, que nos olhavam curiosas. Duas moças tão altas...pernaltas, deviam pensar. Que estranho! Mas elas me conheciam. Talvez não imaginassem haver outra moça assim, como eu.
Aline, com seus jeans, que não lhe tiravam nem por sombra a feminilidade, com seus seios cujos bicos despontam da camiseta branca, deve causar ligeiro escândalo na mente destas camponesas. Mas jamais saberei... Conversar com elas, era quase impossível. Seus pensamentos pareciam ocultos, por reserva ou natural isolamento num mundo insondável, de tradições e costumes restritivos. Nunca soube, na verdade, o que os peões e suas mulheres e filhas pensavam de mim, de nós, do casarão. Os teutos, os boches? Como se referiam a esta família? De Galdério e sua irmã eu sabia a lealdade a toda prova. Matilde, antiga babá, agora cozinheira, me amava mais que tudo e eu a comparava àquela ama da Desdêmona, do Otelo, que seria capaz de morrer por sua patroa. Ah! A canção do salgueiro, de Shakeapeare e Verdi, era para mim, o melhor retrato da fidelidade e tristeza do mundo dessas camponesas, que jamais um poeta descreveria tão bem. Isso me fez lembrar do Vati, que mostrou-me pela primeira vez, essa ária do Otelo, de Verdi, que me conquistou do jeito certo para o universo da ópera. Ah! Vati, devo tudo a ti, o mundo da Arte e este vinhedo, que prometo agora não deixar jamais secar.
Saí dali correndo, seguida de Aline, espantada. Diante da varanda, minha amiga agarrou-me e puxou minha cabeça ao seu peito.
—Alma, Alma, sossegue. Você conseguirá, eu sei, você terá uma idéia. Conheço você. Mas não sofra assim. Não posso vê-la sofrer. Parte-me o coração. Quando a abandonei, aquela vez, seu choro, de criança, não me deixou mais dormir. Minha amiga, você é uma menina, no fundo. E já carregas o peso de todo um vinhedo. Agora lhe conheço melhor, aqui, na sua terra. Venha, venha, vou lhe embalar, minha querida...
A imensa ternura de Aline, compensava quase tudo, e eu então senti que, sem ela, eu não conseguiria suportar a ameaça, o medo, a perda iminente.

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No nosso quarto, Aline deitou-me no leito e começou os seus carinhos. Esquecera-mos a porta aberta, e isso foi desastroso. Lúcia passava no corredor, naquele momento, parou, e viu a cena. Não percebemos a sua presença de sombra sorrateira. Seria Lúcia uma espiã de Solange? Presenciou nossos beijos, a mão de Aline que passeava pelo meu corpo, levantava minha saia, percorria minhas coxas e mergulhava na confluência das minhas pernas. Lúcia, não podendo se conter, correu naquele corredor, quando então percebemos sua presença fugidia, e tivemos a certeza do escândalo. Solange saberia tudo...eu estava perdida. Perderia a pouca força moral que me restava nesta casa, diante dela, e dos cunhados.
No almoço aproximamo-nos, Aline e eu, ressabiadas, da grande mesa. Mas, surpreendentemente, nada ocorreu. Lúcia apenas mantinha os olhos baixos, enquanto Solange continuava o mesmo sargento de sempre.
A refeição transcorreu normalmente, com seus lances agradáveis, outros nem tanto, mas com risadas às inconveniências de Alberto, e o esnobismo de Geraldo. Ao reparar neste cunhado, imaginei o horror que seria este almoço, se ele já soubesse de tudo. E Solange, então? Esta me expulsaria da mesa, gritando, e me proibindo de jamais me aproximar de sua filha. Eu morreria de dor... e de vergonha. Não, ninguém ainda sabe. Lúcia guardou segredo. Por quê? O que quer ela? Um mistério, por enquanto.
Após o almoço, chamo Lúcia, disfarçadamente ao corredor. Questiono-a com os olhos. Ela, de olhos baixos, ergueu-os e agarrando-me os ombros, com firme delicadeza, para minha surpresa, puxou-me para si e disse:
—Alma, minha irmã, nada temas. Eu te admiro, eu te amo. Ninguém jamais saberá por minha boca, de nada. Solange pensa que sou sua espiã, mas não lhe serei leal jamais. Ela não nos merece. Alma, guardarei o teu segredo, e Geraldo jamais te humilhará, aquele arrogante. Sossega, minha irmãzinha... e ama a tua amiga quanto quiseres.
Ajoelhei-me, então, subitamente, aos pés de Lúcia, e beijei humilde e sinceramente as suas mãos. Eu estava salva.

 
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Fim do Capítulo primeiro



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CAPÍTULO SEGUNDO

A ARA


"Mulher de sapateiro
(haja vista a Maria Bonita)

É chegada em aventureiro
Como aquela brava Anita


Largando marido poltrão
Sem ligar que a gente malde
Uma foi c’o Lampião
Outra foi c’o Garibaldi


Vou voltar para o meu Sul
Que melhor nunca terei
Lá tem Garibaldi e Anita

Que é melhor do que ter rei"


(Quadras do cordelista Guilherme de Faria, de suas
“Máximas do Trovador Sertanejo” publicadas em folhetos
nos seus “Romances de Cordel”.)


A ARA

Com meus pequenos sapatos de verniz, eu corria pelos campos em torno do nosso casarão, freqüentemente perdendo-o de vista. Com um aventalzinho antiquado e inútil sobre a saia muito comprida, eu mais parecia uma menina do século anterior: longos cabelos, com uma fita, às vezes tranças. Eu corria ou simplesmente passeava a esmo, colhendo flores, soprando ao vento as sementes do capim, devaneando, até ouvir o som do piano do Vati, que era a maneira de voltar à terra... para continuar a sonhar. Eu corria até a biblioteca, para pôr-me embaixo do grande Steinway ( que agora, no meu retorno, pareceu-me bem menor). Ficava ali, deitada de bruço sobre um tapetinho muito macio, que o Vati colocava para mim. Com o queixo apoiado nas mãos, eu observava seus pés nos pedais, cuja utilidade me parecia um mistério, e deixava-me embalar pelo som maravilhoso de Chopin, Shumann, Shubert, Lizst, Debussy, Scriabin, Satie e Poulenc. Eu me erguia então, para, ao lado dele, observar as suas mãos, seus dedos ágeis, habilidosos de velho cirurgião-músico. Ao terminar, eu, às vezes colhia as suas mãos pousadas, inertes sobre o teclado, e as observava cuidadosamente, examinando-lhes os mínimos detalhes, o que parecia diverti-lo. Um dia eu as beijei após o seu concerto para mim. Sim, porque eu considerava que era só para mim que ele tocava... e ele deixava que eu pensasse assim. Depois, ele me punha no colo para conversarmos sobre música, sobre os compositores. Contava-me estórias e anedotas de suas vidas, e eu me transportava para aquele mundo, onde me via companheira deles, e precocemente, suas amadas. Sim, todas elas. Eu me identificava com suas musas, que meu pai descrevia com reverência, denunciando o seu fascínio pela mulher...pela beleza da mulher-musa, que ele próprio não desfrutava, mais tarde eu percebi. Minha mãe era tudo, menos isso... Sua retidão inflexível, a gradativa amargura, sua visão prática da vida, regida por um excessivo sentimento de dever, devotada à família e ao homem que a escolhera. Sim, porque ela deixara-se escolher, passivamente, e eu nunca pude sentir nela um grande amor pelo Vati, como eu projetava, em minha imaginação incendiada pelo mundo romântico dos artistas: músicos, poetas e pintores daquele maravilhoso século XIX.
Depois, ele passava a colher nas estantes os grandes tomos, para mostrar-me as ilustrações de Gustave Doré, ou de Flaxman (no caso da Ilíada e Odisséia), e freqüentemente lia para mim alguns trechos escolhidos daquelas obras. E eu derramava lágrimas de encantamento, e mais, por aquilo estar sendo transmitido por ele, com aquela carga afetiva, com aquele sentimento de identificação e de doação que ele tinha para comigo. Eu era a sua esperança, agora eu sei, o seu repositório de sonhos, e se possível, da cultura artística que ele não tinha mais a quem legar, já que as minhas irmãs não se emocionavam com aquele universo, e viviam metidas na cozinha, ou nos trabalhos práticos em torno da Mutti. Rôdo era um caso à parte. Mas elas eram excelentes bordadeiras sem alma, e seus trabalhos não me interessavam. Eu preferia imaginar a infindável teia de Penélope, no tear, reconstruindo as aventuras do seu amado Odisseu, como ela as imaginava a partir das narrativas vagas dos soldados retornados, para segui-lo naquele seu acidentado percurso em direção à ela mesma. Eu me identificava com ela, essa rainha que eu sabia detentora da verdadeira fidelidade: a da imaginação cúmplice, e do verdadeiro devotamento, o da alma apaixonada, que eu não via em minha mãe.
Felizmente, ela, Ana Morgado, tinha o bom senso, pelo menos, de não interferir nessa relação de pai e filha, cujas afinidades eram quase absolutas, à exceção do mundo obscuro, para mim, incompreensível, da Medicina, que eu rechaçava de minha imaginação, como coisa sanguinolenta, feia e crua. Nunca pude compreender, com os meus sentidos, o fascínio que ele tinha por isso que eu considerava a desmitificação da carne, já que eu a via e queria assim: perfeito invólucro da alma, cheio de beleza e personalidade, de brilho e sensualidade.
Minha mãe temia sobretudo isso: a sensualidade precoce, que ela via em mim. E procurava reprimi-la, sem conseguir, já que exalava de mim pelos meu poros, pelos meus movimentos, pequena estudante de euritmia e de balé, duas disciplinas opostas, que o Vati experimentava conjugar em mim. Mas, mesmo sem isso, essa sensualidade, antes de tudo, era inata nos meu movimentos, e vindas da beleza que me acompanhava sempre, como todos diziam, desde o meu nascimento. Muito branca, como até hoje, com meus olhos verdes, rasgados, e o cabelo louro com reflexos arruivados, essa beleza era o que produzia uma certa complacência, até mesmo em minha mãe, que do contrário trataria de castrar-me completamente, ou de reprimir-me todos aqueles vôos, que na verdade, pelo menos ela tolerou. À exceção daquele dia aziago...
Em Rôdo eu tinha um companheiro de aventuras, e um confidente, pois para as experiências novas e os achados, havia em nós cumplicidade. E nas descobertas físicas, sim, de nossos próprios corpos, que se atraíram tão cedo.
Rôdo, naqueles dias descobrira o beijo, nos meus lábios... e isso disparara nele um desejo crescente que ressoaria no meu próprio desejo nascente pelo corpo do outro, do belo ser humano, puro, criança como eu. Seus beijos tornaram-se mais longos, até deixarem meus lábios dormentes e intumescidos. Minha mãe fixava os seus olhos nos meus lábios vermelhos, eu percebia. Ela desconfiava? Sim, pois ela nos surpreendeu afinal, sob a nossa macieira. Solange nos delatara, e sob aquela árvore, que eu considerava por instinto um símbolo da minha vida, e em cujo tronco eu gravara um coração, com as iniciais A e R , que produziam a palavra que resume a consistência e o segredo da alma: ar, atmosfera, sopro, inspiração, entusiasmo; ela nos surpreendera, nuzinhos, deitados lado a lado, com minha mão sobre o “pintinho’ de Rôdo, enquanto sua pequena mão cobria emocionadamente, minha “conchinha”, como nós dizíamos.
Surpreendidos, fomos agarrados por Ana Morgado, pelos cabelos e erguidos. Instintivamente demo-nos as mãos, que foram brutalmente separadas, e arrastados pelos pulsos, enquanto com palavras rascantes, quase aos gritos, ela nos ordenava que cobríssemos nossas “vergonhas” com a outra mão. Conduzidos impiedosamente sob as risadas de alguns peões, no trajeto, até em casa, expulsos do nosso pomar, que nos seria proibido por muito tempo, talvez para sempre.
Em casa, presenciamos o drama e as lamentações, os protestos de vergonha e pecado, da Mutti, enquanto meu pai ria complacente, bonachão, sábio, tentando acalmá-la, apaziguá-la. Lembro-me mais de suas palavras, do que das catilinárias de minha mãe:
—Ana, que exagero, não sabes que as crianças são assim? Nunca leste Freud, sua ignorante... É normal a curiosidade infantil, é normal, não sabias? Deixa-as, não as traumatize! Não as escandalizes. Fazes mal, sabias?
“Vem, minha flor”, ele me abraçou e me alçou ao colo, nuínha e em lágrimas, e passou a mão na cabeça de Rôdo. “Não os toque, eles estão nus!” minha mãe gritava. E meu pai: “Vão se vestir e voltar a brincar. Mas chega de experiências, hem? Chega, Ana pára com esse drama! Deixa as crianças em paz!
Sua imensa autoridade, pacificadora, serena, sua sabedoria, sua generosidade... me salvou. Imagino que também a Rôdo. Meu irmão se tornaria um terrível namorador, erótico como um sátiro, e eu... não menos. Minha alma de ninfa se salvaria, eu não me tornaria uma prostituta como minha mãe, no fundo, antevia. Mas eu amaria e desejaria tudo: homens e mulheres, com igual intensidade, panteísta, pan-amorosa, eu me salvaria talvez pelo excesso, não sei. Mas, ao mesmo tempo, aquela dor me acompanharia para sempre, como uma injustiça, uma imputação de pecado original, que eu não reconheceria nunca, e contra a qual eu me rebelaria sempre, não como bravata, mas do fundo da alma indomável, com que o próprio Deus me dotara.

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Ando agora pela casa, apaziguada, por um lado, pela surpreendente cumplicidade de Lúcia, mas inquieta, com a mente agitada, à procura de uma solução para o nosso impasse. O ritual que eu presidira, no pomar, haveria de produzir frutos, eu esperava. Havia assim como que um embrião de uma idéia, ainda informe, plantado em meu espírito, ou no fundo da minha mente.
Às refeições, congregávamo-nos sofrivelmente, sempre sob as picuinhas de Geraldo, as respostas sarcásticas de Rôdo, as ralhas e implicâncias de Solange, o silêncio de olhos baixos de Lúcia, e as sandices, às vezes divertidas de Alberto, esvaziando as garrafas, que ele, a custo, compartilhava conosco. A delícia desses vinhos acabava por descontrair, minimizar as arestas desse desencontro familiar. Abençoado vinho! Eu compreendi nesses dias a função catalisadora desse néctar dos deuses, doado aos homens por Dioniso, para suavizar o nosso fado, embora freqüentemente, eu sei, o sobrecarregue, tal o seu fascínio.

Alberto, o nosso Baco, de nariz avermelhado, era quem mais se destacava nesses nossos repastos. Sim, os bêbados, em geral canalizam para si, de um modo ou de outro, as atenções, caricaturas que se tornam de todos nós, seres humanos. Lembro-me, no entanto, o choque que me causou, na infância, a ida a um circo, levada por meu pai. Os palhaços, me causaram horror, e um rosto pintado, que afundava num imenso colarinho, com uma tartaruga, fez-me virar a cabeça com repulsa, como diante de um pesadelo. Os tapas e bastonadas falsas, estrepitosas, ressoavam para mim como verdadeiras e brutais. Eu queria sair correndo, mas abracei-me ao meu pai, fechando os olhos e virando as costas àquele espetáculo grotesco, que me deixou para sempre essa repugnância pelos pobres palhaços, caricaturas do bêbado, com seus narizes vermelhos, suas calças largas e cadentes, seus sapatos enormes, feitos para o tropeço.
Solange insistia em comandar o ritual das refeições, mas não lhe dávamos atenção. Sabíamos que não a devíamos levar a sério, ou ela nos tiranizaria. Na infância, eu e Rôdo conseguíramos escapar à sua opressão, através dessa atitude tácita, de humor e descontração, que encontrávamos em nossos próprios temperamentos, apoiados pelo Vati, que se divertia com isso enormemente. Posso imaginar o tamanho do ressentimento acumulado todos esses anos por Solange, contra nós três.
A propósito de Solange, acabo de lembrar-me, com saudade, das nossas festas de Natal e fim de ano, na estância, durante a minha infância. Dias gloriosos, aqueles, em que me levantava cedo, em manhãs esplendorosas de verão, quase gritando de alegria por existir, e me sentir... tão feliz! As festas, para mim, começavam já nos preparativos, na cozinha, e na sala preparada, sobretudo com a montagem do nosso grande pinheiro de Natal. Matilde era a grande festeira, responsável pelo maravilhoso peru assado, guarnições, saladas e doces. O Vati cuidava da escolha dos vinhos, de nossa própria produção. A Mutti gerenciava tudo, a começar pela decoração da sala e a preparação condigna da grande mesa que nos congregaria a todos. Solange e Lúcia as ajudavam, enquanto eu e Rôdo nos divertíamos em observar e bater palmas, ou simplesmente colher flores e fruir o clima adorável de preparativos natalinos.
Mas recordo particularmente o Natal dos meus treze anos, quando Rôdo, numa grande inquietação de sua libido de pré-adolescente, resolveu criar um pretexto para que eu o visitasse em seu quartinho do sótão, na ante-véspera do Natal, à meia-noite, quando todos estivessem dormindo.
Ali estava eu, como tantas vezes, naquele aconchegante ambiente de quarto de menino, que me fascinava com sua bagunça viril, onde seus gostos se mostravam todos: carrinhos, aeromodelos, miniaturas de motos e barcos, fotos e posters de montanhas e praias, algumas fotos pampianas típicas, de boiadeiros laçando ou lançando a boleadeira em pleno galope, cavalos maravilhosos, tudo o que um menino aventureiro amava, e... uma foto minha, linda, a minha melhor foto, que me enternecia por estar ali, entre as suas coisas amadas.Eu o abracei de uma maneira mais comovida, que o normal, embora sabendo que Rôdo não gostava de sentimentalismos. Mas naquela noite, em especial, por alguma razão eu queria chorar de felicidade de tê-lo como irmão, eu, que não me identificava em nada com minhas irmãs, e nem tinha certeza de amá-las. Puxei-o sobre mim, instintivamente, como uma pequena amante, mas estávamos sonolentos e adormecemos assim, vestidos e abraçados, sonhando com nós mesmos, abraçados, sonhando...
Acordamos sobressaltados pela voz aguda e agressiva de Solange. A megerinha gorda, diante de nós, de mãos na cintura, nos fuzilava com os olhos:
—Ah! Seus safados. Já agarrados de novo! Mamãe vai saber disso! Vocês vão ficar sem peru no Natal e sem sobremesa! Nem vão sentar à mesa, vocês vão ver!
Fiquei envergonhada por ela, não por mim. Pela mesquinharia de minha irmã que insistia em atormentar a minha vida, conspirando contra a minha felicidade, que, afinal, para mim, estava ali mesmo, junto de meu irmão. Retruquei, estendendo meus braços para ela:
—Solange, irmãzinha ciumenta! Queres abraçar-me também? Vem, vem Sol, que eu te farei feliz!
Solange ficou rubra de confusão e cólera, mas retirou-se correndo dali. Eu a desarmara. Olhei para Rôdo e ele rolava de rir, ofegante. Conseguiu afinal, dizer:
—Alma, tu tens cada uma! És sempre inesperada. Tu, abraçando a Sol! Não posso imaginar!
–Bem... ela não deixaria. Eu a abraçaria e até a beijaria se com isso eu a conquistasse, e ela parasse de nos perseguir. Por falar nisso, será que já estamos sem peru e sobremesa?
Rimos mais uma vez juntos, e eu estava tão feliz ali, com Rôdo, romanticamente nos braços do meu irmãozinho, que comecei a ouvir os sons da noite de Natal, o ruído dos cristais, das taças de vinho, e dos talheres de prata, das risadas felizes dos familiares que eu amava tanto, que não excluiria Solange, que via sorrindo para mim, gordinha e... até mesmo simpática. Eu não precisava nem mesmo da noite de Natal. Eu estava tão plena e feliz, que ouvia os seus sons de cristal, e não precisava mais que a véspera chegasse. Meu Natal era ali mesmo, naquele momento, presente para sempre, sentindo com meu pequeno seio nascente, as batidas do coração amado de meu irmão.
Mas voltando ao tempo presente, Lúcia, que eu pensava vítima indefesa da nossa irmã mais velha, agora me revelava uma outra face, embora igualmente ressentida. Ela se desforraria, apoiando-me secretamente, e eu lhe seria grata por isso.
Exercitando a segurança que essa certeza me dava, aproveitava as refeições para acarinhar minha querida Patrícia, os gêmeos, e Pedrinho, como nunca. A tônica passou a ser então as crianças e seu mundo intocado. Eles seriam o foco de atenção, e nem mesmo Geraldo, ousava mais exercitar seus venenos corrosivos. Uma vez, disse apenas:
—Alma, você continua infantil. Não crescerás jamais, não é?. Nem mesmo diante da situação limite em que nos encontramos.
—Meu cunhado, -respondi- deixemos as conversas de adultos para o escritório. Crianças são também coisa séria. O riso e a alegria...são coisa séria, não é mesmo, crianças?
Elas abanaram as cabeças em explosões de risos, e continuamos falando agradáveis absurdos, à exceção de Patrícia, que devaneava com o olhar perdido. Tomada pelo seu primeiro amor, ela estava naquela idade atemporal dos apaixonados. Eu pensava em Julieta, de Romeo, e na sua maturidade e ingenuidade simultâneas. Maturidade, sim, porque Julieta compreendia a tragédia verdadeira de sua situação. Será que podemos imaginar a violentação a que ela estava destinada por seus pais, o estupro que a esperava nas mãos de um homem mais velho, odioso, naquelas circunstâncias? O ser apaixonado não pode sequer imaginar-se tocado, tomado, senão pelo objeto de sua paixão. Julieta estaria morta para sempre em seu coração, na sua carne e na sua alma, se conspurcada por aquele conde Páris.
Pensando assim, eu entregaria Patrícia ao seu amor, de mão beijada, se ela fosse minha filha, no máximo, como representante da nossa época, os presentearia com uma dúzia de camisinhas. Mas, eu ainda não tinha filhos, e talvez visse as coisas com excessivo desprendimento. O fato é que eu movimentava meu espírito ao meu bel-prazer, entre os séculos, posicionando-me neste final de milênio quando se tratava da questão sexual. Eu sempre fora libertária, com o incentivo do Vati, e sendo artista, não podia aceitar nenhuma opressão, em idade alguma. Eu mal conseguia compreender a sujeição que as pessoas tinham à autoridade e hierarquia. Eu jamais daria uma ordem,: eu jamais ordenaria algo a alguém em toda a minha vida, mesmo a um empregado. Eu pediria por favor, como sempre fiz. O ser humano jamais deve exercer poder sobre outro ser humano, eu penso assim. E aquele que se submete à tirania acaba por legitimá-la, ou se tornar seu cúmplice.
Alberto, bebendo o nosso vinho, procurava ser infantil, como nós, mas destoava, essa é que é a verdade. Estava fora do tom. Fugíamos, então, logo após a sobremesa, deixando os adultos entretidos com o cafezinho, os charutos e licores. Corríamos para o jardim num pega-pega cheio de risos, ou passeávamos tranqüilamente, de mãos dadas. Com essas lindas crianças, eu me sinto verdadeiramente em família.
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Dias se passaram e eu, novamente segura, me arriscava nas carícias com Aline, mas com um pouco mais de cuidado. Também não queríamos chocar as crianças, claro, e no máximo passeávamos de mãos dadas, como duas boas amigas. Eu sabia que Solange nos observava o tempo todo. Isso me incomodava, claro, e eu queria poder afrontá-la. Não fosse pelas crianças e eu beijaria Aline nos lábios, em toda parte, e a faria sentar no meu colo nos bancos do jardim. Com essa censura, meu amor e meu desejo aumentavam... e eu me sentia também uma Julieta. Ah! Por que as pessoas não se deixam em paz, umas às outras? Por que tanta intromissão e desrespeito às individualidades alheias? Eu sei que há quem pense que as atitudes alheias também nos desrespeitam, mesmo quando não dirigidas a nós. Não penso assim. Eu sequer denunciaria um ladrão. E jamais faria parte de um júri, para condenar alguém. Não julgaria ninguém, nesse sentido. O ser humano, acredito, não deve nunca usurpar a prerrogativa do destino. Os maus serão punidos pelo tempo, e por sua própria maldade. Os bons, passarão incólumes pelas suas faltas, pois seu coração os preservará. E os inocentes já estão no paraíso. Assim penso eu desde pequena. Não acredito num Deus punitivo. Isso não combinaria com o imenso amor que é a razão do universo, do próprio Deus.
Para mim, a prova evidente do amor de Deus, a configuração mais próxima do seu imenso poder, é o sol. Bastaria um pequeno deslocamento, de alguns poucos milhares de quilômetros, para ele nos torrar ou congelar. Mas não, permanece cuidadoso, olhando-nos e aquecendo-nos, da distância exata, para produzir esta bela natureza, contemplando-nos com inúmeras dádivas, partículas e efeitos misteriosos, para criar vida... e beleza. É evidente o seu amor.
Pensando assim, puxo Aline pela mão, a toda hora para todos os vãos que encontro, ou para atrás de árvores do nosso pomar, para beijá-la na boca, sofregamente. Não agüento mais. Quero tudo, do meu amor.
Levo-a então para o nosso antigo galpão, depois de despistar as crianças. Ali, no meio do feno e das ferramentas, tonéis vazios e arreios, lanço-a sobre a palha e a dispo, afinal. Ah! Que saudade desse lindo corpo! Dispo-me também, e nuas, entregamo-nos às nossas ardentes carícias. Estamos ensopadas, e bebemos nossos fluidos, sedentas, em êxtase. Seu perfume, seus licores, eu amo tudo que vem do meu amor e...queria engoli-la, inteira, se possível. Não consigo jamais saciar-me. Essa é a maldição: um gosto permanente de inacabado, de incompleto, de carência. O ser humano jamais pode se sentir completo, finalmente unificado! Eis aí uma evidência da injusta punição original, senão do incompreensível pecado.
E eis que fomos mais uma vez flagradas. Desta vez pelos gêmeos, que enrubesceram simultaneamente. Permaneceram estáticos diante da nossa nudez. Levantamo-nos, então, ao mesmo tempo e pusemo-nos, lentamente... cuidadosamente, numa bela pose de estátuas. Os meninos riram, e saíram correndo felizes. Tenho certeza que compreenderam, ou foram tocados pela beleza da cena que forjamos. Foi uma inspiração.
Daí por diante, quando estávamos sós, repetiam às vezes, juntos, a nossa pose, e sorriam lindamente para nós.

Sabíamos, então, que eles nada contariam do que viram, para os adultos.

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Rôdo vem me mostrar uma proposta de compra da estância por um fazendeiro magnata. Não quero ver. Solange e Geraldo estão encarniçados, açulando a venda, pressionando Rôdo. Alberto está mais preocupado em beber. Aproximo-me dele para cooptá-lo para o meu lado, isto é, contra a venda. Digo a ele, em linguagem cifrada, indireta, que as garrafas acabarão para ele, naturalmente, se a estância for vendida. Mas que elas serão inesgotáveis, se conservarmos nosso vinhedo e tudo o mais. Esse argumento soou lógico. Os bêbados parecem ter uma lógica muito simples: não há vida fora das garrafas. Isso acaba por tomá-los completamente, por mais inteligentes que sejam. É impressionante o poder do álcool sobre eles. É algo que renova o sentido da vida por frações de segundo, fugidias, mas que sob o uso constante lhes permite permanecer vivos, com um certo sentido de pertinência fugaz, num mundo caótico. Não os julgarei jamais. Mas naquele momento me permiti manipular aquele pobre exemplar, que era o único aliado que me sobrara, já que à Aline e às crianças não cabia voto. O triste era não poder contar com Rôdo, que simplesmente não acreditava mais ser possível manter a nossa propriedade. Eu tentava ganhar tempo. Sentia que algo iria acontecer que mudaria o rumo dos acontecimentos, se protelássemos a venda por mais um mês. Diante desse prazo acordado com Rôdo, ele também se achou no direito de chamar uma amiga, uma namorada, para aplacar sua solidão ou a sede do seu corpo.
Em poucos dias chegava Laís, uma jovem morena, bela, misteriosa, que o fazia perder a cabeça. Rôdo transformou-se. Ao voltar da estação com a jovem, seu semblante era outro. Aquela noite a casa reverberou com os gemidos e gritinhos da moça, vindos do quarto, e uma espécie de urros do meu irmão. Foi realmente engraçado para mim e Aline, mas escandaloso para os outros. Solange amanheceu com a cara mais fechada do que nunca. Ah! Se ela soubesse que eu e Aline, fomos pé ante pé observar pelo buraco da fechadura as manobras fantásticas do casal! Mal contínhamos o nosso riso e a excitação que aquilo nos produziu, claro. A moça era versada no Kama-Sutra, ou no mínimo no Yoga. Colocava-se de cabeça para baixo, e esperava iguais malabarismos do pobre Rôdo. Seu sexo era exposto a 180 graus, e não deixamos de admirar a beleza de seus orifícios rosados, de pêlos cuidadosamente raspados. Aline e eu disputamos o buraco da fechadura, quase estourando para não gargalhar. Depois corremos para o nosso leito e tentamos reproduzir as proezas. Aquilo foi hilariante... e um pouco frustrante. Lembrei-me de Freud e da sua teoria da inveja do pênis, e por momentos achei que ele tinha razão. Mas, eu queria ser completa! Possuir e ser possuída simultaneamente por minha Aline. Sim, o Hermafrodita perfeito era o ser ideal, perdido para sempre, em nós!

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Acordo com o bico do seio de Aline junto aos meus lábios e enterneço-me novamente. Olho esta bela mulher de pele quase tão branca quanto a minha. O que é que a torna morena? Uma sombra misteriosa talvez, que vela a sua beleza incomparável. Ela abre os olhos azuis, e sorri. Quero beber o seu hálito, logo pela manhã. Vou banhá-la com a minha língua, para que ela possa despertar, e levantar-se em plenitude. É o que me dedico a fazer na meia hora seguinte. Ela se espreguiça, e rola na cama para expor-se em todos os ângulos. Deixo-a limpinha com a minha língua ávida, amorosa e até... maternal. Ela retorna a um sono langoroso, com estremecimentos de prazer. Percebi os seus múltiplos orgasmos que inundam sua vagina. Quero essa beleza para sempre, esse perfume, esse elixir da longa vida, da vida eterna da paixão!
Depois dirijo-me ao banho. Um banho demorado onde ela afinal vai encontrar-me para continuarmos as nossas carícias agora com sabonete e água quente, sob uma ducha voluptuosa. Quando afinal saímos do banheiro, e do quarto, leves, cheirosas e belas, Solange nos espera à mesa do café da manhã, com aquela cara de censura. Ela parece saber, ou imaginar o que se passa no nosso quarto. Ela percebe a sensualidade ostensiva dos nossos corpos, dos nossos lábios túmidos, das nossas narinas um pouco abertas. Ela parece querer surrar-nos, essa é a verdade. Mas isso num nível ainda semi-consciente nela, que não lhe permite manifestar-se, claro. Faltam elementos conscientes para ela exercer a sua censura. Por isso ostenta uma amabilidade forçada para com a minha amiga, oferecendo-lhe pãezinhos, broínhas, passando-lhe manteiga, quase mimando-a com uma espécie de irritação derivada. Admiro-me da candura de Aline, que tudo aceita com naturalidade e graça. Ela é mesmo adorável...e cínica, como eu gosto. Às vezes tenho vontade de gritar ao mundo, às Solanges do mundo, o meu amor, o meu desejo, a minha felicidade. Então não vêm, ó hipócritas, que o amor não tem sexo, ou tem todos os sexos? É o outro, que nos apaixona. O nosso reflexo maravilhoso, de Narciso no espelho do outro ser humano, lago sagrado que nos cerca. Queremos nosso reflexo, amamos e desejamos essa imagem complementar, invertida ou não, de nós mesmos. Queremos saber de nós, nos conhecermos em nossas recônditas profundezas, nos nossos meandros e cavidades. Nossos humores, nossas fontes misteriosas.

Rôdo e Laís vêm juntar-se a nós na mesa, para completa desorientação dos sentidos de Solange. O cheiro de sexo, de paixão, nesta mesa, é demais para as suas narinas pudicas e ela logo se levanta, pretextando afazeres, providências. As crianças já estão há muito brincando no jardim, nos gramados. Seus gritinhos e risos são música para o nosso café da manhã. Estes são para nós, talvez, os últimos dias de uma Pompéia feliz, sob a sombra fumegante do Vesúvio. 

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A cavalo, passeamos, eu e Aline, pela estância e afastamo-nos bastante do casarão. Aline abraça-me o ventre, na garupa, deitando o seu rosto em minhas costas. Ela me aperta mais que o necessário para a sua segurança. Ela está me apertando contra si, eu o sinto, emocionadamente. O amor de Aline me enche de alegria e ternura. Eu a queria sempre assim, grudada a mim. Sinto-me feliz, e legitimada por esse amor, pois ele me dá forças, somando as suas às minhas próprias, mas sobretudo pela plenitude que sinto quando estou junto dela. Todavia não me esqueço da minha natureza de artista, e procuro sempre estar criando, escrevendo, pintando. Não sei como conseguirei levar tudo isso, junto, para adiante. Um amor assim é progressivo, não com uma doença, mas como algo que afinal me tomará inteira num êxtase final. Assim quero a minha morte. Não pedirei como Goethe, mais luz, mas mais amor( o que afinal, eu sei, é a mesma coisa). Desço do cavalo em plena pradaria deserta, e seguro Aline pela cintura para faze-la apear. Este gesto, tipicamente masculino, excede as minhas forças, e ela cai-me por cima, em gargalhadas as duas. Ela pára de repente de rir, e no silêncio súbito que pareceu tomar toda a natureza daquele pampa, ela aproximou lentamente os seus lábios dos meus. Eu quis morrer naquele momento perfeito, e o seu beijo tomou tão profundamente a minha alma que eu achei que não precisaria viver mais, não precisaria sequer assistir o destino final de nossa estância, de nosso mundo, do nosso vinhedo em perigo. Eu estava plena, completa, naquele momento, e ficaria assim para sempre, totalmente beijada em minha alma e meu corpo, se comicamente não tivéssemos sentido as ferroadas das formigas, sobre cujo formigueiro caíramos. Levantamos aos pulos, debatendo-nos aos gritos e gargalhadas. Depois, livres das formigas, empipocadas nos braços, olhamo-nos novamente, enlevadas, sabendo que jamais esqueceríamos daqueles momentos, e que o elemento cômico, os risos, nos ajudariam num futuro remoto a recordar aquelas sensações maravilhosas. As lágrimas corriam em nossos rostos, talvez com o mesmo pensamento, e abraçamo-nos como duas camaradas guerreiras, durante uma trégua, antes de montar novamente e voltar para o campo de batalha. Essa guerra transcorria surda, sem explosões, mas ainda estava longe de acabar.

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Solange nos esperava no alpendre e com o seu tom frio e cortante, foi logo dizendo (e brandindo umas folhas de papel):
—Gurias, onde estavam? Alma, esperávamos a ti, para assinares estas propostas. Estamos todos de acordo. A proposta é ótima. Leia e assine, faça o favor.
—Não assinarei nada, minha irmã—respondi—nem sequer lerei esses papéis. Ainda não estou preparada para isso. Tudo é muito súbito, para mim. Nada soube do que ocorria aqui, enquanto estava lá, em São Paulo, trabalhando. Agora querem que eu concorde, assim, de repente, com esse absurdo. Não, jamais!
—Ah! Trabalhando, não é, dona Alma! Pintando, isso sim, e desvairando por lá! És uma louca, sempre foste, e agora empatas um negócio em que estamos todos interessados. Além disso, não vês que não temos escolha, sua alienada! Não vês que enquanto pintavas teus quadrinhos, ou quadrões, vá lá, nós nos debatíamos com as dívidas deixadas pelo Vati, aquele outro sonhador, que iria nos enterrar a todos em suas dívidas, se não tivesse restado pelo menos o patrimônio, ainda passível de cobrir as dívidas, e sobrar algum, para nos mantermos, cada um por si, daqui por diante. Vais estragar tudo?
—Solange, minha irmã, não repetirei mais. Ainda não está tudo perdido. Eu sei, eu o sinto. Eu tenho fé...no destino. Não me pergunte como sei, mas estamos próximos de uma solução salvadora, para a nossa estância. Tu deves isso ao Vati, e aos nossos avós, que criaram, não a estância propriamente, mas o vinhedo. O velho fez crescer a vinha e tornou o nosso vinho, a nossa marca, conhecida. Eu desenhei desde criança os rótulos que se tornaram famosos. Não aceito a derrota. Eu sei o que move vocês. Sim, tu e teu marido nunca amaram a terra. Mas o mesmo não acontece com Patrícia e Pedrinho, com Christiam e Hans. Essas crianças lindas amam esta terra que lhes é vital, tu tens que saber. A terra, o Pampa é nossa herança sagrada, não podes dilapidá-la, destruí-la. Eu não permitirei! Eu não permitirei!
Saí correndo dali, seguida por Aline. No quarto, nervosíssima, fui apaziguada mais uma vez pela minha guria maravilhosa. Peguei-lhe novamente a mão e atravessando o corredor saímos pela cozinha e pelos fundos para alcançar o nosso pomar. Levava comigo o canivete suiço antigo que pertencera a Rôdo em nossa infância e que eu usara para gravar a nossa macieira. Diante dela, solenemente, segurando a mão de Aline, eu começaria a gravar a inicial do seu nome, o seu A, após o R de Rôdo. E, ao terminar disse-lhe:
—Aline agora participas de nossa aliança. Se antes nossas iniciais expressavam o ar, inspiração, alento, alma enfim, agora fazem o altar, a ARA de nosso pacto sagrado. Jure-me, Aline, que não me abandonarás nesta luta e participarás comigo da batalha final. A terra será tua, também, já que és minha, como acredito. Não voltarás a São Paulo, ficarás aqui comigo para sempre. Contigo enfrentarei tudo, terei as forças necessárias, contigo. Prometa-me, querida. Olha, o altar, é a nossa árvore, a macieira de minha infância feliz, sim, apesar de algumas dores, apesar da minha pobre mãe equivocada, apesar dos meus avós inicialmente equivocados, mas que acertaram ao plantar este pomar, esta macieira e a vinha, a vinha, agora eu vejo! Ainda não sei bem, mas algo virá do vinho, do sangue da terra que sacrificarei nesta ara. Aline, voltaremos aqui amanhã à noite. Sacrificaremos aos deuses, tu verás!
Aline me olhava um pouco assustada, eu percebi apesar de estar num estado de superexcitação quase delirante. Ela permaneceu muda e o seu corpo todo tremia. Ela quase desfalecia quando me dei conta de que ela tinha febre, e suava na testa. Então abracei-a e amparando-a conduzi-a ao leito. Eu iria cuidar dela. Tudo aquilo fora excessivo para esta flor delicada da cidade. Eu me excedera, talvez. Eu precisava tomar cuidado com o meu amor.

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Aline permaneceu febril e delirou durante dois dias e noites. Eu fiquei o tempo todo ao seu lado, com o coração opresso, a enxugar todo o seu corpo, e a pôr compressas em sua testa. No seu delírio, ela se debatia e gritava o meu nome, mas num estranho contexto:
“Alma, Alma, você está entre nós, afinal, liberte-me, Alma! Leve-me consigo para o seu reino. Para o palácio, Alma, não quero mais viver aqui, é escuro... Alma, alma, liberte-me do escuro, quero enxergar, Alma, quero enxergar! Alma, leve-me! eu me agarrarei a você, pode voar, não tocarei as suas asas, ficarei agarrada ao seu ventre. A luz, Alma, a luz! É o seu reino, estamos chegando!”
Eu estava em lágrimas, que explodiam de hora em hora, num pranto copioso. Minha amada me comovia mais que nunca e eu faria qualquer coisa por ela. Tinha medo de que ela morresse, e senti que preferia morrer em seu lugar. A fragilidade de Aline, sua vulnerabilidade que eu não atinara até então, como as asas de uma borboleta, como um cristal finíssimo, como a lâmina de ouro de um mícron, que podia se esfacelar à mais leve brisa. Esse ser portentoso, cuja beleza era a expressão da nobreza ideal, possível para todas as mulheres. Minha Psiqué preciosa, projetada de minha própria alma, de mim mesma. Éramos duas faces da mesma anima. Eu não saberia denominá-las: Sofia...Eva? Ou Helena...Tais?* Eu queria fundir-me ao meu amor, mas precisava viver e retirá-la da prisão do seu delírio, daquela escuridão a que ela se referia e que eu pressentia. Nós iríamos juntas sacrificar no altar da nossa macieira. Nós salvaríamos a estância e a vinha, salvaríamos o pomar sagrado, a macieira imortal da nossa felicidade imorredoura. Aline, Rôdo e eu, nos transformaríamos no Hermafrodita imortal, perfeito, inatingível pela solidão, eternamente. No reino do ser, onde a posse material não mais existiria, onde todos os símbolos expressos pela matéria teriam sua revelação puramente espiritual, todos os códigos enfim revelados. Saberíamos por fim o que é a árvore, a casa, o vinhedo e o pampa, na Eternidade imaterial, infinita. Eu saberia o que é a Arte pura, desprovida de seus signos visíveis, de suas expressões rudimentares, materiais. Eu saberia o que são os deuses. Eu saberia, talvez, quem é Ele!

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Aline está bem agora. A febre cessou. Ela dorme tranqüila, apaziguada. Posso me afastar do seu leito para confrontar Rôdo, que me deve explicações. Ele não pode estar me traindo, e ao nosso pacto. Encontro-o no escritório, ocupado com papéis, com Laís ao seu lado.
—Rôdo, o que está acontecendo, que papéis foram aqueles que Solange queria que eu assinasse? Tu não disseste que me daria tempo? Que pressão é essa? Rôdo, estás com eles ou comigo? Já disse a ti que nada assinarei. Prefiro a morte, já te disse. Desculpa-me Laís, ouvires tais coisas. Nada tens com isso, espero.
–Alma, sei de tudo, há muito tempo. Estou com Rôdo acima de tudo. Isso quer dizer que não me oponho a ti. Apreendi a respeitar-te através dele, Alma, e não seria tola de afrontar-te. Mas pareces não saber o que o teu irmão tem sofrido. O quanto ele já lutou para salvar esta estância. Agora está disposto a vender a Ferrari. Mas é tarde e de nada adiantará. A luta está perdida. No entanto, diz ele que aguardará o prazo que te concedeu. Isso tudo, para mim é um enigma, Alma. Como pretendes salvar a estância?. Quanto a mim, só quero partir com o teu irmão, levá-lo comigo...e fazê-lo feliz, longe de todos esses sonhos perdidos.
- Rôdo—eu disse, voltando os olhos para ele—O prazo ainda não se esgotou. Amanhã farei um último sacrifício que trará à minha mente a revelação que espero, e sei que virá. Conto contigo. Se Laís quiser vir também, não me oporei. Espero que Aline já possa estar ali comigo, também. Nós quatro, faremos uma corrente forte, se Laís não estiver se opondo, no fundo do seu coração. Mas isso eu saberei lá mesmo, diante da nossa ara. Verei vocês amanhã... no café, e depois somente à noite, na nossa hora.
Rôdo olhava-me enigmaticamente, intensamente. Mas nada disse. Retirei-me da biblioteca.

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A estância da minha infância parece distante, ou subjacente a esta do presente. Ainda ouço os ecos dos galpões, no fandango, as festas da peonada, a que Rôdo e eu assistíamos, deslumbrados, às vezes escondidos, tarde da noite, fugidos das nossas camas. Aí eu ouvi pela primeira vez a Nau Catarineta, cantada, acompanhada pela sanfona e as palmas:


“Ouçam meus senhores todos,
uma estória de espantar!
Lá vem a Nau Catarineta
Que tem muito o que contar
Há mais de um ano e um dia
Que vagavam pelo mar:
Já não tinham o que comer
Já não tinham o que manjar!
Deitam sortes à ventura
Qual se havia de matar
Logo foi cair a sorte
No Capitão-General!

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As danças, onde o taconeio das botas, acompanhados do tilintar das esporas me produziam um arrepio de prazer, e a graça das “chinocas”, evolucionando em torno às bombachas de seus pares, me fizeram compreender profundamente a nossa essência feminina, cultivada neste sul, como em poucos lugares deste nosso mundo atual. Talvez só as camponesas russas, em suas danças folclóricas, expressem assim a oposição macho-fêmea, com tanta clareza e expressividade. A dança dos lenços, me encantava sobremaneira... e eu queria ser uma “china”, com toda a carga de ambigüidade que essa palavra carregava. Outrora ela expressava uma categoria intermediária entre prostituta e namorada de peão. Ou ainda vivandeira, a mulher que acompanha os soldados, na retaguarda dos exércitos em deslocamento. Ouvindo e vendo nossa gente, nossas danças, eu queria me integrar ao passado desta terra, em todas as mulheres, naquela Anita maravilhosa, mulher gaúcha por excelência, e me via como chinoca de todos os peões, uma espécie de Hetaira sagrada dos Pampas. Sempre fui delirante...
Entretanto, é como se não fosse nascida aqui, neste sul, pois meu sangue germânico me confunde quando penso no gaúcho e no pampa, no chimarrão e na charqueada . Meus avós plantaram esta vinha, numa tradição bem européia, buscando um vinho francês, e a biblioteca de meu pai, lançou-me em todas as direções, expandindo a minha mente, e sobrecarregando o meu coração de uma universalidade conflitante com o espírito arraigado desta terra.

Mas minha infância feliz é a infância com Rôdo, a das nossas fugas e descobertas. A da nossa macieira e das galopadas; do minuano que nos arrepiava sob o pala e nos fazia tremer não só de frio, mas sobretudo de temor e respeito pelo poder misterioso desse vento, que varria a planura e entrava pelas frestas das portas e janelas, uivando, e nos assombrava como o sopro do passado desta terra poderosa, cheia dos espíritos dos mortos de tantas batalhas.

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Encontro-me na sala deserta com Geraldo, que eu queria evitar. Saúdo-o rapidamente para escapar ao confronto. Mas, em vão. Ele me retém, tocando-me o braço e olhando-me nos olhos, com agressividade contida:
– Alma, está na hora de termos uma conversa. Sei que não gostas de mim, mas pouco me importa. Estás no meu caminho. Na verdade estás no caminho de todos nós. És a única a querer manter esta propriedade falida. Não vês que estás empatando as vidas de todos? Que queres, afinal? Tens algum trunfo? Algum capital, escondido, que salde as nossas dívidas? Sim, porque és uma espécie de feiticeira, dizem as tuas irmãs, e podes ter alguma varinha de condão...talvez.
— Meu cunhado–respondi-lhe–infelizmente não tenho a varinha, e nem sou jogadora como tu, para ter um trunfo na manga. Mas algo me diz que a estância será salva, que ela mesma apontará o caminho. Ela nos pertence, ou melhor, pertencemos a ela. Pelo menos eu e Rôdo. As crianças, também...
–És mesmo uma sonhadora, não vês que Rôdo é o primeiro a querer a venda? Ele é que demonstrou-nos a sua inviabilidade. Por que vocês, artistas, não aceitam nunca a realidade? Vivem num mundo de sonho, de fantasia, que acaba por jogá-los na sarjeta. Ainda bem que não tens filhos...
Este comentário, puro lugar comum, acabou de irritar-me. Olhei Geraldo nos olhos e pude ver todo o seu ódio, o seu despeito. Ele e Solange se pareciam. Os pares estavam desencontrados. Pensei imediatamente nos gêmeos, aqueles anjos, e pensei neles como meus filhos. Eu não via naquelas crianças, o menor resquício desse pai. Ah! Eu os queria para mim, e mais Patrícia e Pedrinho! O mundo era, afinal, injusto.
–Geraldo, daqui para diante evitemos falarmo-nos. Não adianta. Não há diálogo possível entre nós. És um homem prático, eu sei, e eu sou uma sonhadora, como meu pai. Fiquemos por aqui.
Afastei-me rapidamente, sentindo o olhar despeitado do meu cunhado, sua cólera contida. Na varanda cruzo com o Alberto, cambaleante . Quanto a esse, é um caso igualmente perdido. Agora já não disfarça, é bêbado de tempo integral. Sei que isso é uma doença, estou bem informada, mas não vejo facilmente salvação para ele, pois está feliz na sua infelicidade. Beber ainda lhe dá prazer, que Deus o conserve assim. Ainda não viu a face do lobo. Mas, e os gêmeos? Estes dois querubins, pequenos Cosme e Damião, Christian e Hans. Este saiu primeiro e então Lúcia homenageou o grande Andersen, o que para mim é um sinal de sua sensibilidade poética, a que eu deveria ter dado maior atenção, agora vejo.
Lúcia, minha irmã, eu sinto tanto ter-te subestimado, por tanto tempo. Vem de ti, agora sei, a bondade, talvez a doçura destas crianças. Eras tão calada, em minha infância. Parecias tão dominada por Solange...e eu, afinal, estava enganada. Estás do meu lado, eu sei, como Rôdo, que não me decepcionará, ou tudo estará perdido. Somos uma força de oito pessoas, contando com Aline e as crianças, que se opõem à venda. Do lado de lá estão somente Solange e Geraldo. Alberto, não sei, está em cima do muro, como Humpty Dumpty*, e quebrará como um ovo, a qualquer momento. Poderei cooptá-lo? Lúcia, com tua atitude benevolente, provaste amar-me, e portanto estarás comigo no último momento.
Alberto também segurou-me o braço ao passar, mas de outro modo. Queria mostrar-me uma garrafa sem rótulo, mas eu não lhe dei atenção e me desvencilhei. Precisava andar sozinha, para pensar. Aquela noite eu queria reunir a nós quatro, contando com Laís, diante da minha macieira. Laís seria uma força desequilibradora, uma mente dissonante, nesse encontro? Eu precisava conhecer melhor essa moça. Resolvi procurá-la e sondá-la antes do nosso ritual. Ela parecia ter demasiado personalidade para ser simplesmente uma “boa moça”. E queria demais levar Rôdo consigo para bem longe daqui. Meu irmão! Estarás em perigo? Trairás tua terra para ir com esse amor...duvidoso? Não, não posso imaginar-te traindo-me.
Volto ao casarão quando já estava quase no limite do nosso jardim, na fronteira da nossa pradaria sem fim. Vou procurar Laís.
Encontro-a afinal, no quarto de Rôdo. Vendo-a pela porta entreaberta, bato os nós dos dedos na madeira, para não invadir o seu espaço. Ela olha a fresta de longe, percebe-me e convida-me a entrar. Está de lingerie, e que bela ela é. Usa um corpete provocante que valoriza os seus seios redondos e perfeitos. Ela parece satisfeita em deixar-me vê-la assim. É bem de mulher isso. Não dizem, afinal, que é para outras mulheres que nos vestimos, nós, mulheres? Talvez seja a mesma coisa com o despir. E a lingerie é o exato meio caminho, nas duas direções. Olho-a inteira, que pernas magníficas! Meu irmão sempre foi exigente com as suas iguarias. O bon-vivant, o gourmet , o expert em mulheres, o estróina também. Amante da velocidade e dos prazeres óbvios, mas com certo requinte, Rôdo escolheu esta potranca de luxo, ou foi ela que o fez...
–Laís, em breve nos reuniremos para uma cerimônia que tenho certeza, será decisiva. Mas não sei ao certo, a tua posição. Não ficou clara, para mim. Amas o Rôdo, não é mesmo? E queres seu bem, portanto, presumo...
–Alma, nada temas. Sim, amo o teu irmão e sei que ele me ama. Sei também o que a estância significa para ele. Contou-me toda a sua vida, a sua infância, contigo, nestes pampas. Não quero, portanto, forçar nada. Sei que se conseguirem conservar a propriedade, ele não ficará fisicamente preso a ela, como já não o faz. Há maneiras de se fazer isso. Um bom administrador, por exemplo. Ou tu mesma te encarregarás disso? Sim, porque gostamos de viajar, e temos muito planos, de conhecer os quatro cantos do mundo. Somente... ainda não tenho certeza de que conseguirão pagar essas dívidas, e salvar a propriedade. Como pensas fazê-lo? Teu irmão está persuadido de que és uma espécie de feiticeira, perdoe-me a expressão, e contou-me coisas espantosas a teu respeito. Não duvido de nada, mas confesso que tenho medo dessas coisas. O que pretendes desta vez? Precisas mesmo da minha presença? Tenho medo de assustar-me e perder o sono.
Sorri, mais tranqüilizada. Laís era, afinal, uma moça normal, no bom sentido, e não poderia fazer mal ao meu irmão. Além disso, Rôdo era escolado na vida e jamais foi ingênuo. Tivera muita vivência pelo mundo afora. Era um homem do mundo e a última coisa que alguém deveria fazer era preocupar-se com ele. Sua independência era tanta que não se prendera nem à terra de nossa infância. Era talvez mais livre do que eu. Mas justamente essa era a minha preocupação: ele parecia poder viver sem a nossa estância, sem as nossas raízes. Eu o via pelo mundo, em alta velocidade, na sua Ferrari, parando somente nos cassinos para jogadas rápidas, como nos inúmeros leitos por que passava, pobre Laís. Ou seria ela também uma aventureira, de inúmeros leitos? Não importava, esta bela mulher não tinha a marca de Lílith, o seu ríctus nas sobrancelhas, e isso bastava para me tranqüilizar.
–Laís, estou tranqüila. Foste honesta comigo, e é o bastante para participares do ritual desta noite. Sei que alguma coisa acontecerá que me fornecerá uma arma, ou uma idéia salvadora. Por quê sei isso? Não sei, sou assim... Sinto-me perto de uma solução, que ainda não se configurou na minha mente, mas que está próxima, eu pressinto.
Laís abraçou-me e beijou-me o rosto delicadamente, senti o seu cheiro, seu perfume francês e pensei: é uma pequena dama de luxo, mas honesta, o quanto é possível uma bela mulher ser, neste mundo. A beleza, na nossa sociedade vale tanto por centímetro quadrado, que não é possível deixar-se de vendê-la ou comprá-la, de algum modo, desde quando o rosto de Helena “lançou ao mar mil navios”.
Afastei-me e fui procurar as crianças. Encontrei os gêmeos e Pedrinho brincando. Eles me rodearam e eu, disfarçando, fui conduzindo-os para o jardim, onde num canto, num pequeno caramanchão, pudemos conversar a sós, sem perigo de sermos observados.
–Hans, Christian, Pedrinho, preciso de vocês. Vamos brincar de espiões, sim? Quero que vocês fiquem de olho, daqui por diante, em tudo que se passe nesta casa. Nas conversas dos adultos, principalmente, e também nos seus passos, para onde vão, o que fazem. Está bem? Vai ser divertido.
—Tia Alma–disse Pedrinho– sei o que queres, e estou contigo. Vou seguir papai, está bem? Ele está muito misterioso, desaparece a toda hora, e não é só para beber, eu sei. Ele nunca escondeu isso da gente, ele não consegue. Mas acho que deves pôr Patrícia também na brincadeira.
–Sei, Pedrinho – eu respondi– Patrícia será também uma agente especial como tu. A camarada Pati. Vamos, vamos, saiam brincando normalmente. Mas nada de saírem de suas camas, de noite, para brincarem disso, hem? Conheço vocês. Saiam agora, eu vou em seguida, porque tia Solange e tio Geraldo podem estar observando nossos movimentos.
Os meninos saíram correndo. Eu tinha formado a minha rede de pequenos espiões. Hesitava apenas em colocar Patrícia nesse jogo. Ela me parecia muito vulnerável em sua pureza, ou demasiado apaixonada, para brincar de espiã. Dirigi-me rapidamente de volta para o meu quarto, para ver Aline. Eu já estava saudosa, e ansiava por encontrá-la bem e refeita, curada. Encontrei-a de pé, de camisola, um pouco hesitante.
–Volta, volta, para a cama, sua louquinha. Ainda não devias levantar-te, –disse eu, abraçando-a e conduzindo-a ao leito. Deitei-a com cuidado, com se fosse de vidro, meu coração cheio de ternura. Não resisti e beijei-lhe os lábios, que me pareceram muito quentes.
–Alma, que bom que você voltou. Senti tanto a tua falta... quanto tempo se passou? Você foi buscar-me lá, onde eu estava, no escuro, você me salvou do escuro. Depois deixou-me na luz, mas sozinha, não sei o que foi pior. Onde você foi?
Olhei o lindo rosto de Aline, sua boca maravilhosa, e me senti transbordante de amor. Eu queria embalá-la como uma criancinha. Percebi que ela era, afinal, uma mulher-criança, na melhor acepção do termo. Tive muita sorte, apaixonei-me por uma mulher cuja feminilidade tem o cunho sagrado de uma Psiqué. E ela me ama. Ela me ama.
Fiquei longamente acarinhando-a, acariciando-a, beijando suas lindas mãos. Ela tinha os olhos nos meus, ternamente, e foi abandonando-se, semicerrando-os, até mergulhar num sono tranqüilo, sereno, afinal.
Levantei-me e saí, pé ante pé. Eu ia preparar tudo para quando Aline estiver pronta, curada, para participar da cerimônia da nossa macieira. Tenho pressa, mas esperarei que ela esteja restabelecida. As noites estão quentes, não podem fazer mal a ela. Depois... o que ela teve não parece ter sido gripe, resfriado ou coisa assim. Suspeito de uma espécie de esgotamento emocional. Minha guria é hipersensível, e está tão envolvida comigo que isso ultrapassou as suas forças. Devo ter cuidado. Não chamarei os deuses e os numes como da outra vez. Quero somente homenagear o espírito da minha macieira e concentrar-me numa corrente, junto com meus companheiros, para receber uma inspiração. Serei fecundada por uma idéia, eu sei.
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Passaram-se dias, e o tempo me parecia suspenso. Minha rede de pequenos espiões trazia-me constantemente notícias, na maioria supérfluas. Mas certas informações, alinhavadas, construíam um quadro de conspiração, do qual Lúcia não mais participava. Solange e seu cunhado pareciam tramar algo contra mim, para anular o meu voto. Eles também me espionavam. Queriam encontrar algo que lhes permitisse embargar-me, como alienada, ou coisa assim. Confabulavam com um advogado que trouxeram de Livramento, e que parecia uma raposa. O perigo era iminente, mas como poderiam conseguir isso? Minha relação com Aline, tinha transpirado? Não, não seria suficiente. Quais os argumentos dessa conspiração? Eu não poderia plantar uma criança espiã nessas suas reuniões a portas fechadas. Eu mesma tentava ouvir atrás das portas, mas em vão. A casa tem um madeiramento espesso, maciço. Reuniam-se freqüentemente na biblioteca, o que para mim soava como um sacrilégio. Quisera poder enxotá-los de lá. Ali era, para mim, um lugar sagrado. A sala do trono de meu pai. Eles a estavam conspurcando. Solange e Geraldo eram usurpadores, e o pobre Alberto, um bobo da corte, pequeno oportunista do momento. Por alguma razão,Voltei a me lembrar de outro episódio referente à Solange, em nossa infância:
Eu possuí um diário quando guria, que me fora dado pela Mutti, e que tinha um cadeado de segredo, que eu considerava seguro. Era um belo livrinho de capa dura de couro, e eu gravei meu monograma nele, com pirógrafo. Em suas páginas eu comecei a exercitar o meu dom de registrar as impressões do meu dia, meus sentimentos e fantasias, que faziam parte da minha realidade, a que eu já dava tanto valor. Eu adorava a idéia de que meus registros eram secretos, e por isso eu poderia ousar tudo e passar despercebida em minha ousadia, mental e espiritual, à vigilância da minha própria mãe e de.... Solange, a inimiga.
Minha irmã mais velha, naturalmente odiou aquele objeto à primeira vista. O diário da Alma! Que coisas haveriam ali? Que ousadias, que transgressões, que pecados? Fiquei talvez mais vulnerável a ela, com a existência do meu diário. Minha mente afinal poderia ser invadida, violada. Meus segredos, meus tesouros... saqueados!
E foi o que realmente aconteceu. Solange descobriu o esconderijo do álbum, e conseguiu arrombar o cadeado. Peguei-a em flagrante lendo-o e rindo. Fiquei furiosa. Avancei para ela que correu com o livro na mão até a piscina, ameaçando jogá-lo na água. Estaria tudo perdido, o livro ficaria borrado e imprestável, e eu estaquei, estarrecida. Implorei a ela que me devolvesse meu diário. Ela então atirou-o para mim, dizendo:
–Toma aí, já conheço os teus pensamentos, e eles valem alguma coisa, principalmente para a Mutti, percebes? Agora estás nas minhas mãos. Venha beijar o meu pé, ou irei contar a ela principalmente a terceira página. Vem, ajoelha-te e beije o meu pé, escrava!
E eu, tremendo de raiva e humilhação pelo medo que realmente senti, ajoelhei-me e beijei seu pesinho gordo, que desgraçadamente lavei com minhas lágrimas.
Eu demoraria ainda muito tempo para me sentir preparada para contar tudo... ao mundo.
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Então,agora, às refeições participava esse novo personagem: o advogado de Solange e Geraldo. Esse cara de fuinha não era capaz de encarar-me. Ele percebia a sordidez da sua atuação e não ousaria olhar-me nos olhos. Ah! Mas eu precisava agir rápido. Como poderiam eles embargar-me? Que argumentos jurídicos forjariam? Não, não era possível! E Rôdo, por que está assim inerte? Ele me defenderia, eu sei, mas com que argumentos? Eu estava insegura, sabia que o ataque deles aconteceria a qualquer momento... quando me chamassem solenemente à biblioteca. Se ousarem tocar no nome de Aline, não sei do que serei capaz...
E se ele viram alguma coisa do que se passou no pomar? Poderiam internar-me como louca? Não, não, é pouco provável, eles teriam já se traído, feito alguma alusão àquilo. Eu passara à defensiva, o que é um sinal de fraqueza. Não estou indefesa. Tenho minha rede de espiões e tenho que ser combativa. Agressiva, se for possível.
À mesa, Solange, uma noite, lançou suas farpas:
–Alma, em breve estaremos assinando os papéis da venda, contigo ou não. É melhor que prepares a tua linda caligrafia. O doutor Lucena já preparou todos os papéis. Temos uma ótima oferta, que já aceitamos. Ela cobre totalmente as dívidas e ainda sobra o bastante para todos nós começarmos uma nova vida, longe dos fantasmas que só tu, por aqui, aprecias.
O advogado olhou-me nos olhos, mas diante do fogo do meu olhar, abaixou os seus, e ergueu o guardanapo aos lábios. Percebi que essa raposa guardava trunfos que tiraria da manga no último momento. Eu tinha de precaver-me. Se algum médico desconhecido, com ou sem enfermeiro, surgisse por aqui, eu saberia do perigo de um golpe baixo. Eles bem seriam capazes disso . Em último caso, restava-me a fuga com Aline, para não assinar nada, e reunir forças longe daqui, como uma estratégia de guerra, para a batalha final.
Ao pensar assim, dei-me conta de que eu era, afinal, um tanto infantil, em minha imaginação, e que eles se agarrariam a isso. Os adultos. Ah! O ser adulto é detestável, sempre pensei assim. Por isso sempre dialoguei em imaginação, ou mesmo na vida, com os artistas, os gênios, os poetas de todos os tempos. O homem chamado adulto é, para mim, uma degenerescência. Ele criou a feiúra do mundo, a burocracia, as leis, as prisões, e os hospícios. Não serei jamais uma adulta. Sou artista. Sou criança.





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Lembro-me do dia da morte de meu pai. Já andávamos pé ante pé pela casa, e eu já não era chamada ao leito há três dias. Isso me magoava. Eu não realizava que o Vati estava morrendo, embora esse pensamento me ocorresse às vezes, logo expulso. Então, ele me chamou. Solange, que administrava aquela porta, aquele quarto, transmitiu o desejo do velho, parece que a contragosto, não sei bem porquê. Ela pensava que ele não devia se desgastar, se cansar. E o velho estava morrendo...

Entrei, devagar, eu já era moça, senão adulta. Fazem apenas seis anos. O velho, deitado no grande leito, apoiado em enormes travesseiros, com sua barba branca, e os olhos azuis muito gastos, me pareceu bem mais velho do que eu comumente achava. Mas pareceu-me que o seu olhar se iluminou à minha entrada, e vi que a sua mão fez um ligeiro movimento, que entendi como sinal para me aproximar e sentar-me à sua cabeceira.

Com dificuldade, a cabeça imobilizada, afundada no grande travesseiro, dirigiu somente o olhar, para mim, sentada na beira da cama, segurando-lhe a mão.

–Alma,–disse ele num sussurro– filha do meu coração... Quero pedir-te que zeles pela estância, pelos quadros, pelos livros... e pela vinha. Não te desfaças do piano, que virei tocar para ti, nas noites em que não sopre o pampeiro. Tu me ouvirás, eu sei. Só tu chorarás lembrando de mim. Talvez Rudi, também o faça. Mas quero que chores somente pela alegria das boas recordações, que te ensinei que são o sal da vida. Não lamento nada, não lamentes também. Minha vida foi bela, principalmente ao teu lado, Alma, e sou profundamente grato a ti, minha guria. Agora vou partir... e quero fazê-lo olhando os teus olhos verdes, e esse dourado do teu cabelo, que iluminou a minha vida.
Dito isso começou a estertorar. Assustada, pensei em correr para fora, e chamar todos, chamar Rôdo, mas ele me apertava a mão, retendo-me. Entendi que aquilo não era só um espasmo, mas que ele me queria ali, somente a mim. E fiquei vendo-o partir. Só eu vi-o deixar o nobre corpo cansado, e percebi a sua alma saindo, quase avistei-a, ou tive essa impressão, que não me abandonaria mais. Eu iria chorar por ele, talvez não somente pelas boas recordações, mas por sua perda, que me parecia catastrófica, apesar de tudo o que me ensinou. Eu choraria diariamente por cinco anos. Até ir para São Paulo, para aqueles Jardins anódinos, onde montaria o meu ateliê de pintora, na tentativa, vã, de me desraigar do Pampa, que se tornara uma ferida aberta.
Mas não custei muito a reconciliar-me com a estância, com as recordações, que quanto mais belas, mais doídas me pareciam.
Agora eu estava aqui para zelar, como ele me pediu, pela nossa herança verdadeira: o sentido da beleza que só nós dois víamos em tudo isso.
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Dirijo-me ao quarto, ansiosa para ver Aline. Encontro-a restabelecida, e radiosa novamente. Pareceu-me mais linda do que nunca, já vestida com o seu jeans, como de costume. Ansiosa para sair do quarto, encontrou em mim todo o apoio e incentivo para isso. Não sou de cultivar doenças e resguardos. Agarrei a sua mão e saímos aos risos, correndo para fora daquele quarto, para o jardim, que me pareceu mais florido do que nunca. Arranquei punhados de flores, braçadas, e cobri-a com elas. Trancei uma guirlanda de flores, uma coroa, e cingi a sua fronte, seus lindos cabelos negros. A vida me pareceu sorrir novamente e me enchi de esperanças. Se o meu amor levantou-se, a vida teria certamente que levantar-se daquele limbo de incertezas, de perigos.
As crianças vieram juntar-se a nós, o que era previsível. Como pequenas abelhas, no açúcar, em torno das flores da minha amada, revoluteavam em festa, em risos. Quem poderia contra isso, quem ousaria tirar-nos do nosso elemento: o riso e as flores? Mais tarde reunimo-nos no nosso quartel general, o caramanchão do jardim. Cercado de uma sebe espessa, florida, não podíamos ser observados. Eu recolhia ali as informações do dia, às vezes do dia anterior. Minha pequena equipe de espias se esmerava cada vez mais, trazendo-me informações preciosas, fragmentos sugestivos de conversas, que eu ia recolhendo e alinhavando. Mas o que mais me impressionou, foi a contribuição de Pedrinho. Resolvera concentrar-se em seguir seu próprio pai, Alberto, sem ser percebido. Contou-me que o seguiu até a adega, mas que ao entrar, esgueirando-se pela escadinha e o corredor, ao chegar na cave, não encontrou-o. Aturdido com o fato, saiu correndo. Nos dias seguintes, tendo observado seu pai saindo da adega, repetiu a façanha de segui-lo, arriscando-se. Novamente, o mesmo mistério. Seu pai, Alberto, o bêbado, simplesmente sumia naquela adega, pequena, limitada, sem saída, como um beco subterrâneo. O menino estava assustado.
Aquilo me deixou perplexa e pensativa. Eu pensava conhecer aquela casa como a minha palma. Para onde ia o nosso bobo da corte? Eu precisava descobrir como o meu cunhado desaparecia dentro daquela cave, sem que meu interesse desse na vista, claro. Pedi ao Pedrinho que não comentasse aquilo com as outras crianças, dizendo-lhe ser um segredo só nosso. Dirigi-me num momento seguro à adega e fiquei ali, examinando cada centímetro daquelas sólidas paredes. O cheiro de umidade e o frio ali dentro eram constantes. Havia, claro muitas estantes de garrafas, mas um perfume vinha de alguns tonéis de vinho, que me remetiam a outros tempos, outras memórias. Até que percebi que um dos tonéis estava vazio e bem seco. Veio-me então a idéia de meter-me ali dentro. Mas para isso eu precisava prepará-lo para não passar muito desconforto. Saí e voltei com dois travesseiros, uma manta e Ña parte superior do tonel havia aquele furo para o batoque. Por dentro do barril eu poderia observar, embora na obscuridade, toda aquela adega.
Coloquei-me lá dentro com uma lanterna de pilha, bem agasalhada e enrolada na manta, com meu relógio de pulso, e preparei-me para esperar o quanto fosse necessário. O silêncio e a escuridão me deixaram um pouco temerosa e com a sensação de estar naquele reino subterrâneo, onde as almas são obrigadas a descer para atravessar o rio do esquecimento, para escolher a nova vida. Comecei a ouvir alto o tic-tac do meu relógio de pulso, martelando, quase torturante. Não sei ao certo quanto tempo se passou. O tempo é uma sensação subjetiva, e portanto elástico, e comprimível. Lembrei-me do episódio da divina comédia, em que Dante vê, num dos bolges do Inferno, um demônio gigante, arqueiro, que flexionava o imenso arco armado com uma flecha, lenta e poderosamente, mirando um alvo qualquer. O gigante solta a corda, e Dante, então, espantado, vê a flecha sair lentamente. Perplexo, ele pergunta a Virgílio porque a flecha saiu assim tão devagar, de tão potente arco. Virgílio, então lhe responde concisamente, como era de seu feitio, nessa relação com o florentino: “– Quanto maior a expectativa, mais devagar sai a flecha.”
Senti claramente essa verdade, comparando meu tempo interior de espera ansiosa, com o andamento dos ponteiros do relógio, no meu pulso, sob a lanterna, dentro daquele tonel, útero no ventre da terra, cuja epiderme era o casarão.
Finalmente a porta se abriu, e senti, mais do que vi, um vulto entrar na adega. Devia ser Alberto, o que confirmei quando ele acendeu uma vela com o seu isqueiro, iluminando o seu rosto avermelhado, o nariz mais que o resto. Prendi praticamente a respiração e preparei-me para observar-lhe os mínimos movimentos. Lembrei-me de que quando bem criança, perguntei ao meu pai o que era o umbigo. Ele, com seu costumeiro senso de humor, respondeu-me que aquele furinho era o olho mágico dos bebês, uma espécie de periscópio na barriga de suas mamães, para observarem o mundo e saberem quando era hora de sairem. Apesar de muita pequena, percebi que aquilo era uma piada, uma brincadeira, e esse entendimento precoce, de uma graça ingênua, declanchou o meu senso de humor, que eu desenvolveria desde a infância, senso esse ensejado sabiamente por meu pai.
Agora, ali, no ventre do tonel, eu substituíra o espírito do vinho. Assim divaguei, por um segundo, e logo concentrei a vista nas mãos do meu cunhado, que, iluminadas tateavam a parede do fundo da adega.
Então, subitamente a parede girou, abriu-se, sei lá, e vi-o penetrar numa zona ainda mais escura. A parede tornou a fechar-se. Tratei de sair depressa do meu posto de observação. Deixando dentro do tonel, todo o meu equipamento, esgueirei-me rapidamente para fora da cave, antes que Alberto voltasse. Eu teria muito tempo para explorar a descoberta do bufão. Agora tinha de preparar-me para o cerimonial da minha macieira, que eu já sabia que seria só de agradecimento, embora ainda não soubesse exatamente por quê.
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As lembranças que tenho de Ana Morgado, minha mãe, não são exatamente agradáveis. Faltava-nos afinidades, essa é que é a verdade. Eu sei que isso não costuma ser decisivo na questão do afeto entre mãe e filhos. Os filhos amam suas mães, mais ou menos incondicionalmente, e vice–versa. Mas no meu caso, pela minha natureza de artista, isso produziu um enorme distanciamento, uma vez que minha mãe não aceitava a artista em mim. Ela tinha, pobrezinha, uma mente tacanha, e desejava somente a “normalidade” para todos os filhos. Isso quer dizer, uma mediocridade cinzenta, pois católica, descendente de portugueses açorianos, temia o destaque, a paixão, a notoriedade, enfim, o talento. O artista para ela era um ser estranho, que se exibia, que não se comportava bem. Um ser que amava demais a vida e a beleza, o que para ela, era uma espécie de pecado, pois estava convencida da doutrina do “vale de lágrimas’ que herdara de sua formação, e de seus avós portugueses.
Lembro-me de discussões precoces, que tive com ela, e de como isso me magoava. Ela temia sobretudo a sensualidade que pressentia em mim, que não obstante, acredito, não comprometia a pureza do meu coração... e mesmo a da minha mente. Eu me tornaria, por essas características, uma poetisa lírica, sonetista, além de contista confessional, que nada esconderia do público. Por outro lado eu era incentivada, felizmente, por meu pai, cuja afinidade comigo era quase total. Isso produziu um apego e uma mútua admiração entre nós dois, a toda prova. Tive esse privilégio, afinal, de ser totalmente aceita, acreditada, incensada mesmo, pelo velho cirurgião artista, cujo talento para a música, e a enorme erudição literária, filosófica e artística, era uma fonte de deslumbramento e aprendizado, para mim.
Minha mãe tentou algumas vezes reprimir as minhas explosões de alegria, e até algumas lágrimas de sensibilidade à beleza, e isso produziu em mim pequenas chagas de frustração e até mesmo um certo ressentimento que tive de lutar para superar.
Todavia, o episódio mais grave, foi realmente, aquele, do flagrante que nos deu, a mim e a Rôdo, nus, sob a nossa macieira. Aquilo, concordo, pode ter-me marcado mais do que percebo. Uma vez moça, eu me entregaria a paixões com uma intensidade talvez desmedida; e um certo timbre, levemente masoquista, que devo reconhecer em minha sexualidade, e que me causa tanto prazer, se deve certamente àquele incidente da minha infância.
Mas, eu falava de minha mãe. A pobre morreu quando eu tinha treze anos, creio que por pura falta de élan vital, de amor à vida, ao amor. No entanto, ela não era má. Eu poderia escrever um poema trágico sobre ela e sua vida, árida, sem cor. Ou pelo menos um poema patético. Cabe ao poeta, sempre, revelar a poeticidade dos seres e das coisas. E minha mãe, afinal, não escaparia de merecer um poema. Mas penso que ela se constrangeria, lá onde está, de ser posta por um momento na berlinda, quero dizer, no pensamento de alguns estranhos: os leitores. Além disso faltava-lhe (falta grave), o maravilhoso senso de humor que notabiliza a espécie humana. Lembro-me de um episódio, em que, criança, à mesa, soltei uma tirada cômica, verdadeiramente inspirada, pareceu-me, pela gargalhada súbita do Vati e dos meus irmãos. Minha mãe, entretanto fechou a cara e deu-me uma pequena bofetada, dizendo: “Despudorada! Queres exibir-te sempre, não é?” Aquilo me magoou sobremaneira, e apoiei a cabeça abaixada sobre meus braços, na mesa, e solucei amargamente. Mas fui logo consolada por meu pai, que ralhou com a Mutti e pegou-me em seus braços com um carinho enorme, e carregou-me no colo embora eu já fosse grandinha. Aquilo compensou tudo. E eu como criança não pude deixar de mostrar a língua, disfarçadamente, à minha mãe.
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Passei o dia concentrada, parecendo um pouco alheada às crianças, que trataram de brincar entre elas, afastando-se naturalmente. É incrível a sensibilidade e o respeito que estas crianças demonstram.
Chegando à noite, preparei-me em pensamento, para o cerimonial que planejei. Também corporalmente, pois vesti-me com uma espécie de túnica branca, lembrando as antigas gregas, até os tornozelos. Coloquei sandálias finas, leves, prateadas. Fiz um penteado como eu via nas ilustrações das ânforas, nos livros. Delineei os olhos com um traço preto longo, ressaltando-os. E um leve batom nos lábios. Aline ajudou-me. Depois eu a vestiria de maneira semelhante, cuidadosamente, caprichando em sua maquiagem. Pude apreciar melhor, em sua figura, o efeito dos nossos preparativos. Ela estava belíssima, encantadora, como eu a projetava em minha imaginação, naquelas Ilhas Bem Aventuradas, em cuja existência sempre acreditei, num plano espiritual. Saímos de mãos dadas pelos fundos da casa diretamente para o pomar. Era importante que não fôssemos vistas pelos outros da casa.
Encontramos Rôdo e Laís, próximos à nossa macieira. A noite estava esplendorosa, numa verdadeira festa de luzes e sons. A lua cheia, como eu aguardara, os sapos e grilos em alegre balbúrdia, mas os pirilampos mais discretos diante do seu fulgor.
Rôdo estava vestido como sempre com sua bombacha, que usa quando está aqui, mas notei-lhe um certo apuro, na camisa ligeiramente bordada no arremate degolado e nos punhos. Trazia uma faixa enrolada na cintura, com as pontas também bordadas. Nas botas, tivera também a sensibilidade de não trazer suas esporas de prata, que além de tilintarem, denunciavam arrogância, inadequada à nossa cerimônia. A humildade seria a tônica de nossos ritos, nessa noite. Laís, felizmente, não fugira a esse acordo tácito e estava linda e discreta num longo simples de tom perolado, com os cabelos lindamente trançados. Estava talvez um pouco mais ostensiva, com um colar de ouro e pérolas, e brincos iguais.
Diante da ara de nossa macieira, acendi a minha trípode com as ervas aromáticas, acrescentando uma grande folha de parreira, que estando verde, produziu um intenso fumo, que ascendeu à lua, numa coluna quase reta, pois não tínhamos a mais leve brisa, o que eu considerei propiciatório.
Em torno da pira demo-nos as mãos, olhando para o alto, para a lua, onde o fumo se desvanecia, e permanecemos estáticos, os braços abertos, ligados pelas nossas mãos. Olhamos o fulgor branco da grande lua, até a nossa vista se ofuscar e entrarmos num estado de suspensão de tempo e espaço, em que nossa matéria pareceu perder o peso, sentindo-nos como que levitando. Ouvi então a minha própria voz, dizendo, solenemente:
–Lua, Lua fulgente, olho esplendoroso da Noite, olha-nos! Aceite a nossa oferenda, o fumo da videira e das ervas irmãs! Diante da macieira sagrada, do Paraíso recuperado da nossa infância, de onde outrora fomos expulsos, nus e crianças, aceita ó Lua, diante da Ara dos Pampas, a nossa devoção e humildade. Dá-nos, ó Lua, tua sabedoria maternal, benevolente, de mulher, já que a astúcia maligna, Lílith, pertence ao teu lado escuro, que não veremos jamais! Diz, ó Lua, o que queremos saber, a resposta ao perigo que nos aflige. Como salvar a estância, a casa, a vinha e o pomar? Como salvar tua Ara, ó senhora?
Permanecemos assim, suspensos no ar, e creio que a levitação se deu realmente por um tempo indefinido, talvez infinito do espírito, e quando pousamos, eu já sabia o que fazer. A solução estava presente em minha mente... e no meu coração!
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Quando os Welt chegaram a Alegrete, traziam um considerável capital. Haviam prosperado pelo trabalho árduo, na terra, nas colônias alemãs da região do Vale do Itajaí, em Santa Catarina, sem esquecer nunca a sua ambição de se tornarem senhores de uma grande fazenda. Ouviram falar do extremo sul do Rio Grande, região dos Pampas, o que passou a crescer como uma obsessão na mente do meu avô. Tornar-se um estancieiro. Daí para encontrar a terra que afinal lhe caberia, foi um passo. Mas esse passo não excluiria uma tragédia.
Na região da fronteira com o Uruguai, entre Alegrete e Santana do Livramento, havia uma grande estância muito antiga, que se tornara decadente após duzentos anos de trabalho, de batalhas e desperdício. Seus donos foram “maragatos” na guerra dos pica-paus contra o Império, e sofreram muito com isso. Depois da derrocada da monarquia, a decadência daquela família foi gradativa, ao longo de mais duas ou três gerações. Até que ali chegou meu avô, duro velho alemão que fez uma oferta tentadora ao seu último dono, um gauchão alquebrado pelas dívidas e roído pelos ressentimentos. Meu avô foi muito mal recebido apesar de se apresentar como solução para aquela família, que já avistava a necessidade. Os gaúchos o chamavam o “teuto” ou  o “boche”, mas somente pelas costas, pois meu avô não era homem de ser desrespeitado, e seu porte imponente e sua extrema severidade germânica, impunha-se logo de saída. Com dois metros de altura e mãos enormes, uma força cavalar e uma catadura de nenhum amigo, o velho Joachim Dietrich Welt, tinha aquela presença majestática dos antigos germânicos, ou dos vikings. E uma agressividade contida, cortante, que lhe saía dos lábios finos como uma fenda.
Conheci por pouco tempo o meu avô, e não gostei dele. A doçura e a sabedoria de meu pai contrastava demais com aquele guerreiro do Walhalla, instalado ali nos Pampas. No entanto devo reconhecer o seu valor, a sua enorme força de trabalho, a sua obstinação.
Mas é preciso que se conte, que o estancieiro gaúcho, pouco tempo depois de fazer a venda ao meu avô, enforcou-se num sótão do casarão, numa viga do telhado, pelo seu laço de couro trançado. Aos seus pés, a bomba e a cuia, esparramadas, pois ele tomara o chimarrão até o último momento, deixando-o cair ao lançar-se da banqueta.
Sua família, a viúva e filhos, velou-o na sala principal, entre quatro tocheiros, soluços e gritos. Não faltaram também imprecações contra o meu avô, e até mesmo uma praga gaúcha, que ao que parece não pegou, ou então pegou tardiamente, a julgar pela nossa situação atual. Após o enterro, na própria estância, aquela família retirou-se num carroção de arcos, que deixou a casa, afastando-se lentamente. Minha avó contou-me que avistou ainda, à passagem da porteira, dentro do carroção, uma menina daquela família brandir o pequeno punho fechado contra eles, os meus avós. Imaginei-me naquela situação e pensei que talvez eu não deixasse aquela família ir-se, o que sei, no entanto, que seria inviável: o ódio daquelas mulheres e crianças corroeria estas paredes por dentro.
Em minha infância, todavia, não percebi sinais dessa maldição, e o trabalho árduo de meus avós e seus empregados, muitos dos quais, peões remanescentes do antigo dono, neutralizaram qualquer maldição que porventura pesasse sobre esta casa. Meu avô não tardaria a se tornar respeitado na região, como homem sério e laborioso. Entretanto a estância não prosperava mais, apenas com o resto de boiada, o charque e o mate, e foi aí que o velho teve a idéia, que na verdade era um antigo sonho, de plantar o vinhedo que o tornaria conhecido na região.
Quando Werner, afinal reconciliado com meus avós, trouxe-lhes a nora indesejada, começou o período de plantação da vinha, da construção das adegas, do lagar e dos grandes barris de madeira. Ana dedicou-se a gestar e parir mais um filho, e a cuidar dos três crescidos, como boa esposa e mãe, enquanto meu pai começava a sua carreira de médico cirurgião no meio rural e em cidades pequenas. Meu avô, ocupado com a vinha, reinava como um déspota, enquanto minha avó cumpria seu papel de benevolente eminência parda. Foi nessa época que meu pai começou a formar a sua grande bilblioteca cuja base ele trouxera da Europa, em idioma alemão, e francês, e que viria a ser o centro do nosso mundo, meu e dele. Logo deu-se a entrada do grande piano Steinway, usado, mas perfeito, que ele conseguiu adquirir, não sem algumas altercações com o velho Joachim, cujo sangue germânico falou mais alto, afinal, quando seu filho, o jovem cirurgião, tocou para convencê-lo, o “Cravo bem temperado”.
Essa foi, meu pai contou-me um dia, a única vez que pôde avistar um brilho diferente, úmido, nos olhos do velho agricultor.
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Agora eu estava preparada, embora sob grande expectativa, para a descoberta do mistério da adega. Após a cerimônia no pomar, confabulamos, e eu então contei aos meus parceiros o que estava acontecendo com Alberto, o enígma do seu sumiço atrás da parede que se abria. Ficaram excitadíssimos e combinamos então, para aquela noite, bem tarde, quando as irmãs e cunhados estivessem em sono profundo, encontrarmo-nos os quatro na adega, para desvendar aquele segredo.
Assim fizemos. Aquela noite, um a um, pé ante pé, deixamos nossos leitos. A excitação não nos deixara mesmo adormecer, e ainda com nossas roupas de dormir, encontramo-nos pelos corredores, e descemos à adega com nossas lamparinas.
Uma vez lá em baixo, com os corações acelerados, tateamos aquela parede do fundo, sofregamente. Demoramos muito, mas afinal encontramos uma falsa rachadura no tijolo, cujo pedaço, pressionado funcionava como um botão. A parede começou a girar nalgum eixo em sua exata metade, deixando-nos ver uma profunda escuridão, aterrorizante. Como se estivéssemos numa tumba egípcia, numa pirâmide, nossa emoção atingiu um pináculo onde podíamos ouvir nossos quatro corações galopando. Entramos.
Erguendo nossas quatro lamparinas ao mesmo tempo, avistamos a maior adega que se pode imaginar, imensa, como um salão cujas dimensões não pudemos calcular pois seus extremos perdiam-se na densa escuridão que recuava apenas num certo raio em torno das nossas quatro modestas fontes de luz. Avistava-se um verdadeiro mar de estantes com garrafas. Meu irmão, percorrendo a estantes calculou por alto, que devia haver umas dez mil garrafas. Agarrou uma, depois outra, sem rótulos, empoeiradas, antigas. Voltou para o começo do salão e tirou uma das primeiras garrafas da primeira estante. Havia um rótulo, manual, provisório, com uma etiqueta amarelada, manuscrita, que leu alto:
TINTO SAFRA DE 1962
Para meus netos, com minha benção
Joachim
Emocionados, vimos Rôdo “sabrar” o gargalo com um golpe seco de sua faca gaúcha, como um hussardo, aspirá-lo e depois derramar na boca, bochechando, antes de engolir. Não fora “pro vinagre”! Agarrei a garrafa, tirei-a de sua mão, repeti os seus gestos, e maravilhada, reconheci o melhor vinho que jamais tinha provado em minha vida, aquele que aparecia na nossa mesa pelas mãos de Alberto. Só que agora, eu percebia o alcance daquilo tudo. A mensagem contida desde o começo naquelas garrafas sem rótulo, que chegavam ainda um pouco empoeiradas pela mão do nosso abençoado beberrão. Estávamos diante de toda uma safra excepcional, de quarenta anos atrás, a verdadeira herança dos meus avós, da qual eu tenho dúvidas sobre o conhecimento de meu pai, que morrera endividado.
Como então havia um subterrâneo como esse, vastíssimo, que se estendia sob todas as dimensões do casarão, sem que meu pai o tivesse mencionado uma vez sequer em sua vida, e muito menos em seu leito de morte ou no testamento? Com pudera meu avô construir aquilo, sem seu conhecimento e da minha mãe? Talvez aquilo já existisse ali há muito tempo, certamente construído por escravos, em épocas tenebrosas, com outros fins.
Agarramos uma garrafa cada um de nós, e saímos. Eu já sabia o que fazer. A primeira providência seria chamar um especialista, um enólogo, para que julgasse o nosso vinho, desse o veredito. Tudo dependia da qualidade dessa safra.
Excitadíssimos, fizemos o percurso de volta, fechando a parede à nossa saída, e com as nossas lanternas cuja luz tremeluzia em nossas mãos trêmulas de emoção, retornamos aos nossos quartos.
Aquela noite eu amei Aline com todas as forças do meu entusiasmo renovado, e dormimos abraçadas e saciadas. Eu já estava feliz, por antecipação. Sempre tive a vocação da esperança, e algo me dizia que aquele vinho seria a nossa salvação, o verdadeiro sangue da nossa terra, que corria novamente em nossas veias.
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De manhã cedo tivemos nosso quarto invadido pelas crianças, alegremente, como um bando de pássaros matinais. Rodearam nosso leito, falando ao mesmo tempo, rindo, nada espantadas de nos verem juntas sob o mesmo lençol, as maravilhosas crianças! Beijavam-nos, perguntando em alegre expectativa as novidades auspiciosas que pressentiam.
–Crianças,–eu disse– reunião geral no jardim às 9:00 horas. Todos lá, no nosso quartel general! Revelarei a vocês as novidades. Vamos, vamos! Saiam agora para nos banharmos e vestir-nos.
Após um alegre café da manhã, com Lúcia, Geraldo e Patrícia, em que meu cunhado não parou de me olhar com desconfiança, estranhando a minha animação, puxei Patrícia para o nosso encontro no caramanchão.
Ali reunidos, fiz um certo suspense com as crianças, que pulavam de excitação, em torno de mim e Aline, e anunciei:
–Crianças, descobrimos algo que pode salvar a nossa estância. mas não posso ainda revelar a vocês. É melhor assim , creiam. Assim evitaremos possíveis decepções. Mas conto com a discrição de vocês. Lembrem-se do juramento, meus pequenos espiões? Então, necessito da fidelidade, a toda prova, de cada um de vocês. E disciplina, somos uma equipe, não somos? Continuem investigando. No final, vocês terão uma bela notícia, espero. Salvaremos a estância. Mas por ora, permaneçam, como sempre espionando os adultos. Eu lhes prometo beijos e alegria no final, para sempre.
As crianças deram pulos, e abraçaram-me uma a uma, e à Aline. Emocionada, tive um ligeiro pensamento temeroso, de que algo pudesse nos decepcionar. Mas afastei, como de costume, esse pensamento. Os deuses não poderiam nos faltar, pois eu os amava como nunca.
Fui passear com Aline, muito além do jardim, penetrando naquela fronteira onde o Pampa se fazia ver inteiro, com as flores silvestres saudando-nos na planura semeada de raras e esparsas árvores, algumas imponentes, ao longe. Olhei Aline nos olhos, seus lindos olhos azuis e disse:
–Meu amor, quero cavalgar contigo, lado a lado. Se tiveres medo, continuarás na minha garupa, bem agarradinha a mim. Quero correr como nunca este Pampa. Ele é meu, ele é nosso, novamente. Eu não o perderei nunca, eu acredito. Venha, venha, selemos nossos cavalos.
Voltamos, procuramos Galdério, que nos selou dois pampeiros, e ajudou-nos a montar. Saímos do território do casarão e entramos na pradaria, seguidas por pássaros e borboletas, segundo me pareceu, acreditem. Tudo me parecia auspicioso, e o lindo dia, sem nuvens, num azul puríssimo refletia-se nos olhos da minha Aline, com um fulgor inesquecível. Galopamos como nunca, e eu me admirei de ver a coragem de Aline, galopando, pois ela nunca o fizera antes, sozinha. Sua alegria lhe dava essa harmonia com a montaria, e mais uma vez eu a queria comer de beijos, engoli-la, coloca-la dentro de mim, minha maravilhosa Aline, minha parceira, minha amada. Com ela eu repartiria minha herança, meu corpo e minha alma. Senti-me voando sobre o pampa, chegando até as Missões, rodeando pelo ar as ruínas do nosso passado grandioso. E essas ruínas se tornaram, nesse ligeiro delírio, as bases do nosso casarão ressuscitado. Martim Fierro corria conosco, ao nosso lado, Rodrigo Cambará e sua Bibiana, Ana Terra e os índios com suas faixas vermelhas na testa, numa cavalgada imensa, que nos escoltava em nossa alegria, nosso entusiasmo revivido.
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Escrevi uma cuidadosa carta para Hermann, o enólogo e sommelier em Porto Alegre. Citei meus avós, além do nome da nossa estância e dos nossos vinhos mais conhecidos, mas sobretudo o nome de meu pai, que ele disse conhecer. Pedi-lhe que viesse hospedar-se em nossa casa, que o receberíamos com todas as honras, para que ele nos brindasse com os seus conhecimento e desse o veredicto sobre a nossa safra recém descoberta. Agucei-lhe a curiosidade, com as minhas palavras calculadas, acredito. Depois lacrei a carta, à maneira antiga, com lacre vermelho e as minhas inicias A W, e selei-a. Fui à cozinha, tomando cuidado para não ser observada por ninguém, e chamei Galdério. Pedi-lhe que levasse a carta à agencia de correio da nossa estação ferroviária. Pedi-lhe discrição, que pegasse a charrete e acaso fosse interceptado por Solange, não mostrasse jamais a carta e fornecesse um motivo qualquer para a sua saída, uma compra de material de escrita, para os meus poemas, por exemplo. Encontrei a seguir Patrícia, que me puxou pela mão para o seu quarto, e abriu-se:
–Tia Alma, por favor, manda Galdério levar minha carta também, eu sei que tu deste a ele uma carta para levar. Perdoa-me espionar-te. Mas é a oportunidade que tenho, tia, por favor, leva a minha carta também. Assim mamãe nada perceberá.
Peguei a sua cartinha, levei-a aos seus lábios e abracei-a a minha sobrinha por uns segundos de infinita ternura. Saí rapidamente e encontrei Galdério encilhando a égua e preparando a charrete. Confiei-lhe também a carta da minha sobrinha., recomendando que a escondesse com sua vida, caso Solange o interpelasse no momento de sua saída ou à sua volta, em qualquer tempo. Eu sabia que Galdério me seria sempre fiel. Por que eu sabia disso? Porque ele acreditava que me devia a vida. Eis a estória:
Quando eu era ainda adolescente, Galdério, homem feito, tivera um período conturbado, em que praticamente se viciara no jogo de truco, a dinheiro, e endividara-se com outro peão. As dívidas de jogo são sempre sagradas, e ele não podendo saudar sua dívida estava jurado de morte por um peão truculento, que tinha fama de já ter despachado mais de um desafeto para o reino da Salamanca. Esse homem brigava de faca como um demônio e atirava como um capanga de Satã. Galdério andava apavorado e estava prestes a enfrentar o outro gaúcho, num duelo a faca, do qual na certa não sairia vivo. Tendo sabido disso pelo desabafo desesperado de Matilde, sua irmã, não tive dúvidas, e reuni todas as minhas economias e um pouco das de Rôdo, e dei-as a Galdério para que saudasse a sua dúvida, recomendando a ele que não jogasse nunca mais. O gaúcho caiu-me aos pés e beijou a fímbria do meu vestido, comovidamente, dizendo;
–Senhorita Alma, devo-te a vida. Serei fiel à minha patroinha por toda a vida. Conte comigo para sempre até a minha morte e além dela. Eu velarei pela senhorita como uma sombra, e não permitirei que nada ameace a tua felicidade, no que estiver ao meu alcance.
Senti-me como uma princesa, e pousei minha mão no seu ombro, abençoando-o. Agora eu sabia que ele se deixaria torturar sem jamais revelar meus segredos, e por extensão, os dos meus protegidos. Podíamos confiar nele.
Fui em seguida procurar Rôdo. Encontrei-o charqueando, cortando com a sua faca de cabo de prata, tiras de uma manta para o nosso almoço, enquanto a chaleira chiava, para o mate. Parou e preparou o chimarrão para compartilhar comigo. Estava bem, apaziguado. Ele também tinha esperança no nosso vinho. Disse-me:
–Alma, se aquela safra de quarenta anos, for como pensamos, excepcional, talvez possamos saldar a nossa dívida, ser soubermos negociá-la bem, com eficiência. Para isso teremos que evitar ao máximo os intermediários. Eu mesmo quero vendê-la para os grandes restaurantes. Mas precisamos também fazer algum tipo de propaganda, pelo menos entre os aficionados. Alma, tu terás de desenhar um belíssimo rótulo, e projetar folhetos e textos que incitem a curiosidade e o apetite, a sede dos possíveis clientes. Minha irmã, dedica-te a isso assim que tivermos a prova e a nota do nosso especialista. Conto com a tua mais bela obra de arte. Tu já sabes como chamará o nosso vinho?
–Sim, Rôdo, eu já sei. Vamos batizá-lo de “ Ara dos Pampas” e o rótulo será circular, disso já tenho certeza. O desenho ocorrerá na hora. Confio na inspiração do momento. Mas as letras devem ser góticas, em homenagem aos nossos avós. Foram eles mesmos que nos legaram a salvação de nossa casa, a nossa Herança.
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FIM do Capitulo Segundo
ALMA WELT
A HERANÇA
CAPÍTULO TERCEIRO
O SANGUE DA TERRA
"Cuspir deixa boca seca
Não dependendo do ano
No nordeste dá a Seca
Mas no sul dá Minuano".

(Do Cordel “´Máximas do Trovador Sertanejo”
de Guilherme de Faria)
O Sangue da Terra
Dois vultos montados trotavam no Pampa, envoltos nos palas sob o frio enregelante do minuano. Naquela madrugada do ano de 1974, chegariam à nossa estância, os irmãos Matilde e Galdério, vindos do “Oriente”, onde trabalhavam para hacienderos uruguaios que afinal os decepcionaram. Voltavam então para o nosso lado, com o linguajar eivado de expressões castelhanas, mas dispostos a reconquistar seu lugar no pampa brasileiro de seus antepassados. Meu pai os receberia, pois uma carta elogiosa os antecedera, recomendando-os. Eu já era nascida, Matilde foi a parteira de Rôdo, e praticamente criou-o, com um amor e dedicação toda prova. Galdério seria o meu pajem, meu servidor, até aquele momento em que salvo por mim, de sua dívida, elevaria a sua dedicação a um nível de devoção que tantas vezes me comoveria.
Minha infância na estância, foi de um modo geral, maravilhosa, graças ao carinho de meu pai e seus ensinamentos, à grande emulação que senti com seu pendor artístico, mas também pela dedicação daqueles dois irmãos. Também Rôdo, que seria sempre um amor da minha vida, meu irmãozinho mais novo e o mais cheio de personalidade, vitalidade e, talvez de intensidade, de todos nós. Ele daria muito trabalho aos meus pais, muitas preocupações.... mas para mim ele foi uma das fontes da alegria, tendo exercitado a minha alma no amor. Na verdade ele foi o primeiro, pois o amei mais que a um irmão, e não me arrependo disso. Não me arrependo de nada, embora tenha sido magoada por isso, pela minha mãe. Eu seria sempre a pequena rebelde, quase transviada, para ela, enquanto para mim mesma, tive sempre a certeza das razões inquestionáveis do meu coração, de sua sabedoria, que me conduziu sempre em meu caminho de artista predestinada. Não me deixei jamais, e disso me orgulho, contaminar pela culpa, pelos remorsos, por qualquer fantasma de “pecado” que me quisessem impingir. Assim também Rôdo, talvez pelo meu exemplo, passou incólume por aquele episódio e continuou fiel e leal ao nosso pacto de amor, e a prova disso, foi paradoxalmente, o grande número de paixões, namoros, amantes, de que iria desfrutar ao longo de sua juventude, sem nunca renegar a sua afeição incondicional à mim, sua irmã querida, a quem ele beijava as palmas das mãos toda vez que reencontrava, em sua turbulenta existência de jovem aventureiro.
Por outro lado, Solange se constituiu na sombra ameaçadora de minha vida. Minha irmã mais velha não disfarçava seu ciúme, sua implicância, seu despeito diante do afeto do meu pai e do meu irmão por mim, que ela nem sequer sabia disputar. Ela não entendia que esse afeto era natural, fruto de nossas afinidades de artistas. Perseguia-me com sua vigilância, seu moralismo rancoroso, e freqüentemente intrigava-me com minha mãe. Mas tenho que contar aqui um episódio estranho da nossa convivência na infância, em por um momento ela me comoveu:
Eu era adolescente de dezesseis anos, e minha sensualidade espontânea e um tanto acima da média daquela época, fazia-me o alvo das críticas e implicâncias de minha irmã Solange, e da vigilância de minha mãe açoriana, que na verdade eu conseguia habilmente driblar.  
Rôdo fora excursionar uma temporada com seus colegas da escola, deixando-me um tanto só e carente, num período de introspecção melancólica, quando recebi a notícia da chegada de uma prima alemã que vinha da Bavária, conhecer os parentes brasileiros, do extremo sul do Brasil, em especial a prima Alma, de sua mesma idade, e de que lhe falaram tanto em cartas: a prima bela que escrevia poemas, dançava balé e pintava, que era eu.
Assim, eis que afinal chegou a prima (vou chamá-la Helga), e me surpreendeu. Uma linda alemã, loura, de olhos azuis, tipicamente germânica, cujo elemento de surpresa portanto era outro, que não as suas características físicas, mas o timbre ativo, quase viril de sua sensualidade inesperada. Helga chegou, botou seus olhos sobre mim e se apaixonou, imediatamente. Eu estava um tanto surpresa, embora estivesse acostumada à recorrência desse fato, já então, em minha vida desde a infância.
Mas Helga, sendo bela e prima da mesma idade, não levantaria jamais suspeita em minha mãe, embora o fizesse, sim, em Solange, minha irmã, e espiã incansável. Consegui, no entanto ficar a sós com minha prima e confidenciei-lhe precipitadamente, como um acordo tácito ao primeiro olhar, a situação de vigiada em que vivia, sem necessitar explicar a causa, naturalmente. Pronto, estávamos entendidas, e estabelecida a cumplicidade. Dali por diante, pegávamos a mão uma da outra e fugíamos para cá e para lá, em busca dos recantos relativamente seguros que descobríamos, para despistar Solange. E isso, por si só fazia nosso coração bater mais forte e nos aproximava mais e mais. Logo passamos a nos beijar nos lábios, para comemorar, assim que descobríamos novo esconderijo. O perigo daquele jogo de esconde-esconde, com a megerinha da minha irmã, e a ameaça repressora de Ana Morgado, minha mãe, tornava aquela temporada aventurosa para duas meninas, e começamos, conseqüentemente, a nos sentir apaixonadas. Como dormíamos no mesmo quarto, com a Lúcia, minha outra irmã meio sonsa, mas que permanecia neutra conquanto eu suspeitasse ser uma disfarçada agente de Solange, nossa noite só começava quando ela estava seguramente adormecida, e levantávamos de nossas camas, pé antepé, fugíamos do quarto e atravessando a sala do casarão adormecido, alcançávamos a varanda e atingíamos o jardim florido, fantasmagórico, prateado sob a imensa lua de verão, e chegávamos de mãos dadas e já aos beijos à minha antiga casa de bonecas, que embora pequena nos oferecia uma relativa segurança, pois eu levava meu cadernos de poesias, como um álibi, para pretextar confidências poéticas de moças, ou uma ajuda na versão dos meus versos para o alemão, caso fôssemos surpreendidas. Para todos os efeitos eu estaria lendo meus novos poemas para Helga, já que tivéramos insônia.
Ali, caíamos nos braços uma da outra, em beijos apaixonados, ofegantes, com o coração aos pulos, como eu ficava também com o Rôdo, em análogas situações. Helga era ardente, como eu, e nossas afinidades me deixavam em êxtase, eu não me sentia mais só, jurando amor eterno uma à outra. Logo estávamos deitadas num colchonete que eu camuflava na casinha de bonecas e que estendíamos no chão para passarmos a noite abraçadas e aos beijos, até o alvorecer, quando os cantos dos pássaros, junto com os primeiros albores, nos recordavam a cotovia e o rouxinol de uma Julieta duplicada, que éramos nós, que contínhamos um Romeu, também, em nossas almas apaixonadas.
Nossas noites foram ficando mais e mais ardentes e excitantes, e logo estávamos instintivamente nos descobrindo em nossas reentrâncias mais recônditas, apalpando-nos, ofegantes, com o coração acelerado de medo e paixão. Ficávamos com nossas lindas e rosadas vulvas encharcadas por dentro como já constatávamos e provávamos. Já procurávamos instintivamente a maravilhosa e feliz posição de sessenta e nove, nuínhas, suadas e febris, nas noites do verão de nossa ardente juventude, encontrada em amor e desejo na minha casa de bonecas, no meu jardim, com aquela linda alemãzinha, hóspede do meu coração, para sempre, eu pensava, e do meu Pampa, que eu queria estar apresentando a ela em sua essência e plenitude, mas que só podia oferece-lo em meu corpo de donzela germânica, como o dela mesma.
Então, como sempre acontece nas verdadeiras estórias de amor, o destino interferiu, para apartar os amantes. Fomos flagradas: Solange que seguiu-nos uma noite, ela também de camisola e saída do seu leito como um cão farejador do nosso rastro de amor, abriu violentamente a porta de minha casa de bonecas, e pegou-nos nuas, e com as mãos em nossos sexos molhados, cujo perfume dominava o pequeno ambiente do nosso “ninho de amor”. Com olhar furibundo, a pequena megera, gordinha, e invejosa, gritou: “Vocês, hem, sem vergonhas? Vocês vão ver, quando mamãe souber. Vai expulsar a Helga e botar a ti no internato, tu vais ver, depois de uma surra de vara de marmelo! ”
Meu coração parou, mais do que de medo, de vergonha e humilhação diante da minha pequena amante, que não entendeu as palavras ditas em português mas captou-lhes o perigo, na entonação detestável e tirânica de Solange. E então, comecei a implorar, por Helga, por nós, de joelhos diante da opressora.. Segurando sua mão gordinha, eu ali , nua a seus pés me humilhava na tentativa de poupar maior vexame ao meu amor, e sua perda irreparável, eu pequena melodramática, como uma princesa de insólita opereta, estava prestes a abraçar as gordas pernas da megerinha.
Então o improvável aconteceu. Helga, a alemãzinha, ergueu-se nua, como uma ninfa ou náiade do luar, branca e loura como uma aparição de beleza, e estendeu o lindo braço, suavemente, para Solange e tomou-lhe a mão nas suas, olhando-a mesmericamente nos olhos, e sussurrando em alemão:”Komm, komm, meine Geliebte, und schlieβ’ Dich uns an!...    Venha, venha meu amor , junte-se a nós .
Eu, atônita, pega de surpresa por aquele gesto inesperado, que no entanto, pela sua suavidade, não soava como um saída desesperada, de minha amiga, paralisada vi minha namorada, meu amor, abraçar Solange desarmada, que começou a tremer enquanto a ninfa loura a despia de sua camisola deixando-a cair a seus pés, e eu que olhava com ternura verdadeira, percebi, as formas redondas de minha irmãzinha mais velha, não destituídas de encanto, na verdade, como as de uma camponesa germânica de outrora, com o seu tufo ralo de pelos ruivos encimando-lhe o acolchoado e alvo monte de Vênus. E então, pasmem, vi Solange, a feitorinha implacável, tremendo emocionada dos pés às faces de gordas bochechas coradas como maçã, enrubescida de emoção, ajoelhar-se junto com Helga, sobre o colchonete, no abraço envolvente, apaziguador, daquela surpreendente alemãzinha, e juntas deitarem-se, olhos nos olhos, os de Solange cheios de lágrimas de insuspeitada gratidão.
Também a minha irmã queria o amor. Também a menina gorda, de beleza recôndita, num minuto revelada, necessitava, como eu... amar e ser amada!
Quanto à Lúcia, a segunda, esta era dominada por Solange e passou uma vida constrangida, praticamente apagada em seus anseios, que desconhecíamos. Casaram-se com homens medíocres. Talvez Alberto escape a essa classificação, uma vez que os alcoólatras, ao que parece, têm inteligência e sensibilidades superiores, mas infelizmente acompanhadas por um lado emocional defasado, imaturo, de criança mimada. Trata-se de um tripé manco, que desequilibra o conjunto. Tornam-se insuportáveis quando estão bêbados (e quase sempre estão bêbados ) e somente podemos perceber aquela sensibilidade e inteligência nos poucos momentos de relativa sobriedade, principalmente nos primeiros estágios da doença, antes de se transformarem em verdadeiros monstros psicológicos, nos estágios finais. Alberto estava, ao que parece, no começo do terceiro estágio, onde o macaco ainda se fazia ver e rir, antes que o leão tomasse o seu lugar. O último estágio, o do porco, eu esperava que não chegasse nunca. Não podia sequer pensar nisso. Meu cunhado, na verdade, parecia gostar de mim, à sua maneira, sempre abaixo das garrafas, já que a parte afetiva era constantemente minada pelo álcool, que acabaria por exterminá-la completamente. Eu me condoía por isso, pela minha sobrinha Patrícia e seu irmãozinho, crianças lindas que naturalmente sofriam muito com um pai assim, fazendo-as amadurecer precocemente. Quanto a Solange, isso só exacerbaria seus defeitos, como típica co-dependente que era.
Patrícia, desde a mais tenra infância revelou-se uma criança iluminada, de uma pureza e candura à toda prova. Sua doçura era a de um anjo, e agora, apaixonada pela primeira vez, comovia-me como nunca, pequena Julieta que começava a ser perseguida em sua paixão. Solange não permitiria jamais o namoro de sua filha com um colega, romeuzinho de escola, sem fortuna, e com um brinquinho na orelha.
Eu estava disposta a ser uma espécie de ama, quase uma alcoviteira, uma vez que confiava no coração de minha sobrinha, e vira numa fotografia recente a pureza absoluta nos olhos de seu Romeu, belo adolescente que segundo ela, a adorava, o que era fácil de acreditar. Sempre estive convencida de que o amor, em qualquer idade, é o único que importa nesta vida. Nada do que me disserem pode tirar-me essa convicção, romântica incorrigível que sou. O que pode ser mais importante para a vida que os afetos, que o supremo afeto? Tudo o mais é balela, conversa de gente grande, com dizíamos em nossa infância, com certa desconfiança, pois o que meu pai mostrava em seus livros maravilhosos eu podia sempre entender e me identificar imediatamente: o mundo grandioso da arte e dos artistas, seus sonhos verdadeiros. "A poesia é o autêntico real absoluto. Quanto mais poético, mais verdadeiro”. Esta frase de Novalis daria a diretriz à minha vida.
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Galdério pusera as cartas no correio, e só nos restava, a mim e Patrícia, aguardar. É claro que a expectativa colocava as respostas como decisivas para os nossos destinos, e a ansiedade nos fazia andar pela casa, pelo jardim e pelo pomar, entreolhando-nos, cúmplices, torcendo as mãos, disfarçadamente, como duas meninas prestes a fugir da escola.

Afinal após uma semana de agonia, recebemos nossas respostas. As cartas que Gaudério foi buscar na agência, nos dariam novo alento.
O enólogo a quem eu escrevera estava a caminho e o Romeu de Patrícia respondera-lhe com uma singela carta de amor, que a deslumbrara. Seus olhos brilhavam, enquanto beijava o papel mil vezes. Abraçava-se a mim em risos e lágrimas, e meu coração queria abarcá-la toda, esse anjo de pureza, de amor. Como é belo o ser humano(eu pensava), quando é belo! Imagem e semelhança de um anjo, senão do próprio Deus ( eu ainda via o Deus cristão com uma grande barba grisalha, sósia do meu pai, esta é que era a verdade ).
À mesa, durante os nossos almoços, eu saboreava o vinho de Alberto com renovado prazer e sorria-lhe, o que o deixava satisfeito, ao que parece. Ele então enchia-me várias vezes o copo, querendo embebedar-me como sinal de afeto ou cumplicidade de bêbados. Solange, naturalmente, vigiava-nos e parecia intrigada, desconfiada. O que tramávamos nós, os do outro lado? Olhava Rôdo com seus olhos inquisidores, mas meu irmão era o melhor dissimulador de nós todos. Seu cinismo era maravilhoso, e eu podia então compreender por que ele tinha tanto sucesso com as mulheres, como nas mesas de jogo, onde nunca perdia mais do que ganhava, exercitando o seu talento para o blefe, como um esporte, não como um vício, ao contrário de Geraldo.
Laís olhava para o meu irmão com admiração visível, senão com adoração. Essa moça talvez fosse a companheira ideal, pois o acompanharia pelos cassinos do mundo, ajudando-o a blefar, talvez a roubar no jogo. Um adorável casal de aventureiros. Num certo sentido eu os invejava, pois pareciam, a mim, habitantes do mundo real, incerto e aventuroso, mas nunca comezinho, e pouco cotidiano, enquanto eu me sentia a eterna moradora do mundo dos sonhos, do pensamento e da imaginação quase sem limites, sem dúvida, mas impalpável: o mundo que eu conseguia apenas projetar como um reflexo, no papel e nas telas. O mundo da Arte, miragem do real, mais nítida, talvez, que a realidade, mas que se esvanecia ao tocar.

Levantei-me da mesa, ligeiramente “zoró”, com as repetidas taças de vinho, a que eu me dera o direito de brindar, interiormente, saboreando o delicioso néctar que me parecia realmente superior. Minha esperança me dava um brilho, que malgrado a embriaguez, foi notado pelos meus irmãos e cunhados, e que divertiu as crianças. Cambaleei um pouco ao caminhar, e Rôdo correu a amparar-me, aproveitando para cochichar em meu ouvido :
–Alma, vá curar o pilequinho, e depois encontre-me a meia noite na biblioteca. Preciso falar-lhe.
Dei um a pequena gargalhada, abraçando-me a ele, e passando a mão no seu rosto. Eu via a mim mesma nessas atitudes, divertindo-me em fazer um gênero libertino, só para escandalizar minha irmã e cunhado. Aline correu a substituir Rôdo, e encarregou-se de me levar ao quarto. Sentada no leito afinal, puxei Aline sobre mim, como para cobrir-me, com seus lábios sobre os meus. Aline deixou-me fazê-lo, mas logo levantou-se e cobriu-me com a manta, fazendo schchchch... Adormeci.
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Fui acordada à meia noite por Aline, com um chimarrão, e pondo-me de pé, à força, disse:
–Alma, acorde, você tem um compromisso com Rôdo. Vamos à biblioteca, eu vou com você, Rôdo permitiu.
A ligeira embriaguez sumiu, eu estava acordada. Lavei o rosto com água fria e saí com Aline, mamando no chimarrão. A casa estava às escuras, silenciosa, e uma vez no escritório, dei com Rôdo, com uma carta aberta na mão.
Alma, o “expert” chega amanhã. Vamos buscá-lo na estação. Ele aceitou vir, pelo nome do nosso pai, que ele já conhecia. Tudo está correndo de acordo com nossa expectativa. Mas, na verdade, chamei-a aqui por outra coisa. Encontrei nos arquivos do Vati, uma carta, em alemão, que eu jamais imaginara existir, veja isto, vou traduzi-la para que Aline também a entenda:
"Meu caro filho
Aí, onde estás, na terra dos nossos antepassados, imerso em estudos, como espero, não sabes dos imensos trabalhos a que eu e sua mãe nos dedicamos neste pedaço do Pampa que nos coube. Plantei o vinhedo que eu devia aos meus pais, que prometi a eles, ainda lá nos Sudetos. A terra desta pradaria aceitou a vinha, surpreendentemente, esta é que é a verdade, pois os vizinhos riam de mim, por esse sonho, e abanavam a cabeça. Mandei tecer com palha grandes paraventos para ludibriar o minuano, em torno do parreiral. A vinha cresce, dela virá o nosso vinho, para o qual ainda não tenho nome. Não tenho sequer as uvas, na verdade. Mas tudo leva a crer que conseguiremos, com trabalho e inteligência. Já pus-me a construir o lagar, os tonéis de madeira, e a adega, pondo o carro na frente dos bois, com se diz aqui, tal a minha confiança.
Quero pois, que uma vez formado, voltes logo, preciso de ti aqui.
A terra precisa de todos. Aproveite pois, para estudar a química dos vinhos, como estudas a química do sangue. Lembra-te que o vinho é o sangue da terra, como disse Odisseu ao gigante Polifemo, naquele livro que me leste. Como vês, teu pai, ignorante lavrador, apreendeu um pouco das tuas metáforas de poeta, não é?
Venha pois, filho, assim que puderes, que a vinha precisa de ti.
Teu pai
Joachim Friedrich
Emocionei-me com a carta, que senti extremamente auspiciosa. Tive imediatamente a idéia de transcrevê-la, no original alemão, no rótulo traseiro e nas caixas do nosso vinho, os quais eu mentalmente já projetava com um desenho circular que simbolizaria o “eterno retorno” nietzcheniano, em que a alma, ou melhor dizendo, a Anima se inscreveria, de costas como ela costuma aparecer, com o cabelo cor de vinho, e carregada de figuras, que nos cabelos se transformam em folhas de parreira. Suas formas seriam as do meu torso, das minhas espáduas, da minha nuca e do meu cabelo, eu decidi. Eis o desenho que afinal eu realizaria:
(Aqui entra como ilustração o desenho circular do rótulo)
Abracei Rôdo, e Aline juntou-se a nós nesse abraço. Nossa esperança nos enchia de euforia, e como crianças, beijamo-nos nos lábios, tendo Rôdo beijado Aline também, o que me causou um estranho sentimento. De ciúme? Não, de completude.
Laís entrou na biblioteca nesse momento, atrasada. Não teve tempo de participar dos abraços e beijos. Resolvi então, que provaria os lábios daquela bela mulher, já que Rôdo o fizera com Aline. Não como vingança, mas para que o congraçamento, a união se fizesse completa. Foi o que fiz, para surpresa dos três. Aproximei-me de Laís e beijei-a nos lábios, docemente. Ela ficou imóvel, pestanejando, surpresa. Retirei-me com Aline, que enfiava a unha na minha cintura.

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No quarto, Aline atirou-se sobre mim e praticamente me devorou de beijos, mordidas e lambidas, numa sofreguidão quase furiosa. Apertava meus seios até doerem. Desceu lá em baixo para agarrar meu clitóris com os dentes, e por um momento temi que ela o decepasse. Introduzia seus dedos nos meus orifícios, abrindo-os, que chegaram a doer. Eu gemia, e não tardei a soluçar. Caí num choro copioso, que afinal me dava grande alívio. Eu precisava disso:
–“Aline, Aline, meu amor, bata-me, bata-me no rosto, bata-me na bunda. Sou tua guria travessa. Preciso ser castigada. Ponha-me de castigo. Pegue a vara de marmelo da minha mãe. Açoite-me. Quero sangrar. Estou sangrando de amor, de esperança, e de sede de viver. Quero morrer de tanto apanhar, de tanto gozar de amor, contigo. Quero que bebas aquele vinho na taça dos meus lábios. Também nos de baixo. Quero tudo, quero tudo, meu amor!”
Aquela noite rolaríamos na cama, nuas, como duas loucas bacantes, numa celebração condigna, do vinho e do sangue. Dioniso presidiria também os nossos sonhos, cheios de imagens auspiciosas, alegres e confusas, enquanto provavelmente sorríamos no nosso sono, abraçadas, saciadas.
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Afinal chegou o dia de recebermos o “expert”, o enólogo, chamado Hermann, que tanto esperávamos. Eu estava tensa aquela manhã quando fui buscá-lo na estação, com Galdério, na charrete.
Era um cavalheiro de meia idade, de cabelos grisalhos, elegante, num terno muito bem cortado e com uma pasta de couro, belíssima, na mão. Subiu na charrete ao meu lado, um pouco apertado, claro. Como um lord inglês, depois de me ter saudado com certa cerimônia, mas com um sorriso agradável.
Fui descrevendo, melhor, interpretando alguns acidentes da nossa paisagem, de uma maneira inspirada, que o fez soltar pequenas gargalhadas. Esse homem era simpático, como o são em geral os bons conhecedores de vinho, mas eu senti que estava querendo conquistar a sua simpatia, como se isso fosse influenciar o seu julgamento, favorável, ao nosso vinho. Uma espécie sutil de suborno, inútil. Os enólogos costumam ser os mais incorruptíveis profissionais que existem.
Chegando ao casarão, fomos quase que diretamente para a mesa de almoço. Não serviríamos, claro, nenhum vinho, mas sim a água puríssima da nossa fonte. Seu paladar deveria estar limpo para a apreciação solene, de tarde, do vinho da nossa esperança. O vinho supremo dos meus avós.
O almoço transcorreu alegre, apesar da curiosidade e estranheza manifestada por Solange e meus cunhados, que nada sabiam do motivo desta visita. Hermann submeteu-se à algumas perguntas de Solange, Geraldo e Alberto, que lhe causaram surpresa. Pensava que todos ali sabiam de sua missão. Disfarçamos bem, Rôdo e eu, como se ele fosse apenas um amigo nosso, mas Solange, naturalmente, permanecia desconfiada:
–Com que então o senhor conheceu Rôdo na França, hem? Como nunca ouvimos falar disso, Rôdo? Bem, nada sabemos da tua vida, não é, meu irmão? És tão misterioso. Não sabemos por onde andas a maior parte do tempo. Mas é simpático o teu amigo. Percebe-se que é muito viajado. O senhor reside onde, seu Hermann?
Nosso hospede mostrou-se um tanto constrangido com a atitude de Solange, e olhava para mim e Rôdo, como pedindo orientação para lidar com aquela Harpia.
Enrolamos Solange o quanto pudemos. Queríamos fazer uma surpresa a todos. E Hermann colaborou conosco, ocultando instintivamente a sua especialidade.
Recolhemo-nos após o almoço, aos nossos quartos para uma sesta, e o nosso hóspede teve as honras da melhor suíte da casa. Quanto a mim, saí com Aline e fomos andar abraçadas no jardim florido.
Pusemo-nos logo a fazer o nosso balé sutil, eurítimico, colocando flores nos cabelos uma da outra, assim que percebemos que o nosso hóspede nos observava da janela do seu quarto. Esmerávamo-nos nos gestos, nos toques de mão, nos movimentos de braços, lentos. Um semi-sorriso de Giocondas nos lábios, para dar mais leveza ainda à nossa dança... e mistério. Sentimos, dali, a uma certa distancia, o nosso hóspede fascinado, até que este cerrou a cortina, sonolento. Abraçamo-nos numa gargalhada cristalina, meio abafada, travessas, sedutoras.
Às quatro horas da tarde, estávamos no salão para a prova do vinho, Solange, Lúcia, Alberto e Geraldo, todos. E até as crianças, curiosas. Os adultos, atarantados, sem saber o que esperar.
O enólogo entrou na sala, com sua maleta. Abriu-a meticulosamente e retirou uma taça e um lenço imaculado, de dentro de um estojo. Limpou a taça por fora, com o lenço, olhando-a à contra-luz, e pousou-a na mesa. Retirou uma outra taça, diferente da primeira, e repetiu o gesto. Em seguida tirou da pasta uma garrafa de água mineral Perrier, abriu-a, e enchendo a segunda taça levou-a boca, sorveu na medida certa, e bochechou. Ia cuspir, mas resolveu engolir. Repetiu a operação. Nós acompanhávamos, divertidos, senão fascinados. Hermann estendeu então a mão para mim e apanhou a garrafa sem rótulo que lhe estendi, bastante limpa de sua poeira, quase polida por mim.
Olhou a garrafa à contra luz por dois segundos, e a seguir tirou da maleta, de um estojo, um abridor fantástico em forma de gárgula, antigo. Esse homem queria, certamente, nos impressionar. Retirou a rolha com enorme perícia, sem perder um único fragmento, eu percebi. Ergueu a taça, olhou para nós todos, rapidamente, e concentrou-se no exame visual do vinho que brilhava na taça erguida à altura dos olhos. Julguei avistar uma centelha, cor de sangue, no maravilhoso brilho transparente daquele vinho. Em seguida ele desceu a taça até próxima de suas narinas e aspirou o buquê, com um pequeno gesto circular sob o nariz. Ele segurava a taça somente pela sua base. A seguir levou-a aos lábios, sempre com um olhar absorto, para dentro, de grande concentração. Encheu moderadamente a boca, e bochechou discretamente, ou melhor, fê-lo circular em sua boca, e a seguir engoliu, olhando um pouco para cima e.. nada disse. Nem sequer sorriu. Nossa tensão atingiu o auge. Já não agüentávamos mais. Quase explodíamos. Creio que soltei um gemido.
Ele, sem olhar-nos, disse: “Safra de 1962, com toda certeza. Um Cabernet, mas com inclusão... de uma cepa alemã, do Reno. Suave, mas encorpado. Um buquê seco, raro, mas de timbre germânico, não francês. A cor, de rubi, transparente mas outonal, ouro e sangue, peculiar. Retro gosto longo. Recuo de memória no contra-pé da papila. Persistência nostálgica, quase perturbadora, mas de assimilação breve. Falsa ameaça de travo, produzindo alívio prévio, de charme nórdico, não mediterrâneo. Sabor... estupendo. O melhor vinho antigo que provei nos últimos 10 anos, dependendo da confirmação de uma segunda garrafa, pelo menos. Onde o conseguiram?”
Explodimos, Rôdo, Laís, Aline e eu. As crianças também, começaram a pular, percebendo que se tratava de uma vitória importantíssima.
Enquanto Hermann, repetia a operação, agora com uma nova garrafa, nós nos abraçávamos comemorando, aos beijos e risos, numa alegria que jamais esqueceríamos.
Abracei Hermann, surpreso, beijei-o na face e perguntei- lhe:
–Diga-nos, diga quanto vale um vinho desse. Quanto custaria uma garrafa destas num restaurante de luxo, aqui ... e no estrangeiro?
Ele hesitou um momento e, quase pedantemente respondeu:
– Aqui, R$ 1.850,75 o litro. Talvez um pouco mais, se souberem anunciá-lo com discrição, somente nos meios, e tiver um rótulo condigno.
Explodimos novamente. Fazíamos rapidamente as contas multiplicando essa cifra pelas dez mil garrafas da nossa safra. Estávamos salvos. A estância estava salva. Solange, que me encarou, espantadíssima, perguntou:
–Que significa tudo isso, posso saber? O que é que vocês tramaram? O que está acontecendo aqui?
–Solange, Lúcia, minhas irmãs, e vocês meus cunhados, ouçam. Não precisaremos vender a nossa estância, temos um vinho deixado por nossos avós, que descobrimos numa imensa adega sob esta casa. Dez mil garrafas do melhor vinho do mundo, perdoem-nos os franceses. A herança verdadeira dos nossos avós. Na verdade Alberto é que a descobriu primeiro, não é, meu cunhado?–(passei a mão carinhosamente pelo seu rosto rubicundo, sorridente.)–Vamos tratar de negociar nosso tesouro. Vamos distribuí-lo pelos melhores restaurantes de Novo Hamburgo a Porto Alegre, de Gramado e Canela, a Florianópolis e Curitiba, de São Paulo ao Rio de Janeiro, Salvador, Recife, e depois pelo exterior. Sinto que o mundo precisa conhecer este vinho para o qual colaboraram os deuses do Olimpo, com os do Walhalla... e com os numes do Rio Grande. Ele se Chamará “Ara dos Pampas”, e eu desenharei o rótulo, que já concebi. No verso da garrafa reproduzirei a carta do meu avô. A prosperidade voltará a este lar, eu prometo a todos vocês.
Solange e Geraldo deixaram cair os braços, incrédulos ou desapontados. Lúcia sorria para mim, e pela primeira vez, julguei avistar um brilho no seu olhar. Meu coração estava pleno, e beijei Aline nos lábios, na frente de todos.

Fim do segundo capítulo


Capítulo Terceiro

O julgamento de Solange

Quando o velho Joachim Welt plantou o seu vinhedo, os vizinhos, outros estancieiros, vinham zombar. Ele era motivo de risos, de galhofas. A eles aquilo parecia até mesmo uma plantação pouco viril, numa terra de gado, de charque, que bebia o sangue da manada, nutria-se desse sangue, e não do delicado sangue das uvas. O mate, ‘amargo”, complementava essa virilidade, e tudo o que era essencial se denominava no masculino. Quanto às uvas e a vinha, a palavra vinhedo era a tentativa de masculinizar aquela atividade. O preconceito era grande por aqui, e o machismo era uma característica cantada em prosa e verso, como um timbre glorioso das qualidades gaúchas. Em compensação suas mulheres eram o apanágio da feminilidade, e aquela fabulosa Anita não foi facilmente compreendida em sua época, mas sim bastante detratada, essa é que é a verdade. Mas a História, felizmente lhe fez justiça. Como agora já se faz àquela mais fabulosa ainda, Cleópatra, da Antigüidade, de quem já se descobriram até mesmo as virtudes intelectuais e mesmo científicas. A mais inteligente e sábia mulher de sua época, única talvez em muitos séculos, com tal grandeza. Nós mulheres sofremos de uma contradição interna, herdeiras que somos de uma grave parcela do machismo dos homens, que introjetamos e reproduzimos. Haja visto como as mães deste nosso país criam seus filhos para perpetuar os papéis estagnados e estereotipados do macho da guerra e da fêmea reprodutora e dona de casa. Isto é tão mais contraditório quanto mais queremos, agora, nossas filhas competentes, concorrendo num mercado “unisex” de trabalho. Como poderão as mulheres corresponder ao duplo papel que agora lhes cabe, se esses papéis permanecem dissociados em sua essência? Como fundi-los harmoniosamente? Como conciliar, como querem os discípulos de Jung, Anima e Animus, na mesma alma? Digo discípulos, porque, ao que parece, o doutor Jung achava que só o homem tinha Anima, no seu inconsciente profundo, enquanto a mulher tinha uma multidão de animus. Uma legião, como ele dizia. Estranha contradição, já que Freud, como os antigos gregos, acreditava que a mulher, em si, já era a Anima, viva, em carne e sangue. A teoria, afinal, é dinâmica, e eu, Alma Welt, me reconheço como mulher total, enquanto mulher-artista. Sou uma Anima-possuída, orgulhosa de minha feminilidade universal, que me faz amar Aline, tanto quanto amo Rôdo, o Vati e os outros homens e mulheres que passaram pela minha vida. Sei, no entanto, que preciso de Animus, em mim, dentro de mim, preciso levantar o Animus guerreiro, ou sucumbirei, me entregarei à minha vertigem de entrega amorosa, à minha necessidade de dar-me, até mesmo ser possuída às raias do aniquilamento prazeroso. Essa tendência em mim, já vitimou-me, mais de uma vez: fui invadida, ferida, humilhada. E o grande perigo que corro é sempre a minha própria anuência, minha cumplicidade inconsciente com esses crimes, que me faz apenas chorar e chorar, voluptuosamente.

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Tento viver a felicidade de estar aqui com Aline, Rôdo, Patrícia, Pedrinho, Matilde e Galdério, meu pequeno universo afetivo, em meio às preocupações que me assaltam, com as pressões renovadas dos credores. Já recomeçam as cobranças judiciais, as visitas dos oficiais de justiça, as intimações. Rodo se exalta, quer expulsá-los. Às vezes o faz, efetivamente, com uma fúria que pode incorrer em retaliações da parte de homens mais perigosos que o meu irmãozinho. Preciso ter uma nova inspiração. Ponho-me a orar. A Deus. Mas penso em voltar a conjurar os numes, e os deuses menores, que parecem um pouco mais cúmplices das paixões humanas do que o grande Pai, que paira mais alto, mais distante..
A preocupação maior que ainda me perseguia era Solange vir buscar as crianças, o que podia acontecer a qualquer momento.Eu temia o confronto que eu sabia seria penoso, talvez violento. Ah! Como eu estava certa! Chegou afinal esse dia... e foi o Dia da Ira, embora nada divina.
Tive um sonho com esse confronto, fruto talvez das minhas preocupações. E isso me fez, felizmente, acordar em pé de guerra. Pedi a Rôdo que abrisse a sala esquecida, há tanto tempo trancada, do arsenal de nossa estância. Cheia de estantes de espingardas, carabinas de grosso calibre, poucas de caça. Rôdo distribuiu as armas pelos peões da estância, pondo-os de sobreaviso, instruindo-os com um plano de defesa.

Como eu previa, chegou o dia. Carros sinistros se aproximaram da estância e adentraram a porteira, sem resistência, estacionando frente a casa e descarregando uma dezena de homens armados. Solange desceu do primeiro carro, e arrogante, com as mãos na cintura, com seu tailleur e botas de salto alto, sempre um tanto gorda, o cabelo em coque, gritou para mim que me encontrava na varanda em frente à grande porta do nosso solar. Trocamos insultos:

—Alma, sua ladra, entregue-me meus filhos, sua seqüestradora! Entregue-os já, sua criminosa!

—Criminosa és tu, assassina, ladra, destruidora da herança sagrada de nossos avós. Tu e teu cúmplice não são dignos destas crianças. Não as levarás, senão por cima do meu cadáver!

Matilde mantinha Patrícia e Pedrinho abraçados a ela no meu quarto. As crianças tremiam, depois eu soube, pondo as mãos nos ouvidos, temendo as explosões que anteviam. Patrícia chorava, e Pedrinho estava pálido e paralisado. Nossos peões nos cercavam empunhando as carabinas apontadas para Solange e seus homens, que por sua vez apontavam-nos as suas. Rôdo ao meu lado empunhava seu clavinote que mais parecia um canhão. Eu já via a “viola em cacos”, por assim dizer. Bastaria uma faísca para tudo explodir e eu temia por todos, por mim, por Aline, por Rôdo, por meus homens, e até por Solange. Estávamos num impasse perigosíssimo. Quando as armas se apontam mutuamente, a razão está por um fio, que quer romper-se, pelo chamado ancestral da força. Do primitivo em nós.

Então... Deus interveio. Entraram pela nossa porteira, cinco viaturas cheias de policiais armados, com o delegado à frente, acompanhado do doutor Loredano.

Matilde, depois eu soube, temerosa por todos nós, telefonara para o nosso advogado buscando sua intercessão junto à polícia, mesmo prevendo o que ocorreria afinal, quanto ao destino das crianças.

O delegado fez-nos depor as armas, tomou-as mesmo, de todos, no último momento, pois se demorasse um minuto a mais para chegar, tudo estaria perdido e estaríamos todos mortos. Mas o que eu mais temia, aconteceu:

—Delegado,—gritou Solange—Alma seqüestrou meus filhos. Exijo que os entregue e prenda-a e aos seus cúmplices. Isto é crime hediondo. Prenda a criminosa!

O delegado perturbou-se, mas o doutor Loredano cochichou-lhe ao ouvido, e ele ordenou:

—Senhorita Alma, entregue as crianças à sua mãe. Vamos, onde estão elas?

Eu quis morrer. Levei a mão à boca para não gritar de dor. Mas respondi, impotente:

—Delegado, a criminosa é ela, que roubou-nos dez mil garrafas da herança dos nossos avós, e fugiu com o seu cunhado, seu cúmplice. Onde está ele, aquele covarde, agora não está aqui, não é? Para não comprometê-la com a sua presença? Estou preservando seus filhos dessa aliança espúria, criminosa, dessa quadrilha. Delegado, não os leve, eu lhe imploro!

E caí de joelhos com a mão no rosto, soluçando.

O delegado hesitou um momento, mas passou por mim com o doutor Loredano que me pôs a mão no ombro, significativamente, como querendo dizer: “Calma, Alma, tem de ser assim... Aguarde...”

As crianças foram trazidas pelas mãos de Matilde e do delegado. Então, subitamente, desprenderam-se e agarraram-se a mim, desesperadamente. E eu a elas. As crianças e eu chorávamos e gritávamos enquanto o delegado e dois policiais tentavam nos separar. Nós lutávamos para nos manter agarrados e... foi uma cena dramática, ai de nós, vocês podem imaginar. Tive que ter os braços segurados por trás, para ser detida, eu gritava como uma louca, e pensei que a dor me mataria. Eu sentia como que se me arrancassem as crianças do meu útero, como se me amputassem. Não sei como posso ser assim, eu me desconhecia, toda a minha filosofia se esvaziara e... eu sangrava como uma mãe recém parida a quem roubassem seus filhos. Quando lembro disso, ainda me perturbo, e custo a acreditar que eu pude ser capaz de tudo aquilo. De quase matar, talvez, e de morrer pelos filhos que não tive e que por algum mistério, eram meus, eram meus!

As crianças foram entregues a Solange que as pôs no carro, atrás, com um capanga no meio delas, segurando-as. Elas choravam e gritavam meu nome: Tia Alma, tia Alma!

E eles partiram, todos, os homens agora desarmados, e eu fiquei ali, jogada no chão, com o meu rosto no solo da varanda, soluçando, arrasada. “Patrícia... Pedrinho...”

Matilde ajoelhada ao meu lado me afagava as costas e a cabeça, maternalmente, e chorava também. Rôdo de pé ao meu lado, tinha os olhos cheios de lágrimas. Aline segurava-me a outra mão e soluçava. O sol se punha no horizonte, e com ele a minha alma.

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Fiquei muitos dias em depressão profunda, enquanto Aline cuidava de mim, condoída, minha pobre Aline, tão jovem e inexperiente, arrastada no turbilhão em que se transformara a minha vida, mas do qual ela não se queixava. Sua dedicação, o seu amor, estavam sendo testados e se revelavam sublimes. Eu tinha que me levantar, ser digna dela, e poupá-la desses sofrimentos por minha causa.

Rôdo continuava a vender as peças do tesouro, mas eu não me interessava mais, como se a minha missão já tivesse sido cumprida quanto a isso. Eu só pensava num jeito de tirar os meus sobrinhos de sua mãe e ficar com eles para sempre, embora soubesse que isso era praticamente impossível. A menos que eu ganhasse o processo que movia contra a ela por roubo de herança e... tentativa de assassinato. Para esta última acusação eu precisava do testemunho de Alberto, meu cunhado bêbado, mas com o qual eu contava, pois eu conseguira sua lealdade, afinal. Nós nos encontraríamos todos no tribunal. O doutor Loredano começou a me instruir quanto aos detalhes do processo, e o que eu devia ou não dizer no tribunal. Ele se preocupava com o fato inegável do seqüestro que eu praticara, embora houvesse razões atenuantes para a minha ação. Mas ele sabia que Solange contra-atacaria e envolveria Aline e Rôdo no seu contra-ataque. Além disso eu sabia, conhecendo-a, que ela nos caluniaria, levantando e expondo de maneira escandalosa a natureza da minha relação com Aline... e até mesmo com Rôdo. Ia ser o escândalo do século na esfera privada, no Rio Grande do Sul.

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Os dias se passaram, as semanas e alguns meses. Eu perdera minha felicidade. O destino me punia, assim eu via. Deus me punia, pela minha busca teimosa da felicidade, pelo meu apego às pessoas, ao amor das pessoas, e talvez, das coisas. Aline estava desolada, tentava, com parcos recursos, (somente os da sua ternura imensa), levantar-me, fazer o meu amor voltar para ela, como era antes: cheio de alegria e exaltação prazerosa. Uma chuva fina caía sobre a minha alma e eu sonhava com uma pátria escura, cheia de uma nostalgia mais dolorosa que a saudade.
Mas Aline, não pensava em me deixar. Mesmo nessa travessia soturna, pelo lento rio escuro, subterrâneo, da minha alma, ela me acompanharia, amada Psiqué, na glória de sua candura, de sua pureza d’alma inatingível. Ela só temia a minha complexidade, que a desolava, que ela não podia compreender totalmente. Mas ela esperava.
Uma manhã levantei-me, novamente mais leve. Eu tinha subido. Eu mesma não sei como, nem quando, durante o sono, na alta madrugada. Minha alma atingira o fundo? Batera o pé, subira, no mesmo impulso de sua descida? Tudo são ciclos. Louvado seja o Deus de nossas almas! Não desamparadas, não sozinhas, afinal.
Estava pronta para o tribunal. Para o confronto legal e moral. Para abrir meu coração em público, mais do que o faço aqui, meus leitores sem rosto. Eu escancararia o coração e a alma. O juíz se comoveria, os jurados se comoveriam. As crianças me seriam devolvidas. Eu cria nisso.
Alegrete estava em polvorosa. Os protagonistas de um drama que beirava a tragédia, jogariam com as armas de suas verdades. Eu, pelo menos. Solange mais provavelmente com as das suas mentiras. E assim foi.
Ao soar do martelo de madeira abriu-se a sessão. A sala estava lotada. Meu advogado, que tanto me instruíra, parecia preocupado, conhecendo a minha impulsividade passional, e tentava me orientar até o último minuto. Eu, olhando para trás, via Matilde e Galdério, Lúcia, Rôdo e Alberto olhando-me atentamente. Eles temiam por mim. Que eu me descontrolasse, como viram um dia. Eles seriam chamados como testemunhas. Alberto estava quase sóbrio, se pode-se dizer assim. Daria conta do recado? Eu tinha que confiar, seu testemunho era essencial. Mas eu não era a ré, e sim Solange, acusada primeiro por mim, de roubo de herança, formação de quadrilha e tentativa de assassinato. A expectativa se estampava nos rostos de toda a platéia, e os jornalistas empunhavam seus blocos, as máquinas fotográficas tinham sido proibidas. Em compensação havia um desenhista que nos observava os rostos e a postura. Fui desenhada de uma maneira intrusa, e me lembrei do Guilherme de Faria, meu único retratista autorizado. Ele me faria justiça. Ah! Vaidade, como persistes!
Depois da advertência do juiz, de que não toleraria manifestações, Solange foi chamada ao banco dos réus. Gorda, amarga, com seu rosto duro de kapo nazista, Deus me perdoe!
O promotor a acusou formalmente, e começou a interrogá-la.
— O nome da senhora, por obséquio.
Solange Welt-Mothersohnn— disse ela.
—E és irmã de tua acusadora, Alma Welt, aqui presente? Sim ou não?
— Sim, ela é minha irmã, para vergonha de nossa família.
— Protesto, meritíssimo— interrompeu o promotor.
— Protesto aceito. A ré limite-se a responder as perguntas do promotor.
— A senhora sabe que é acusada de tentativa de assassinato de sua irmã Alma, e de furto qualificado de dez mil garrafas de vinho, que correspondem a parte do espólio de seu pai, a ser dividido por quatro herdeiros diretos, a senhora mesma e seus três irmãos, bem como dois cônjuges co-herdeiros: seu marido e um cunhado?
— Não, não reconheço isso!—respondeu Solange— Alma e Rudolf me esconderam esse item do espólio e planejaram vendê-lo sem meu consentimento e o do meu marido, para recomprar a estância toda dos nossos credores que já praticamente a possuíam, despojando-me assim da minha parte da herança. Eu apenas me defendi, ou ficaria sem nada. E tenho filhos para criar, ao contrário deles, à exceção de Lúcia.
— Mas não é verdade que tentou assassinar sua irmã, encerrando-a, naquela adega escura, o que quase a matou, naquela manhã do dia 14 de Fevereiro de 199... A senhora está consciente da crueldade inominável do seu ato?
—Não, não reconheço isso. É calúnia. Não há provas de tal ação. Eu não faria isso, e a prova é a presença dela aqui. Eu não a matei, estão vendo?
— Meritíssimo, permita-me dispensar a ré, por ora, e chamar uma testemunha, o sr. Alberto Mothersohnn, marido da acusada?
O juíz franziu o cenho e disse:
— Não, senhor promotor. O senhor não sabe que um marido não pode testemunhar contra sua mulher, nem mesmo a favor? Que absurdo! Prossiga sem esse testemunho.
Ouviu-se um oh! desolado, vindo da platéia, e também da minha boca. Cobri o rosto com as mãos. O desenhista esboçou rapidamente esse meu gesto, que apareceria na primeira página do Diário de Alegrete, e até nos jornais de Porto Alegre, como se fosse eu a ré, envergonhada e trágica.
A partir daí o julgamento começou a inverter-se e comecei a ser acusada indiretamente. Fez-se alusão ao meu seqüestro das crianças, a que Solange deu furiosa ênfase, claro, prenunciando sua desforra.
Eu via já tudo perdido. Temia ser cobrada pelo tesouro descoberto, mas Solange ainda não sabia dele, somente estranhando que já não tivéssemos perdido a estância. Percebi, bem antes de terminar o julgamento, que Solange seria absolvida, como mãe que defendia os direitos de seus filhos, e o seu direito de mãe, de sua posse. Eu seria vista como a vilã da história. Temia mais o que afinal deu-se, num certo momento: ela acusou-me de “lesbianismo”, “ociosidade”, incesto e seqüestro de seus filhos. Foi um escândalo. A platéia se agitava, houve empurrões, gritos, assovios, pateada. Formaram-se dois partidos que se digladiavam, e aquilo se estendeu para a rua congestionada por uma multidão acalorada. O juiz pediu recesso, saiu e voltou imediatamente, absolvendo a ré, e dando por encerrado o julgamento. Fomos assediadas pelos jornalistas, Solange e eu, e saímos aos empurrões, no meio da multidão. Mulheres tentavam tocar-me, algumas talvez por curiosidade ou ternura, outras com ódio. Uma mulher puxou o meu decote, que rasgou, e meu seio pulou para fora. A multidão gritava. Quase desmaiei e fui colocada num carro que partiu forçando a passagem entre os populares que batiam nos vidros. E eu ainda pude ouvir Solange gritando com um punho no ar e a outra mão apontando-me:
— Espere por mim, sua ladra, seqüestradora! Você verá! Agora é a sua vez!

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Fim do terceiro capítulo


Capítulo quarto


A prisão


Quando crianças, Rôdo e eu, tínhamos o nosso pacto de fruição sagrada do nosso território, que era tudo o que a vista podia abarcar, que o nosso olhar não repudiava, por instinto de curiosidade e de beleza. Nesse aspecto essencial éramos iguais, e isso legitimava o nosso amor, muito mais que fraternal.

Mas nossa irmã Solange, era um desses elementos que nossa vista e instinto repudiavam. Ela não era bela, nem por fora, nem por dentro. Gorda, sardenta e implicante. Uma desmancha-prazeres sistemática, cuja atuação detestável aprendemos logo a neutralizar, com um intuitivo cinismo que surgiu em nós, e que Rôdo elevaria à categoria de arte. Isso serviu, afinal, para ao menos desenvolver uma espécie de humor, que me serviria para o resto da vida, e que me defenderia do meu próprio dramatismo, também instintivo.

Assim, nos momentos exasperantes, ou dolorosos demais, que escapassem a esse termômetro do humor, eu nunca reagi de maneira meridional. Nunca como, por exemplo, reagem os italianos ou espanhóis, com fúria e cólera. Mas, eu ficava meio tonta, simplesmente, como embriagada por uma dor súbita... e desmaiava, o que causava imensa preocupação em minha mãe e em Matilde.

Solange, maldosamente, buscava encontrar esse diapasão, que me faria desligar, atingida como por um raio. Isso não era fácil, pois só o que atingia o âmago da minha sensibilidade era capaz disso. E ela nunca encontrara a chave, que consistia em tocar o cerne do meu senso de beleza... e de pureza. É como se eu desmaiasse de vergonha... por outro ser humano. Como se esse ser humano blasfemasse contra um deus ou uma deusa da qual eu era uma pequena vestal. E isso, justamente, se referia ao meu senso de beleza que norteava tudo em minha vida.

Pode parecer exagerado, mas eu era assim. E, o mais marcante dessa atitude interior, era que o parâmetro de beleza, para mim, nascia de mim mesma, do meu próprio corpo, de uma beleza que tocava e comovia as pessoas. Branca como uma pequena estátua de alabastro ou mesmo mármore de Carrara, os olhos verdes sonhadores e meus lábios e cabelos rubros e dourados ao mesmo tempo, eu era vista como uma criança sagrada, por todos... menos pela minha irmã.

Quanto à minha mãe, esta tinha uma atitude contraditória. Era como se lutasse contra a sua própria reverência, como se curvar-se a esse aspecto dominante em sua filha fosse incorrer em heresia de sua parte, em relação à doutrina católica que professava em seu lado mais sombrio: o que eu viria a chamar, no futuro, de “a doutrina do vale de lágrimas”.

Era como se minha mãe, olhando para mim, dissesse: “De que adianta tanta beleza, minha filha, vais sofrer como todos nós.” Ou “vais envelhecer e morrer, nada somos, tudo é vão. Rezemos apenas, para não irmos para o Inferno.”

Ai, Muti, tu não foste inócua, apesar de tudo, e conseguiste contaminar-me pelo menos um pouco, com a consciência do sofrimento humano... e do meu próprio sofrimento. E isso me tornou poeta. Será que devo, afinal, isso a ti?

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De volta à estância, com Aline, eu procurei assimilar esta primeira derrota judicial, e preparei-me para encontrar uma estratégia de defesa, para o contra-ataque de Solange, que eu sabia que viria em seguida.
Aline parecia um pouco assustada com a perspectiva de me ver como ré de um processo de seqüestro, e talvez de roubo, pelo menos. Quanto às outras ameaças, eu não acreditava que elas estivessem no código penal, embora incorressem num perturbador escândalo social.

Eu procurava não me preocupar demais, mas me reunia metodicamente com o doutor Loredano, para discutir os aspectos do processo, e os perigos que eu corria.
Afinal chegou a citação. Fui intimada a comparecer a uma delegacia de Novo Hamburgo, e indiciada por seqüestro, incesto e lesbianismo. Protestei imediatamente, assistida do doutor Loredano, e por Aline, que estava muito assustada. Eu não estava disposta a assumir aquela palavra, pelo tom pejorativo que emprestam a ela, mas o delegado adiantou que isso fazia parte da acusação, nominalmente, embora não coubesse pena eventual para esses “crimes”. Isso me pareceu arbitrário e exigi que retirassem esses dois últimos itens do laudo de indiciação, pois não eram crimes previstos na lei. Mas o delegado recusou, revelando-se nada condoído da minha situação. E logo percebi que era, de alguma forma, interesse dele reter-me em sua delegacia, pois resolveu (pasmem!) encarcerar-me imediatamente até o dia seguinte, enquanto o doutor Loredano, abalado, saiu afobadamente para providenciar o habeas-corpus, para que eu pudesse enfrentar o processo em liberdade. Pelo visto, Solange conseguira testemunhos do meu crime, e eu não acreditava que isso partisse da pobre Alícia... ou, talvez, esta tivesse sido pressionada demais, ou mesmo chantageada, já que tinha um filho pequeno.
Eu fiquei aterrorizada, ao ser levada (enquanto Aline gritava, separada à força de mim), para uma cela coletiva, cheia de mulheres, já que eu não tinha o superior completo.
O delegado e o carcereiro botaram-me numa cela onde havia umas doze mulheres, de aspectos diversos, a maioria prostitutas e ladras, que se alvoroçaram com a minha entrada, e me devoraram com os olhos. Uma delas, masculinizada, muito forte, exclamou: “Carne nova no pedaço!” Temi pela minha integridade física. Virei-me imediatamente e agarrei as grades, o rosto colado a elas, para olhar para fora, tremendo, e balbuciei baixinho uma súplica, que os carcereiros não levaram em conta, sadicamente.
Então, uma força divina, subitamente desceu sobre mim. Virei-me e olhei compassivamente as mulheres todas, uma a uma, que se aproximavam. Elas estacaram e recuaram, enquanto eu me dirigi para o centro da roda que formaram, e sentei-me no chão, em posição de lótus. Elas, então, uma a uma se acocoraram ou sentaram, em torno, no início de um cerimonial que se impôs pelo olhar, ou pela aura que apareceu em mim, depois eu soube. Nós iríamos celebrar, juntas afinal, alguma coisa importante para todas nós mulheres, algo de que estávamos terrivelmente necessitadas, e que nos congraçava.
De manhã, lá pelas oito horas, o doutor Loredano, com Aline, chegou com o habeas-corpus que apresentou ao delegado e a seguir entraram na carceragem. A cena que encontraram iría espantá-los e comovê-los:
Eu, Alma Welt, estava ali, no meio das ovelhas desgarradas, cujos olhos apresentavam uma nova pureza e deslumbramento, atentas à estória que eu contava naquele momento, depois de tantas pela madrugada, e umas poucas horas de sono sem desfazer aquela roda. Se tivéssemos mil e uma noites, nós as usaríamos para aquele desfiar de estórias, que nos fascinavam, que nos redimiam, que nos uniam num mesmo encantamento, a narradora e as ouvintes atentas e maravilhadas. Eu não me lembraria de um momento, assim, mais apoteótico, em minha vida de narradora. Minha vida estava justificada... e mais: estava celebrada!

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Na estância entreguei-me aos carinhos de Aline e à maternalidade de Matilde, que me era também tão necessária. Esta dizia:
— Minha guria, que encrenqueira que tu és, desde pequena! Como podes, sendo tão meiga, arranjares tantas lutas, tantas batalhas, em tua vida? Se teu pai estivesse aqui, isto não ocorreria. Ele formava uma barreira aqui, nesta estância, contra tudo o que vinha de mal, lá de fora. Ah! Como sinto falta do doutor Werner... e do seu piano! Aquela música afastava todo o mal. Nunca mais a ouvi.
— Matilde, eu a ouço ainda!—eu protestei— Como podes não ouvi-la? Ao cair da tarde, no crepúsculo, eu a ouço em meus ouvidos, ou no meu coração, não sei... Mas a ouço distintamente, nota por nota das sonatas e prelúdios de Chopin... e os lieder de Schubert, que às vezes ele cantava, com sua linda voz de barítono. Ele continua aqui, Matilde, e continuará sempre, até para os seus netos, que voltarão a esta casa e aqui crescerão, tu vais ver. Eu sei! Eu sei!
Matilde, os olhos cheios de lágrimas, me abraçou e ficamos em silêncio muito tempo. E me pareceu, então, ouvir muito ao fundo, longinquamente, aquela música, vinda do piano, lá na biblioteca que era o reino verdadeiro de meu pai.

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O velho Werner Fiedrich amava a pintura, além da música e a literatura. Mas ele não tinha quadros modernos pela casa, embora parecesse conhecer muito bem as escolas até depois do expressionismo: pós- impressionistas, simbolistas, nabis, fauves, cubistas, etc... até os primeiros abstracionistas. Mas nossa casa, o casarão imenso, tinha as paredes forradas de quadros que apontavam uma preferência pela pintura de gênero européia, do século XIX, embora houvesse nesse setor, também alguns pintores gaúchos do século XX, como Weingartner e Sheffel.
O gênero a que me refiro eram os interiores com cenas domésticas ou curiosas, algumas francamente enigmáticas, se posso dizer assim. A jóia de sua coleção era, no entanto, do nosso século, um Balthus, maravilhoso, comprado ainda antes da guerra, quando o pintor ainda não havia se tornado o mais caro do mundo, nessa categoria. Mas havia verdadeiros ciclos de pinturas, de um mesmo autor, que narravam cenas, estórias que a gente podia acompanhar, como um filme. Eu digo havia, porque estes ciclos, desgraçadamente agora estão desfalcados, tendo várias telas sido levadas por Solange e Lúcia, para as suas casas em Alegrete e Novo Hamburgo. E uma, valiosíssima, foi vendida por Rodo para comprar a sua Ferrari.
Entre estes conjuntos, havia um que descrevia a saga de uma pequena órfã, pobre, deslumbrada com a sua própria estória que ela via em quadros nas paredes da casa que a acolhera. Entre eles havia um em que se via a órfãzinha subindo vestida, e de aventalzinho, a um grande leito de dossel, vazio, sob o olhar complacente de uma empregada, ama, ou coisa parecida, (não parecia ser a dona da casa). Essa cena me comovia, e algo nela me identificava (mesmo antes da morte de minha mãe) com aquela pequena órfã a quem fora permitido subir, por um momento, num grande leito matronal, vazio. Nunca saberei o que realmente o pintor descrevia com aquela cena, mas a mim parecia um retorno, uma volta ao lar, na procura de um grande útero vazio que acolheria o pequeno ser atirado à aventura do mundo, afinal em casa, novamente, encontrando, porém, vazia a própria cama materna. E eu queria chorar quando pensava nisso.
O grande leito de dossel, havia sim, no quarto dos meus pais. Mas agora sem o dossel... e sem meus pais. E eu não poria meus joelhos sobre esse leito, porque estava ainda em plena viagem pelo mundo, e não pudera voltar ao lar, sequer como aquela pequena órfã acolhida. Assim eu o sentia em minha alma, naqueles dias de luta em que minha vida estava em perigo e os órfãozinhos de pais vivos estavam ainda tão longe do verdadeiro leito materno.
Eu sonhava com a cena final daquele ciclo, onde se veria uma porção de crianças pulando sobre o leito, brincando, eu entre elas, observadas por um grande rosto sorridente de mulher, magnânimo e acolhedor. Ah! Quanto eu deveria lutar ainda para que isso se tornasse real!
O doutor Loredano sentava-se comigo na biblioteca, para instruir-me quanto ao que eu deveria ou não dizer no tribunal. Ele temia minha impulsividade, e alertava-me, com aquele axioma dos juristas: “Aquele que defende a si mesmo, tem um tolo por cliente.” Ele dizia: “Alma, fica de boca fechada, o mais que puderes, só responda estrita e objetivamente o que lhe for perguntado, deixa que eu conduza a tua defesa, porque estás mais encrencada do que pensas. Tua irmã contratou um promotor que é o meu maior rival, e só não me detesta porque isso não existe, na verdade, entre nós advogados. Mas ele quererá destruir-me, através de ti, e para isso lançará mão até mesmo de golpes baixos. Estás preparada para baixezas?
Ai! O peito me apertava ao imaginar isso, o que, na verdade, eu não conseguia. O que poderiam dizer de ruim sobre mim, se minha vida sempre fora pautada pela verdade e pelo amor? Mas o doutor Loredano parecia realmente preocupado por mim e pela minha atuação naquele processo. Ele dizia:
— Alma, não conheces realmente a maldade. Serás detratada, eu te advirto, tua irmã dará carta branca para o doutor Maia fazer como quiser. Ele levantará coisas verdadeiras, mas emprestando-lhes um sentido que nem sequer podes imaginar. Por isso não te metas a defender-te, que ele te crucificará. Não imaginas a habilidade desse homem.
Eu confesso que estava assustada. Temia por mim, por Aline... e pelas crianças. Eu estava vivendo os dias mais assustadores da minha vida. E o futuro me parecia sombrio.

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Estávamos a 24 horas do dia do meu julgamento. Eu fazia uma mala para a viagem a Novo Hamburgo, onde ficaria num hotel, esperando o momento de me dirigir ao tribunal. Eu ouvira notícias da formação do corpo de jurados, todos naturalmente desconhecidos para mim. Gente da classe média, e mesmo um ou dois proletários. Ninguém da chamada classe dominante, muito menos estancieiros. De qualquer forma, eu estava nas mãos de Deus, mas ainda assim não conseguia deixar de temer pelo meu destino. “Senhor, afasta de mim este cálice”, eu pensava, esperando que não fosse uma blasfêmia.
Matilde procurou-me em meu quarto, abraçou-me, olhou-me profundamente nos olhos, segurando algo em suas mãos que juntou nas minhas. Seus olhos negros, de cigana, de moura, estavam tristes e compassivos. Esta mulher me amava como sua filha, e beijando minhas mãos colocou-me na palma um crucifixo de prata. Ela disse:
—Alma, minha guria, guarde isso, ponha-o junto ao teu seio, ele te protegerá, como me protegeu desde que o recebi da minha mãe. Estive mais de uma vez em perigo aqui no Rio Grande e no Uruguai, e ele me salvou. . Algum dia te contarei. Vamos, fica com ele, ponha-o no pescoço.
Com o crucifixo cerrado em meu punho, eu me abracei mais uma vez à minha doce Matilde, e chorei. Chorei e chorei como nunca, enquanto minha vida e minha felicidade passavam ante meus olhos, como uma despedida.

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Capítulo quinto


O julgamento

No saguão do hotel, em Novo Hamburgo, ao balcão, fizemos o check-in, eu e Aline. Pegamos uma suíte, de casal. Teríamos conforto, e eu, talvez a última refeição decente, de condenada. Estes pensamentos me vinham, dramática que sou. Era inevitável.

Naquela noite nós iríamos nos amar como nunca, rolando na cama, aos gritinhos e risos, aos suspiros e gemidos, mas com uma nota de desespero. Eu queria devorar a minha guria, e ela a mim. Eu bebia a sua saliva, todos os seus sumos, como o elixir que me daria forças, a mim, fraca mulher que sou, desprotegida que me sentia, diante das forças esmagadoras que me ameaçavam. Mas eu não podia assustar Aline com a minha fraqueza. Esta menina precisava de mim, da minha força, na qual ela acreditava ainda. Eu não podia decepcioná-la. Até que tarde da noite adormecemos, nuas e suadas, na quente noite de verão, abraçadas talvez pela última vez, eu assim pensava antes de apagar, num sono profundo, como o que antecede a morte.

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A rua, em frente ao tribunal estava lotada. Nosso carro, dirigido por Galdério, com Matilde ao lado, e nós duas atrás, foi interceptado pela multidão e pelos fotógrafos. Minhas fotos já apareciam há dias nos jornais, que faziam o maior alarde, sensacionalistas, prevendo minha condenação. Com grandes óculos escuros, como se espera, aos empurrões, adentramos o tribunal que regurgitava, lotado por uma ansiosa platéia. Mas devo contar que, antes de pôr o pé na soleira,  me virei, tirei os óculos escuros e encarei a multidão, para que vissem a firmeza do meu olhar. Como era de manhã, não haveria flashes para ofuscar-me, nem para tornar vermelhos os meus olhos verdes. Essa foto apareceu nos jornais no dia seguinte, e ela me orgulhou.

Tendo tomado o meu lugar ao lado do doutor Loredano , em meio ao burburinho, onde todos os olhares convergiam para mim, de repente, um silêncio fez-se, pouco antes da entrada do juiz. Era Solange, a soturna, que comandou aquele silêncio, seguido de cochichos, a seguir o juiz com sua toga entrou solenemente e sentando-se bateu o martelo e abriu a sessão:

—SILÊNCIO NO TRIBUNAL!

A seguir declarou solenemente:
— Vamos proceder ao julgamento da citada ré, por crime de seqüestro. Promotor, comece com a identificação da acusada.
Houve um ligeiro burburinho, não sei bem porquê, já que o público sabia do que eu era acusada, e se dividia quanto à legitimidade dessa acusação. Creio que uma parte do público, ignorante, esperava aquelas outras acusações, somadas à de seqüestro.
O promotor aproximou-se de mim, que, conduzida ao banco dos réus, já o esperava muito tensa.

— O teu nome é Alma Morgado-Welt, sim ou não?
— Sim, senhor, Alma Welt.
— Solteira ou casada?
—Viúva, senhor—eu disse, hesitando um pouco.
— Ah! Viúva... e por quanto tempo permaneceste casada?

— Um mês, senhor, eu era muito jovem, e...

— Ah! Parece que estamos diante de uma viúva negra!

Houve uma gargalhada do público, e burburinho, enquanto meu advogado exclamava:

— Protesto, Meritíssimo!

O juiz, severo, batia o martelo e disse:

— Protesto aceito. Promotor, evite brincadeiras e prossiga.

—Então, senhora Welt, ou posso chamá-la senhorita? Tens filhos?

— Não, senhor—eu respondi.— Tive um, que perdi...

— Ah! Sinto muito... esse filho era do teu marido, que morreu?

— Não, senhor, era do violinista Gino Bertellazzi, com quem vivi um ano.

— Ah! Um ano! Pelo visto a senhorita não permanece muito tempo casada.

— Protesto, Meritíssimo!—exclamou mais uma vez o doutor Loredano.

— Protesto aceito, prossiga, promotor.

— Senhorita, já que de alguma forma sabes o que é ser mãe e ter um filho afastado de si, podes imaginar o sofrimento que infligiste à tua irmã, retirando os seus filhos de casa, levando-os e cercando-os de homens armados, para retê-los, contra a própria mãe deles? Sim ou não?

— S...sim, senhor, mas...

— Estou satisfeito, meritíssimo, entrego a ré ao seu advogado, por ora — interrompeu-me o promotor.

Houve um burburinho na sala. Eu permaneci, perturbada, esperando as perguntas do doutor Loredano, dirigindo-lhe um olhar de súplica.

Meu advogado olhou-me profundamente, com um olhar compassivo, bondoso, que me relaxou um pouco.

— Senhorita Alma, és uma pessoa profundamente maternal, não és?

— Sim, sou, acho que sou — respondi.

— Alguém mais a considera assim, quem, por exemplo?

— Não sei, meus sobrinhos, acho, que são tudo para mim. E Matilde, que me conhece bem...

— Senhorita, essas crianças te amam? Como se relacionam contigo?

— Maravilhosamente — disse eu, respondendo primeiro a segunda parte da pergunta.

— E elas te amam? Insisto.

— Sim, claro, e muito, tenho certeza.

— E por quê a senhorita teve que retirar as crianças de sua casa e levá-las consigo? Diga primeiro o nome dessas crianças.

— Patrícia e Pedro... Pedrinho. Sim, tive que retirá-los de sua casa, era preciso. Eles estavam sofrendo, presenciavam brigas violentas entre Solange e seu cunhado Geraldo, com quem ela está vivendo.

Outro burburinho na sala.

— Então, foi no interesse das crianças que agiste, para protegê-las?

— Sim, claro, doutor, eu as defenderei com a minha própria vida se for preciso.

— Meritíssimo, não tenho mais perguntas, por ora. Queria chamar uma testemunha.

— Sim, prossiga, disse o juiz.

— A senhora Alícia Montez, por favor.

Alícia saiu da platéia, onde estava praticamente invisível, e sentou-se no banco de testemunhas. Olhou-me com um olhar assustado e encarou em seguida o meu advogado.

— Senhora Alícia Montez, é o teu nome, não?

— Sim, doutor.

— És casada, senhora?

— Sim, senhor, mas separada, meu marido vive com outra.

— Ah! Sinto muito, senhora. E tens filhos, senhora?

— Sim, mas meu filho mora com a minha sogra, a mãe do meu marido, sua avó.

— Ah! Mas teu filho está bem, não é verdade, e defenderias o teu filho de quem quer que ameaçasse sua felicidade, não é?

— Certamente, senhor. Consegui esse acordo, justamente porque a nova mulher do meu marido não gosta de crianças.

— Ah! Muito bem, e não podias ficar com teu filho, mantê-lo contigo, por quê? Diga-nos a todos, dona Alícia.

— Porque dona Solange não o queria na casa. Dizia que deixava a casa muito cheia e que interferia no meu serviço.

— Protesto, meritíssimo! — interrompeu o promotor.

— Protesto negado, disse o juiz. Prossiga.

— Dona Alícia, continuou o doutor Loredano — Amas muito os filhos da tua patroa, és muito dedicada a eles, pois não?

— Sim , doutor, amo-os como se eles fossem meus.

— E os protegeria de todo o mal, no que estivesse ao teu alcance, não é verdade?

— Protesto, Meritíssimo. O advogado está induzindo a testemunha.

— Protesto negado. Prossiga.

—Sim, doutor, sempre os protegi. Elas são crianças maravilhosas.

— Então não tiveste nenhuma hesitação, nenhum escrúpulo em entregá-los à sua tia, naquelas circunstâncias, naquele dia conturbado, pois não?

— Não, doutor, não hesitei um segundo. Era para o bem das crianças. Elas estavam sofrendo. Pedrinho chegou mesmo a telefonar para dona Alma, pedindo que os viesse buscar. Ameaçou mesmo fugir de casa para ir ao encontro dela, na estância, o que seria impossível, pois é muito longe, centenas de quilômetros. Eu já não sabia o que fazer. Não podia tapar os olhos e os ouvidos das crianças, como queria, para protegê-las dos horrores daquelas brigas, do que falavam já na frente das crianças.

— Protesto, Meritíssimo— exclamou novamente o promotor. Não há provas dessas discussões!

— Protesto negado, prossiga.

— Meritíssimo juiz, não tenho mais perguntas por ora.

O promotor, por sua vez, não quis interrogar Alicia. Eu estava mais aliviada, com o depoimento desta boa mulher, que ao deixar o banco me olhou com doçura... e gratidão.

Então, o promotor adiantou-se e chamou a sua testemunha, que me surpreendeu: um antigo peão de nossa estância, com quem nunca simpatizei, apenas pelo seu olhar.

— Seu nome, senhor.

— Alípio Galdiano, senhor.

— És boiadeiro, na estância Santa Gertrudes, da ré? Sim ou não?

— Sim, doutor, sou. Há mais de 50 anos, embora já não haja muitos bois por lá, desde os antigos donos, antes mesmo do velho Joachim Welt.

— E o senhor tem testemunhado muitas coisas, não é, nesse tempo todo? Tens os olhos bem abertos?

— Certamente, doutor, é o que tenho. Os olhos bem abertos, embora nada possa fazer.

— O que queres dizer com isso, senhor Galdiano?

— Que tenho visto muita pouca-vergonha, esse tempo todo, senhor.

Burburinho na sala.

— Que queres dizer com isso, senhor Galdiano? Explique melhor, exemplifique.

— Ah! Senhor. Desde que a senhorita Alma e seu irmão eram crianças, já acontecia aquilo. Foram pegos pela mãe dos dois, a senhora Ana Morgado, pelados, no pomar, fazendo safadezas. Foram arrastados pelos cabelos e pelos pulsos, no meio da peonada, que riu bastante. A dona Ana estava indignada. A senhorita Alma e seu irmão Rodolfo só lhe causavam desgostos, ao contrário de dona Solange e dona Lúcia, as filhas mais velhas.

— E que mais viste esse tempo todo? Diga, seu Galdiano.

— Bem, durante a adolescência deles, eu observei também os abraços e beijos a toda hora. A coisa prosseguia entre eles, não cessou. E, ao que parece, até hoje.

— Senhor Galdiano, que mais viste na estância, a esse respeito?

— Ah! Doutor, agora a coisa é pior. Depois que Alma voltou de São Paulo, com aquela moça paulista, a sem-vergonhice é maior.

— Como? Que queres dizer?

— Doutor! É uma coisa estranha. Elas se beijam na boca, doutor. E cavalgam nuas, como se ninguém as pudesse ver, no crepúsculo, apenas porque a dona Alma é muito branca e não quer queimar-se. Banham-se nuas, ao luar, no açude, e acariciam-se, beijam-se. E o pior, doutor, é o que aconteceu no bosque, não sei se posso contar...

— Conte tudo, senhor Galdiano, esta é a hora da verdade.

— Protesto, Meritíssimo— interrompeu o doutor Loredano— o promotor julga o mérito do depoimento, de antemão.

— Protesto aceito, continue.

— Minha mulher, com outras do vinhedo, encontrou-as nuas no bosque, adormecidas, abraçadas. As mulheres se reuniram em volta delas. Havia também algumas meninas. Mas elas acordaram e não se abalaram, levantaram-se lentamente e saíram de cabeça erguida, no meio das alas que se abriram, das trabalhadoras, e nem sequer puseram a mão na frente ou atrás. Andavam altivamente, como se estivessem vestidas e como se ninguém estivesse ali. Isso, parece que fez as mulheres permanecerem caladas, de tão espantadas. Elas são feiticeiras, senhor, tenho certeza!

Um burburinho imenso, gritos, risos, protestos.

—Silêncio, silêncio— gritava o juiz, martelando — Prossigam!

— Não tenho mais perguntas, por ora, Meritíssimo—concluiu o promotor.

— Quero interrogar a testemunha, Meritíssimo, disse o doutor Loredano.

— Prossiga — disse o juiz.

— Senhor Galdiano, eras empregado, peão, do antigo dono da estância, pois não? Antes de Joachim Welt, o avô de Alma?

— Sim, doutor, era, desde pequeno. Cresci naquela estância.

— E eras muito leal àquele estancieiro. Como era o seu nome?

— Valentim Ferro, senhor. Um homem sem igual.

— E o senhor Valentim suicidou-se, não é mesmo? Como foi isso?

— Ah! Senhor. Foi algo terrível. Ele enforcou-se no sótão do casarão, no dia seguinte à venda da estância. Estava arruinado, tinha perdido tudo. O comprador já estava se instalando na casa, e ele ainda nem tinha saído com a família. Era muita humilhação. Mas morreu como homem, macho, pois tomou o chimarrão até o último momento, que foi encontrado esparramado no chão, ainda fumegante. Não esquecerei nunca aquela visão, pois entrei naquele local logo em seguida ao velho Welt.

— E juraste, nesse momento, vingá-lo, ao seu patrão, não é mesmo?

— Protesto, Meritíssimo— interveio o promotor.

— Protesto negado. Prossiga.

— Então juraste vingança por teu patrão, sim ou não?

— Sim, doutor, jurei. Mas não atino como sabes disso.

— Isso não vem ao caso. E o que fizeste para essa vingança?

— Ah! doutor, quem sou eu para poder vingar alguém? Sou um pobre peão, tenho de ganhar a minha vida. E ela é dura, senhor.

— Mas agora estás te aposentando, não é mesmo? Não precisas mais trabalhar, não é verdade?

— Protesto, Meritíssimo, isso não é pertinente.

— Protesto negado. É pertinente, prossiga.

— Senhor Galdiano, tens um filho, não é mesmo? Como se chama ele?

— Martim, senhor, mas não está mais comigo.

— Onde está ele, senhor Galdiano?

— Ele deixou a estância, anos atrás e nunca mais voltou.

— Por quê? senhor Galdiano, sabes a razão disso?

— Sim, doutor. Porque Martim se apaixonou por Alma, e ela nem o enxergava. No entanto, o provocava.

— Como assim, senhor Galdiano? Se ela não o enxergava...

— Porque a sua beleza é destrutiva, senhor. Sempre fez mal às pessoas. Mais de um peão brigou por ela, houve duelos, mortes e... até suicídios. E ela nem tomava conhecimento.

— E teu filho então partiu, porque sofria, senhor?

— Sim, e partiu-nos, a todos, o coração.

— E juraste vingança contra Alma, sim ou não? Diga, seu Galdiano.

A platéia estava atônita. Minha vida na estância passava ante meus olhos, com detalhes que eu não costumava evocar na minha memória. Comecei a tremer.

—Não, doutor, quer dizer, sim, de certa forma, mas só da boca pra fora.

— Da boca pra fora, não é? Diga-me senhor Galdiano, como vês a senhorita Alma pessoalmente?

— Senhor, não posso encará-la. Ela é bela demais, e isso é coisa do demônio. Outras pessoas também vêem assim. Veja a sua pele, é branca demais. Ninguém é assim. E não tem uma mancha, uma pinta sequer, que se saiba. Com aquele sol todo do Pampa! Isso é impossível! Ela é da noite! Digo, das trevas. É uma vampira!

A mim, naquele momento, me pareceu que o doutor Loredano cometera um erro, deixando-o falar assim, até instigando aquele homem. As pessoas, o júri, ficariam influenciadas por aquelas imagens terríveis, noturnas, de maldição. Fiquei mais preocupada. Mas o doutor Loredano parecia acreditar que a ignorância daquele homem, ou o seu primitivismo, ficaria patente.

A platéia se agitava.

— Meritíssimo, não tenho mais perguntas.

— Façamos recesso, disse o juiz— disse o juiz, o que me pareceu péssimo, porque aquelas últimas imagens ficariam ressoando. E eu como poeta, tinha que reconhecer que elas eram fortes, até mesmo belas, mas me prejudicavam, me punham em perigo perante a opinião pública, que é sempre também um tanto primitiva. Fui retirada da sala para uma outra contígua. Questionei o doutor Loredano, que me disse:

— Calma, Alma, fique tranqüila, sei o que estou fazendo. O público é na sua maioria simpático a ti, por essa mesma beleza, que parece ser incompreendida por alguns. Isso era de se esperar. Afinal, é isso que se está julgando aqui: a tua beleza, Alma. E por isso este é o julgamento do século, ao meu ver. Vou jogar com isso até o fim! A beleza é positiva, ela vencerá!

— Espero que o senhor saiba mesmo o que está fazendo... — suspirei.

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Começo a me lembrar do filho de Galdiano, aquele que, segundo ele, apaixonou-se por mim. Realmente, eu percebi isso naquela época, como sempre que isso acontece em minha vida. A vítima da paixão(se posso dizer assim), não consegue esconder, mesmo que tente, ou que não consiga expressar diretamente essa paixão, devido a barreiras internas ou sociais. Mas, evidentemente, eu me faço de desentendida, de distraída, claro. Não posso deter-me sobre essas paixões, atendê-las de alguma forma, ou minha vida viraria um caos! Que posso fazer? Tento manter-me o mais distante, o mais inacessível possível. E no entanto, algumas pessoas romperam essas barreiras... e me vitimaram com sua paixão. Como aconteceu quando eu era guria, de treze anos, naquela fazenda em Minas, durante umas férias. E agora, tão recentemente, aquele Pedro, que ainda me doía, e cujo segredo eu guardava da minha Aline, para não chocá-la.


Aline, por sua vez, ao ouvir o depoimento de Galdiano no tribunal, pareceu fechar um pensamento dentro de sua mente ou de seu coração. Ela me olhava, de longe, ali naquela sala onde se decidia o nosso destino, com uma nova interrogação no olhar, e eu sabia a que se referia. Era como se dissesse: “Foi Pedro, não foi, quem te feriu? Ele também não resistiu... Por quê não me contas? Não me és leal?”


A campainha soou, voltamos ao recinto do julgamento. Entrei procurando com os olhos Aline na platéia, mas não a encontrei. O juiz reabriu com uma martelada a sessão. Mas antes fez um pequeno prólogo. Chamou o advogado e o promotor diante de sua bancada e disse:


— Advirto-os, senhores advogados, que o que está sendo julgado aqui, é tão somente um crime de seqüestro, por si só suficientemente grave, de que a ré está sendo acusada. Parece-me que está havendo desvios. O caso está enveredando por meandros não pertinentes ao crime em questão. Agora continuem.

O doutor Loredano disse:
— Vou chamar uma nova testemunha, meritíssimo. A senhorita De Marco, por favor!
Aline entrou, vinda de uma sala ao lado, e não da platéia. Fiquei bastante surpresa, pois o doutor Loredano não me avisara disso. Eu não podia imaginar a minha Aline falando qualquer coisa sobre mim, ou sobre nós, em público. Ela era tão recatada, tão tímida mesmo...
— Senhorita Aline, é o seu nome, pois não?

— Sim, Aline De Marco, senhor.

— E conheces bem a acusada, a senhorita Alma, não é mesmo? O que és dela, podemos saber?

Aline fez uma pausa, hesitante, depois encarou o público e disse:

— Eu... sou o seu amor!

Foi um rebuliço. Eu olhava Aline, que estava desafiante, e meus olhos procuraram também os do doutor Loredano. O que esse homem estava fazendo?

— Silêncio, silêncio!— martelou o juiz— quero silêncio ou mando esvaziar a sala! Não tolerarei comentários, e muito menos, tumultos. Vamos, prossiga.

— Senhorita Aline, o que queres dizer com isso? Vocês são amigas, não é mesmo?

— Sim doutor... somos.

— Então me diga, como é a acusada? Como é Alma Welt?

— Maravilhosa, doutor. Ela é a melhor, a mais meiga e mais bela pessoa por dentro, que possa existir neste mundo. E é incapaz de fazer mal a uma mosca.

— Sim , claro, senhorita Aline, acreditamos nisso, sem dúvida. Por quê então, tu achas que ela está sendo julgada?

— Por seu amor, doutor, por sua coragem de interferir... pelo amor que devota aos seus sobrinhos, que só é comparável ao amor de uma mãe devotada. Ela quis defendê-los.

— Não tenho mais perguntas, meritíssimo senhor juiz.—disse o meu advogado— Quero dispensar a testemunha.

— Um momento—interrompeu o promotor— quero interrogar a testemunha!

— Prossiga—disse o juiz.

— Senhorita De Marco, onde e como conheceste a acusada, a senhorita Alma?

Aline hesitou um pouco, seus olhos ficaram úmidos, e ela respondeu:

— Em São Paulo, no seu ateliê de pintura. Eu sou modelo, e ela me contratou para posar para os seus quadros.

— Como são esses quadros, srta Aline? Tu posavas nua, não é verdade? Era nu artístico?

— S...sim, senhor era.

Neste momento o promotor Maia, estalou os dedos, teatralmente, e mandou entrar o que espantou a platéia: dois homens de terno entraram carregando uma grande tela de minha autoria: Aline nua. Um dos muitos quadros que pintei da minha Aline (como o conseguiram? perguntei-me).

O quadro foi exibido por uns minutos, enquanto o burburinho se instalava. O juiz martelou, mas as pessoas se levantavam, muitas queriam ver mais de perto. O sucesso parecia absoluto. A beleza da pintura, e do modelo, eram evidentes. O tiro saíra pela culatra para o promotor. Mas, esse disse, enquanto o juiz pedia para o quadro ser virado para ele, para que o pudesse admirar:

— Meritíssimo, eis a natureza lúbrica da relação dessas duas. Está evidenciada, está plasmada nesta tela... erótica. Vejam os pêlos púbicos, senhores, ralos, para mais exporem as partes íntimas da retratada. Vejam o brilho... ali, como se... Senhores, isto é intolerável, que museu ousaria expor uma tela assim? Não vemos nada disso em nenhum museu. Comparem até mesmo com as Vênus de Ticiano, que parecem recatadas perto disso. Senhores, essa mulher (e apontou para mim) é uma lúbrica, uma erótica. Nada sabe de maternalidade. É péssimo exemplo para as crianças, como bem podem ver. Já perceberam todos: é uma lésbica, uma ociosa, uma leviana, uma Messalina até mesmo. Tenho provas de inúmeras ligações dessa mulher, com homens e mulheres. É uma Casanova de saias, mais destrutiva que uma Taís, da Antigüidade, ou que Nefertiti. Cleópatra perto dela era uma santa. Esta mulher é até mesmo uma incestuosa, temos fartos indícios disso. Uma mulher assim pode ser mãe? Pode reivindicar os filhos de outra? De sua irmã, mulher respeitável, que só quis defender a sua família e sempre quis defender-se do mal que esta mulher representa dentro de sua própria família? Senhores, jurados, já chega dessa farsa, peço-lhes a condenação dessa hetaira, dessa prostituta que se faz de sagrada, e que decididamente está do lado do mal, no seio de uma família de bem!

A platéia gritava, assoviava, batia o pé. Eu não sabia o que esse barulho significava. Estavam ao meu favor, ou contra mim? O que significava essa reação?

O promotor, então, como um tiro de misericórdia, chamou Solange, minha acusadora, ao banco de testemunhas:

— Senhora Solange, do que acusas a ré. Fale abertamente, fale tudo, este é o momento da verdade.

— Do seqüestro dos meus filhinhos, que me foram arrancados de casa, quando saí por momentos. Quando fui buscá-los, ela apontou as armas de seus capangas, para mim. Quase fomos todos mortos, não fosse a intervenção da polícia, no último momento quando ela estava preste a atirar. Meus filhos estavam presos num quarto, guardados por uma mulher, Matilde, nossa cozinheira traidora, que é sua cúmplice, e que nunca gostou de mim.

— E a relação de sua irmã Alma com o seu irmão Rudolf, que ela chama sugestivamente de Rôdo, como aquele lança-perfume, um narcótico. Como é ele?

— Sim, doutor, é puro incesto. Ela desesperou-nos desde a sua infância, com aquilo. Era uma sem-vergonhice. Eles eram amantes. Talvez o sejam até hoje. Sim, sei que são. É visível. Os abraços, os beijos na boca... até hoje! É intolerável! Essa mulher precisa ser detida. Não tem o menor senso moral!

Eu estava perdida. A platéia urrava, e eu não sabia o que queriam dizer com aqueles gritos. Estaria protestando a meu favor, ou querendo a minha queima? O meu apedrejamento? Eu estava quase desmaiando. Onde estava Rôdo, por quê não fora chamado? Mas se o fôsse, seria melhor? Ele era tão exaltado, o escândalo cresceria às raias do insuportável!

E então, ele foi chamado. O doutor Loredano não percebera que perdera as rédeas de tudo, que estava impotente. Nada mais conseguia acertar. Ia ser um desastre:

— Jovem, como te chamas?

— Rudolf, senhor, Rôdo... Welt.

— És o único irmão de Alma, não é mesmo? O único filho homem. Não é?

— Sim.

— Então, meu jovem, o que dizes de tua irmã, a acusada. Como é a tua relação com ela? Fala abertamente.

Rôdo, meu irmão, belo como um príncipe de cabelos negros, olhou a platéia, encarou a todos e disse firmemente:

— Ela também é o meu amor!

Ai! Eu vi tudo perdido. Fiquei zonza no meio do rumor que parecia uma imensa onda, como um maremoto, cuja tsunami se abateu sobre mim... e desfaleci.

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Acordei minutos depois deitada num banco duro, com uma porção de pessoas à minha volta, enquanto Aline me batia no rosto, o doutor Loredano segurava a minha mão, e um médico tomava meu pulso na outra.

Puzeram-me afinal sentada, eu via tudo meio nublado e girando. Mas logo fui me recompondo enquanto o doutor perguntava:

— Alma, se quiseres peço para interromper o julgamento por motivo de saúde. Aliás me parece aconselhável, porque precisamos atenuar os efeitos dos últimos depoimentos. A platéia está alvoroçada e não sei...

— Não, não, doutor, estou bem. Vamos, quero acabar logo com isso. Vamos lá. Só ajude a levantar-me.

— Mas Alma, não pareces muito bem, afinal desmaiaste. Isso é muito forte. Como vais agüentar mais uma rodada?

— Vamos, doutor Loredano. Estou bem, eu afirmo. Já passou. Foi apenas uma emoção muito forte... e bonita, pelo meu Rôdo. Ele não me decepcionou, mas eu não esperava...

Voltamos para a sala. O doutor Loredano confabulou com o juiz. Ia chamar uma nova testemunha, ou iam encerrar o julgamento com a fala do promotor, a seguir encerrando com a sua, quando levantei-me e pedi a palavra. O doutor Loredano ficou branco, estremeceu. Era o que ele temia.

De pé diante do juiz eu disse:

— Meritíssimo, tenho o direito à minha fala. Quero falar, quero dizer tudo. Tenho esse direito, não tenho?

— Sim, senhorita—disse o juiz— tens o direito de falar, mas sabes a máxima: “Aquele que defende a si mesmo...” Mas se assim o queres, fala!
— Obrigada, senhor juiz. Senhores, senhoras, jurados, Meritíssimo, eu estou aqui, mais nua do que jamais estive. Parece ser a minha sina.
A platéia riu.

— “Eis a minha vida, senhores, senhoras. Eu nunca me poupei, eu dei meu coração e meu corpo aos meus amores, aos que me amaram. Mas sempre por amor, jamais poderão ver em mim outro interesse, em minha vida. O amor e a poesia. A Arte, senhores, é minha religião, e o amor é meu Deus. Sempre fui assim, e por isso me vitimaram algumas vezes, sem conseguirem me destruir. Meu corpo foi atingido, minha alma foi ferida, mas o meu coração permanece intacto, fiel aos meus amores para sempre, como eles a mim, agora vejo. Minha vida é gloriosa! Eu sei. Podem me encarcerar, Deus me deu a Arte e a beleza, primeiramente em mim mesma, depois, no meu olhar sobre o mundo! Como poderão os maus atingir-me se estou no bem e na beleza? Estes não são mais fortes? Tenho a consciência tranqüila e tenho orgulho da minha fidelidade ao amor universal que sinto em mim. Senhores, poderão encarcerar-me. Mas não poderão tirar-me o amor daquelas crianças, que está em mim e dentro delas ao mesmo tempo. Eu sei que tentei defendê-las. Não consegui, ai de mim, elas permanecem naquela casa, e isso dói, pois sei que sofrem com aquele ambiente... de desamor. Ai! Eu vejo seus braços estendidos chamando por mim, e sofro, sofro por eles. Tenho as mãos amarradas, já estou no cárcere. Mas a minha alma voa, meu coração voa até elas, e elas o sentem, elas serão amparadas por mim, mesmo à distância.
Aline, amor da minha vida, és sublime, não me renegaste. Rôdo, meu irmão, meu amor, igualmente me reafirmaste em teu coração perante todos. Eu estou no chão e nas nuvens ao mesmo tempo. Atirada ao solo, eu flutuo. Nas nuvens, ando com os pés firmes. Ninguém mais pode me atingir a mal. O amor está comigo!”
Calei-me, os olhos cheios de lágrimas que me desciam pelas faces.
A platéia veio a baixo. As pessoas queriam me tocar, levantavam-se de seus assentos, queriam me agarrar, que sei eu?

Fui levada para fora da sala, enquanto o juiz com o seu martelo de madeira martelava em meio ao tumulto. Afinal conseguiu por ordem no ambiente dizendo: “O julgamento está encerrado, o júri agora vai recolher-se para votar. Nos reuniremos dentro de uma hora.”
Durante esse momentos, deixaram Aline ficar ao meu lado, segurando a minha mão enquanto as lágrimas corriam em nós, em silêncio, sorrindo uma para a outra, esperando, nada mais esperando. Plenas, senão felizes. Até que me chamaram e fui levada para a sala, escoltada, novamente.
O juiz perguntou ao líder dos jurados, que voltava:

— Já fizeram seu julgamento, já chegaram ao veredicto?

—Sim, Meritíssimo, disse o jurado, entregando a um oficial um bilhete que foi levado ao juiz. Este abriu-o, olhou-o rapidamente, mas fez um ligeiro suspense antes de declarar:

Levanta-te, Alma Welt. Tu acabas de ser declarada... inocente. Estás livre, vai em paz!

Os presentes avançaram sobre mim e me carregaram sobre os ombros, fui levada para fora assim, e colocada em novos ombros. A multidão gritava por mim, saudando-me e carregando-me para o meio da rua, por um quarteirão, até os guardas intervirem e me retirarem dos ombros dos populares, no meio de faixas e cartazes. Pude ver que alguns desses cartazes diziam: “ Alma Welt é nossa heroína.” Outro dizia: “Alma Welt é puro amor. Libertem Alma Welt!”

Eu chorava de felicidade e alívio. Procurei Aline, ela vinha também carregada no meio da multidão. Estendemos nossas mãos com esforço, para agarrarmo-nos, e afinal estávamos, ali no meio da multidão, abraçadas num longo beijo, que era saudado, afinal. Vencêramos. O povo consagrava o nosso amor. E a voz do povo...

Podíamos voltar ao hotel, e depois... à estância!

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Capítulo sexto

O leito matronal

Deitadas, nuas, na cama do hotel, repousávamos naquela manhã quente, de verão, após tantas emoções. Estávamos felizes, Aline e eu, apesar da persistente frustração de ver perdidas as crianças para mim. Eu não pudera retê-las. Eu não pudera ficar com elas. Era impossível para mim... tirá-las daquela mãe.
Foi então que, tocou o telefone na cabeceira, e atendi, prontamente:
 “Alô, sim. Alícia? Como estão as crianças? Como dizes? Solange e Geraldo estão brigando? Sim, estou ouvindo... que gritaria! O quê está acontecendo, onde estão Patrícia e Pedrinho? Chorando? Ai, meu Deus! Apavorados!.. Meu Deus, que gritos, estou ouvindo... Alícia, o quê está ocorrendo? Não! Não! Um revolver! Ai! (Fiquei imóvel, calada por uns segundos, estarrecida. A seguir, continuei: “Alícia, Alícia, que barulho foi esse? Um tiro... Solange está caída, ensangüentada... Ele atirou nela! Onde está ele? Alícia, e as crianças, as crianças, Alícia?
Deixei cair o fone. Gritei: “Aline, vistamo-nos depressa, aconteceu uma desgraça. Vamos, corramos! Vamos! Vamos!
Passamos voando pela portaria, atirando a chave no balcão, e logo estávamos dentro de um táxi, correndo para a casa de Solange. Em minutos chegamos. A porta estava aberta, as crianças correram para mim, mas eu não tive tempo de abraçá-las. Corri para dentro, seguida de Aline e dei com Solange caída na sala, no meio de uma poça de sangue. Ela estava viva, agonizante. Ajoelhei-me ao seu lado, com os joelhos em seu sangue. Abracei-a e amparei sua cabeça enquanto ela balbuciava, baixinho: “Alma, Alma, ouve...”
Aproximei meu ouvido dos seus lábios e ouvi-a dizer:
—“Alma, minha irmã, minha irmãzinha... me perdoa. Quero que me perdoes, Alma. Estou arrependida. O dinheiro da safra vendida... está no meu quarto... salve a estância. Tu tinhas razão. O amor estava contigo. Eu sempre soube, na verdade... mas eu tinha medo e ciúme. Tu és tão bonita, como nunca fui. E amada pelo Vati, como eu não era, e até pela Mutti. Eu nunca pude... Alma, estou morrendo. Fica com as crianças... são tuas, Sempre foram tuas, porque te amam, muito mais que a mim. Eu não soube... Ai, Alma está escurecendo, está ficando frio, fecha a sala, acenda a lareira, Alma, o Vati trouxe a lenha. Conta uma estória tua... para as crianças dormirem...”
Seu rosto tombou ligeiramente, embora seus olhos permanecessem abertos, e ela se imobilizou. Alícia chorava, Aline chorava, as crianças choravam. E eu soluçava pela minha irmã, que eu amara sempre, sem saber...

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Epílogo

Estamos de volta à estância, Rôdo, Aline, Matilde, Galdério, as crianças e eu. Lúcia virá em breve com os gêmeos, Hans e Christian, meus queridos gemeozinhos, que quero unir num só abraço.
Então, reunidos todos na sala, eu disse:

— Vamos todos prestar homenagem à nossa macieira, e agradecer por termos salvo a estância graças à Solange, que Deus a guarde junto de si. Devemos agradecer também a Ele estarmos juntos novamente. Levemos as ervas para a nossa Ara, vamos! Quero todos colhendo ervas e também algumas folhas do mate e da vinha. Vamos acender a pia e render graças à Deus, aos deuses e aos numes do Pampa, que estão esperando as nossas homenagens, a prova da nossa gratidão.
As crianças, surpreendentemente alegres apesar dos acontecimentos trágicos tão recentes, saíram correndo para todos os lados. Rôdo e Aline, também, como crianças, enquanto eu sorria, feliz.
Chamei Galdério de lado, e na nossa biblioteca dei a ele instruções precisas:
— Quero que faças uma coisa, Galdério, pegues as tuas ferramentas, e com caibros fortes, de madeira de lei, serrote e martelo, parafusos, furadeira, tudo, reforces a cama dos meus pais, por baixo. Pegue o dossel, que está desmontado, no depósito, e arme-o novamente encompridando as colunas, se possível, porquê as quero mais altas. Tens a tarde toda para fazer isso. Vamos, eu te peço. É a tua missão, por agora.
Logo estávamos diante da nossa macieira, queimando as ervas que fizeram intenso fumo, numa coluna levemente inclinada pela brisa de verão.
Eu proferi as palavras:
— Ó Ara dos Pampas, minha macieira, cujas raízes estão no meu coração! Aceita a oferenda da nossa gratidão! Estamos juntos, o amor venceu, estamos mais uma vez reunidos diante de ti, e assim faremos sempre, ao longo das nossas vidas, que fizeste tão belas. Conduz também, no fumo sagrado, a alma de minha irmã e mãe destas crianças, direto para o céu, se for possível. Ela já sofreu, e se arrependeu. Deus a receberá, eu sei.
Patrícia tinha lágrimas nos olhos, Pedrinho soluçava. Estávamos todos comovidos. Era preciso parar de chorar. Eu me virei para todos e disse: “Agora, meus queridos, vamos voltar para o solar, para termos uma grande ceia, que Matilde preparou. Quero alegria, hein? Alegria!..
Ao cair da noite chegaram Lúcia, os gêmeos, e Alberto, meu querido beberrão. Abraçamo-nos todos, beijei muito os gêmeos, e Lúcia segurando-me as mãos, disse:
— Minha irmãzinha, tu nos uniste novamente, em torno de ti, nesta casa. Só tu poderias fazer isso. Até Alberto voltou, o pobre bêbado. Vais acolhê-lo, não vais?
— É claro, minha irmã. Esse borracho é precioso. Algum dia lhe contarei por quê. Agora vamos só aproveitar a alegria e nada de lembrarmos dos momentos difíceis. Vou buscar uma garrafa para ele, na adega. Bem, ele mesmo o fará (rimo-nos juntas, nos abraçando).
Após a maravilhosa ceia, a mais alegre das nossas vidas, eu reuni as crianças e disse:
— Agora vão todos vestir os seus pijamas, pois vou contar uma estória para todos aqui na sala. Depois vocês me acompanharão, para uma surpresa antes de dormir.
As crianças, curiosas e excitadas, correram para os seus quartos para vestir os seus pijaminhas. Patrícia apareceu, linda, com uma camisola branca, bordada, que eu lhe dera.
Todos em torno de mim, inclusive Matilde, Lúcia, Aline e Rôdo, eu narrei a estória de Anita e Giuseppe Garibaldi, mas na forma de uma fábula resumida e poética, como aliás fora mesmo a sua vida. As crianças sonharam acordadas, com o amor e o heroísmo dos dois, e seus olhos brilhavam úmidos... e voavam naquela saga da nossa terra, cujas raízes estavam numa estância como esta, em famílias como esta, que se reuniam numa grande sala para ouvir e contar as estórias de suas batalhas reais... e de sonho. E eu me sentia gaúcha como nunca, meu coração estava pleno de amor pelo Pampa, por esta casa, pelo pomar, o jardim e a vinha. Naquela noite eu sentia a barba branca de meu pai, pairar como um cometa sobre nós, sobre o casarão.
A seguir, apaguei todas as luzes elétricas, e munidos de castiçais e candeeiros, caminhamos pelos corredores até o quarto dos meus pais, eu na frente, guiando-os, curiosos. Ali chegando, abri a porta e acendi a luz, que iluminou claramente todo o grande aposento dominado pela imensa cama de meus pais cujo dossel pairava mais alto ainda, para o que eu preparara. Pedi que todos apagassem suas velas e candeeiros.  Então subi naquele grande leito, pus-me de pé, descalça, e estendi a mão para todos. Eu também estava de camisola, e estendia a mão para todos subirem, como eu. Assim fizeram, inclusive Rôdo e Aline, de pijamas, descalços todos. Então me pus a pular, bem alto, confiante no trabalho de reforço de Galdério. Todos aos risos e gargalhadas me acompanharam, pulando, pulando, e logo começou a luta de travesseiros, com as plumas escapando e voando numa apoteose branca, que como uma neve, lenta, festiva, caía sobre nós, que pulávamos e pulávamos, em risos, gritinhos e gargalhadas. A alegria voltara para nós, e eu imaginava que para sempre.

O grande leito matronal nos acolhia a todos, órfãos que voltávamos ao lar depois de tanto tempo...
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FIM do Primeiro Tomo da Trilogia A Herança (romance)






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