A
HERANÇA (Romance de ALMA WELT)

Ex-libris feito em litografia por
Guilherme de Faria, a pedido da autora quando se conheceram. O mote latino AD
AUGUSTA PER ANGUSTA significa "Chegar a resultados magníficos por vias
estreitas." O curioso é que permite uma tradução muito legítima ao pé da
letra: "à Augusta pela angústia", sugerindo o estado de espírito da
poetisa no seu auto-exílio paulistano numa transversal bem próxima da rua
Augusta, logo após a morte do seu pai (o Vati) em sua estância no Rio Grande do
Sul.
A HERANÇA ( Romance de ALMA WELT)
PREFÁCIO ao romance A HERANÇA, de
ALMA WELT
Por GUILHERME DE FARIA
Estamos diante do primeiro
romance de Alma Welt, e ele me parece grandioso. Um romance autobiográfico. Uma
saga de família. Passado nos pampas de sua terra natal, este livro merece o
nome de romance, como poucos. Um romance...romântico, na grande tradição da
literatura romanesca.
Última grande lírica do século
XX, como costumo chamá-la, a poetisa Alma Welt, aborda a sua narrativa com o
lirismo que lhe é característico, freqüentemente rasgado, como um canto, poesia
em prosa em vários momentos, musical como uma rapsódia, noutros como uma
sinfonia. Ouvimos a música que ela quer nos oferecer, fazer-nos ouvir. Como o
rumor do vento minuano, como o ranger das portas e paredes que giram. Sentimos
o mistério e a beleza de sua terra, de sua casa, de suas origens. Comovemo-nos
com o seu amor à sua terra, ao Pampa que se estende como o mundo em torno da
sua casa, e por onde ela galopa acompanhada por sua Aline, como duas
“centauresas”, nuas e graciosas. Poucas vezes vi momentos tão belos num
romance, como nesses parágrafos. Alma Welt não se peja de ser romântica, porque
se sabe herdeira de uma grande tradição de seu sangue germânico. Ela nos conduz
como Hoffmann, pelos corredores de sua casa, pelos subterrâneos das adegas
misteriosas. Como Goethe, faz-nos passear nos jardins em torno da casa, em
idílio com aquela outra bela mulher, Aline, coroadas de flores. As crianças,
como abelhas, esvoaçam em torno de nós, buliçosas, e adoráveis. Mergulhamos
nesse universo weltiano com um prazer raro, acompanhando os vôos, as
divagações, os devaneios e as memórias reais, da personagem-autora. Ou da
autora-protagonista. Ela nos seduz com seu universo, pela ótica da beleza com
que enxerga o seu cotidiano, que não nos é estranho, porque verdadeiro, sutil,
humano, sem rebuscamento, sem artificialismos. Alma Welt não quer ser fina. Ela
o é pela altitude do seu pensamento claro, pela pureza evidente do seu coração
romântico. Ela ama com paixão. E com erotismo explícito, ao mesmo tempo
elevado, pela estética superior com que o descreve, naturalmente, sem segundas
intenções. Ela esbarra no sexo, como nós, na vida, e não se desvia. Ela o
encara, com volúpia. Ela ama o amor e o sexo, e nos convida a participar de sua
intimidade encantadora, com uma liberdade cativante, que nos alicia. Como uma
heroína moderna da liberdade e do prazer do sexo, fruído com dignidade e com a
pitada de mistério que o sexo sempre esconde com aquelas pequenas perversões
atraentes, de que ela nos faz ver a beleza, nos permitindo, portanto,
reconhecê-las em nós mesmos. Essa é a sua delicadeza: amar tanto o ser humano,
que a sua aceitação por ele é plena, quase total. Somente a maldade ela recusa,
ela denuncia, como algo fora do humano, que se intromete e choca, nesta vida.
Herdeira do idealismo alemão, comove-nos a sua visão humanista em alto grau,
que dignifica o homem, pela sua aposta incondicional em sua pureza original, em
sua beleza herdada dos deuses, senão de Deus.
Além disso ela nos emociona ainda
com uma qualidade rara, a candura, de que ela não abre mão, mesmo em sua
lucidez crítica. Como pôde, então, esta pequena Eva, manter a sua pureza tendo
mordido a maçã da razão, sem se ver compelida a cobrir sequer com a mão o seu
sexo? É isso o que mais me impressiona em seu texto. O orgulho com que se
expõe, como uma ninfa, freqüentemente como uma menina travessa, cheia de
deliciosa malícia inocente. Alma ama certa ambigüidade, certos paradoxos,
elegante que ela também é. Deve gostar portanto de Oscar Wilde, que ela não
reflete tanto no estilo, mas no espírito de certas atitudes, pois não há
dandismo nela. Ela é simples, nunca rebuscada. Nunca art-nouveau, a não ser
pela sua vertente simbolista menos formal. Lembra mais, uma Emily Brontë das charnecas, do que o inglês dos salões e dos cassinos. Ama Turner, em suas
pradarias, mais que o impressionismo que é seu descendente. Ouvimos Shumann,
mas sobretudo Mendelsohnn em suas orquestrações de palavras, evocativas de
belas paisagens. Alma Welt nos embevece.
Finalmente resta apenas evocar o
tributo que ela faz, consciente ou não, ao grande autor de “O Tempo e o Vento”,
nosso Érico Veríssimo, que ela não pode negar, como autora gaúcha. Preparem-se
pois para penetrar no coração dessa terra fabulosa, o Pampa, numa estância, um
casarão um tanto assombrado, batido pelo minuano, carregado de memórias
heróicas e trágicas de batalhas revolucionárias, e onde julgamos avistar a
sombra de Anita Garibaldi projetada, num relance, nas brancas paredes
fantasmagóricas.
São Paulo, 12/08/2004
GUILHERME DE FARIA
___________________________________________
ALMA WELT
A HERANÇA
Prefácio por GUILHERME DE
FARIA........................................................3
Primeira Parte
Segunda Parte
A Ara dos
Pampas...................................................................31
Terceira Parte
__________________________________________________
(Epígrafe):
"Espremo os tubos sobre a
paleta
lanço estes versos no papel
e as tintas e as palavras me
remetem
à nossa estância
que ainda está ali
como um fantasma
navegando
na amplidão do Pampa
Como uma nave
o casarão batido pelo minuanorecusa-se a afundar."
___________________________________________
Capítulo Primeiro
A Herança em perigo
Rôdo, meu irmão, quer vender a
nossa estância. Não posso suportar sequer a idéia disso acontecer. Faço as
malas apressadamente, sem esquecer, no entanto, de jogar por cima das roupas
meus cadernos de poesia e de anotações.
Durante a viagem, de ônibus,
percebi-me em estado de grande ansiedade e fiz, então um esforço para
sintonizar-me naquele presente, mesmo sendo ele de transição, com a paisagem
correndo veloz através das janelas. Depois de um dia inteiro e de duas
baldeações, chego afinal à estaçãozinha para pegar o trem antigo que corta as
nossas terras, em pleno pampa. Meu amado Pampa, eterno, imutável.Quando afinal a charrete vem me buscar na pequena estação, eu já estou retornada à minha infância e primeira juventude. Comovida e tensa, cumprimento nosso caseiro, Galdério, cujas rugas emergem agora de um imenso bigode grisalho, e cujas bombachas me remetem ao meu universo verdadeiro. Estou em casa.
No caminho, embalada pelas
coxilhas, e pela voz cantadíssima do nosso caseiro, percebo-me numa espécie de
sonho, em que, ao fundo escuto os ruídos e a música do fandango e a canção da
Nau Catarineta, que ouvia na infância, como um anti-acalanto, se posso dizer
assim, que me tirava da cama e me fazia correr para a balaustrada, para
observar a festa dos adultos, acompanhar aquela estória maravilhosa da nau
quase maldita, que encontra a sua redenção pela fé inabalável do seu capitão.
Agora, a nau que se encontra em
perigo é o nosso próprio casarão, que parece navegar, imóvel, no plano astral
do Pampa, batido pelo minuano, na estação fria.
Mas estamos em pleno verão. E os
dias estariam maravilhosos se essa ameaça não pairasse por dentro, em minha
alma. Nossa estância em perigo, nossa casa prestes a se perder. O que está
acontecendo com Rôdo? Como pode o meu irmão trair-me assim? Não foi ele auto-designado
como o fiel guardião do espólio do nosso pai? Da nossa herança sagrada, das
nossas raízes mesmo?
Anseio encontrar-me imediatamente
com ele, e temo chegar gritando como uma fúria, o que definitivamente não faz o
meu gênero.
Ao avistar Rôdo, entretanto na
varanda, de pé, com as suas bombachas, e os cabelos pretos revoltos, majestoso
em sua beleza jovem, meu coração se abranda, se aquece, e eu me distendo. Corro
a abraçá-lo. Ele me aperta contra o seu coração, e eu me remeto novamente à
nossa infância, quando nossos abraços eram mais freqüentes que o normal. Seu
cheiro, seu perfume, a maciez dos cabelos pretos de Rôdo, meu primeiro amor, na
verdade...
Mas logo me desprendo, afasto-me
à distância dos braços e olho-o nos olhos, fuzilando-o.
—Rôdo, que se passa? Como pode
pensar nisso? Vender a nossa estância...Prefiro a morte, fica tu sabendo.
Queres matar-me? Queres matar-nos a todos?
—Alma, não exagera! Tu és sempre
extremada nos teus sentimentos. Vê: não temos saída, é isso ou uma hipoteca,
que não pagaremos jamais. Estamos falidos. Essa é que é a verdade. Não consigo
tirar mais um tostão da propriedade. Os tempos mudaram. Tu és artista, não
sabes nada desse universo, do mundo prático, das dívidas imensas que acumulamos
desde antes mesmo da morte do Vati. Tu te iludes. Não temos mais saída.
–Mas, Rôdo—quase gritei—Tu
prometeste, tu juraste defender a nossa herança, o legado do Vati, a nossa
biblioteca, o piano, o jardim, o parreiral, o pomar, nossa macieira, mas
sobretudo esta casa. Ai, Rôdo, eu não posso suportar essa idéia, de perder
tudo!...
Caí num imenso pranto. Sentia-me
desfalecer. Rôdo amparou-me. Pegou-me então em seus braços, como fazia quando
atravessávamos o brejo, e carregou-me como a uma criança, para depositar-me no
sofá da sala. Abandonei-me por um momento, como se isso fosse abrandá-lo,
demovê-lo do seu intento, que eu sentia poderoso, já que a idéia da venda
estava instalada dentro dele, já havia muito tempo, eu percebia.
Fiquei soluçando, até adormecer,
exausta, num torpor de dor e cansaço acumulados, da viagem e do medo que me
acompanhava.
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Acordei com o rosto do meu irmão,
muito próximo do meu, com seus olhos pousados sobre os meus lábios. Teria ele
beijado a minha boca, em meu sono? Ai, Rôdo, é tarde...
Passei-lhe a mão nos belos
cabelos negros, sedosos, levemente ondulados, como se o pampeiro os agitasse
sempre. Meu irmão, meu irmãozinho... Preciso falar-lhe, convencê-lo. Deve haver
uma saída. Não me considero uma pessoa apegada a bens materiais. Mas, a
estância? É nossa herança espiritual...materializada. Não, não é possível, será
minha morte, a nossa morte. Estarei condenada para sempre àqueles Jardins
vazios, de São Paulo, onde posso ter somente o meu ateliê, com conforto,
cercado de galerias de arte, somente para prover a minha subsistência, para
continuar criando a partir do manancial interno desta herança, deste solo, onde
estão fincadas minhas raízes. Não, Rôdo, eu não permitirei. Lutarei contra tudo
e até mesmo contra ti, se me traíres, se nos traíres.
Levanto-me e peço a Galdério para selar uma égua. Saio galopando por esta amplidão, a campina infinita. Galopo muito tempo acompanhada ao longe pelo olhar de meu irmão, que me vigia como outrora, quando esta galopada era feliz. Ai, que posso fazer, senão galopar? Como lutar, que sei eu da vida, dos papéis, das dívidas... desse mundo sórdido e triste das realidades comezinhas do mundo prático, real? Sou uma artista, sou poeta, ai de mim! Sou então, tão vulnerável? Eu não sabia que podia ser assim atingida, no meu cerne, onde brotam as minhas forças criativas, no meu coração, na minha alma. Vão me matar! Vão me matar se isto tudo se perder, esta casa, estes livros, o Steinway do Vati, com sua música que ainda ressoa. Minhas memórias sobreviverão? Sem seu lastro ouro, não se desvalorizarão? Eu sei, esta pergunta contradiz a essência da memória, sua permanência em espiritualidade, mas... a matéria, então, não é nada? Porque existe, então? E é tão bela! Tanto quanto o espírito, não menos. Essa é a verdade. Como artista, eu amo a matéria tanto quanto a alma que nela se instala. Por isso a descrevo, a pinto, a enraízo nas telas e nos versos. Descrevo a beleza amada, de tudo, a minha própria beleza. Quero fixá-la. Quero-a eterna. Quero crer na ressurreição da carne, com Deus, ou entre os deuses do Olimpo, não sei mais! Entre os deuses do Pampa!
Levanto-me e peço a Galdério para selar uma égua. Saio galopando por esta amplidão, a campina infinita. Galopo muito tempo acompanhada ao longe pelo olhar de meu irmão, que me vigia como outrora, quando esta galopada era feliz. Ai, que posso fazer, senão galopar? Como lutar, que sei eu da vida, dos papéis, das dívidas... desse mundo sórdido e triste das realidades comezinhas do mundo prático, real? Sou uma artista, sou poeta, ai de mim! Sou então, tão vulnerável? Eu não sabia que podia ser assim atingida, no meu cerne, onde brotam as minhas forças criativas, no meu coração, na minha alma. Vão me matar! Vão me matar se isto tudo se perder, esta casa, estes livros, o Steinway do Vati, com sua música que ainda ressoa. Minhas memórias sobreviverão? Sem seu lastro ouro, não se desvalorizarão? Eu sei, esta pergunta contradiz a essência da memória, sua permanência em espiritualidade, mas... a matéria, então, não é nada? Porque existe, então? E é tão bela! Tanto quanto o espírito, não menos. Essa é a verdade. Como artista, eu amo a matéria tanto quanto a alma que nela se instala. Por isso a descrevo, a pinto, a enraízo nas telas e nos versos. Descrevo a beleza amada, de tudo, a minha própria beleza. Quero fixá-la. Quero-a eterna. Quero crer na ressurreição da carne, com Deus, ou entre os deuses do Olimpo, não sei mais! Entre os deuses do Pampa!
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Ao jantar, na grande mesa, Rôdo
numa cabeceira, eu na outra, percebo que estamos nas posições de nosso pai e
mãe, em suas cadeiras, com a mesma imensa distância que os separava. Matilde,
nossa cozinheira manda sua sobrinha nos servir. Matilde está muito calada,
depois de chorarmos muito, abraçadas. Agora parece uma sombra e não tem coragem
de aproximar-se dessa mesa vazia, com seus guris ( como ela diz )sentados
assim, separados pela própria mesa vazia, vazia, para sempre.
Onde estarão Lúcia e Solange,
nossas irmãs, tão omissas? Já aceitaram prontamente a perda da nossa estância.
Aliás, ansiavam por isso, cheias de rancor, e cobiçosas dos despojos do nosso
patrimônio, como harpias. Logo chegarão, disse Rodolfo. Logo estarão aqui,
insuflando a venda, reivindicando, disputando. Ai! não vou suportar. Eu
lutarei, não vou permitir que espoliem tudo. Não levarão um livro, um disco!
Não ousem cobiçar o piano. Nada deve sair daqui, agora vejo.
Sim, eu mesma jamais me
imaginaria, defendendo com unhas e dentes estas coisas. Mas eu sei que o Vati
me quer assim! Sei que ele era apegado aos seus livros, ao seu piano, aos seus
quadros, mais que às nossas terras mesmo! São a sua herança espiritual. Os
símbolos do seu amor pela cultura de todos os povos. Pela arte universal, pela
música dos Mestres. Ai! Não posso deixar isso se dispersar. A essência de uma
coleção é a personalidade, o espírito do colecionador, que assim se plasma. Uma
coleção dispersa, é a traição de uma vida, um ato de canibalismo, de mutilação,
de depredação. Uma alma estraçalhada, como um corpo!
Vati, Vati, eu te defenderei! Mas
como? Como? Que posso fazer?
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Chegam Lúcia e Geraldo, com meu
sobrinhos, os gêmeos, Christian e Hans. Depois Solange e Alberto. Patrícia,
quase uma moça, corre a abraçar-me, depois Pedro, menino lindo, quieto,
sensível. Como puderam estas crianças maravilhosas sair dos ventres desse
casal, é o que pergunto, na verdade, pois os pais já chegam brigando,
disputando a carniça. Solange abraça-me, contudo, com aparente emoção. Talvez
ela goste de mim um pouco, à sua maneira. Talvez por dever de irmã. Ela é
assim, e logo começa a queixar-se do beberrão do marido, que já está por ali,
procurando alguma coisa para beber. Nosso vinho, é claro, nossa adega ainda
está ali, tínhamos nos esquecido dela, desde a morte do Vati. Mas Alberto não.
Volta com uma garrafa meio empoeirada, olhando com satisfação o rótulo,
desenhado por mim. Distribuindo as taças faz um brinde rápido e cínico à nossa
estância. Ao dinheiro em que esperava meter a mão, na verdade. Ai, como tudo
isso é patético... e doloroso. Afasto-me com Patrícia, de mãos dadas. Esta
mocinha, quer abrir o seu coraçãozinho comigo, estou vendo. Está amando ( só
podia ser) e a mãe, naturalmente a vigia, proibindo-a de ser aproximar do guri.
Tudo tão previsível! Mas, a verdade é que meu espírito já não está sereno,
centrado, ali. Estou perturbada pela ameaça que paira sobre a minha casa. Será
que os meus irmãos podem viver assim desraigados do nosso chão, tão facilmente?
E Rôdo? A estância parecia vital para ele, tanto quanto para mim. E foi ele que
lutou por ela, por ocasião da partilha do espólio. Afinal, todos permanecemos
juntos na posse, por minha influência. Se Rôdo a tivesse obtido, por acordo, na
divisão dos bens, já não teríamos nada, agora vejo. Já estaria tudo perdido.
Meu irmão revelou-se um estróina. Seu carro esporte, sua Ferrari, o revela.
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Sento-me sob a minha macieira e
ponho-me a devanear. Começam a vir ao meu espírito imagens longínquas, de um
outro tempo que não o meu, mas que está nas minhas raízes, talvez tão fundas
quanto as desta árvore que contém meu coração, não só gravado em sua casca, mas
no seu cerne.
Transportam-me imagens rurais de
uma Morávia "alemã", sim, dos Sudetos, bem antes da segunda Grande
Guerra. Meus avós, agricultores alemães, voltando para o seu chalé, em estilo
bávaro, mas humilde. Trazem enxadas nas costas, e percebo-lhes as grossas mãos
calosas. O lenço cobrindo a cabeça de minha avó, de aspecto rude, a cara
embolachada, donde emergem olhinhos azuis, no meio da gordura avermelhada do
rosto redondo. Meu avô, altíssimo, magro, de enormes mãos ossudas, segurando um
cachimbo que o acompanha até o trabalho, no campo. Seus olhos azuis
esverdeados, parecem obtusos, mas ao mesmo tempo obstinados. A mesma obstinação
que o arrancará dessa terra onde se sente oprimido, como todos os agricultores
que queriam-na sentircomo alemã, em pleno seio da Boêmia e Morávia. Essa
revolta o trará, muito antes da guerra, para o sul do Brasil, terra prometida,
que ouvira falar, um tal vale do Itajaí, palavra exótica que mal sabiam
pronunciar. Aquele nefasto Hitler iria se aproveitar disso, com pretexto, para
invadir a Polônia e Tchecoslováquia e destruí-las. Sua luta, sua campanha de
ascendência ao poder já insistia nesse tema duvidoso.
Meus avós, eu os acompanho em meu
retrospecto sonâmbulo, ali sob aquela árvore ancestral, cujos primeiros galhos
correspondem a este casal de camponeses rudes, corajosos afinal, que iriam
primeiramente parar na região de Blumenau, em Santa Catarina, numa colônia
alemã, não tão distante de uma outra, açoriana, onde nasceria a jovem Ana
Morgado, amada ardentemente, desde a infância, pelo meu pai, o jovem Werner
Friedrich, sonhador, que queria estudar, sair dessa vida agrícola, ser músico
ou médico e resgatar a linda açoriana, como ele dizia, daquele universo, para
ele restrito, e carregá-la consigo para o mundo, tão mais vasto. Sonhava voltar
à Europa, ele que havia nascido ali, naquele vale ideal, de algum modo
brasileiro, alemão, português, italiano. Namoro rural típico, não fora o
espírito predestinado ao cosmopolitismo do jovem Werner, cuja rebeldia foi tolerada
pelos rudes alemães, porque revelava o herdeiro de uma tradição mais ampla, que
incluía a música de Bach, Mozart e Beethoven, e a sabedoria de Goethe e
Nietzsche, que ele descobrira praticamente sozinho, na biblioteca do pároco, o
pastor da igreja Luterana daquele vale.
Agrada-me pensar que o embrião
desta Alma aqui, já estava naquele vale... e naquele sonho do jovem casal de
namorados meio clandestinos. Sim, porque não foi fácil esta união, e incorreu
numa fuga, pois as duas colônias não se bicavam, e as famílias, tão diferentes,
à parte as raízes rurais, que isso sim, era o único ponto comum. Ana, pequena
católica, igrejeira, devota da virgem, da qual carregava a imagem numa medalha
ao pescoço, como pôde ela apaixonar-se pelo jovem teuto-brasileiro? Na verdade
mais alemão que qualquer um, no seu universalismo cultural que prenunciava uma
erudição que havia de se tornar espantosa. Como pode ele apaixonar-se pela
“portuguesinha” ingênua, mas ao mesmo tempo austera e dura, cuja religiosidade
ainda continha tanto fetichismo, com tantas imagens veneradas, e tantas
restrições morais, que na verdade eram o único ponto de encontro das duas
culturas?
Mas meu pai, este era libertário,
de larga visão... e aventureiro. Haveria de raptar a “rapariga”, filha dileta
dos Açores, de pele muito branca e cabelos negros, que reapareceriam apenas no
meu irmão Rudolf, o mais belo de todos, a meu ver. Mas antes de mim viriam
Solange e Lúcia, nome caros aos brasileiros.
Quantas aventuras, na verdade,
antecederam este estágio! O jovem Werner conseguira dos velhos, ser mandado à
Alemanha para estudar. Aquela Alemanha da ascensão do futuro Führer, que,
graças a Deus, produziu imediata aversão no jovem esclarecido.
Mas este jovem obstinado,
concentrou-se nos estudos, apesar de tudo, da conturbação social daquela
ascensão irresistível, daquele tirano, cujos berros ecoariam até aquele vale
ideal, lá no Brasil, e fariam meus avós colocarem braçadeiras para desfilar em
honra do fanático que prometia libertar os sudetos da Checoslováquia e Polônia,
tanto quanto anexar a Áustria. Meu pai não veria essa cena deprimente, do meu
avô com aquela braçadeira da suástica, e o braço direito estendido, gritando
“Heil!” enquanto marchavam pelas ruas de Blumenau, tolerados até com certa
condescendência pelo resto da população, num momento político sob a égide de
Getúlio, que até então, não disfarçava sua simpatia pelo colega do III Reich.
Foi preciso a guerra terminar, e os segredos escabrosos do nazismo virem a
tona, para meu avô reconsiderar suas posições e renegar aquela ideologia. Pelo
menos o fez. E botou uma pedra sobre o assunto, como, ao que parece, todo o
povo alemão.
Daqueles anos, eu soube muito
mais tarde os passos do meu pai, pelas cartas à minha mãe, que descobri nos
seus guardados. Cartas e cartões postais, apaixonados, românticos, com
linguagem cada vez mais elaborada, denunciando uma cultura crescente, que sem
saber o distanciaria da pobre rapariga açoriana, mais afeita a um banco de
jardim de praça, singelo, diante de uma igrejinha de aldeia, como a que
escolheu para se casarem, ao seu retorno.
O jovem, alto, de louros cabelos,
e olhar azul brilhante, voltaria com uma bagagem insólita: uma biblioteca
imensa, que ele parecia ter digerido perfeitamente, tal a extensão do seu saber
e as bases de uma erudição que ele iria fazer crescer cada vez mais ao longo de
sua vida. E o piano? Um Steinway negro, maravilhoso, que trouxera de navio e
que ele dedilhava com técnica apurada, aprendida sabe-se lá onde e como, com
que tempo? Como pôde ele acumular tanto saber, e ainda tocar daquela maneira
romântica, tendo se formado em Medicina, e se tornado mesmo um cirurgião
(atividade que, na verdade, ele quase não exerceu )?
O que mais me impressionaria em
minha infância, seria o seu ouvido musical, absoluto, e o seu conhecimento das
obras do Romantismo, inclusive o mundo da ópera alemã, francesa e italiana,
sobretudo. Sim, meu pai era um romântico e passaria essa tendência inata para
mim, sua filha predileta. Mas antes, muita coisa aconteceria naquele seu retorno,
às vésperas da conflagração que mudaria o mundo.
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Interrompem esse meu mergulho
retrospectivo as vozes adoráveis dos meus sobrinhos que se aproximam correndo e
brincando. Pré- adolescentes especialmente belos, mantêm uma agradável harmonia
entre eles. É lindo observar a doçura das relações entre Patrícia e Pedrinho,
sua cumplicidade, fruto talvez da necessidade de se unirem, num lar conturbado
por um pai alcoólatra e uma mãe excessivamente controladora. Posso imaginar os
conflitos e cenas, das quais já presenciei algumas, com que essas crianças são
obrigadas a conviver. Quanto aos gêmeos, Christian e Hans, são dois doces
enigmas. Só falta falarem em uníssono, como aquelas gêmeas do filme de Bergman,
“Morangos Silvestres”. Junto-me a eles, que me cercam oferecendo-me frutas e
sorrisos lindos. Andamos juntos, entrando por aquele pomar, e eu me entrego ao
imenso prazer daquele momento, até o instante em que me lembro da ameaça que
paira sobre tudo isso. A perda iminente deste paraíso, desses momentos que eu
queria eternizados por gerações. Saio correndo subitamente, chorando, em
direção ao casarão, para espanto das crianças. Eu precisava ver Rôdo, insistir
com ele, demovê-lo do seu intento, de algum modo.
Encontro na sala o estrupício do
Alberto com mais uma garrafa na mão, procurando uma taça. Logo estará bebendo
no gargalo, sujo ou não. Solange, que aparece logo, com seu ar irritado como
sempre, olha meu rosto molhado de lágrimas e abre ligeiramente os braços, para
deixá-los cair sobre as largas ancas, num gesto de “paciência”.
—Aí estás novamente a debulhar-te
em lágrimas. Viraste agora uma chorona, Alma? Não eras assim... Que queres? Não
aceitas a realidade, não é? Nunca a aceitaste, não é mesmo? Tu e o Vati, dois
sonhadores. Nunca souberam que as famílias precisam de dinheiro, dinheiro,
estás ouvindo? Não se criam crianças só com livros e música, sabias? Não, não
sabes. E bla, bla, bla...
Saio correndo daquela sala, e vou
bater na porta do quarto de Rôdo. Não o encontro. Vou à biblioteca e ali está
ele limpando uma arma, uma carabina de caça que meu pai nunca tocava e que
mantinha apenas como recordação de meu avô. Causou-me imediata repulsa ver
aquela arma, naquele momento. Porquê não o encontrei com um livro aberto? Um
dos muitos livros ilustrados do Vati, tão caros à nossa infância?
— Rôdo, preciso que me ouças.
Larga essa arma e raciocina comigo: deve haver uma saída. Em quanto monta a
dívida da estância? Porquê não vendes tua Ferrari? Para quê precisas de um
carro assim tão caro? Não é a estância mais importante para ti, para nós dois,
pelo menos? E as crianças, Rôdo? Não vês que elas não podem ser privadas destes
jardins, deste pomar, disto tudo? O Pampa, Rôdo, o Pampa!
Caí em lágrimas, sacudindo-o pela
gola da camisa. Abracei-o fortemente e ele me apertou fundo, contra o seu
peito, antes de rechaçar-me, exasperado.
— Alma, pára com isso. Estás
tornando tudo mais difícil. Não és tu que sempre falaste em desapego? E a tua
filosofia? E o Tao? São só balelas? Palavras? Veja, Alma, isto também é
destino. Chegou ao fim a nossa estância, esta casa, a nossa infância. Então não
vês, Alma? Acabou.
—Não, não, Rôdo! Não tente me
confundir. Eu sei, eu sei que não acabou. Sinto o Vati pairar sobre esta casa,
e a música que emanava dos seus dedos, ao piano, acorda-me à noite. Ele está
aqui e nos quer juntos, pelo menos a nós dois, sob este teto, nesta biblioteca,
relendo estes livros... ou venerando-os, simplesmente. Seu piano, Rôdo, o
Steinway... não podemos, Rôdo, ele ainda está vivo!
Rôdo olhava-me desolado, agora
com lágrimas nos olhos, e abraçou-me novamente, soluçando os dois. Rôdo também
desabara, sua força era fictícia. Eu sabia.
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Ao jantar, todos à mesa, nossa
grande mesa, cujas cabeceiras eram agora ocupadas por Rôdo e Solange, já que
esta jamais me deixaria ocupar esse lugar, Alberto, inoportunamente, fez
questão de fazer um brinde com mais uma garrafa da nossa adega. Tudo era
pretexto para o beberrão, não importando a falta de verdadeira alegria neste
encontro de família, em que as próprias crianças estavam mais caladas, como que
pressentindo algo, o fim iminente daquelas reuniões. Suas anteninhas já
captavam o desastre, a dispersão, o fim do sonho. Eu sabia o quanto o casarão e
a estância eram importantes para eles, eram uma espécie de porto seguro
ancorado na terra ancestral. Viviam na cidade, mas sempre estavam aqui a cada
ano, nas férias escolares, e aqui cresciam, espichavam, a cada temporada
maravilhosa. Seus olhinhos procuravam os meus buscando segurança,
instintivamente. Eu percebia que eu era para eles a referência de estabilidade
desta estância, apesar de tudo, apesar de ser somente uma artista. Mas o meu
amor e minha alegria eram o termômetro da continuidade daquela casa dos avós,
de suas raízes. Solange, eu percebia, se irritava com isso, uma vez que lhe
parecia que cabia a ela esse papel, como a mais velha. Mas, como esta mulher
árida, sem verdadeiro amor, segundo me parecia, poderia ocupar o lugar do Vati?
Ele era puro amor e complacência, aliados a uma força e sabedoria raras. Ele
era o verdadeiro espírito desta estância que meus avós compraram, na plena
decadência de uma velha estirpe de estancieiros gaúchos autênticos, mas tão
antigos neste Pampa que caíram de podres.
Quando meus avós, agricultores
que prosperaram tanto, por puro esforço e disciplina germânicos, compraram esta
fazenda, talvez a situação fosse análoga à deste momento. Deve ter havido ali
uma Alma pampiana e... um Rôdo. Também uma Solange dura e seca. E crianças que
perderam tudo. Imagino a carga de dor e ressentimento na mudança de mãos desta
propriedade, cuja estabilidade dependia de enorme dedicação e amor. Talvez a propriedade,
em si, tivesse um espírito que nos condicionava, que nos direcionava, e que não
perdoava a nossa própria decadência... e nos expulsava por fim. Mas, não! Não
me resignei ainda! Não estou pronta, eu pensava, naquela mesa, naquele jantar
triste, na verdade, onde o brinde de um beberrão soava estranhamente
inoportuno, e no qual ninguém estava interessado. Entretanto, ao tocar a taça
após o brinde, meus lábios sentiram primeiro o gosto da terra maravilhosa deste
pampa, o cheio frio do minuano, o aroma do charque, do mate na cuia, e das
videiras sem fim. Então percebi a excelência daquele vinho no qual eu antes não
reparava. E pareceu-me um sabor celestial, que apontava de algum modo o
caminho, numa linguagem ou código que eu não pude, então, decifrar.
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Passeio com Rôdo à noite após o
jantar no nosso jardim coruscante de pirilampos. Patrícia e as crianças,
encantadas, correm atrás das luzinhas tentando apanhá-las. Esta cena se
gravaria em mim para sempre, eu sabia, mas não acreditava que seria a última
imagem noturna daquele jardim maravilhoso de minha infância extensivamente
alargada ali por aquelas crianças lindas. Rôdo e eu em nossa meninice tínhamos
feito tanto isso! Ele colocava centenas de pirilampos num vidro de compota ou
mesmo numa garrafa vazia de vinho, para brilhar na noite, concentrados,
enquanto eu protestava, até tomar-lhe a garrafa para libertar os bichinhos.
Rôdo, na verdade, deixava que eu o fizesse, pois sua índole era amorosa, pelo
menos comigo. Ele então me cobrava em troca, apenas beijos nos lábios, que eu
ingenuamente regateava, excitada, meio temerosa. Uma vez ele me fez deitar
atrás de uma sebe florida, ali no escuro, e cercados do piscar de mil estrelas
no céu e na terra, ele me beijou longamente os lábios, desajeitadamente mas com
doçura, enquanto sua mãozinha percorria o meu corpo, apalpando-me. Ali senti
pela primeira vez aquelas coisas, quando sua pequena mão cobriu minha concha,
por baixo da saia. Somente... ele quebrara o encanto, levando a seguir os dedos
ao nariz e fazendo uma careta. “Cheira a xixi”, ele disse, e eu, perplexa e
envergonhada, saíra correndo para dentro da casa.
Agora, ali, com ele, esta cena
assomou do fundo da memória e me fez sorrir no escuro, um sorriso que ele não
viu. Talvez ele também pensasse naquilo e também sorrisse no escuro,
lembrando-se do meu cheiro e de como ele então ficara obcecado, a partir
daquele momento, e buscara tantas vezes renovar aquela experiência, até o dia
amargo em que, denunciados, fomos flagrados por nossa mãe, sob a nossa
macieira.
Rôdo suspirou fundo, talvez
daquele fundo da memória, e disse:
–Alma, não quero, tanto quanto
tu, perder isto tudo. Aqui a nossa memória está viva, eu sei.. Farei o que você
quiser, mas tenha uma idéia, pelo amor de Deus. Venderei a Ferrari, se for
necessário, mas advirto-a que a dívida é muito, muito maior do que o que posso
obter com essa venda. Pelo menos o dobro. E meu carro já não é novo, tu sabes
como eu corro nessas estradas. A quilometragem está altíssima. Tu te lembras
como já destruí um Porsche ... e quase morri. Poderei viver sem a velocidade?
Talvez não... mas eu sei, estamos numa situação limite, e há mais pessoas em
jogo. As crianças... Mas lembra-te: Solange e os cunhados estão loucos para se
desfazerem da casa, da estância, de tudo. Eles odeiam nossas raízes, com
excessão de Lucia, com quem acho que podemos contar, os outros são pessoas
áridas, sem raízes verdadeiras, a não ser pelos belos filhos que tiveram,
surpreendentemente. Então, Alma, pense, pense! Mas tenha uma idéia melhor,
porque eu... já não sei o que fazer.
—Rôdo— eu disse—Vou orar, terei
uma inspiração, eu sei. Mas vou orar aos deuses, do Olimpo e do Pampa, como o
Vati me ensinou. Ele queria que a sua guria fosse pagã... e conseguiu.
Procurarei nossa macieira, farei um ritual, amanhã à noite. Somente tu deves
saber disso. Mantenha todos afastados. Disfarça. Para todos os efeitos estarei
trancada no quarto. Tu me conheces, não brinco com certas coisas. Tu verás.
Algo deverá acontecer, que nos tirará desse impasse.
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Preparo-me para o ritual que
encasquetei de fazer junto à minha macieira. Recolho disfarçadamente ervas,
durante todo o dia. Não esqueço de acrescentar à minha recolha a erva-mate
sagrada dos pampas, e folhas do nosso parreiral. Passo o dia concentrada, tendo
entregue a Rôdo a tarefa de despistar a bisbilhotice de Solange e Geraldo, o
marido de Lucia. Quanto a Alberto, este está entretido demais com as garrafas,
dizimando a nossa adega.. Temo somente que ele passe logo a dar vexames,
chocando as crianças, e Patrícia, aquela flor preciosa que se mantém intocada
como um lírio dos pampas, ou como um serafim. Como puderam estes guris
preservarem-se assim, tão puros, com pais como esses? Bem, deixo isso para lá,
nada posso fazer a não ser manter meus braços sempre abertos para acolher estas
crianças maravilhosas.
Ao anoitecer, esgueiro-me com
minhas ervas e outros acessórios, para escondê-los no pomar e voltar a tempo
para a ceia. Rôdo ficou entretendo as crianças para que não vissem minhas
manobras. No jantar, Patrícia manifestou a falta que sentiu de mim,
ligeiramente magoada. Acarinhei-a muito, sob o olhar de esguelha de sua mãe.
Seu pai já estava tão bêbado que não se sentou à mesa. Então bebemos água da
fonte durante esse jantar. Entretanto, ao tocar a taça com água pura, voltei a
sentir o sabor surpreendente e delicioso do vinho da noite anterior.
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Atravesso o jardim, cujas
margaridas, sob o clarão da lua, ostentam um aspecto fosforescente e espectral.
Árvores, arbustos e sebes projetam sombras que confundem minha visão, e me
fazem sentir como num sonho. No pomar de copas prateadas, as sombras no solo,
mais compactas, fazem destacar uma área de solo claro em torno da minha
macieira, ela toda aparentando um aspecto mágico, de prata, coruscante.
Carrego comigo uma banqueta de
três pernas, que será a minha trípode improvisada. Instalo-a próxima à
macieira, frente ao coração gravado nela com as nossas iniciais. Essa é para
mim a face da minha árvore. Como o banco é um tanto baixo, trato de mantê-lo
sobre pedras empilhadas que o erguem à altura do meu peito. Espero que a
ligação da minha trípode com o solo, esteja assegurada por estas pedras, e não
a isolem. E necessário que a ligação entre o céu e a terra esteja perfeita em
seu fluir de energias. Assim diz o meu instinto. Sou a Pítia, ou a pitonisa
deste templo: o meu pomar. Sou tomado por esse sentimento, raro em mim, de
intermediação de forças ocultas e esoterismo vago, como um terreno que, na
verdade, não conheço. No entanto, um instinto desconhecido em mim, me orienta.
Poderes ancestrais, muito antigos, confluem para mim, eu os sinto, vindos de
uma antigüidade longínqua. Talvez uma druidisa atue, ou uma pitonisa grega, ou
mesmo uma fusão desses oráculos, desde as suas vertentes celtas, germânicas e
gregas, juntadas em mim nesta noite solene.
O coro dos grilos, sapos e outros
cantores noturnos como o bacurau, e mesmo cães ao longe, uivando para a lua,
preparam o momento de silêncio absoluto que se instalará, eu sei, no momento da
invocação mágica.
Sou tomada de um fervor sagrado
em relação a forças que pressinto, sem conhecê-las bem. Não são fruto da razão,
e acho-me já em estado semi-delirante que se instala em mim, misteriosamente,
nesta noite propiciatória. Certamente não poderia ser outra noite. Somente esta
data esperava por mim, sacerdotisa de um único momento, vestal de virgindade
refeita por algumas horas que não se repetirão jamais.
Começo a queimar as ervas que
recolhi durante o dia e que escondera ali perto. Principio pela erva-mate dos
pampas, invocando, enquanto o fumo se eleva, os numes pampeiros, inclusive
aquele terno e trágico negrinho do pastoreio, emerso da memória da minha
infância. Invoco o capitão santo da Nau Catarineta e o gaúcho da Salamanca do
Jarau, invoco Martim Fierro, ou o seu modelo, um gaucho real, molde de todos os
peões gaúchos valentes e telúricos. Prossigo, então, com a queima do fumo da
nossa estância, fortíssimo e esquecido. Adiciono, afinal, folhas do nosso
parreiral, invocando o eterno Dioniso, que aparece em meu espírito com o rosto
de meu pai. Então, neste momento, o pomar parece saturado de presenças. Cada
nume traz consigo o seu cortejo de agregados. Dioniso se apresenta com a barba
loura de meu pai jovem, coroado de folhas de parreira, trazendo na mão a taça
de seus vinhos, e com ele o séquito que o acompanha sempre. Eu os vejo, a
todos: sátiros, ninfas, e os pequenos faunos buliçosos. Logo este pomar estala
numa imensa bacanal sagrada. Encontro-me num estado hiperestésico, de
confluência de todos os espíritos. Meu cabelo parece arrepiado e sinto a
irradiação que exala de mim pelos meus poros, pelos meus dedos, que manipulam
as ervas conclamatórias. Todos os deuses, algumas bruxas, feiticeiros e druidas
para ali convergem. Vejo o Mago Merlim, do rei Arthur, e a fada Morgana, também
Queen Mab* em sua casca de noz, seguida de toda a féerie. Deirdre*, filha da
Irlanda ancestral, a segue, com Fingal* e Ossian*. Meu pomar saturado, se
transforma numa grande “Noite de Walpurgis”*, com a presença errante de Fausto
acompanhado de seu Mefistófeles; e a de Eros e Psiqué, e Helena de Tróia
“aquela cujo rosto lançou ao mar mil navios”. Vejo Thor e Odim saídos do seu
Walhala* e as Valquírias em cavalgada. Numa espécie de momento Alef, vejo tudo
e todos, em torno à imensa barba de Leonardo da Vinci, neste Sabat universal,
antes de desabar, desfalecida, com a minha camisola estraçalhada pelas minhas
próprias garras, semi-nua no chão alcatifado de folhas secas e pequenos seres
ariscos, espaço prateado por uma lua imensa que me faz levitar na horizontal, a
um metro do solo.
Rôdo, gritando meu nome, chega,
correndo, e recolhe-me no ar, estupefato, segundo me contaria depois. Teve de
pousar-me sobre as folhas secas forçando-me para baixo. Nunca mais, ele disse,
me olharia com os mesmos olhos.
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Passei os dois dias seguintes de
molho, na cama, exaurida, a ponto de suspeitar que aquilo tudo, deuses e numes,
tinham saído de dentro de mim mesma, e não da natureza em torno, do meu pomar,
da terra e do ar, enfim.
Mas não importa, eu os
conclamara... e eles apareceram. Eles se reuniram, vivos, de algum modo.
Estavam todos ali, não faltaram ao encontro, o que me deixava a certeza de que
não estava só, e que não abandonariam esta terra. E eu estaria sempre no meio
deles, pois minhas raízes eram sólidas, e de algum modo, minha fé era tão
poderosa, que eu não seria derrotada pelas divindades menores do dinheiro... ou
da falta dele.
Minhas irmãs e cunhados
atribuíram meu estado a uma depressão compreensível diante da nossa situação
financeira. As crianças cercaram-me de carinho, subindo ao leito e entrando, à
noite sob as minhas cobertas para me abraçar. Percebi o quanto era amada por
estas crianças, e tive certeza de que estava no caminho certo. Patrícia, a
donzelinha, disse-me:
—Tia Alma, estou sabendo que
mamãe e papai querem vender a estância. Estou vendo também que tu sofres mais
que todos por isso, e que estás lutando, de algum modo, para salvá-la. Conte
comigo, tia. Farei o que quiseres. Não deixarei, também, que isso aconteça, sem
lutar. Papai só quer saber de beber, eu vejo. Beberá o dinheiro todo que lhe
cair nas mãos. Beberá a estância toda, se deixarmos( uma lágrima correu em sua
face)— Mas, tia, tu deves dizer-me o que fazer. Eu te obedecerei, quaisquer que
sejam as tuas instruções. Diga-me, tia Alma, que posso fazer?
—Patrícia, meu amor, tu és a
minha guria predileta. Eu sabia que podia contar contigo. Mas não sei como
podes ajudar. No momento certo, quando eu descobrir, eu te avisarei, continua
atenta... e conta-me tudo o que ouvires de estranho. Não queria que fosses uma
pequena espiã, simplesmente. Mas o tempo é de guerra e temos de tomar nossas
posições. Sou-lhe infinitamente grata pelas tuas palavras. És uma guria de
ouro.
Ao terceiro dia, recuperadas as
forças, abandonei o leito e participei do jantar, quando Alberto aproveitou
para abrir mais uma garrafa para fazer-me um brinde. E mais uma vez, o vinho me
pareceu delicioso demais. Alberto passou o jantar bebendo, sem tocar a comida,
muito animado, como se o tempo fosse de festa. E, de um jeito ou de outro, nos
distraiu de nossas preocupações.
Rôdo, naquela noite, após o
jantar, combinou comigo, aos cochichos, como criança, encontrar-me no
escritório. Ali cheguei, na hora combinada, e encontrei-o com a bota sobre a
escrivaninha e com a faca gaúcha de prata lavrada, na mão, no seu jogo de cena
preferido, desde a infância. Fazia o gênero gauchão, com um sorriso na metade
da boca. Mas logo compôs-se e disse:
–Alma, não sei o que fizeste, mas
tu me assustaste. Como pudeste ficar assim, pairando acima do solo? O que
aconteceu? O que aprontaste? És uma louca, quase tenho medo de ti. Que estás
tramando?
—Rôdo—disse eu—os detalhes não
são de tua conta, apesar de teres chegado numa boa hora para interromper o
ritual, que não sei, realmente como poderia acabar. Só sei que o pacto foi
feito, se posso chamar assim. Não estamos sós. Tu vistes as hostes de que
estamos acompanhados?
—Alma, nada vi, a não ser o
suficiente: tu deitada no ar, teus cabelos quase tocando a terra... e já foi
demais. Não quero nunca mais ver isso, sua feiticeira. Tu me assustas. Desde
criança que tens teus mistério, dos quais não posso compartilhar. Não é justo.
Mas o que fizeste? Qual o resultado prático, vamos, diz lá!
—Olha, irmão, não te posso contar
tudo. Eu mesma custo a acreditar, agora, no que vi. Nada foi dito,
propriamente, mas as presenças que invoquei, e que compareceram trazidas ou não
pelas nossas ervas, foram o suficiente para saber que não estamos sós, e sim
acompanhados de entes poderosos, que velam por nós e por esta terra, esta casa.
Isto me deu confiança, e o resultado, por enquanto, é só este: confiança. Sei
que uma inspiração súbita me virá, deles. É só esperar.
—Bem, Alma, que venha logo essa
inspiração. Não temos muito tempo. A pressão econômica, dos nossos credores não
dá trégua, tu não fazes idéia... Até agora eu quis poupar-te dos detalhes, já
que és uma artista, a quem isto tudo seria mais penoso ainda, do que para mim e
as irmãs. Nossos cunhados, tu sabes, são dois zeros à esquerda, principalmente
Alberto, o rei das garrafas.Estávamos conversados. Calada, passei a acariciar os seus cabelos, que eu adorava desde a infância, e ele aninhou a bela cabeça nos meus seios.
Passeio de manhã entre as flores
do nosso jardim, colhendo margaridas, dentes-de-leão, violetas, e fazendo um
buquê. Patrícia me acompanha, encantada, e enfeitamos nossos cabelos com as
mais miúdas. Como trajamos vestidos brancos, vaporosos, devemos certamente
estar lindas. Nossos cunhados nos observam e até Alberto, o entorpecido, se
mostra sensível à essa cena. Tenho consciência de que coisas como essa, estão
no cerne de tudo, dão sentido a esta propriedade rural, cuja meta última é
também a beleza. Nada teria significado sem isso, essa é a tradição desta terra
gaúcha, no fim das contas, a tradição... de beleza, deste pampa e de nossa
gente. Tenho a convicção disso, e não me acusem de artista... como se isso
significasse uma visão parcial, subjetiva. Os gregos sabiam, como no poema da
urna, de John Keats: “a verdade é a beleza, a beleza é a verdade. Isto é tudo o
que há para saber”.*
De dentro da casa vem o som de um
prelúdio de Chopin. Uma das “cinco peças fáceis”, que Rôdo sabe tocar com
delicadeza ímpar, embora nunca pense em si mesmo como um artista. O pendor
musical herdado do Vati se faz presente, nele, como em mim. Não sou capaz de
tocar assim, somente de dançar, pintar e escrever sob o influxo desta música
maravilhosa. Sinto-me, nos últimos dias, cronicamente comovida, como se a minha
vida estivesse no seu limite, o que pode bem ser verdade. Está na hora de
montar o meu cavalo baio, e mesmo com este vestido e estas flores nos cabelos,
galopar por estas pradarias, pelo pampa infinito. Pois é o que farei, depois de
pedir a Galdério a montaria selada. Solange aparece na varanda tentando
deter-me, escandalizada.
—Alma, sua louca! Quando vais
parar de te comportares assim? Estavas muito bem colhendo flores com Patrícia.
Terás de galopar mais uma vez, como quando eras criança? Já cresceste, pára com
isso! Podes machucar-te, não vês?
Já estou montada e ouço-lhes os
gritos à distância. Disparo pelo prado, como se fosse o próprio pampeiro,
zunindo nas coxilhas. Rôdo montará em seguida e me perseguirá, eu sei, como
outrora, como outrora...
.....................................................................................
Comunico a Rôdo que preciso de
uma companhia feminina, de uma amiga, aqui, neste momento, e que penso em
convidar Aline, que sempre quis conhecer a nossa estância. Agora é o momento.
Estamos separadas, mas como amigas, e sei que ela não perderá esta
oportunidade, além do fato de que quer estar comigo, eu sei, com um pretexto
que aquele Pedro não poderá obstar. Rôdo concorda, claro, ele não precisa saber
do timbre desta amizade, que não lhe diz respeito. Quanto à Solange, nem penso
em lhe dar qualquer satisfação.
Logo passo a telefonar para a
casa de Aline, até conseguir falar com ela. Digo-lhe que venha, que preciso
dela...desesperadamente. Que se trata de um momento delicado, que preciso de
seu apoio, de sua confidência, de seus conselhos mesmo. Na verdade, de seu
amor. Ela, comovida ao telefone, diz que sim, que virá. Que eu a espere dentro
de três dias, no máximo.
Enquanto a esperava, pela minha
ansiedade e exaltação, escrevi esta carta desvairada, como se já não nos tivéssemos
falado ao telefone:
"Estás a caminho, Aline, eu
já te vejo voltando. Recebeste minha carta, e respondeste com um lacônico
bilhete, mas tão sugestivo, que foi o suficiente: meu coração se iluminou.
Estarei sonhando? Interpretei tuas poucas palavras pela ótica da minha
apaixonada esperança? Não creio. Eu sinto teus passos na estrada, na longa
estrada que nos separou. E meu coração segue o compasso dessa tua caminhada em
direção aos meus braços, à minha alegria recuperada.
.......................................................
Ah! Tudo o que faremos, Aline,
quando tu voltares!"
...........................................................
Ah! Que dias compridos, os que se
seguiram, até o momento de buscá-la na estação. Galdério nos transportou na
charrete, a mim e Patrícia, que está eufórica com a perspectiva do convívio de
mais uma mulher jovem, que ela sabe bela e doce, pela minha descrição.
Ao avistá-la, na plataforma, com
sua mochila, seus indefectíveis jeans e camiseta, seu tênis, tão moderna e ao
mesmo tempo tão atemporal, Patrícia gostou dela à primeira vista, e quis
ajudá-la com a mochila. Mas Galdério se encarregou disso e aboletamo-nos na
charrete, tendo Patrícia passado para a parte de trás com os ouvidos atentos à
voz macia de Aline, que sussurrava como era de seu feitio, com aquela suavidade
que me conquistara desde o primeiro encontro. Diante dela, meu coração se
distendia, eu queria abraçá-la para nunca mais largá-la. Seu cheiro doce me
invadia e as lágrimas me vinham aos olhos. Ela sabia. Continuava,
generosamente, deixando-se amar por mim, e eu... seria capaz de qualquer coisa
por esta guria que completara a minha vida, a lacuna do meu coração insaciável
de amor e de beleza.
O percurso do retorno não sairia
nunca mais da minha memória. Deitei minha cabeça no ombro de Aline,
despreocupada com qualquer possível julgamento do fiel Galdério, que se
mantinha discretamente calado, e cantamos juntas, acompanhada pela vozinha
aguda e juvenil de Patrícia, um lindo acalanto que minha babá, Matilde, irmã do
charreteiro, entoava para mim no berço, na hora de dormir, e que falava de
coisas maravilhosas, como um cavalo azul, uma ave de ouro e uma donzela que
cantava tudo aquilo, numa meta-linguagem circular, sem fim.
Ao chegarmos diante da varanda do
solar, eu estava semi adormecida, minha cabeça no colo de Aline, num aconchego
antigo, que eu queria que nunca terminasse. Acordada por ela, eu queria ser
pequenina para que me carregasse no colo, me pusesse no sofá ou no leito mesmo,
e continuasse a cantar para eu mergulhar num sono perfeito, profundo. Ah! Mas
Aline ansiava por saber de tudo, do que estava acontecendo e eu... esquecera de
todos os problemas, como fazia sempre que estava com ela, o meu amor.
—Querida—disse eu—quase esqueço
os problemas, como se te tivesse chamado apenas para repousar no teu colo. Mas
é isso mesmo. Preciso mais do teu carinho, do que de qualquer conselho, pois
sei que pouco poderás fazer, já que o problema é basicamente financeiro e
entendes disso tanto quanto eu. Mas teremos tempo para tu te inteirares do que
está acontecendo . Darei um jeito para que Rôdo te conte tudo. O importante é
que estejas comigo, pois se meu coração estiver escorado, haverá mais
probabilidade de vir a inspiração dos deuses que invoquei, para salvar a nossa
estância, que é tudo para a nossa família, ou pelo menos para mim mesma, e para
as crianças, que vivem metade do tempo na cidade. Aline, estou te envolvendo
neste problema, em termos, mas se me apoiares com a tua companhia, cumplicidade
e carinho, esta terra será tua também, eu te prometo. Aceitas?
—Alma, nada quero. Você sabe que
eu a amo tanto quanto me ama, e se não deixei o Pedro, é também por coerência,
porque não o amo menos. Você sabe que se pode amar assim, duas ou mais pessoas
igualmente. Eu sei o que você sente pelo seu irmão, e fez-me compreender e
aceitar isso desde o princípio da nossa relação. Somos abertas, é um fato, e
nossa cumplicidade é tácita. Pode confiar em mim, mas me conte, o que você fez,
cujo segredo vejo nos seus olhos? O que está acontecendo?
Contei a Aline tudo, a ameaça que
pairava, e a minha aventura, o pacto com os numes e deuses, que desceram, ou
apareceram em avalancha naquela noite assombrosa. Aline arregalava os grandes
olhos azuis, assustada, balançando a cabeça. Temi que ela estivesse pensando que
eu estava enlouquecendo. Mas ela não me decepcionou. Agarrou as minhas mãos
dizendo:
—Pequena feiticeira! Você nunca
me enganou. Eu sempre suspeitei de seus poderes, desde que me enredou na sua
teia, naquele primeiro dia. Você me seduziu, e não há maior poder que esse: o
da sedução. Você me prendeu para sempre em seu belo coração, de onde vem, na
verdade, o seu poder. A sua pureza, Alma, é a sua força, não duvide disso, e
não a perca nunca. Tal pureza pode tudo, e lhe assegurará a continuidade da
posse desta terra, que você tanto ama.
Com as lágrimas escorrendo em meu
rosto aproximei meus lábios de sua maravilhosa boca, saudosa de seus beijos e
carinhos. Ela enlaçou-me e colou seus lábios aos meus aspirando a minha alma.
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Não muito longe daqui, estão as
ruínas das missões, “Sete povos”, que meu pai me levou a conhecer, quando eu
era ainda criança. A grandiosidade daqueles destroços, fortaleceu a minha
convicção da grandeza desta terra, cujos índios, orientados pelos jesuítas,
puderam construir tais paredes portentosas. Há quem diga que os índios não
deveriam construir nada de pedra e cal, e que tudo isso não passa de violência
e desvirtuamento de sua cultura, maravilhosa quando em seu primitivismo. Mas a
verdade é que tudo foi destino, e faz parte integrante desta terra, cuja
história não pode prescindir de nenhum dos seus dramáticos fragmentos: a
colônia, o Império, a revolução Farroupilha, com Bento Gonçalves, Neto, e Garibaldi.
E aquela maravilhosa Anita, de quem invejo a brasilidade integral, apaixonada
por um herói italiano e morrendo em terra estrangeira. O sangue alemão, que
corre em minhas veias, também está assimilado pela seiva dos Pampas, e nosso
vinho de tantas cepas, tende a se tornar um dos melhores do mundo, perdendo
somente para o francês. Quem sabe o desbancaremos num futuro remoto, quando
aquele solo extenuado, da antiga Gália, ficar totalmente exaurido.
Assim meditando, dirijo-me ao
nosso vinhedo, quase envergonhada de priorisar nosso pomar, à minha chegada.
Ali encontro Rôdo supervisionando os trabalhos, consciensiosamente, como se,
para ele também, ainda houvesse esperança. Admirei-o de vê-lo assim, já que ele
me confidenciara o seu desespero, a sua derrota. Talvez ele quisesse entregar
uma terra produtiva, para alcançar melhor preço, na venda que projetava.
Rôdo oferece-me um cacho de uvas,
que brilhava, perfeito, e colocou-me folhas de parreiras dos dois lados da
cabeça, exclamando, cinicamente:
—Ave, Anima Mundi, morituri te
salutant!
Aquilo me soou irônico, mas
auspicioso ao mesmo tempo. Retirei as folhas e pondo na boca uma única uva,
coloquei o cacho na cesta para ser levado com os outros. Era a minha afirmação
da necessidade de prosseguir, de dar continuidade à produção do nosso vinho, e
de que não íamos morrer jamais. Assim quer a vida: que vivamos com se fôssemos
eternos, desdenhando a oferta enganosa dos deuses, como se a imortalidade
estivesse no instante presente, eternizada. Assim Odisseu rejeitara a oferta de
Circe, e nisso consistira a sua honra humana imortal. Ele não renegara sua
mortalidade porque a sabia relativa: o instante sublime, de coragem, aventura e
curiosidade, já configurava uma eternidade, e ele não se deixaria corromper
pela tentação dos deuses, que testavam as almas, como o Diabo faria mais tarde
ao Cristo, e Mefistófeles, encarnação daquele, que iria tentar a Fausto, penúltimo herói moderno, já que os últimos foram Garibaldi e Anita.
O gosto do sangue da uva em minha
boca, me deu, por bastante tempo a sensação do embrião indistinto de uma idéia
que ainda não encontrara a sua configuração. Que seria? O que se insinuava,
então, em meu espírito, assim de maneira ainda amorfa, sem rosto?
Aline veio encontrar-me no
vinhedo, e andamos por ali, bastante tempo, chupando uvas e acenando para as
colhedeiras, com seus lenços na cabeça, que nos olhavam curiosas. Duas moças
tão altas...pernaltas, deviam pensar. Que estranho! Mas elas me conheciam.
Talvez não imaginassem haver outra moça assim, como eu.
Aline, com seus jeans, que não
lhe tiravam nem por sombra a feminilidade, com seus seios cujos bicos despontam
da camiseta branca, deve causar ligeiro escândalo na mente destas camponesas.
Mas jamais saberei... Conversar com elas, era quase impossível. Seus
pensamentos pareciam ocultos, por reserva ou natural isolamento num mundo
insondável, de tradições e costumes restritivos. Nunca soube, na verdade, o que
os peões e suas mulheres e filhas pensavam de mim, de nós, do casarão. Os
teutos, os boches? Como se referiam a esta família? De Galdério e sua irmã eu
sabia a lealdade a toda prova. Matilde, antiga babá, agora cozinheira, me amava
mais que tudo e eu a comparava àquela ama da Desdêmona, do Otelo, que seria
capaz de morrer por sua patroa. Ah! A canção do salgueiro, de Shakeapeare e
Verdi, era para mim, o melhor retrato da fidelidade e tristeza do mundo dessas
camponesas, que jamais um poeta descreveria tão bem. Isso me fez lembrar do
Vati, que mostrou-me pela primeira vez, essa ária do Otelo, de Verdi, que me
conquistou do jeito certo para o universo da ópera. Ah! Vati, devo tudo a ti, o
mundo da Arte e este vinhedo, que prometo agora não deixar jamais secar.
Saí dali correndo, seguida de
Aline, espantada. Diante da varanda, minha amiga agarrou-me e puxou minha
cabeça ao seu peito.
—Alma, Alma, sossegue. Você
conseguirá, eu sei, você terá uma idéia. Conheço você. Mas não sofra assim. Não
posso vê-la sofrer. Parte-me o coração. Quando a abandonei, aquela vez, seu
choro, de criança, não me deixou mais dormir. Minha amiga, você é uma menina,
no fundo. E já carregas o peso de todo um vinhedo. Agora lhe conheço melhor,
aqui, na sua terra. Venha, venha, vou lhe embalar, minha querida...
A imensa ternura de Aline,
compensava quase tudo, e eu então senti que, sem ela, eu não conseguiria
suportar a ameaça, o medo, a perda iminente.
.....................................................................................
No nosso quarto, Aline deitou-me
no leito e começou os seus carinhos. Esquecera-mos a porta aberta, e isso foi
desastroso. Lúcia passava no corredor, naquele momento, parou, e viu a cena.
Não percebemos a sua presença de sombra sorrateira. Seria Lúcia uma espiã de
Solange? Presenciou nossos beijos, a mão de Aline que passeava pelo meu corpo,
levantava minha saia, percorria minhas coxas e mergulhava na confluência das
minhas pernas. Lúcia, não podendo se conter, correu naquele corredor, quando
então percebemos sua presença fugidia, e tivemos a certeza do escândalo. Solange
saberia tudo...eu estava perdida. Perderia a pouca força moral que me restava
nesta casa, diante dela, e dos cunhados.
No almoço aproximamo-nos, Aline e
eu, ressabiadas, da grande mesa. Mas, surpreendentemente, nada ocorreu. Lúcia
apenas mantinha os olhos baixos, enquanto Solange continuava o mesmo sargento
de sempre.
A refeição transcorreu
normalmente, com seus lances agradáveis, outros nem tanto, mas com risadas às
inconveniências de Alberto, e o esnobismo de Geraldo. Ao reparar neste cunhado,
imaginei o horror que seria este almoço, se ele já soubesse de tudo. E Solange,
então? Esta me expulsaria da mesa, gritando, e me proibindo de jamais me
aproximar de sua filha. Eu morreria de dor... e de vergonha. Não, ninguém ainda
sabe. Lúcia guardou segredo. Por quê? O que quer ela? Um mistério, por
enquanto.
Após o almoço, chamo Lúcia,
disfarçadamente ao corredor. Questiono-a com os olhos. Ela, de olhos baixos,
ergueu-os e agarrando-me os ombros, com firme delicadeza, para minha surpresa,
puxou-me para si e disse:
—Alma, minha irmã, nada temas. Eu
te admiro, eu te amo. Ninguém jamais saberá por minha boca, de nada. Solange
pensa que sou sua espiã, mas não lhe serei leal jamais. Ela não nos merece.
Alma, guardarei o teu segredo, e Geraldo jamais te humilhará, aquele arrogante.
Sossega, minha irmãzinha... e ama a tua amiga quanto quiseres.
Ajoelhei-me, então, subitamente,
aos pés de Lúcia, e beijei humilde e sinceramente as suas mãos. Eu estava
salva.
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Fim do Capítulo primeiro
_______________________________________________________________
CAPÍTULO SEGUNDO
A ARA
"Mulher de sapateiro
(haja vista a Maria Bonita)
É chegada em aventureiro
Como aquela brava Anita
Largando marido poltrão
Sem ligar que a gente malde
Uma foi c’o Lampião
Outra foi c’o Garibaldi
Vou voltar para o meu Sul
Que melhor nunca terei
Lá tem Garibaldi e AnitaQue é melhor do que ter rei"
(Quadras do cordelista Guilherme
de Faria, de suas
“Máximas do Trovador Sertanejo”
publicadas em folhetos
nos seus “Romances de Cordel”.)
A ARA
Com meus pequenos sapatos de
verniz, eu corria pelos campos em torno do nosso casarão, freqüentemente
perdendo-o de vista. Com um aventalzinho antiquado e inútil sobre a saia muito
comprida, eu mais parecia uma menina do século anterior: longos cabelos, com
uma fita, às vezes tranças. Eu corria ou simplesmente passeava a esmo, colhendo
flores, soprando ao vento as sementes do capim, devaneando, até ouvir o som do
piano do Vati, que era a maneira de voltar à terra... para continuar a sonhar.
Eu corria até a biblioteca, para pôr-me embaixo do grande Steinway ( que agora,
no meu retorno, pareceu-me bem menor). Ficava ali, deitada de bruço sobre um
tapetinho muito macio, que o Vati colocava para mim. Com o queixo apoiado nas
mãos, eu observava seus pés nos pedais, cuja utilidade me parecia um mistério,
e deixava-me embalar pelo som maravilhoso de Chopin, Shumann, Shubert, Lizst,
Debussy, Scriabin, Satie e Poulenc. Eu me erguia então, para, ao lado dele,
observar as suas mãos, seus dedos ágeis, habilidosos de velho cirurgião-músico.
Ao terminar, eu, às vezes colhia as suas mãos pousadas, inertes sobre o
teclado, e as observava cuidadosamente, examinando-lhes os mínimos detalhes, o
que parecia diverti-lo. Um dia eu as beijei após o seu concerto para mim. Sim,
porque eu considerava que era só para mim que ele tocava... e ele deixava que
eu pensasse assim. Depois, ele me punha no colo para conversarmos sobre música,
sobre os compositores. Contava-me estórias e anedotas de suas vidas, e eu me
transportava para aquele mundo, onde me via companheira deles, e precocemente,
suas amadas. Sim, todas elas. Eu me identificava com suas musas, que meu pai
descrevia com reverência, denunciando o seu fascínio pela mulher...pela beleza
da mulher-musa, que ele próprio não desfrutava, mais tarde eu percebi. Minha
mãe era tudo, menos isso... Sua retidão inflexível, a gradativa amargura, sua
visão prática da vida, regida por um excessivo sentimento de dever, devotada à
família e ao homem que a escolhera. Sim, porque ela deixara-se escolher,
passivamente, e eu nunca pude sentir nela um grande amor pelo Vati, como eu
projetava, em minha imaginação incendiada pelo mundo romântico dos artistas:
músicos, poetas e pintores daquele maravilhoso século XIX.
Depois, ele passava a colher nas
estantes os grandes tomos, para mostrar-me as ilustrações de Gustave Doré, ou
de Flaxman (no caso da Ilíada e Odisséia), e freqüentemente lia para mim alguns
trechos escolhidos daquelas obras. E eu derramava lágrimas de
encantamento, e mais, por aquilo estar sendo transmitido por ele, com aquela
carga afetiva, com aquele sentimento de identificação e de doação que ele tinha
para comigo. Eu era a sua esperança, agora eu sei, o seu repositório de sonhos,
e se possível, da cultura artística que ele não tinha mais a quem legar, já que
as minhas irmãs não se emocionavam com aquele universo, e viviam metidas na
cozinha, ou nos trabalhos práticos em torno da Mutti. Rôdo era um caso à parte.
Mas elas eram excelentes bordadeiras sem alma, e seus trabalhos não me
interessavam. Eu preferia imaginar a infindável teia de Penélope, no tear,
reconstruindo as aventuras do seu amado Odisseu, como ela as imaginava a partir
das narrativas vagas dos soldados retornados, para segui-lo naquele seu acidentado
percurso em direção à ela mesma. Eu me identificava com ela, essa rainha que eu
sabia detentora da verdadeira fidelidade: a da imaginação cúmplice, e do
verdadeiro devotamento, o da alma apaixonada, que eu não via em minha mãe.
Felizmente, ela, Ana Morgado,
tinha o bom senso, pelo menos, de não interferir nessa relação de pai e filha,
cujas afinidades eram quase absolutas, à exceção do mundo obscuro, para mim,
incompreensível, da Medicina, que eu rechaçava de minha imaginação, como coisa
sanguinolenta, feia e crua. Nunca pude compreender, com os meus sentidos, o
fascínio que ele tinha por isso que eu considerava a desmitificação da carne,
já que eu a via e queria assim: perfeito invólucro da alma, cheio de beleza e
personalidade, de brilho e sensualidade.
Minha mãe temia sobretudo isso: a
sensualidade precoce, que ela via em mim. E procurava reprimi-la, sem
conseguir, já que exalava de mim pelos meu poros, pelos meus movimentos,
pequena estudante de euritmia e de balé, duas disciplinas opostas, que o Vati
experimentava conjugar em mim. Mas, mesmo sem isso, essa sensualidade, antes de
tudo, era inata nos meu movimentos, e vindas da beleza que me acompanhava
sempre, como todos diziam, desde o meu nascimento. Muito branca, como até hoje,
com meus olhos verdes, rasgados, e o cabelo louro com reflexos arruivados, essa
beleza era o que produzia uma certa complacência, até mesmo em minha mãe, que
do contrário trataria de castrar-me completamente, ou de reprimir-me todos
aqueles vôos, que na verdade, pelo menos ela tolerou. À exceção daquele dia
aziago...
Em Rôdo eu tinha um companheiro
de aventuras, e um confidente, pois para as experiências novas e os achados,
havia em nós cumplicidade. E nas descobertas físicas, sim, de nossos próprios
corpos, que se atraíram tão cedo.
Rôdo, naqueles dias descobrira o
beijo, nos meus lábios... e isso disparara nele um desejo crescente que
ressoaria no meu próprio desejo nascente pelo corpo do outro, do belo ser
humano, puro, criança como eu. Seus beijos tornaram-se mais longos, até
deixarem meus lábios dormentes e intumescidos. Minha mãe fixava os seus olhos
nos meus lábios vermelhos, eu percebia. Ela desconfiava? Sim, pois ela nos
surpreendeu afinal, sob a nossa macieira. Solange nos delatara, e sob aquela
árvore, que eu considerava por instinto um símbolo da minha vida, e em cujo
tronco eu gravara um coração, com as iniciais A e R , que produziam a palavra
que resume a consistência e o segredo da alma: ar, atmosfera, sopro,
inspiração, entusiasmo; ela nos surpreendera, nuzinhos, deitados lado a lado,
com minha mão sobre o “pintinho’ de Rôdo, enquanto sua pequena mão cobria
emocionadamente, minha “conchinha”, como nós dizíamos.
Surpreendidos, fomos agarrados
por Ana Morgado, pelos cabelos e erguidos. Instintivamente demo-nos as mãos,
que foram brutalmente separadas, e arrastados pelos pulsos, enquanto com
palavras rascantes, quase aos gritos, ela nos ordenava que cobríssemos nossas
“vergonhas” com a outra mão. Conduzidos impiedosamente sob as risadas de alguns
peões, no trajeto, até em casa, expulsos do nosso pomar, que nos seria proibido
por muito tempo, talvez para sempre.
Em casa, presenciamos o drama e
as lamentações, os protestos de vergonha e pecado, da Mutti, enquanto meu pai
ria complacente, bonachão, sábio, tentando acalmá-la, apaziguá-la. Lembro-me
mais de suas palavras, do que das catilinárias de minha mãe:
—Ana, que exagero, não sabes que
as crianças são assim? Nunca leste Freud, sua ignorante... É normal a
curiosidade infantil, é normal, não sabias? Deixa-as, não as traumatize! Não as
escandalizes. Fazes mal, sabias?
“Vem, minha flor”, ele me abraçou
e me alçou ao colo, nuínha e em lágrimas, e passou a mão na cabeça de Rôdo.
“Não os toque, eles estão nus!” minha mãe gritava. E meu pai: “Vão se vestir e
voltar a brincar. Mas chega de experiências, hem? Chega, Ana pára com esse
drama! Deixa as crianças em paz!
Sua imensa autoridade,
pacificadora, serena, sua sabedoria, sua generosidade... me salvou. Imagino que
também a Rôdo. Meu irmão se tornaria um terrível namorador, erótico como um
sátiro, e eu... não menos. Minha alma de ninfa se salvaria, eu não me tornaria
uma prostituta como minha mãe, no fundo, antevia. Mas eu amaria e desejaria
tudo: homens e mulheres, com igual intensidade, panteísta, pan-amorosa, eu me
salvaria talvez pelo excesso, não sei. Mas, ao mesmo tempo, aquela dor me
acompanharia para sempre, como uma injustiça, uma imputação de pecado original,
que eu não reconheceria nunca, e contra a qual eu me rebelaria sempre, não como
bravata, mas do fundo da alma indomável, com que o próprio Deus me dotara.
.....................................................................................
Ando agora pela casa, apaziguada,
por um lado, pela surpreendente cumplicidade de Lúcia, mas inquieta, com a
mente agitada, à procura de uma solução para o nosso impasse. O ritual que eu
presidira, no pomar, haveria de produzir frutos, eu esperava. Havia assim como
que um embrião de uma idéia, ainda informe, plantado em meu espírito, ou no
fundo da minha mente.
Às refeições, congregávamo-nos
sofrivelmente, sempre sob as picuinhas de Geraldo, as respostas sarcásticas de
Rôdo, as ralhas e implicâncias de Solange, o silêncio de olhos baixos de Lúcia,
e as sandices, às vezes divertidas de Alberto, esvaziando as garrafas, que ele,
a custo, compartilhava conosco. A delícia desses vinhos acabava por
descontrair, minimizar as arestas desse desencontro familiar. Abençoado vinho!
Eu compreendi nesses dias a função catalisadora desse néctar dos deuses, doado
aos homens por Dioniso, para suavizar o nosso fado, embora freqüentemente, eu
sei, o sobrecarregue, tal o seu fascínio.
Alberto, o nosso Baco, de nariz
avermelhado, era quem mais se destacava nesses nossos repastos. Sim, os
bêbados, em geral canalizam para si, de um modo ou de outro, as atenções,
caricaturas que se tornam de todos nós, seres humanos. Lembro-me, no entanto, o
choque que me causou, na infância, a ida a um circo, levada por meu pai. Os
palhaços, me causaram horror, e um rosto pintado, que afundava num imenso
colarinho, com uma tartaruga, fez-me virar a cabeça com repulsa, como diante de
um pesadelo. Os tapas e bastonadas falsas, estrepitosas, ressoavam para mim
como verdadeiras e brutais. Eu queria sair correndo, mas abracei-me ao meu pai,
fechando os olhos e virando as costas àquele espetáculo grotesco, que me deixou
para sempre essa repugnância pelos pobres palhaços, caricaturas do bêbado, com
seus narizes vermelhos, suas calças largas e cadentes, seus sapatos enormes,
feitos para o tropeço.
Solange insistia em comandar o
ritual das refeições, mas não lhe dávamos atenção. Sabíamos que não a devíamos
levar a sério, ou ela nos tiranizaria. Na infância, eu e Rôdo conseguíramos
escapar à sua opressão, através dessa atitude tácita, de humor e descontração,
que encontrávamos em nossos próprios temperamentos, apoiados pelo Vati, que se
divertia com isso enormemente. Posso imaginar o tamanho do ressentimento
acumulado todos esses anos por Solange, contra nós três.
A propósito de Solange, acabo de
lembrar-me, com saudade, das nossas festas de Natal e fim de ano, na estância,
durante a minha infância. Dias gloriosos, aqueles, em que me levantava cedo, em
manhãs esplendorosas de verão, quase gritando de alegria por existir, e me
sentir... tão feliz! As festas, para mim, começavam já nos preparativos, na
cozinha, e na sala preparada, sobretudo com a montagem do nosso grande pinheiro
de Natal. Matilde era a grande festeira, responsável pelo maravilhoso peru
assado, guarnições, saladas e doces. O Vati cuidava da escolha dos vinhos, de nossa
própria produção. A Mutti gerenciava tudo, a começar pela decoração da sala e a
preparação condigna da grande mesa que nos congregaria a todos. Solange e Lúcia
as ajudavam, enquanto eu e Rôdo nos divertíamos em observar e bater palmas, ou
simplesmente colher flores e fruir o clima adorável de preparativos natalinos.
Mas recordo particularmente o
Natal dos meus treze anos, quando Rôdo, numa grande inquietação de sua libido
de pré-adolescente, resolveu criar um pretexto para que eu o visitasse em seu
quartinho do sótão, na ante-véspera do Natal, à meia-noite, quando todos
estivessem dormindo.
Ali estava eu, como tantas vezes,
naquele aconchegante ambiente de quarto de menino, que me fascinava com sua
bagunça viril, onde seus gostos se mostravam todos: carrinhos, aeromodelos,
miniaturas de motos e barcos, fotos e posters de montanhas e praias, algumas
fotos pampianas típicas, de boiadeiros laçando ou lançando a boleadeira em
pleno galope, cavalos maravilhosos, tudo o que um menino aventureiro amava,
e... uma foto minha, linda, a minha melhor foto, que me enternecia por estar
ali, entre as suas coisas amadas.Eu o abracei de uma maneira mais comovida, que
o normal, embora sabendo que Rôdo não gostava de sentimentalismos. Mas naquela
noite, em especial, por alguma razão eu queria chorar de felicidade de tê-lo
como irmão, eu, que não me identificava em nada com minhas irmãs, e nem tinha
certeza de amá-las. Puxei-o sobre mim, instintivamente, como uma pequena
amante, mas estávamos sonolentos e adormecemos assim, vestidos e abraçados,
sonhando com nós mesmos, abraçados, sonhando...
Acordamos sobressaltados pela voz
aguda e agressiva de Solange. A megerinha gorda, diante de nós, de mãos na
cintura, nos fuzilava com os olhos:
—Ah! Seus safados. Já agarrados
de novo! Mamãe vai saber disso! Vocês vão ficar sem peru no Natal e sem
sobremesa! Nem vão sentar à mesa, vocês vão ver!
Fiquei envergonhada por ela, não
por mim. Pela mesquinharia de minha irmã que insistia em atormentar a minha
vida, conspirando contra a minha felicidade, que, afinal, para mim, estava ali
mesmo, junto de meu irmão. Retruquei, estendendo meus braços para ela:
—Solange, irmãzinha ciumenta!
Queres abraçar-me também? Vem, vem Sol, que eu te farei feliz!
Solange ficou rubra de confusão e
cólera, mas retirou-se correndo dali. Eu a desarmara. Olhei para Rôdo e ele
rolava de rir, ofegante. Conseguiu afinal, dizer:
—Alma, tu tens cada uma! És
sempre inesperada. Tu, abraçando a Sol! Não posso imaginar!
–Bem... ela não deixaria. Eu a
abraçaria e até a beijaria se com isso eu a conquistasse, e ela parasse de nos
perseguir. Por falar nisso, será que já estamos sem peru e sobremesa?
Rimos mais uma vez juntos, e eu
estava tão feliz ali, com Rôdo, romanticamente nos braços do meu irmãozinho,
que comecei a ouvir os sons da noite de Natal, o ruído dos cristais, das taças
de vinho, e dos talheres de prata, das risadas felizes dos familiares que eu
amava tanto, que não excluiria Solange, que via sorrindo para mim, gordinha
e... até mesmo simpática. Eu não precisava nem mesmo da noite de Natal. Eu
estava tão plena e feliz, que ouvia os seus sons de cristal, e não precisava
mais que a véspera chegasse. Meu Natal era ali mesmo, naquele momento, presente
para sempre, sentindo com meu pequeno seio nascente, as batidas do coração
amado de meu irmão.
Mas voltando ao tempo presente,
Lúcia, que eu pensava vítima indefesa da nossa irmã mais velha, agora me
revelava uma outra face, embora igualmente ressentida. Ela se desforraria,
apoiando-me secretamente, e eu lhe seria grata por isso.
Exercitando a segurança que essa
certeza me dava, aproveitava as refeições para acarinhar minha querida
Patrícia, os gêmeos, e Pedrinho, como nunca. A tônica passou a ser então as
crianças e seu mundo intocado. Eles seriam o foco de atenção, e nem mesmo
Geraldo, ousava mais exercitar seus venenos corrosivos. Uma vez, disse apenas:
—Alma, você continua infantil.
Não crescerás jamais, não é?. Nem mesmo diante da situação limite em que nos
encontramos.
—Meu cunhado, -respondi- deixemos
as conversas de adultos para o escritório. Crianças são também coisa séria. O
riso e a alegria...são coisa séria, não é mesmo, crianças?
Elas abanaram as cabeças em
explosões de risos, e continuamos falando agradáveis absurdos, à exceção de
Patrícia, que devaneava com o olhar perdido. Tomada pelo seu primeiro amor, ela
estava naquela idade atemporal dos apaixonados. Eu pensava em Julieta, de
Romeo, e na sua maturidade e ingenuidade simultâneas. Maturidade, sim, porque
Julieta compreendia a tragédia verdadeira de sua situação. Será que podemos
imaginar a violentação a que ela estava destinada por seus pais, o estupro que
a esperava nas mãos de um homem mais velho, odioso, naquelas circunstâncias? O
ser apaixonado não pode sequer imaginar-se tocado, tomado, senão pelo objeto de
sua paixão. Julieta estaria morta para sempre em seu coração, na sua carne e na
sua alma, se conspurcada por aquele conde Páris.
Pensando assim, eu entregaria
Patrícia ao seu amor, de mão beijada, se ela fosse minha filha, no máximo, como
representante da nossa época, os presentearia com uma dúzia de camisinhas. Mas,
eu ainda não tinha filhos, e talvez visse as coisas com excessivo
desprendimento. O fato é que eu movimentava meu espírito ao meu bel-prazer,
entre os séculos, posicionando-me neste final de milênio quando se tratava da
questão sexual. Eu sempre fora libertária, com o incentivo do Vati, e sendo
artista, não podia aceitar nenhuma opressão, em idade alguma. Eu mal conseguia
compreender a sujeição que as pessoas tinham à autoridade e hierarquia. Eu
jamais daria uma ordem,: eu jamais ordenaria algo a alguém em toda a minha
vida, mesmo a um empregado. Eu pediria por favor, como sempre fiz. O ser humano
jamais deve exercer poder sobre outro ser humano, eu penso assim. E aquele que
se submete à tirania acaba por legitimá-la, ou se tornar seu cúmplice.
Alberto, bebendo o nosso vinho,
procurava ser infantil, como nós, mas destoava, essa é que é a verdade. Estava
fora do tom. Fugíamos, então, logo após a sobremesa, deixando os adultos
entretidos com o cafezinho, os charutos e licores. Corríamos para o jardim num
pega-pega cheio de risos, ou passeávamos tranqüilamente, de mãos dadas. Com
essas lindas crianças, eu me sinto verdadeiramente em família.
...................................................................................
Dias se passaram e eu, novamente
segura, me arriscava nas carícias com Aline, mas com um pouco mais de cuidado.
Também não queríamos chocar as crianças, claro, e no máximo passeávamos de mãos
dadas, como duas boas amigas. Eu sabia que Solange nos observava o tempo todo.
Isso me incomodava, claro, e eu queria poder afrontá-la. Não fosse pelas
crianças e eu beijaria Aline nos lábios, em toda parte, e a faria sentar no meu
colo nos bancos do jardim. Com essa censura, meu amor e meu desejo
aumentavam... e eu me sentia também uma Julieta. Ah! Por que as pessoas não se
deixam em paz, umas às outras? Por que tanta intromissão e desrespeito às
individualidades alheias? Eu sei que há quem pense que as atitudes alheias
também nos desrespeitam, mesmo quando não dirigidas a nós. Não penso assim. Eu
sequer denunciaria um ladrão. E jamais faria parte de um júri, para condenar
alguém. Não julgaria ninguém, nesse sentido. O ser humano, acredito, não deve
nunca usurpar a prerrogativa do destino. Os maus serão punidos pelo tempo, e
por sua própria maldade. Os bons, passarão incólumes pelas suas faltas, pois
seu coração os preservará. E os inocentes já estão no paraíso. Assim penso eu
desde pequena. Não acredito num Deus punitivo. Isso não combinaria com o imenso
amor que é a razão do universo, do próprio Deus.
Para mim, a prova evidente do
amor de Deus, a configuração mais próxima do seu imenso poder, é o sol.
Bastaria um pequeno deslocamento, de alguns poucos milhares de quilômetros,
para ele nos torrar ou congelar. Mas não, permanece cuidadoso, olhando-nos e
aquecendo-nos, da distância exata, para produzir esta bela natureza,
contemplando-nos com inúmeras dádivas, partículas e efeitos misteriosos, para
criar vida... e beleza. É evidente o seu amor.
Pensando assim, puxo Aline pela
mão, a toda hora para todos os vãos que encontro, ou para atrás de árvores do
nosso pomar, para beijá-la na boca, sofregamente. Não agüento mais. Quero tudo,
do meu amor.
Levo-a então para o nosso antigo
galpão, depois de despistar as crianças. Ali, no meio do feno e das
ferramentas, tonéis vazios e arreios, lanço-a sobre a palha e a dispo, afinal.
Ah! Que saudade desse lindo corpo! Dispo-me também, e nuas, entregamo-nos às
nossas ardentes carícias. Estamos ensopadas, e bebemos nossos fluidos,
sedentas, em êxtase. Seu perfume, seus licores, eu amo tudo que vem do meu amor
e...queria engoli-la, inteira, se possível. Não consigo jamais saciar-me. Essa
é a maldição: um gosto permanente de inacabado, de incompleto, de carência. O
ser humano jamais pode se sentir completo, finalmente unificado! Eis aí uma
evidência da injusta punição original, senão do incompreensível pecado.
E eis que fomos mais uma vez
flagradas. Desta vez pelos gêmeos, que enrubesceram simultaneamente. Permaneceram
estáticos diante da nossa nudez. Levantamo-nos, então, ao mesmo tempo e
pusemo-nos, lentamente... cuidadosamente, numa bela pose de estátuas. Os
meninos riram, e saíram correndo felizes. Tenho certeza que compreenderam, ou
foram tocados pela beleza da cena que forjamos. Foi uma inspiração.
Daí por diante, quando estávamos
sós, repetiam às vezes, juntos, a nossa pose, e sorriam lindamente para nós.
Sabíamos, então, que eles nada
contariam do que viram, para os adultos.
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Rôdo vem me mostrar uma proposta
de compra da estância por um fazendeiro magnata. Não quero ver. Solange e
Geraldo estão encarniçados, açulando a venda, pressionando Rôdo. Alberto está
mais preocupado em beber. Aproximo-me dele para cooptá-lo para o meu lado, isto
é, contra a venda. Digo a ele, em linguagem cifrada, indireta, que as garrafas
acabarão para ele, naturalmente, se a estância for vendida. Mas que elas serão
inesgotáveis, se conservarmos nosso vinhedo e tudo o mais. Esse argumento soou
lógico. Os bêbados parecem ter uma lógica muito simples: não há vida fora das
garrafas. Isso acaba por tomá-los completamente, por mais inteligentes que
sejam. É impressionante o poder do álcool sobre eles. É algo que renova o
sentido da vida por frações de segundo, fugidias, mas que sob o uso constante
lhes permite permanecer vivos, com um certo sentido de pertinência fugaz, num
mundo caótico. Não os julgarei jamais. Mas naquele momento me permiti manipular
aquele pobre exemplar, que era o único aliado que me sobrara, já que à Aline e
às crianças não cabia voto. O triste era não poder contar com Rôdo, que
simplesmente não acreditava mais ser possível manter a nossa propriedade. Eu
tentava ganhar tempo. Sentia que algo iria acontecer que mudaria o rumo dos
acontecimentos, se protelássemos a venda por mais um mês. Diante desse prazo
acordado com Rôdo, ele também se achou no direito de chamar uma amiga, uma
namorada, para aplacar sua solidão ou a sede do seu corpo.
Em poucos dias chegava Laís, uma
jovem morena, bela, misteriosa, que o fazia perder a cabeça. Rôdo
transformou-se. Ao voltar da estação com a jovem, seu semblante era outro.
Aquela noite a casa reverberou com os gemidos e gritinhos da moça, vindos do
quarto, e uma espécie de urros do meu irmão. Foi realmente engraçado para mim e
Aline, mas escandaloso para os outros. Solange amanheceu com a cara mais
fechada do que nunca. Ah! Se ela soubesse que eu e Aline, fomos pé ante pé
observar pelo buraco da fechadura as manobras fantásticas do casal! Mal
contínhamos o nosso riso e a excitação que aquilo nos produziu, claro. A moça
era versada no Kama-Sutra, ou no mínimo no Yoga. Colocava-se de cabeça para
baixo, e esperava iguais malabarismos do pobre Rôdo. Seu sexo era exposto a 180
graus, e não deixamos de admirar a beleza de seus orifícios rosados, de pêlos
cuidadosamente raspados. Aline e eu disputamos o buraco da fechadura, quase
estourando para não gargalhar. Depois corremos para o nosso leito e tentamos reproduzir
as proezas. Aquilo foi hilariante... e um pouco frustrante. Lembrei-me de Freud
e da sua teoria da inveja do pênis, e por momentos achei que ele tinha razão.
Mas, eu queria ser completa! Possuir e ser possuída simultaneamente por minha
Aline. Sim, o Hermafrodita perfeito era o ser ideal, perdido para sempre, em
nós!
.....................................................................................
Acordo com o bico do seio de
Aline junto aos meus lábios e enterneço-me novamente. Olho esta bela mulher de
pele quase tão branca quanto a minha. O que é que a torna morena? Uma sombra
misteriosa talvez, que vela a sua beleza incomparável. Ela abre os olhos azuis,
e sorri. Quero beber o seu hálito, logo pela manhã. Vou banhá-la com a minha
língua, para que ela possa despertar, e levantar-se em plenitude. É o que me
dedico a fazer na meia hora seguinte. Ela se espreguiça, e rola na cama para
expor-se em todos os ângulos. Deixo-a limpinha com a minha língua ávida,
amorosa e até... maternal. Ela retorna a um sono langoroso, com estremecimentos
de prazer. Percebi os seus múltiplos orgasmos que inundam sua vagina. Quero
essa beleza para sempre, esse perfume, esse elixir da longa vida, da vida
eterna da paixão!
Depois dirijo-me ao banho. Um
banho demorado onde ela afinal vai encontrar-me para continuarmos as nossas
carícias agora com sabonete e água quente, sob uma ducha voluptuosa. Quando
afinal saímos do banheiro, e do quarto, leves, cheirosas e belas, Solange nos
espera à mesa do café da manhã, com aquela cara de censura. Ela parece saber,
ou imaginar o que se passa no nosso quarto. Ela percebe a sensualidade
ostensiva dos nossos corpos, dos nossos lábios túmidos, das nossas narinas um
pouco abertas. Ela parece querer surrar-nos, essa é a verdade. Mas isso num
nível ainda semi-consciente nela, que não lhe permite manifestar-se, claro.
Faltam elementos conscientes para ela exercer a sua censura. Por isso ostenta
uma amabilidade forçada para com a minha amiga, oferecendo-lhe pãezinhos,
broínhas, passando-lhe manteiga, quase mimando-a com uma espécie de irritação
derivada. Admiro-me da candura de Aline, que tudo aceita com naturalidade e
graça. Ela é mesmo adorável...e cínica, como eu gosto. Às vezes tenho vontade
de gritar ao mundo, às Solanges do mundo, o meu amor, o meu desejo, a minha
felicidade. Então não vêm, ó hipócritas, que o amor não tem sexo, ou tem todos
os sexos? É o outro, que nos apaixona. O nosso reflexo maravilhoso, de Narciso
no espelho do outro ser humano, lago sagrado que nos cerca. Queremos nosso
reflexo, amamos e desejamos essa imagem complementar, invertida ou não, de nós
mesmos. Queremos saber de nós, nos conhecermos em nossas recônditas
profundezas, nos nossos meandros e cavidades. Nossos humores, nossas fontes
misteriosas.
Rôdo e Laís vêm juntar-se a nós
na mesa, para completa desorientação dos sentidos de Solange. O cheiro de sexo,
de paixão, nesta mesa, é demais para as suas narinas pudicas e ela logo se
levanta, pretextando afazeres, providências. As crianças já estão há muito brincando
no jardim, nos gramados. Seus gritinhos e risos são música para o nosso café da
manhã. Estes são para nós, talvez, os últimos dias de uma Pompéia feliz, sob a
sombra fumegante do Vesúvio.
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A cavalo, passeamos, eu e Aline,
pela estância e afastamo-nos bastante do casarão. Aline abraça-me o ventre, na
garupa, deitando o seu rosto em minhas costas. Ela me aperta mais que o
necessário para a sua segurança. Ela está me apertando contra si, eu o sinto,
emocionadamente. O amor de Aline me enche de alegria e ternura. Eu a queria
sempre assim, grudada a mim. Sinto-me feliz, e legitimada por esse amor, pois
ele me dá forças, somando as suas às minhas próprias, mas sobretudo pela
plenitude que sinto quando estou junto dela. Todavia não me esqueço da minha
natureza de artista, e procuro sempre estar criando, escrevendo, pintando. Não
sei como conseguirei levar tudo isso, junto, para adiante. Um amor assim é
progressivo, não com uma doença, mas como algo que afinal me tomará inteira num
êxtase final. Assim quero a minha morte. Não pedirei como Goethe, mais luz, mas
mais amor( o que afinal, eu sei, é a mesma coisa). Desço do cavalo em plena
pradaria deserta, e seguro Aline pela cintura para faze-la apear. Este gesto,
tipicamente masculino, excede as minhas forças, e ela cai-me por cima, em
gargalhadas as duas. Ela pára de repente de rir, e no silêncio súbito que
pareceu tomar toda a natureza daquele pampa, ela aproximou lentamente os seus
lábios dos meus. Eu quis morrer naquele momento perfeito, e o seu beijo tomou
tão profundamente a minha alma que eu achei que não precisaria viver mais, não
precisaria sequer assistir o destino final de nossa estância, de nosso mundo,
do nosso vinhedo em perigo. Eu estava plena, completa, naquele momento, e
ficaria assim para sempre, totalmente beijada em minha alma e meu corpo, se
comicamente não tivéssemos sentido as ferroadas das formigas, sobre cujo
formigueiro caíramos. Levantamos aos pulos, debatendo-nos aos gritos e
gargalhadas. Depois, livres das formigas, empipocadas nos braços, olhamo-nos
novamente, enlevadas, sabendo que jamais esqueceríamos daqueles momentos, e que
o elemento cômico, os risos, nos ajudariam num futuro remoto a recordar aquelas
sensações maravilhosas. As lágrimas corriam em nossos rostos, talvez com o
mesmo pensamento, e abraçamo-nos como duas camaradas guerreiras, durante uma
trégua, antes de montar novamente e voltar para o campo de batalha. Essa guerra
transcorria surda, sem explosões, mas ainda estava longe de acabar.
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Solange nos esperava no alpendre
e com o seu tom frio e cortante, foi logo dizendo (e brandindo umas folhas de
papel):
—Gurias, onde estavam? Alma,
esperávamos a ti, para assinares estas propostas. Estamos todos de acordo. A
proposta é ótima. Leia e assine, faça o favor.
—Não assinarei nada, minha
irmã—respondi—nem sequer lerei esses papéis. Ainda não estou preparada para isso.
Tudo é muito súbito, para mim. Nada soube do que ocorria aqui, enquanto estava
lá, em São Paulo, trabalhando. Agora querem que eu concorde, assim, de repente,
com esse absurdo. Não, jamais!
—Ah! Trabalhando, não é, dona
Alma! Pintando, isso sim, e desvairando por lá! És uma louca, sempre foste, e
agora empatas um negócio em que estamos todos interessados. Além disso, não vês
que não temos escolha, sua alienada! Não vês que enquanto pintavas teus
quadrinhos, ou quadrões, vá lá, nós nos debatíamos com as dívidas deixadas pelo
Vati, aquele outro sonhador, que iria nos enterrar a todos em suas dívidas, se
não tivesse restado pelo menos o patrimônio, ainda passível de cobrir as
dívidas, e sobrar algum, para nos mantermos, cada um por si, daqui por diante.
Vais estragar tudo?
—Solange, minha irmã, não
repetirei mais. Ainda não está tudo perdido. Eu sei, eu o sinto. Eu tenho
fé...no destino. Não me pergunte como sei, mas estamos próximos de uma solução
salvadora, para a nossa estância. Tu deves isso ao Vati, e aos nossos avós, que
criaram, não a estância propriamente, mas o vinhedo. O velho fez crescer a
vinha e tornou o nosso vinho, a nossa marca, conhecida. Eu desenhei desde
criança os rótulos que se tornaram famosos. Não aceito a derrota. Eu sei o que
move vocês. Sim, tu e teu marido nunca amaram a terra. Mas o mesmo não acontece
com Patrícia e Pedrinho, com Christiam e Hans. Essas crianças lindas amam esta
terra que lhes é vital, tu tens que saber. A terra, o Pampa é nossa herança
sagrada, não podes dilapidá-la, destruí-la. Eu não permitirei! Eu não
permitirei!
Saí correndo dali, seguida por
Aline. No quarto, nervosíssima, fui apaziguada mais uma vez pela minha guria
maravilhosa. Peguei-lhe novamente a mão e atravessando o corredor saímos pela
cozinha e pelos fundos para alcançar o nosso pomar. Levava comigo o canivete
suiço antigo que pertencera a Rôdo em nossa infância e que eu usara para gravar
a nossa macieira. Diante dela, solenemente, segurando a mão de Aline, eu
começaria a gravar a inicial do seu nome, o seu A, após o R de Rôdo. E, ao
terminar disse-lhe:
—Aline agora participas de nossa
aliança. Se antes nossas iniciais expressavam o ar, inspiração, alento, alma
enfim, agora fazem o altar, a ARA de nosso pacto sagrado. Jure-me, Aline, que
não me abandonarás nesta luta e participarás comigo da batalha final. A terra
será tua, também, já que és minha, como acredito. Não voltarás a São Paulo,
ficarás aqui comigo para sempre. Contigo enfrentarei tudo, terei as forças
necessárias, contigo. Prometa-me, querida. Olha, o altar, é a nossa árvore, a
macieira de minha infância feliz, sim, apesar de algumas dores, apesar da minha
pobre mãe equivocada, apesar dos meus avós inicialmente equivocados, mas que
acertaram ao plantar este pomar, esta macieira e a vinha, a vinha, agora eu
vejo! Ainda não sei bem, mas algo virá do vinho, do sangue da terra que
sacrificarei nesta ara. Aline, voltaremos aqui amanhã à noite. Sacrificaremos
aos deuses, tu verás!
Aline me olhava um pouco
assustada, eu percebi apesar de estar num estado de superexcitação quase
delirante. Ela permaneceu muda e o seu corpo todo tremia. Ela quase desfalecia
quando me dei conta de que ela tinha febre, e suava na testa. Então abracei-a e
amparando-a conduzi-a ao leito. Eu iria cuidar dela. Tudo aquilo fora excessivo
para esta flor delicada da cidade. Eu me excedera, talvez. Eu precisava tomar
cuidado com o meu amor.
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Aline permaneceu febril e delirou
durante dois dias e noites. Eu fiquei o tempo todo ao seu lado, com o coração
opresso, a enxugar todo o seu corpo, e a pôr compressas em sua testa. No seu
delírio, ela se debatia e gritava o meu nome, mas num estranho contexto:
“Alma, Alma, você está entre nós,
afinal, liberte-me, Alma! Leve-me consigo para o seu reino. Para o palácio,
Alma, não quero mais viver aqui, é escuro... Alma, alma, liberte-me do escuro,
quero enxergar, Alma, quero enxergar! Alma, leve-me! eu me agarrarei a você,
pode voar, não tocarei as suas asas, ficarei agarrada ao seu ventre. A luz,
Alma, a luz! É o seu reino, estamos chegando!”
Eu estava em lágrimas, que
explodiam de hora em hora, num pranto copioso. Minha amada me comovia mais que
nunca e eu faria qualquer coisa por ela. Tinha medo de que ela morresse, e
senti que preferia morrer em seu lugar. A fragilidade de Aline, sua
vulnerabilidade que eu não atinara até então, como as asas de uma borboleta,
como um cristal finíssimo, como a lâmina de ouro de um mícron, que podia se
esfacelar à mais leve brisa. Esse ser portentoso, cuja beleza era a expressão
da nobreza ideal, possível para todas as mulheres. Minha Psiqué preciosa,
projetada de minha própria alma, de mim mesma. Éramos duas faces da mesma
anima. Eu não saberia denominá-las: Sofia...Eva? Ou Helena...Tais?* Eu queria
fundir-me ao meu amor, mas precisava viver e retirá-la da prisão do seu
delírio, daquela escuridão a que ela se referia e que eu pressentia. Nós
iríamos juntas sacrificar no altar da nossa macieira. Nós salvaríamos a
estância e a vinha, salvaríamos o pomar sagrado, a macieira imortal da nossa
felicidade imorredoura. Aline, Rôdo e eu, nos transformaríamos no Hermafrodita
imortal, perfeito, inatingível pela solidão, eternamente. No reino do ser, onde
a posse material não mais existiria, onde todos os símbolos expressos pela
matéria teriam sua revelação puramente espiritual, todos os códigos enfim
revelados. Saberíamos por fim o que é a árvore, a casa, o vinhedo e o pampa, na
Eternidade imaterial, infinita. Eu saberia o que é a Arte pura, desprovida de
seus signos visíveis, de suas expressões rudimentares, materiais. Eu saberia o
que são os deuses. Eu saberia, talvez, quem é Ele!
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Aline está bem agora. A febre
cessou. Ela dorme tranqüila, apaziguada. Posso me afastar do seu leito para
confrontar Rôdo, que me deve explicações. Ele não pode estar me traindo, e ao
nosso pacto. Encontro-o no escritório, ocupado com papéis, com Laís ao seu
lado.
—Rôdo, o que está acontecendo,
que papéis foram aqueles que Solange queria que eu assinasse? Tu não disseste
que me daria tempo? Que pressão é essa? Rôdo, estás com eles ou comigo? Já
disse a ti que nada assinarei. Prefiro a morte, já te disse. Desculpa-me Laís,
ouvires tais coisas. Nada tens com isso, espero.
–Alma, sei de tudo, há muito
tempo. Estou com Rôdo acima de tudo. Isso quer dizer que não me oponho a ti.
Apreendi a respeitar-te através dele, Alma, e não seria tola de afrontar-te.
Mas pareces não saber o que o teu irmão tem sofrido. O quanto ele já lutou para
salvar esta estância. Agora está disposto a vender a Ferrari. Mas é tarde e de
nada adiantará. A luta está perdida. No entanto, diz ele que aguardará o prazo
que te concedeu. Isso tudo, para mim é um enigma, Alma. Como pretendes salvar a
estância?. Quanto a mim, só quero partir com o teu irmão, levá-lo comigo...e
fazê-lo feliz, longe de todos esses sonhos perdidos.
- Rôdo—eu disse, voltando os olhos
para ele—O prazo ainda não se esgotou. Amanhã farei um último sacrifício que
trará à minha mente a revelação que espero, e sei que virá. Conto contigo. Se
Laís quiser vir também, não me oporei. Espero que Aline já possa estar ali
comigo, também. Nós quatro, faremos uma corrente forte, se Laís não estiver se
opondo, no fundo do seu coração. Mas isso eu saberei lá mesmo, diante da nossa
ara. Verei vocês amanhã... no café, e depois somente à noite, na nossa hora.Rôdo olhava-me enigmaticamente, intensamente. Mas nada disse. Retirei-me da biblioteca.
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A estância da minha infância
parece distante, ou subjacente a esta do presente. Ainda ouço os ecos dos
galpões, no fandango, as festas da peonada, a que Rôdo e eu assistíamos,
deslumbrados, às vezes escondidos, tarde da noite, fugidos das nossas camas. Aí
eu ouvi pela primeira vez a Nau Catarineta, cantada, acompanhada pela sanfona e
as palmas:
“Ouçam meus senhores todos,
uma estória de espantar!
Lá vem a Nau CatarinetaQue tem muito o que contar
Há mais de um ano e um dia
Que vagavam pelo mar:
Já não tinham o que comer
Já não tinham o que manjar!
Deitam sortes à ventura
Qual se havia de matar
Logo foi cair a sorte
No Capitão-General!
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As danças, onde o taconeio das
botas, acompanhados do tilintar das esporas me produziam um arrepio de prazer,
e a graça das “chinocas”, evolucionando em torno às bombachas de seus pares, me
fizeram compreender profundamente a nossa essência feminina, cultivada neste
sul, como em poucos lugares deste nosso mundo atual. Talvez só as camponesas
russas, em suas danças folclóricas, expressem assim a oposição macho-fêmea, com
tanta clareza e expressividade. A dança dos lenços, me encantava
sobremaneira... e eu queria ser uma “china”, com toda a carga de ambigüidade
que essa palavra carregava. Outrora ela expressava uma categoria intermediária
entre prostituta e namorada de peão. Ou ainda vivandeira, a mulher que
acompanha os soldados, na retaguarda dos exércitos em deslocamento. Ouvindo e
vendo nossa gente, nossas danças, eu queria me integrar ao passado desta terra,
em todas as mulheres, naquela Anita maravilhosa, mulher gaúcha por excelência,
e me via como chinoca de todos os peões, uma espécie de Hetaira sagrada dos
Pampas. Sempre fui delirante...
Entretanto, é como se não fosse
nascida aqui, neste sul, pois meu sangue germânico me confunde quando penso no
gaúcho e no pampa, no chimarrão e na charqueada . Meus avós plantaram esta
vinha, numa tradição bem européia, buscando um vinho francês, e a biblioteca de
meu pai, lançou-me em todas as direções, expandindo a minha mente, e
sobrecarregando o meu coração de uma universalidade conflitante com o espírito
arraigado desta terra.
Mas minha infância feliz é a
infância com Rôdo, a das nossas fugas e descobertas. A da nossa macieira e das
galopadas; do minuano que nos arrepiava sob o pala e nos fazia tremer não só de
frio, mas sobretudo de temor e respeito pelo poder misterioso desse vento, que
varria a planura e entrava pelas frestas das portas e janelas, uivando, e nos
assombrava como o sopro do passado desta terra poderosa, cheia dos espíritos
dos mortos de tantas batalhas.
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Encontro-me na sala deserta com
Geraldo, que eu queria evitar. Saúdo-o rapidamente para escapar ao confronto.
Mas, em vão. Ele me retém, tocando-me o braço e olhando-me nos olhos, com
agressividade contida:
– Alma, está na hora de termos
uma conversa. Sei que não gostas de mim, mas pouco me importa. Estás no meu
caminho. Na verdade estás no caminho de todos nós. És a única a querer manter
esta propriedade falida. Não vês que estás empatando as vidas de todos? Que
queres, afinal? Tens algum trunfo? Algum capital, escondido, que salde as
nossas dívidas? Sim, porque és uma espécie de feiticeira, dizem as tuas irmãs,
e podes ter alguma varinha de condão...talvez.
— Meu
cunhado–respondi-lhe–infelizmente não tenho a varinha, e nem sou jogadora como tu, para
ter um trunfo na manga. Mas algo me diz que a estância será salva, que ela
mesma apontará o caminho. Ela nos pertence, ou melhor, pertencemos a ela. Pelo
menos eu e Rôdo. As crianças, também...
–És mesmo uma sonhadora, não vês
que Rôdo é o primeiro a querer a venda? Ele é que demonstrou-nos a sua
inviabilidade. Por que vocês, artistas, não aceitam nunca a realidade? Vivem
num mundo de sonho, de fantasia, que acaba por jogá-los na sarjeta. Ainda bem
que não tens filhos...
Este comentário, puro lugar
comum, acabou de irritar-me. Olhei Geraldo nos olhos e pude ver todo o seu
ódio, o seu despeito. Ele e Solange se pareciam. Os pares estavam
desencontrados. Pensei imediatamente nos gêmeos, aqueles anjos, e pensei neles
como meus filhos. Eu não via naquelas crianças, o menor resquício desse pai.
Ah! Eu os queria para mim, e mais Patrícia e Pedrinho! O mundo era, afinal,
injusto.
–Geraldo, daqui para diante
evitemos falarmo-nos. Não adianta. Não há diálogo possível entre nós. És um
homem prático, eu sei, e eu sou uma sonhadora, como meu pai. Fiquemos por aqui.
Afastei-me rapidamente, sentindo
o olhar despeitado do meu cunhado, sua cólera contida. Na varanda cruzo com o
Alberto, cambaleante . Quanto a esse, é um caso igualmente perdido. Agora já
não disfarça, é bêbado de tempo integral. Sei que isso é uma doença, estou bem
informada, mas não vejo facilmente salvação para ele, pois está feliz na sua
infelicidade. Beber ainda lhe dá prazer, que Deus o conserve assim. Ainda não
viu a face do lobo. Mas, e os gêmeos? Estes dois querubins, pequenos Cosme e
Damião, Christian e Hans. Este saiu primeiro e então Lúcia homenageou o grande
Andersen, o que para mim é um sinal de sua sensibilidade poética, a que eu
deveria ter dado maior atenção, agora vejo.
Lúcia, minha irmã, eu sinto tanto
ter-te subestimado, por tanto tempo. Vem de ti, agora sei, a bondade, talvez a
doçura destas crianças. Eras tão calada, em minha infância. Parecias tão
dominada por Solange...e eu, afinal, estava enganada. Estás do meu lado, eu
sei, como Rôdo, que não me decepcionará, ou tudo estará perdido. Somos uma
força de oito pessoas, contando com Aline e as crianças, que se opõem à venda.
Do lado de lá estão somente Solange e Geraldo. Alberto, não sei, está em cima
do muro, como Humpty Dumpty*, e quebrará como um ovo, a qualquer momento.
Poderei cooptá-lo? Lúcia, com tua atitude benevolente, provaste amar-me, e
portanto estarás comigo no último momento.
Alberto também segurou-me o braço
ao passar, mas de outro modo. Queria mostrar-me uma garrafa sem rótulo, mas eu
não lhe dei atenção e me desvencilhei. Precisava andar sozinha, para pensar.
Aquela noite eu queria reunir a nós quatro, contando com Laís, diante da minha
macieira. Laís seria uma força desequilibradora, uma mente dissonante, nesse
encontro? Eu precisava conhecer melhor essa moça. Resolvi procurá-la e sondá-la
antes do nosso ritual. Ela parecia ter demasiado personalidade para ser
simplesmente uma “boa moça”. E queria demais levar Rôdo consigo para bem longe
daqui. Meu irmão! Estarás em perigo? Trairás tua terra para ir com esse
amor...duvidoso? Não, não posso imaginar-te traindo-me.
Volto ao casarão quando já estava
quase no limite do nosso jardim, na fronteira da nossa pradaria sem fim. Vou
procurar Laís.
Encontro-a afinal, no quarto de
Rôdo. Vendo-a pela porta entreaberta, bato os nós dos dedos na madeira, para
não invadir o seu espaço. Ela olha a fresta de longe, percebe-me e convida-me a
entrar. Está de lingerie, e que bela ela é. Usa um corpete provocante que
valoriza os seus seios redondos e perfeitos. Ela parece satisfeita em deixar-me
vê-la assim. É bem de mulher isso. Não dizem, afinal, que é para outras
mulheres que nos vestimos, nós, mulheres? Talvez seja a mesma coisa com o
despir. E a lingerie é o exato meio caminho, nas duas direções. Olho-a inteira,
que pernas magníficas! Meu irmão sempre foi exigente com as suas iguarias. O bon-vivant,
o gourmet , o expert em mulheres, o estróina também. Amante da
velocidade e dos prazeres óbvios, mas com certo requinte, Rôdo escolheu esta
potranca de luxo, ou foi ela que o fez...
–Laís, em breve nos reuniremos
para uma cerimônia que tenho certeza, será decisiva. Mas não sei ao certo, a
tua posição. Não ficou clara, para mim. Amas o Rôdo, não é mesmo? E queres seu
bem, portanto, presumo...
–Alma, nada temas. Sim, amo o teu
irmão e sei que ele me ama. Sei também o que a estância significa para ele.
Contou-me toda a sua vida, a sua infância, contigo, nestes pampas. Não quero,
portanto, forçar nada. Sei que se conseguirem conservar a propriedade, ele não
ficará fisicamente preso a ela, como já não o faz. Há maneiras de se fazer
isso. Um bom administrador, por exemplo. Ou tu mesma te encarregarás disso?
Sim, porque gostamos de viajar, e temos muito planos, de conhecer os quatro
cantos do mundo. Somente... ainda não tenho certeza de que conseguirão pagar
essas dívidas, e salvar a propriedade. Como pensas fazê-lo? Teu irmão está
persuadido de que és uma espécie de feiticeira, perdoe-me a expressão, e
contou-me coisas espantosas a teu respeito. Não duvido de nada, mas confesso que
tenho medo dessas coisas. O que pretendes desta vez? Precisas mesmo da minha
presença? Tenho medo de assustar-me e
perder o sono.
Sorri, mais tranqüilizada. Laís
era, afinal, uma moça normal, no bom sentido, e não poderia fazer mal ao meu
irmão. Além disso, Rôdo era escolado na vida e jamais foi ingênuo. Tivera muita
vivência pelo mundo afora. Era um homem do mundo e a última coisa que alguém
deveria fazer era preocupar-se com ele. Sua independência era tanta que não se
prendera nem à terra de nossa infância. Era talvez mais livre do que eu. Mas
justamente essa era a minha preocupação: ele parecia poder viver sem a nossa
estância, sem as nossas raízes. Eu o via pelo mundo, em alta velocidade, na sua
Ferrari, parando somente nos cassinos para jogadas rápidas, como nos inúmeros
leitos por que passava, pobre Laís. Ou seria ela também uma aventureira, de
inúmeros leitos? Não importava, esta bela mulher não tinha a marca de Lílith, o
seu ríctus nas sobrancelhas, e isso bastava para me tranqüilizar.
–Laís, estou tranqüila. Foste
honesta comigo, e é o bastante para participares do ritual desta noite. Sei que
alguma coisa acontecerá que me fornecerá uma arma, ou uma idéia salvadora. Por
quê sei isso? Não sei, sou assim... Sinto-me perto de uma solução, que ainda não
se configurou na minha mente, mas que está próxima, eu pressinto.
Laís abraçou-me e beijou-me o
rosto delicadamente, senti o seu cheiro, seu perfume francês e pensei: é uma
pequena dama de luxo, mas honesta, o quanto é possível uma bela mulher ser, neste
mundo. A beleza, na nossa sociedade vale tanto por centímetro quadrado, que não
é possível deixar-se de vendê-la ou comprá-la, de algum modo, desde quando o
rosto de Helena “lançou ao mar mil navios”.
Afastei-me e fui procurar as
crianças. Encontrei os gêmeos e Pedrinho brincando. Eles me rodearam e eu,
disfarçando, fui conduzindo-os para o jardim, onde num canto, num pequeno
caramanchão, pudemos conversar a sós, sem perigo de sermos observados.
–Hans, Christian, Pedrinho,
preciso de vocês. Vamos brincar de espiões, sim? Quero que vocês fiquem de
olho, daqui por diante, em tudo que se passe nesta casa. Nas conversas dos
adultos, principalmente, e também nos seus passos, para onde vão, o que fazem.
Está bem? Vai ser divertido.
—Tia Alma–disse Pedrinho– sei o
que queres, e estou contigo. Vou seguir papai, está bem? Ele está muito
misterioso, desaparece a toda hora, e não é só para beber, eu sei. Ele nunca
escondeu isso da gente, ele não consegue. Mas acho que deves pôr Patrícia
também na brincadeira.
–Sei, Pedrinho – eu respondi– Patrícia
será também uma agente especial como tu. A camarada Pati. Vamos, vamos, saiam
brincando normalmente. Mas nada de saírem de suas camas, de noite, para
brincarem disso, hem? Conheço vocês. Saiam agora, eu vou em seguida, porque tia
Solange e tio Geraldo podem estar observando nossos movimentos.
Os meninos saíram correndo. Eu
tinha formado a minha rede de pequenos espiões. Hesitava apenas em colocar
Patrícia nesse jogo. Ela me parecia muito vulnerável em sua pureza, ou demasiado
apaixonada, para brincar de espiã. Dirigi-me rapidamente de volta para o meu
quarto, para ver Aline. Eu já estava saudosa, e ansiava por encontrá-la bem e
refeita, curada. Encontrei-a de pé, de camisola, um pouco hesitante.
–Volta, volta, para a cama, sua
louquinha. Ainda não devias levantar-te, –disse eu, abraçando-a e conduzindo-a
ao leito. Deitei-a com cuidado, com se fosse de vidro, meu coração cheio de
ternura. Não resisti e beijei-lhe os lábios, que me pareceram muito quentes.
–Alma, que bom que você voltou.
Senti tanto a tua falta... quanto tempo se passou? Você foi buscar-me lá, onde
eu estava, no escuro, você me salvou do escuro. Depois deixou-me na luz, mas
sozinha, não sei o que foi pior. Onde você foi?
Olhei o lindo rosto de Aline, sua
boca maravilhosa, e me senti transbordante de amor. Eu queria embalá-la como
uma criancinha. Percebi que ela era, afinal, uma mulher-criança, na melhor
acepção do termo. Tive muita sorte, apaixonei-me por uma mulher cuja
feminilidade tem o cunho sagrado de uma Psiqué. E ela me ama. Ela me ama.
Fiquei longamente acarinhando-a,
acariciando-a, beijando suas lindas mãos. Ela tinha os olhos nos meus,
ternamente, e foi abandonando-se, semicerrando-os, até mergulhar num sono
tranqüilo, sereno, afinal.
Levantei-me e saí, pé ante pé. Eu
ia preparar tudo para quando Aline estiver pronta, curada, para participar da
cerimônia da nossa macieira. Tenho pressa, mas esperarei que ela esteja
restabelecida. As noites estão quentes, não podem fazer mal a ela. Depois... o
que ela teve não parece ter sido gripe, resfriado ou coisa assim. Suspeito de
uma espécie de esgotamento emocional. Minha guria é hipersensível, e está tão
envolvida comigo que isso ultrapassou as suas forças. Devo ter cuidado. Não
chamarei os deuses e os numes como da outra vez. Quero somente homenagear o
espírito da minha macieira e concentrar-me numa corrente, junto com meus
companheiros, para receber uma inspiração. Serei fecundada por uma idéia, eu
sei.
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Passaram-se dias, e o tempo me
parecia suspenso. Minha rede de pequenos espiões trazia-me constantemente
notícias, na maioria supérfluas. Mas certas informações, alinhavadas,
construíam um quadro de conspiração, do qual Lúcia não mais participava.
Solange e seu cunhado pareciam tramar algo contra mim, para anular o meu voto.
Eles também me espionavam. Queriam encontrar algo que lhes permitisse
embargar-me, como alienada, ou coisa assim. Confabulavam com um advogado que
trouxeram de Livramento, e que parecia uma raposa. O perigo era iminente, mas
como poderiam conseguir isso? Minha relação com Aline, tinha transpirado? Não,
não seria suficiente. Quais os argumentos dessa conspiração? Eu não poderia
plantar uma criança espiã nessas suas reuniões a portas fechadas. Eu mesma
tentava ouvir atrás das portas, mas em vão. A casa tem um madeiramento espesso,
maciço. Reuniam-se freqüentemente na biblioteca, o que para mim soava como um
sacrilégio. Quisera poder enxotá-los de lá. Ali era, para mim, um lugar
sagrado. A sala do trono de meu pai. Eles a estavam conspurcando. Solange e
Geraldo eram usurpadores, e o pobre Alberto, um bobo da corte, pequeno
oportunista do momento. Por alguma razão,Voltei a me lembrar de outro episódio
referente à Solange, em nossa infância:
Eu possuí um diário quando guria,
que me fora dado pela Mutti, e que tinha um cadeado de segredo, que eu
considerava seguro. Era um belo livrinho de capa dura de couro, e eu gravei meu
monograma nele, com pirógrafo. Em suas páginas eu comecei a exercitar o meu dom
de registrar as impressões do meu dia, meus sentimentos e fantasias, que faziam
parte da minha realidade, a que eu já dava tanto valor. Eu adorava a idéia de
que meus registros eram secretos, e por isso eu poderia ousar tudo e passar
despercebida em minha ousadia, mental e espiritual, à vigilância da minha
própria mãe e de.... Solange, a inimiga.
Minha irmã mais velha,
naturalmente odiou aquele objeto à primeira vista. O diário da Alma! Que coisas
haveriam ali? Que ousadias, que transgressões, que pecados? Fiquei talvez mais
vulnerável a ela, com a existência do meu diário. Minha mente afinal poderia
ser invadida, violada. Meus segredos, meus tesouros... saqueados!
E foi o que realmente aconteceu.
Solange descobriu o esconderijo do álbum, e conseguiu arrombar o cadeado.
Peguei-a em flagrante lendo-o e rindo. Fiquei furiosa. Avancei para ela que
correu com o livro na mão até a piscina, ameaçando jogá-lo na água. Estaria
tudo perdido, o livro ficaria borrado e imprestável, e eu estaquei,
estarrecida. Implorei a ela que me devolvesse meu diário. Ela então atirou-o
para mim, dizendo:
–Toma aí, já conheço os teus
pensamentos, e eles valem alguma coisa, principalmente para a Mutti, percebes?
Agora estás nas minhas mãos. Venha beijar o meu pé, ou irei contar a ela
principalmente a terceira página. Vem, ajoelha-te e beije o meu pé, escrava!
E eu, tremendo de raiva e
humilhação pelo medo que realmente senti, ajoelhei-me e beijei seu pesinho
gordo, que desgraçadamente lavei com minhas lágrimas.
Eu demoraria ainda muito tempo
para me sentir preparada para contar tudo... ao mundo.
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Então,agora, às refeições
participava esse novo personagem: o advogado de Solange e Geraldo. Esse cara de
fuinha não era capaz de encarar-me. Ele percebia a sordidez da sua atuação e
não ousaria olhar-me nos olhos. Ah! Mas eu precisava agir rápido. Como poderiam
eles embargar-me? Que argumentos jurídicos forjariam? Não, não era possível! E
Rôdo, por que está assim inerte? Ele me defenderia, eu sei, mas com que argumentos?
Eu estava insegura, sabia que o ataque deles aconteceria a qualquer momento...
quando me chamassem solenemente à biblioteca. Se ousarem tocar no nome de
Aline, não sei do que serei capaz...
E se ele viram alguma coisa do
que se passou no pomar? Poderiam internar-me como louca? Não, não, é pouco
provável, eles teriam já se traído, feito alguma alusão àquilo. Eu passara à
defensiva, o que é um sinal de fraqueza. Não estou indefesa. Tenho minha rede
de espiões e tenho que ser combativa. Agressiva, se for possível.
À mesa, Solange, uma noite,
lançou suas farpas:
–Alma, em breve estaremos
assinando os papéis da venda, contigo ou não. É melhor que prepares a tua linda
caligrafia. O doutor Lucena já preparou todos os papéis. Temos uma ótima
oferta, que já aceitamos. Ela cobre totalmente as dívidas e ainda sobra o
bastante para todos nós começarmos uma nova vida, longe dos fantasmas que só
tu, por aqui, aprecias.
O advogado olhou-me nos olhos,
mas diante do fogo do meu olhar, abaixou os seus, e ergueu o guardanapo aos
lábios. Percebi que essa raposa guardava trunfos que tiraria da manga no último
momento. Eu tinha de precaver-me. Se algum médico desconhecido, com ou sem
enfermeiro, surgisse por aqui, eu saberia do perigo de um golpe baixo. Eles bem
seriam capazes disso . Em último caso, restava-me a fuga com Aline, para não
assinar nada, e reunir forças longe daqui, como uma estratégia de guerra, para
a batalha final.
Ao pensar assim, dei-me conta de
que eu era, afinal, um tanto infantil, em minha imaginação, e que eles se
agarrariam a isso. Os adultos. Ah! O ser adulto é detestável, sempre pensei
assim. Por isso sempre dialoguei em imaginação, ou mesmo na vida, com os
artistas, os gênios, os poetas de todos os tempos. O homem chamado adulto é,
para mim, uma degenerescência. Ele criou a feiúra do mundo, a burocracia, as
leis, as prisões, e os hospícios. Não serei jamais uma adulta. Sou artista. Sou
criança.
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Lembro-me do dia da morte de meu
pai. Já andávamos pé ante pé pela casa, e eu já não era chamada ao leito há
três dias. Isso me magoava. Eu não realizava que o Vati estava morrendo, embora
esse pensamento me ocorresse às vezes, logo expulso. Então, ele me chamou.
Solange, que administrava aquela porta, aquele quarto, transmitiu o desejo do
velho, parece que a contragosto, não sei bem porquê. Ela pensava que ele não
devia se desgastar, se cansar. E o velho estava morrendo...
Entrei, devagar, eu já era moça,
senão adulta. Fazem apenas seis anos. O velho, deitado no grande leito, apoiado
em enormes travesseiros, com sua barba branca, e os olhos azuis muito gastos,
me pareceu bem mais velho do que eu comumente achava. Mas pareceu-me que o seu
olhar se iluminou à minha entrada, e vi que a sua mão fez um ligeiro movimento,
que entendi como sinal para me aproximar e sentar-me à sua cabeceira.
Com dificuldade, a cabeça
imobilizada, afundada no grande travesseiro, dirigiu somente o olhar, para mim,
sentada na beira da cama, segurando-lhe a mão.
–Alma,–disse ele num sussurro–
filha do meu coração... Quero pedir-te que zeles pela estância, pelos quadros,
pelos livros... e pela vinha. Não te desfaças do piano, que virei tocar para
ti, nas noites em que não sopre o pampeiro. Tu me ouvirás, eu sei. Só tu
chorarás lembrando de mim. Talvez Rudi, também o faça. Mas quero que chores
somente pela alegria das boas recordações, que te ensinei que são o sal da
vida. Não lamento nada, não lamentes também. Minha vida foi bela,
principalmente ao teu lado, Alma, e sou profundamente grato a ti, minha guria.
Agora vou partir... e quero fazê-lo olhando os teus olhos verdes, e esse
dourado do teu cabelo, que iluminou a minha vida.
Dito isso começou a estertorar.
Assustada, pensei em correr para fora, e chamar todos, chamar Rôdo, mas ele me
apertava a mão, retendo-me. Entendi que aquilo não era só um espasmo, mas que
ele me queria ali, somente a mim. E fiquei vendo-o partir. Só eu vi-o deixar o
nobre corpo cansado, e percebi a sua alma saindo, quase avistei-a, ou tive essa
impressão, que não me abandonaria mais. Eu iria chorar por ele, talvez não
somente pelas boas recordações, mas por sua perda, que me parecia catastrófica,
apesar de tudo o que me ensinou. Eu choraria diariamente por cinco anos. Até ir
para São Paulo, para aqueles Jardins anódinos, onde montaria o meu ateliê de
pintora, na tentativa, vã, de me desraigar do Pampa, que se tornara uma ferida
aberta.
Mas não custei muito a
reconciliar-me com a estância, com as recordações, que quanto mais belas, mais
doídas me pareciam.
Agora eu estava aqui para zelar,
como ele me pediu, pela nossa herança verdadeira: o sentido da beleza que só
nós dois víamos em tudo isso.
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Dirijo-me ao quarto, ansiosa para
ver Aline. Encontro-a restabelecida, e radiosa novamente. Pareceu-me mais linda
do que nunca, já vestida com o seu jeans, como de costume. Ansiosa para sair do
quarto, encontrou em mim todo o apoio e incentivo para isso. Não sou de
cultivar doenças e resguardos. Agarrei a sua mão e saímos aos risos, correndo
para fora daquele quarto, para o jardim, que me pareceu mais florido do que
nunca. Arranquei punhados de flores, braçadas, e cobri-a com elas. Trancei uma
guirlanda de flores, uma coroa, e cingi a sua fronte, seus lindos cabelos
negros. A vida me pareceu sorrir novamente e me enchi de esperanças. Se o meu
amor levantou-se, a vida teria certamente que levantar-se daquele limbo de
incertezas, de perigos.
As crianças vieram juntar-se a
nós, o que era previsível. Como pequenas abelhas, no açúcar, em torno das
flores da minha amada, revoluteavam em festa, em risos. Quem poderia contra
isso, quem ousaria tirar-nos do nosso elemento: o riso e as flores? Mais tarde
reunimo-nos no nosso quartel general, o caramanchão do jardim. Cercado de uma
sebe espessa, florida, não podíamos ser observados. Eu recolhia ali as
informações do dia, às vezes do dia anterior. Minha pequena equipe de espias se
esmerava cada vez mais, trazendo-me informações preciosas, fragmentos
sugestivos de conversas, que eu ia recolhendo e alinhavando. Mas o que mais me
impressionou, foi a contribuição de Pedrinho. Resolvera concentrar-se em seguir
seu próprio pai, Alberto, sem ser percebido. Contou-me que o seguiu até a
adega, mas que ao entrar, esgueirando-se pela escadinha e o corredor, ao chegar
na cave, não encontrou-o. Aturdido com o fato, saiu correndo. Nos dias
seguintes, tendo observado seu pai saindo da adega, repetiu a façanha de
segui-lo, arriscando-se. Novamente, o mesmo mistério. Seu pai, Alberto, o
bêbado, simplesmente sumia naquela adega, pequena, limitada, sem saída, como um
beco subterrâneo. O menino estava assustado.
Aquilo me deixou perplexa e
pensativa. Eu pensava conhecer aquela casa como a minha palma. Para onde ia o
nosso bobo da corte? Eu precisava descobrir como o meu cunhado desaparecia
dentro daquela cave, sem que meu interesse desse na vista, claro. Pedi ao
Pedrinho que não comentasse aquilo com as outras crianças, dizendo-lhe ser um segredo
só nosso. Dirigi-me num momento seguro à adega e fiquei ali, examinando cada
centímetro daquelas sólidas paredes. O cheiro de umidade e o frio ali dentro
eram constantes. Havia, claro muitas estantes de garrafas, mas um perfume vinha
de alguns tonéis de vinho, que me remetiam a outros tempos, outras memórias.
Até que percebi que um dos tonéis estava vazio e bem seco. Veio-me então a
idéia de meter-me ali dentro. Mas para isso eu precisava prepará-lo para não
passar muito desconforto. Saí e voltei com dois travesseiros, uma manta e Ña
parte superior do tonel havia aquele furo para o batoque. Por dentro do barril
eu poderia observar, embora na obscuridade, toda aquela adega.
Coloquei-me lá dentro com uma
lanterna de pilha, bem agasalhada e enrolada na manta, com meu relógio de
pulso, e preparei-me para esperar o quanto fosse necessário. O silêncio e a
escuridão me deixaram um pouco temerosa e com a sensação de estar naquele reino
subterrâneo, onde as almas são obrigadas a descer para atravessar o rio do esquecimento,
para escolher a nova vida. Comecei a ouvir alto o tic-tac do meu relógio de
pulso, martelando, quase torturante. Não sei ao certo quanto tempo se passou. O
tempo é uma sensação subjetiva, e portanto elástico, e comprimível. Lembrei-me
do episódio da divina comédia, em que Dante vê, num dos bolges do
Inferno, um demônio gigante, arqueiro, que flexionava o imenso arco armado com
uma flecha, lenta e poderosamente, mirando um alvo qualquer. O gigante solta a
corda, e Dante, então, espantado, vê a flecha sair lentamente. Perplexo, ele
pergunta a Virgílio porque a flecha saiu assim tão devagar, de tão potente
arco. Virgílio, então lhe responde concisamente, como era de seu feitio, nessa
relação com o florentino: “– Quanto maior a expectativa, mais devagar sai a
flecha.”
Senti claramente essa verdade,
comparando meu tempo interior de espera ansiosa, com o andamento dos ponteiros
do relógio, no meu pulso, sob a lanterna, dentro daquele tonel, útero no ventre
da terra, cuja epiderme era o casarão.
Finalmente a porta se abriu, e
senti, mais do que vi, um vulto entrar na adega. Devia ser Alberto, o que
confirmei quando ele acendeu uma vela com o seu isqueiro, iluminando o seu
rosto avermelhado, o nariz mais que o resto. Prendi praticamente a respiração e
preparei-me para observar-lhe os mínimos movimentos. Lembrei-me de que quando
bem criança, perguntei ao meu pai o que era o umbigo. Ele, com seu costumeiro
senso de humor, respondeu-me que aquele furinho era o olho mágico dos bebês,
uma espécie de periscópio na barriga de suas mamães, para observarem o mundo e
saberem quando era hora de sairem. Apesar de muita pequena, percebi que aquilo
era uma piada, uma brincadeira, e esse entendimento precoce, de uma graça
ingênua, declanchou o meu senso de humor, que eu desenvolveria desde a
infância, senso esse ensejado sabiamente por meu pai.
Agora, ali, no ventre do tonel,
eu substituíra o espírito do vinho. Assim divaguei, por um segundo, e logo
concentrei a vista nas mãos do meu cunhado, que, iluminadas tateavam a parede
do fundo da adega.
Então, subitamente a parede
girou, abriu-se, sei lá, e vi-o penetrar numa zona ainda mais escura. A parede
tornou a fechar-se. Tratei de sair depressa do meu posto de observação.
Deixando dentro do tonel, todo o meu equipamento, esgueirei-me rapidamente para
fora da cave, antes que Alberto voltasse. Eu teria muito tempo para explorar a
descoberta do bufão. Agora tinha de preparar-me para o cerimonial da minha
macieira, que eu já sabia que seria só de agradecimento, embora ainda não soubesse
exatamente por quê.
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As lembranças que tenho de Ana
Morgado, minha mãe, não são exatamente agradáveis. Faltava-nos afinidades, essa
é que é a verdade. Eu sei que isso não costuma ser decisivo na questão do afeto
entre mãe e filhos. Os filhos amam suas mães, mais ou menos incondicionalmente,
e vice–versa. Mas no meu caso, pela minha natureza de artista, isso produziu um
enorme distanciamento, uma vez que minha mãe não aceitava a artista em mim. Ela
tinha, pobrezinha, uma mente tacanha, e desejava somente a “normalidade” para
todos os filhos. Isso quer dizer, uma mediocridade cinzenta, pois católica,
descendente de portugueses açorianos, temia o destaque, a paixão, a
notoriedade, enfim, o talento. O artista para ela era um ser estranho, que se
exibia, que não se comportava bem. Um ser que amava demais a vida e a beleza, o
que para ela, era uma espécie de pecado, pois estava convencida da doutrina do
“vale de lágrimas’ que herdara de sua formação, e de seus avós portugueses.
Lembro-me de discussões precoces,
que tive com ela, e de como isso me magoava. Ela temia sobretudo a sensualidade
que pressentia em mim, que não obstante, acredito, não comprometia a pureza do
meu coração... e mesmo a da minha mente. Eu me tornaria, por essas
características, uma poetisa lírica, sonetista, além de contista confessional,
que nada esconderia do público. Por outro lado eu era incentivada, felizmente,
por meu pai, cuja afinidade comigo era quase total. Isso produziu um apego e
uma mútua admiração entre nós dois, a toda prova. Tive esse privilégio, afinal,
de ser totalmente aceita, acreditada, incensada mesmo, pelo velho cirurgião
artista, cujo talento para a música, e a enorme erudição literária, filosófica
e artística, era uma fonte de deslumbramento e aprendizado, para mim.
Minha mãe tentou algumas vezes
reprimir as minhas explosões de alegria, e até algumas lágrimas de
sensibilidade à beleza, e isso produziu em mim pequenas chagas de frustração e
até mesmo um certo ressentimento que tive de lutar para superar.
Todavia, o episódio mais grave,
foi realmente, aquele, do flagrante que nos deu, a mim e a Rôdo, nus, sob a
nossa macieira. Aquilo, concordo, pode ter-me marcado mais do que percebo. Uma
vez moça, eu me entregaria a paixões com uma intensidade talvez desmedida; e um
certo timbre, levemente masoquista, que devo reconhecer em minha sexualidade, e
que me causa tanto prazer, se deve certamente àquele incidente da minha
infância.
Mas, eu falava de minha mãe. A
pobre morreu quando eu tinha treze anos, creio que por pura falta de élan
vital, de amor à vida, ao amor. No entanto, ela não era má. Eu poderia escrever
um poema trágico sobre ela e sua vida, árida, sem cor. Ou pelo menos um poema
patético. Cabe ao poeta, sempre, revelar a poeticidade dos seres e das coisas.
E minha mãe, afinal, não escaparia de merecer um poema. Mas penso que ela se
constrangeria, lá onde está, de ser posta por um momento na berlinda, quero
dizer, no pensamento de alguns estranhos: os leitores. Além disso faltava-lhe
(falta grave), o maravilhoso senso de humor que notabiliza a espécie humana.
Lembro-me de um episódio, em que, criança, à mesa, soltei uma tirada cômica,
verdadeiramente inspirada, pareceu-me, pela gargalhada súbita do Vati e dos
meus irmãos. Minha mãe, entretanto fechou a cara e deu-me uma pequena bofetada,
dizendo: “Despudorada! Queres exibir-te sempre, não é?” Aquilo me magoou
sobremaneira, e apoiei a cabeça abaixada sobre meus braços, na mesa, e solucei
amargamente. Mas fui logo consolada por meu pai, que ralhou com a Mutti e
pegou-me em seus braços com um carinho enorme, e carregou-me no colo embora eu
já fosse grandinha. Aquilo compensou tudo. E eu como criança não pude deixar de
mostrar a língua, disfarçadamente, à minha mãe.
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Passei o dia concentrada,
parecendo um pouco alheada às crianças, que trataram de brincar entre elas,
afastando-se naturalmente. É incrível a sensibilidade e o respeito que estas
crianças demonstram.
Chegando à noite, preparei-me em
pensamento, para o cerimonial que planejei. Também corporalmente, pois vesti-me
com uma espécie de túnica branca, lembrando as antigas gregas, até os tornozelos.
Coloquei sandálias finas, leves, prateadas. Fiz um penteado como eu via nas
ilustrações das ânforas, nos livros. Delineei os olhos com um traço preto
longo, ressaltando-os. E um leve batom nos lábios. Aline ajudou-me. Depois eu a
vestiria de maneira semelhante, cuidadosamente, caprichando em sua maquiagem.
Pude apreciar melhor, em sua figura, o efeito dos nossos preparativos. Ela
estava belíssima, encantadora, como eu a projetava em minha imaginação,
naquelas Ilhas Bem Aventuradas, em cuja existência sempre acreditei, num plano
espiritual. Saímos de mãos dadas pelos fundos da casa diretamente para o pomar.
Era importante que não fôssemos vistas pelos outros da casa.
Encontramos Rôdo e Laís, próximos
à nossa macieira. A noite estava esplendorosa, numa verdadeira festa de luzes e
sons. A lua cheia, como eu aguardara, os sapos e grilos em alegre balbúrdia,
mas os pirilampos mais discretos diante do seu fulgor.
Rôdo estava vestido como sempre
com sua bombacha, que usa quando está aqui, mas notei-lhe um certo apuro, na
camisa ligeiramente bordada no arremate degolado e nos punhos. Trazia uma faixa
enrolada na cintura, com as pontas também bordadas. Nas botas, tivera também a
sensibilidade de não trazer suas esporas de prata, que além de tilintarem,
denunciavam arrogância, inadequada à nossa cerimônia. A humildade seria a
tônica de nossos ritos, nessa noite. Laís, felizmente, não fugira a esse acordo
tácito e estava linda e discreta num longo simples de tom perolado, com os
cabelos lindamente trançados. Estava talvez um pouco mais ostensiva, com um
colar de ouro e pérolas, e brincos iguais.
Diante da ara de nossa macieira,
acendi a minha trípode com as ervas aromáticas, acrescentando uma grande folha
de parreira, que estando verde, produziu um intenso fumo, que ascendeu à lua,
numa coluna quase reta, pois não tínhamos a mais leve brisa, o que eu
considerei propiciatório.
Em torno da pira demo-nos as
mãos, olhando para o alto, para a lua, onde o fumo se desvanecia, e
permanecemos estáticos, os braços abertos, ligados pelas nossas mãos. Olhamos o
fulgor branco da grande lua, até a nossa vista se ofuscar e entrarmos num
estado de suspensão de tempo e espaço, em que nossa matéria pareceu perder o
peso, sentindo-nos como que levitando. Ouvi então a minha própria voz, dizendo,
solenemente:
–Lua, Lua fulgente, olho
esplendoroso da Noite, olha-nos! Aceite a nossa oferenda, o fumo da videira e
das ervas irmãs! Diante da macieira sagrada, do Paraíso recuperado da nossa
infância, de onde outrora fomos expulsos, nus e crianças, aceita ó Lua, diante
da Ara dos Pampas, a nossa devoção e humildade. Dá-nos, ó Lua, tua sabedoria
maternal, benevolente, de mulher, já que a astúcia maligna, Lílith, pertence ao
teu lado escuro, que não veremos jamais! Diz, ó Lua, o que queremos saber, a
resposta ao perigo que nos aflige. Como salvar a estância, a casa, a vinha e o
pomar? Como salvar tua Ara, ó senhora?
Permanecemos assim, suspensos no
ar, e creio que a levitação se deu realmente por um tempo indefinido, talvez
infinito do espírito, e quando pousamos, eu já sabia o que fazer. A solução
estava presente em minha mente... e no meu coração!
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Quando os Welt chegaram a
Alegrete, traziam um considerável capital. Haviam prosperado pelo trabalho
árduo, na terra, nas colônias alemãs da região do Vale do Itajaí, em Santa
Catarina, sem esquecer nunca a sua ambição de se tornarem senhores de uma
grande fazenda. Ouviram falar do extremo sul do Rio Grande, região dos Pampas,
o que passou a crescer como uma obsessão na mente do meu avô. Tornar-se um
estancieiro. Daí para encontrar a terra que afinal lhe caberia, foi um passo.
Mas esse passo não excluiria uma tragédia.
Na região da fronteira com o
Uruguai, entre Alegrete e Santana do Livramento, havia uma grande estância
muito antiga, que se tornara decadente após duzentos anos de trabalho, de
batalhas e desperdício. Seus donos foram “maragatos” na guerra dos pica-paus
contra o Império, e sofreram muito com isso. Depois da derrocada da monarquia,
a decadência daquela família foi gradativa, ao longo de mais duas ou três
gerações. Até que ali chegou meu avô, duro velho alemão que fez uma oferta
tentadora ao seu último dono, um gauchão alquebrado pelas dívidas e roído pelos
ressentimentos. Meu avô foi muito mal recebido apesar de se apresentar como
solução para aquela família, que já avistava a necessidade. Os gaúchos o
chamavam o “teuto” ou o “boche”, mas
somente pelas costas, pois meu avô não era homem de ser desrespeitado, e seu
porte imponente e sua extrema severidade germânica, impunha-se logo de saída.
Com dois metros de altura e mãos enormes, uma força cavalar e uma catadura de
nenhum amigo, o velho Joachim Dietrich Welt, tinha aquela presença majestática
dos antigos germânicos, ou dos vikings. E uma agressividade contida, cortante,
que lhe saía dos lábios finos como uma fenda.
Conheci por pouco tempo o meu
avô, e não gostei dele. A doçura e a sabedoria de meu pai contrastava demais
com aquele guerreiro do Walhalla, instalado ali nos Pampas. No entanto devo
reconhecer o seu valor, a sua enorme força de trabalho, a sua obstinação.
Mas é preciso que se conte, que o
estancieiro gaúcho, pouco tempo depois de fazer a venda ao meu avô, enforcou-se
num sótão do casarão, numa viga do telhado, pelo seu laço de couro trançado.
Aos seus pés, a bomba e a cuia, esparramadas, pois ele tomara o chimarrão até o
último momento, deixando-o cair ao lançar-se da banqueta.
Sua família, a viúva e filhos,
velou-o na sala principal, entre quatro tocheiros, soluços e gritos. Não
faltaram também imprecações contra o meu avô, e até mesmo uma praga gaúcha, que
ao que parece não pegou, ou então pegou tardiamente, a julgar pela nossa
situação atual. Após o enterro, na própria estância, aquela família retirou-se
num carroção de arcos, que deixou a casa, afastando-se lentamente. Minha avó
contou-me que avistou ainda, à passagem da porteira, dentro do carroção, uma
menina daquela família brandir o pequeno punho fechado contra eles, os meus
avós. Imaginei-me naquela situação e pensei que talvez eu não deixasse aquela
família ir-se, o que sei, no entanto, que seria inviável: o ódio daquelas
mulheres e crianças corroeria estas paredes por dentro.
Em minha infância, todavia, não
percebi sinais dessa maldição, e o trabalho árduo de meus avós e seus
empregados, muitos dos quais, peões remanescentes do antigo dono, neutralizaram
qualquer maldição que porventura pesasse sobre esta casa. Meu avô não tardaria
a se tornar respeitado na região, como homem sério e laborioso. Entretanto a
estância não prosperava mais, apenas com o resto de boiada, o charque e o mate,
e foi aí que o velho teve a idéia, que na verdade era um antigo sonho, de
plantar o vinhedo que o tornaria conhecido na região.
Quando Werner, afinal reconciliado
com meus avós, trouxe-lhes a nora indesejada, começou o período de plantação da
vinha, da construção das adegas, do lagar e dos grandes barris de madeira. Ana
dedicou-se a gestar e parir mais um filho, e a cuidar dos três crescidos, como
boa esposa e mãe, enquanto meu pai começava a sua carreira de médico cirurgião
no meio rural e em cidades pequenas. Meu avô, ocupado com a vinha, reinava como
um déspota, enquanto minha avó cumpria seu papel de benevolente eminência
parda. Foi nessa época que meu pai começou a formar a sua grande bilblioteca
cuja base ele trouxera da Europa, em idioma alemão, e francês, e que viria a
ser o centro do nosso mundo, meu e dele. Logo deu-se a entrada do grande piano
Steinway, usado, mas perfeito, que ele conseguiu adquirir, não sem algumas
altercações com o velho Joachim, cujo sangue germânico falou mais alto, afinal,
quando seu filho, o jovem cirurgião, tocou para convencê-lo, o “Cravo bem
temperado”.
Essa foi, meu pai contou-me um
dia, a única vez que pôde avistar um brilho diferente, úmido, nos olhos do
velho agricultor.
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Agora eu estava preparada, embora
sob grande expectativa, para a descoberta do mistério da adega. Após a
cerimônia no pomar, confabulamos, e eu então contei aos meus parceiros o que
estava acontecendo com Alberto, o enígma do seu sumiço atrás da parede que se
abria. Ficaram excitadíssimos e combinamos então, para aquela noite, bem tarde,
quando as irmãs e cunhados estivessem em sono profundo, encontrarmo-nos os
quatro na adega, para desvendar aquele segredo.
Assim fizemos. Aquela noite, um a
um, pé ante pé, deixamos nossos leitos. A excitação não nos deixara mesmo
adormecer, e ainda com nossas roupas de dormir, encontramo-nos pelos
corredores, e descemos à adega com nossas lamparinas.
Uma vez lá em baixo, com os
corações acelerados, tateamos aquela parede do fundo, sofregamente. Demoramos
muito, mas afinal encontramos uma falsa rachadura no tijolo, cujo pedaço,
pressionado funcionava como um botão. A parede começou a girar nalgum eixo em
sua exata metade, deixando-nos ver uma profunda escuridão, aterrorizante. Como
se estivéssemos numa tumba egípcia, numa pirâmide, nossa emoção atingiu um
pináculo onde podíamos ouvir nossos quatro corações galopando. Entramos.
Erguendo nossas quatro lamparinas
ao mesmo tempo, avistamos a maior adega que se pode imaginar, imensa, como um
salão cujas dimensões não pudemos calcular pois seus extremos perdiam-se na
densa escuridão que recuava apenas num certo raio em torno das nossas quatro
modestas fontes de luz. Avistava-se um verdadeiro mar de estantes com garrafas.
Meu irmão, percorrendo a estantes calculou por alto, que devia haver umas dez
mil garrafas. Agarrou uma, depois outra, sem rótulos, empoeiradas, antigas.
Voltou para o começo do salão e tirou uma das primeiras garrafas da primeira
estante. Havia um rótulo, manual, provisório, com uma etiqueta amarelada,
manuscrita, que leu alto:
TINTO SAFRA DE 1962
Para meus netos, com minha benção
Joachim
Emocionados, vimos Rôdo “sabrar”
o gargalo com um golpe seco de sua faca gaúcha, como um hussardo, aspirá-lo e
depois derramar na boca, bochechando, antes de engolir. Não fora “pro vinagre”!
Agarrei a garrafa, tirei-a de sua mão, repeti os seus gestos, e maravilhada,
reconheci o melhor vinho que jamais tinha provado em minha vida, aquele que
aparecia na nossa mesa pelas mãos de Alberto. Só que agora, eu percebia o
alcance daquilo tudo. A mensagem contida desde o começo naquelas garrafas sem rótulo,
que chegavam ainda um pouco empoeiradas pela mão do nosso abençoado beberrão.
Estávamos diante de toda uma safra excepcional, de quarenta anos atrás, a
verdadeira herança dos meus avós, da qual eu tenho dúvidas sobre o conhecimento
de meu pai, que morrera endividado.
Como então havia um subterrâneo
como esse, vastíssimo, que se estendia sob todas as dimensões do casarão, sem
que meu pai o tivesse mencionado uma vez sequer em sua vida, e muito menos em
seu leito de morte ou no testamento? Com pudera meu avô construir aquilo, sem
seu conhecimento e da minha mãe? Talvez aquilo já existisse ali há muito tempo,
certamente construído por escravos, em épocas tenebrosas, com outros fins.
Agarramos uma garrafa cada um de
nós, e saímos. Eu já sabia o que fazer. A primeira providência seria chamar um
especialista, um enólogo, para que julgasse o nosso vinho, desse o veredito.
Tudo dependia da qualidade dessa safra.
Excitadíssimos, fizemos o
percurso de volta, fechando a parede à nossa saída, e com as nossas lanternas
cuja luz tremeluzia em nossas mãos trêmulas de emoção, retornamos aos nossos
quartos.
Aquela noite eu amei Aline com
todas as forças do meu entusiasmo renovado, e dormimos abraçadas e saciadas. Eu
já estava feliz, por antecipação. Sempre tive a vocação da esperança, e algo me
dizia que aquele vinho seria a nossa salvação, o verdadeiro sangue da nossa
terra, que corria novamente em nossas veias.
.............................................................................
De manhã cedo tivemos nosso quarto
invadido pelas crianças, alegremente, como um bando de pássaros matinais.
Rodearam nosso leito, falando ao mesmo tempo, rindo, nada espantadas de nos
verem juntas sob o mesmo lençol, as maravilhosas crianças! Beijavam-nos,
perguntando em alegre expectativa as novidades auspiciosas que pressentiam.
–Crianças,–eu disse– reunião
geral no jardim às 9:00 horas. Todos lá, no nosso quartel general! Revelarei a
vocês as novidades. Vamos, vamos! Saiam agora para nos banharmos e vestir-nos.
Após um alegre café da manhã, com
Lúcia, Geraldo e Patrícia, em que meu cunhado não parou de me olhar com
desconfiança, estranhando a minha animação, puxei Patrícia para o nosso
encontro no caramanchão.
Ali reunidos, fiz um certo
suspense com as crianças, que pulavam de excitação, em torno de mim e Aline, e
anunciei:
–Crianças, descobrimos algo que
pode salvar a nossa estância. mas não posso ainda revelar a vocês. É melhor
assim , creiam. Assim evitaremos possíveis decepções. Mas conto com a discrição
de vocês. Lembrem-se do juramento, meus pequenos espiões? Então, necessito da
fidelidade, a toda prova, de cada um de vocês. E disciplina, somos uma equipe,
não somos? Continuem investigando. No final, vocês terão uma bela notícia,
espero. Salvaremos a estância. Mas por ora, permaneçam, como sempre espionando
os adultos. Eu lhes prometo beijos e alegria no final, para sempre.
As crianças deram pulos, e
abraçaram-me uma a uma, e à Aline. Emocionada, tive um ligeiro pensamento
temeroso, de que algo pudesse nos decepcionar. Mas afastei, como de costume,
esse pensamento. Os deuses não poderiam nos faltar, pois eu os amava como
nunca.
Fui passear com Aline, muito além
do jardim, penetrando naquela fronteira onde o Pampa se fazia ver inteiro, com
as flores silvestres saudando-nos na planura semeada de raras e esparsas
árvores, algumas imponentes, ao longe. Olhei Aline nos olhos, seus lindos olhos
azuis e disse:
–Meu amor, quero cavalgar
contigo, lado a lado. Se tiveres medo, continuarás na minha garupa, bem
agarradinha a mim. Quero correr como nunca este Pampa. Ele é meu, ele é nosso,
novamente. Eu não o perderei nunca, eu acredito. Venha, venha, selemos nossos
cavalos.
Voltamos, procuramos Galdério,
que nos selou dois pampeiros, e ajudou-nos a montar. Saímos do território do
casarão e entramos na pradaria, seguidas por pássaros e borboletas, segundo me
pareceu, acreditem. Tudo me parecia auspicioso, e o lindo dia, sem nuvens, num
azul puríssimo refletia-se nos olhos da minha Aline, com um fulgor
inesquecível. Galopamos como nunca, e eu me admirei de ver a coragem de Aline,
galopando, pois ela nunca o fizera antes, sozinha. Sua alegria lhe dava essa
harmonia com a montaria, e mais uma vez eu a queria comer de beijos, engoli-la,
coloca-la dentro de mim, minha maravilhosa Aline, minha parceira, minha amada.
Com ela eu repartiria minha herança, meu corpo e minha alma. Senti-me voando
sobre o pampa, chegando até as Missões, rodeando pelo ar as ruínas do nosso
passado grandioso. E essas ruínas se tornaram, nesse ligeiro delírio, as bases
do nosso casarão ressuscitado. Martim Fierro corria conosco, ao nosso lado,
Rodrigo Cambará e sua Bibiana, Ana Terra e os índios com suas faixas vermelhas
na testa, numa cavalgada imensa, que nos escoltava em nossa alegria, nosso
entusiasmo revivido.
.....................................................................................
Escrevi uma cuidadosa carta para
Hermann, o enólogo e sommelier em Porto Alegre. Citei meus avós, além do nome
da nossa estância e dos nossos vinhos mais conhecidos, mas sobretudo o nome de
meu pai, que ele disse conhecer. Pedi-lhe que viesse hospedar-se em nossa casa,
que o receberíamos com todas as honras, para que ele nos brindasse com os seus
conhecimento e desse o veredicto sobre a nossa safra recém descoberta.
Agucei-lhe a curiosidade, com as minhas palavras calculadas, acredito. Depois
lacrei a carta, à maneira antiga, com lacre vermelho e as minhas inicias A W, e
selei-a. Fui à cozinha, tomando cuidado para não ser observada por ninguém, e
chamei Galdério. Pedi-lhe que levasse a carta à agencia de correio da nossa
estação ferroviária. Pedi-lhe discrição, que pegasse a charrete e acaso fosse
interceptado por Solange, não mostrasse jamais a carta e fornecesse um motivo
qualquer para a sua saída, uma compra de material de escrita, para os meus
poemas, por exemplo. Encontrei a seguir Patrícia, que me puxou pela mão para o
seu quarto, e abriu-se:
–Tia Alma, por favor, manda
Galdério levar minha carta também, eu sei que tu deste a ele uma carta para
levar. Perdoa-me espionar-te. Mas é a oportunidade que tenho, tia, por favor,
leva a minha carta também. Assim mamãe nada perceberá.
Peguei a sua cartinha, levei-a
aos seus lábios e abracei-a a minha sobrinha por uns segundos de infinita
ternura. Saí rapidamente e encontrei Galdério encilhando a égua e preparando a
charrete. Confiei-lhe também a carta da minha sobrinha., recomendando que a
escondesse com sua vida, caso Solange o interpelasse no momento de sua saída ou
à sua volta, em qualquer tempo. Eu sabia que Galdério me seria sempre fiel. Por
que eu sabia disso? Porque ele acreditava que me devia a vida. Eis a estória:
Quando eu era ainda adolescente,
Galdério, homem feito, tivera um período conturbado, em que praticamente se
viciara no jogo de truco, a dinheiro, e endividara-se com outro peão. As
dívidas de jogo são sempre sagradas, e ele não podendo saudar sua dívida estava
jurado de morte por um peão truculento, que tinha fama de já ter despachado
mais de um desafeto para o reino da Salamanca. Esse homem brigava de faca como
um demônio e atirava como um capanga de Satã. Galdério andava apavorado e
estava prestes a enfrentar o outro gaúcho, num duelo a faca, do qual na certa
não sairia vivo. Tendo sabido disso pelo desabafo desesperado de Matilde, sua
irmã, não tive dúvidas, e reuni todas as minhas economias e um pouco das de
Rôdo, e dei-as a Galdério para que saudasse a sua dúvida, recomendando a ele
que não jogasse nunca mais. O gaúcho caiu-me aos pés e beijou a fímbria do meu
vestido, comovidamente, dizendo;
–Senhorita Alma, devo-te a vida.
Serei fiel à minha patroinha por toda a vida. Conte comigo para sempre até a
minha morte e além dela. Eu velarei pela senhorita como uma sombra, e não
permitirei que nada ameace a tua felicidade, no que estiver ao meu alcance.
Senti-me como uma princesa, e
pousei minha mão no seu ombro, abençoando-o. Agora eu sabia que ele se deixaria
torturar sem jamais revelar meus segredos, e por extensão, os dos meus
protegidos. Podíamos confiar nele.
Fui em seguida procurar Rôdo.
Encontrei-o charqueando, cortando com a sua faca de cabo de prata, tiras de uma
manta para o nosso almoço, enquanto a chaleira chiava, para o mate. Parou e
preparou o chimarrão para compartilhar comigo. Estava bem, apaziguado. Ele
também tinha esperança no nosso vinho. Disse-me:
–Alma, se aquela safra de
quarenta anos, for como pensamos, excepcional, talvez possamos saldar a nossa
dívida, ser soubermos negociá-la bem, com eficiência. Para isso teremos que
evitar ao máximo os intermediários. Eu mesmo quero vendê-la para os grandes
restaurantes. Mas precisamos também fazer algum tipo de propaganda, pelo menos
entre os aficionados. Alma, tu terás de desenhar um belíssimo rótulo, e
projetar folhetos e textos que incitem a curiosidade e o apetite, a sede dos
possíveis clientes. Minha irmã, dedica-te a isso assim que tivermos a prova e a
nota do nosso especialista. Conto com a tua mais bela obra de arte. Tu já sabes
como chamará o nosso vinho?
–Sim, Rôdo, eu já sei. Vamos
batizá-lo de “ Ara dos Pampas” e o rótulo será circular, disso já tenho certeza.
O desenho ocorrerá na hora. Confio na inspiração do momento. Mas as letras
devem ser góticas, em homenagem aos nossos avós. Foram eles mesmos que nos
legaram a salvação de nossa casa, a nossa Herança.
__________________________________________
FIM do Capitulo Segundo
ALMA WELT
A HERANÇA
CAPÍTULO TERCEIRO
O SANGUE DA TERRA
"Cuspir deixa boca seca
Não dependendo do ano
No nordeste dá a Seca
Mas no sul dá Minuano".
(Do Cordel “´Máximas do Trovador
Sertanejo”
de Guilherme de Faria)
O Sangue da Terra
Dois vultos montados trotavam no
Pampa, envoltos nos palas sob o frio enregelante do minuano. Naquela madrugada
do ano de 1974, chegariam à nossa estância, os irmãos Matilde e Galdério,
vindos do “Oriente”, onde trabalhavam para hacienderos uruguaios que afinal os
decepcionaram. Voltavam então para o nosso lado, com o linguajar eivado de
expressões castelhanas, mas dispostos a reconquistar seu lugar no pampa
brasileiro de seus antepassados. Meu pai os receberia, pois uma carta elogiosa
os antecedera, recomendando-os. Eu já era nascida, Matilde foi a parteira de
Rôdo, e praticamente criou-o, com um amor e dedicação toda prova. Galdério
seria o meu pajem, meu servidor, até aquele momento em que salvo por mim, de
sua dívida, elevaria a sua dedicação a um nível de devoção que tantas vezes me
comoveria.
Minha infância na estância, foi
de um modo geral, maravilhosa, graças ao carinho de meu pai e seus
ensinamentos, à grande emulação que senti com seu pendor artístico, mas também
pela dedicação daqueles dois irmãos. Também Rôdo, que seria sempre um amor da
minha vida, meu irmãozinho mais novo e o mais cheio de personalidade,
vitalidade e, talvez de intensidade, de todos nós. Ele daria muito trabalho aos
meus pais, muitas preocupações.... mas para mim ele foi uma das fontes da
alegria, tendo exercitado a minha alma no amor. Na verdade ele foi o primeiro,
pois o amei mais que a um irmão, e não me arrependo disso. Não me arrependo de
nada, embora tenha sido magoada por isso, pela minha mãe. Eu seria sempre a pequena
rebelde, quase transviada, para ela, enquanto para mim mesma, tive sempre a
certeza das razões inquestionáveis do meu coração, de sua sabedoria, que me
conduziu sempre em meu caminho de artista predestinada. Não me deixei jamais, e
disso me orgulho, contaminar pela culpa, pelos remorsos, por qualquer fantasma
de “pecado” que me quisessem impingir. Assim também Rôdo, talvez pelo meu
exemplo, passou incólume por aquele episódio e continuou fiel e leal ao nosso
pacto de amor, e a prova disso, foi paradoxalmente, o grande número de paixões,
namoros, amantes, de que iria desfrutar ao longo de sua juventude, sem nunca
renegar a sua afeição incondicional à mim, sua irmã querida, a quem ele beijava
as palmas das mãos toda vez que reencontrava, em sua turbulenta existência de
jovem aventureiro.
Por outro lado, Solange se
constituiu na sombra ameaçadora de minha vida. Minha irmã mais velha não
disfarçava seu ciúme, sua implicância, seu despeito diante do afeto do meu pai
e do meu irmão por mim, que ela nem sequer sabia disputar. Ela não entendia que
esse afeto era natural, fruto de nossas afinidades de artistas. Perseguia-me
com sua vigilância, seu moralismo rancoroso, e freqüentemente intrigava-me com
minha mãe. Mas tenho que contar aqui um episódio estranho da nossa convivência
na infância, em por um momento ela me comoveu:
Eu era adolescente de dezesseis
anos, e minha sensualidade espontânea e um tanto acima da média daquela época,
fazia-me o alvo das críticas e implicâncias de minha irmã Solange, e da
vigilância de minha mãe açoriana, que na verdade eu conseguia habilmente
driblar.
Rôdo fora excursionar uma
temporada com seus colegas da escola, deixando-me um tanto só e carente, num
período de introspecção melancólica, quando recebi a notícia da chegada de uma prima
alemã que vinha da Bavária, conhecer os parentes brasileiros, do extremo sul do
Brasil, em especial a prima Alma, de sua mesma idade, e de que lhe falaram
tanto em cartas: a prima bela que escrevia poemas, dançava balé e pintava, que
era eu.
Assim, eis que afinal chegou a
prima (vou chamá-la Helga), e me surpreendeu. Uma linda alemã, loura, de olhos
azuis, tipicamente germânica, cujo elemento de surpresa portanto era outro, que
não as suas características físicas, mas o timbre ativo, quase viril de sua
sensualidade inesperada. Helga chegou, botou seus olhos sobre mim e se
apaixonou, imediatamente. Eu estava um tanto surpresa, embora estivesse
acostumada à recorrência desse fato, já então, em minha vida desde a infância.
Mas Helga, sendo bela e prima da
mesma idade, não levantaria jamais suspeita em minha mãe, embora o fizesse,
sim, em Solange, minha irmã, e espiã incansável. Consegui, no entanto ficar a
sós com minha prima e confidenciei-lhe precipitadamente, como um acordo tácito
ao primeiro olhar, a situação de vigiada em que vivia, sem necessitar explicar
a causa, naturalmente. Pronto, estávamos entendidas, e estabelecida a
cumplicidade. Dali por diante, pegávamos a mão uma da outra e fugíamos para cá
e para lá, em busca dos recantos relativamente seguros que descobríamos, para
despistar Solange. E isso, por si só fazia nosso coração bater mais forte e nos
aproximava mais e mais. Logo passamos a nos beijar nos lábios, para comemorar,
assim que descobríamos novo esconderijo. O perigo daquele jogo de esconde-esconde,
com a megerinha da minha irmã, e a ameaça repressora de Ana Morgado, minha mãe,
tornava aquela temporada aventurosa para duas meninas, e começamos,
conseqüentemente, a nos sentir apaixonadas. Como dormíamos no mesmo quarto, com
a Lúcia, minha outra irmã meio sonsa, mas que permanecia neutra conquanto eu
suspeitasse ser uma disfarçada agente de Solange, nossa noite só começava
quando ela estava seguramente adormecida, e levantávamos de nossas camas, pé antepé,
fugíamos do quarto e atravessando a sala do casarão adormecido, alcançávamos a
varanda e atingíamos o jardim florido, fantasmagórico, prateado sob a imensa
lua de verão, e chegávamos de mãos dadas e já aos beijos à minha antiga casa de
bonecas, que embora pequena nos oferecia uma relativa segurança, pois eu levava
meu cadernos de poesias, como um álibi, para pretextar confidências poéticas de
moças, ou uma ajuda na versão dos meus versos para o alemão, caso fôssemos
surpreendidas. Para todos os efeitos eu estaria lendo meus novos poemas para
Helga, já que tivéramos insônia.
Ali, caíamos nos braços uma da
outra, em beijos apaixonados, ofegantes, com o coração aos pulos, como eu
ficava também com o Rôdo, em análogas situações. Helga era ardente, como eu, e
nossas afinidades me deixavam em êxtase, eu não me sentia mais só, jurando amor
eterno uma à outra. Logo estávamos deitadas num colchonete que eu camuflava na
casinha de bonecas e que estendíamos no chão para passarmos a noite abraçadas e
aos beijos, até o alvorecer, quando os cantos dos pássaros, junto com os
primeiros albores, nos recordavam a cotovia e o rouxinol de uma Julieta
duplicada, que éramos nós, que contínhamos um Romeu, também, em nossas almas
apaixonadas.
Nossas noites foram ficando mais
e mais ardentes e excitantes, e logo estávamos instintivamente nos descobrindo
em nossas reentrâncias mais recônditas, apalpando-nos, ofegantes, com o coração
acelerado de medo e paixão. Ficávamos com nossas lindas e rosadas vulvas
encharcadas por dentro como já constatávamos e provávamos. Já procurávamos
instintivamente a maravilhosa e feliz posição de sessenta e nove, nuínhas,
suadas e febris, nas noites do verão de nossa ardente juventude, encontrada em
amor e desejo na minha casa de bonecas, no meu jardim, com aquela linda
alemãzinha, hóspede do meu coração, para sempre, eu pensava, e do meu Pampa,
que eu queria estar apresentando a ela em sua essência e plenitude, mas que só
podia oferece-lo em meu corpo de donzela germânica, como o dela mesma.
Então, como sempre acontece nas
verdadeiras estórias de amor, o destino interferiu, para apartar os amantes.
Fomos flagradas: Solange que seguiu-nos uma noite, ela também de camisola e
saída do seu leito como um cão farejador do nosso rastro de amor, abriu
violentamente a porta de minha casa de bonecas, e pegou-nos nuas, e com as mãos
em nossos sexos molhados, cujo perfume dominava o pequeno ambiente do nosso
“ninho de amor”. Com olhar furibundo, a pequena megera, gordinha, e invejosa,
gritou: “Vocês, hem, sem vergonhas? Vocês vão ver, quando mamãe souber. Vai
expulsar a Helga e botar a ti no internato, tu vais ver, depois de uma surra de
vara de marmelo! ”
Meu coração parou, mais do que de
medo, de vergonha e humilhação diante da minha pequena amante, que não entendeu
as palavras ditas em português mas captou-lhes o perigo, na entonação
detestável e tirânica de Solange. E então, comecei a implorar, por Helga, por
nós, de joelhos diante da opressora.. Segurando sua mão gordinha, eu ali , nua
a seus pés me humilhava na tentativa de poupar maior vexame ao meu amor, e sua
perda irreparável, eu pequena melodramática, como uma princesa de insólita
opereta, estava prestes a abraçar as gordas pernas da megerinha.
Então o improvável aconteceu.
Helga, a alemãzinha, ergueu-se nua, como uma ninfa ou náiade do luar, branca e
loura como uma aparição de beleza, e estendeu o lindo braço, suavemente, para
Solange e tomou-lhe a mão nas suas, olhando-a mesmericamente nos olhos, e
sussurrando em alemão:”Komm, komm, meine Geliebte, und schlieβ’ Dich uns an!... Venha,
venha meu amor , junte-se a nós .
Eu, atônita, pega de surpresa por aquele gesto inesperado, que no entanto, pela sua suavidade, não soava como um saída desesperada, de minha amiga, paralisada vi minha namorada, meu amor, abraçar Solange desarmada, que começou a tremer enquanto a ninfa loura a despia de sua camisola deixando-a cair a seus pés, e eu que olhava com ternura verdadeira, percebi, as formas redondas de minha irmãzinha mais velha, não destituídas de encanto, na verdade, como as de uma camponesa germânica de outrora, com o seu tufo ralo de pelos ruivos encimando-lhe o acolchoado e alvo monte de Vênus. E então, pasmem, vi Solange, a feitorinha implacável, tremendo emocionada dos pés às faces de gordas bochechas coradas como maçã, enrubescida de emoção, ajoelhar-se junto com Helga, sobre o colchonete, no abraço envolvente, apaziguador, daquela surpreendente alemãzinha, e juntas deitarem-se, olhos nos olhos, os de Solange cheios de lágrimas de insuspeitada gratidão.
Eu, atônita, pega de surpresa por aquele gesto inesperado, que no entanto, pela sua suavidade, não soava como um saída desesperada, de minha amiga, paralisada vi minha namorada, meu amor, abraçar Solange desarmada, que começou a tremer enquanto a ninfa loura a despia de sua camisola deixando-a cair a seus pés, e eu que olhava com ternura verdadeira, percebi, as formas redondas de minha irmãzinha mais velha, não destituídas de encanto, na verdade, como as de uma camponesa germânica de outrora, com o seu tufo ralo de pelos ruivos encimando-lhe o acolchoado e alvo monte de Vênus. E então, pasmem, vi Solange, a feitorinha implacável, tremendo emocionada dos pés às faces de gordas bochechas coradas como maçã, enrubescida de emoção, ajoelhar-se junto com Helga, sobre o colchonete, no abraço envolvente, apaziguador, daquela surpreendente alemãzinha, e juntas deitarem-se, olhos nos olhos, os de Solange cheios de lágrimas de insuspeitada gratidão.
Também a minha irmã queria o
amor. Também a menina gorda, de beleza recôndita, num minuto revelada,
necessitava, como eu... amar e ser amada!
Quanto à Lúcia, a segunda, esta
era dominada por Solange e passou uma vida constrangida, praticamente apagada
em seus anseios, que desconhecíamos. Casaram-se com homens medíocres. Talvez
Alberto escape a essa classificação, uma vez que os alcoólatras, ao que parece,
têm inteligência e sensibilidades superiores, mas infelizmente acompanhadas por
um lado emocional defasado, imaturo, de criança mimada. Trata-se de um tripé
manco, que desequilibra o conjunto. Tornam-se insuportáveis quando estão
bêbados (e quase sempre estão bêbados ) e somente podemos perceber aquela
sensibilidade e inteligência nos poucos momentos de relativa sobriedade,
principalmente nos primeiros estágios da doença, antes de se transformarem em
verdadeiros monstros psicológicos, nos estágios finais. Alberto estava, ao que
parece, no começo do terceiro estágio, onde o macaco ainda se fazia ver e rir,
antes que o leão tomasse o seu lugar. O último estágio, o do porco, eu esperava
que não chegasse nunca. Não podia sequer pensar nisso. Meu cunhado, na verdade,
parecia gostar de mim, à sua maneira, sempre abaixo das garrafas, já que a
parte afetiva era constantemente minada pelo álcool, que acabaria por exterminá-la
completamente. Eu me condoía por isso, pela minha sobrinha Patrícia e seu
irmãozinho, crianças lindas que naturalmente sofriam muito com um pai assim,
fazendo-as amadurecer precocemente. Quanto a Solange, isso só exacerbaria seus
defeitos, como típica co-dependente que era.
Patrícia, desde a mais tenra
infância revelou-se uma criança iluminada, de uma pureza e candura à toda
prova. Sua doçura era a de um anjo, e agora, apaixonada pela primeira vez,
comovia-me como nunca, pequena Julieta que começava a ser perseguida em sua
paixão. Solange não permitiria jamais o namoro de sua filha com um colega,
romeuzinho de escola, sem fortuna, e com um brinquinho na orelha.
Eu estava disposta a ser uma
espécie de ama, quase uma alcoviteira, uma vez que confiava no coração de minha
sobrinha, e vira numa fotografia recente a pureza absoluta nos olhos de seu
Romeu, belo adolescente que segundo ela, a adorava, o que era fácil de
acreditar. Sempre estive convencida de que o amor, em qualquer idade, é o único
que importa nesta vida. Nada do que me disserem pode tirar-me essa convicção,
romântica incorrigível que sou. O que pode ser mais importante para a vida que
os afetos, que o supremo afeto? Tudo o mais é balela, conversa de gente grande,
com dizíamos em nossa infância, com certa desconfiança, pois o que meu pai
mostrava em seus livros maravilhosos eu podia sempre entender e me identificar
imediatamente: o mundo grandioso da arte e dos artistas, seus sonhos
verdadeiros. "A poesia é o autêntico real absoluto. Quanto mais poético,
mais verdadeiro”. Esta frase de Novalis daria a diretriz à minha vida.
.....................................................................................
Galdério pusera as cartas no
correio, e só nos restava, a mim e Patrícia, aguardar. É claro que a
expectativa colocava as respostas como decisivas para os nossos destinos, e a
ansiedade nos fazia andar pela casa, pelo jardim e pelo pomar,
entreolhando-nos, cúmplices, torcendo as mãos, disfarçadamente, como duas
meninas prestes a fugir da escola.
Afinal após uma semana de agonia,
recebemos nossas respostas. As cartas que Gaudério foi buscar na agência, nos
dariam novo alento.
O enólogo a quem eu escrevera
estava a caminho e o Romeu de Patrícia respondera-lhe com uma singela carta de amor,
que a deslumbrara. Seus olhos brilhavam, enquanto beijava o papel mil vezes.
Abraçava-se a mim em risos e lágrimas, e meu coração queria abarcá-la toda,
esse anjo de pureza, de amor. Como é belo o ser humano(eu pensava), quando é
belo! Imagem e semelhança de um anjo, senão do próprio Deus ( eu ainda via o
Deus cristão com uma grande barba grisalha, sósia do meu pai, esta é que era a
verdade ).
À mesa, durante os nossos
almoços, eu saboreava o vinho de Alberto com renovado prazer e sorria-lhe, o
que o deixava satisfeito, ao que parece. Ele então enchia-me várias vezes o
copo, querendo embebedar-me como sinal de afeto ou cumplicidade de bêbados.
Solange, naturalmente, vigiava-nos e parecia intrigada, desconfiada. O que
tramávamos nós, os do outro lado? Olhava Rôdo com seus olhos inquisidores, mas
meu irmão era o melhor dissimulador de nós todos. Seu cinismo era maravilhoso,
e eu podia então compreender por que ele tinha tanto sucesso com as mulheres,
como nas mesas de jogo, onde nunca perdia mais do que ganhava, exercitando o
seu talento para o blefe, como um esporte, não como um vício, ao contrário de
Geraldo.
Laís olhava para o meu irmão com
admiração visível, senão com adoração. Essa moça talvez fosse a companheira
ideal, pois o acompanharia pelos cassinos do mundo, ajudando-o a blefar, talvez
a roubar no jogo. Um adorável casal de aventureiros. Num certo sentido eu os
invejava, pois pareciam, a mim, habitantes do mundo real, incerto e aventuroso,
mas nunca comezinho, e pouco cotidiano, enquanto eu me sentia a eterna moradora
do mundo dos sonhos, do pensamento e da imaginação quase sem limites, sem
dúvida, mas impalpável: o mundo que eu conseguia apenas projetar como um
reflexo, no papel e nas telas. O mundo da Arte, miragem do real, mais nítida,
talvez, que a realidade, mas que se esvanecia ao tocar.
Levantei-me da mesa, ligeiramente
“zoró”, com as repetidas taças de vinho, a que eu me dera o direito de brindar,
interiormente, saboreando o delicioso néctar que me parecia realmente superior.
Minha esperança me dava um brilho, que malgrado a embriaguez, foi notado pelos
meus irmãos e cunhados, e que divertiu as crianças. Cambaleei um pouco ao
caminhar, e Rôdo correu a amparar-me, aproveitando para cochichar em meu ouvido
:
–Alma, vá curar o pilequinho, e depois
encontre-me a meia noite na biblioteca. Preciso falar-lhe.
Dei um a pequena gargalhada,
abraçando-me a ele, e passando a mão no seu rosto. Eu via a mim mesma nessas
atitudes, divertindo-me em fazer um gênero libertino, só para escandalizar
minha irmã e cunhado. Aline correu a substituir Rôdo, e encarregou-se de me
levar ao quarto. Sentada no leito afinal, puxei Aline sobre mim, como para
cobrir-me, com seus lábios sobre os meus. Aline deixou-me fazê-lo, mas logo
levantou-se e cobriu-me com a manta, fazendo schchchch... Adormeci.
.....................................................................................
Fui acordada à meia noite por
Aline, com um chimarrão, e pondo-me de pé, à força, disse:
–Alma, acorde, você tem um
compromisso com Rôdo. Vamos à biblioteca, eu vou com você, Rôdo permitiu.
A ligeira embriaguez sumiu, eu
estava acordada. Lavei o rosto com água fria e saí com Aline, mamando no
chimarrão. A casa estava às escuras, silenciosa, e uma vez no escritório, dei
com Rôdo, com uma carta aberta na mão.
Alma, o “expert” chega amanhã.
Vamos buscá-lo na estação. Ele aceitou vir, pelo nome do nosso pai, que ele já
conhecia. Tudo está correndo de acordo com nossa expectativa. Mas, na verdade,
chamei-a aqui por outra coisa. Encontrei nos arquivos do Vati, uma carta, em
alemão, que eu jamais imaginara existir, veja isto, vou traduzi-la para que
Aline também a entenda:
"Meu caro filho
Aí, onde estás, na terra dos
nossos antepassados, imerso em estudos, como espero, não sabes dos imensos
trabalhos a que eu e sua mãe nos dedicamos neste pedaço do Pampa que nos coube.
Plantei o vinhedo que eu devia aos meus pais, que prometi a eles, ainda lá nos
Sudetos. A terra desta pradaria aceitou a vinha, surpreendentemente, esta é que
é a verdade, pois os vizinhos riam de mim, por esse sonho, e abanavam a cabeça.
Mandei tecer com palha grandes paraventos para ludibriar o minuano, em torno do
parreiral. A vinha cresce, dela virá o nosso vinho, para o qual ainda não tenho
nome. Não tenho sequer as uvas, na verdade. Mas tudo leva a crer que
conseguiremos, com trabalho e inteligência. Já pus-me a construir o lagar, os
tonéis de madeira, e a adega, pondo o carro na frente dos bois, com se diz
aqui, tal a minha confiança.
Quero pois, que uma vez formado,
voltes logo, preciso de ti aqui.
A terra precisa de todos.
Aproveite pois, para estudar a química dos vinhos, como estudas a química do
sangue. Lembra-te que o vinho é o sangue da terra, como disse Odisseu ao
gigante Polifemo, naquele livro que me leste. Como vês, teu pai, ignorante
lavrador, apreendeu um pouco das tuas metáforas de poeta, não é?
Venha pois, filho, assim que
puderes, que a vinha precisa de ti.
Teu pai
Joachim Friedrich
Emocionei-me com a carta, que
senti extremamente auspiciosa. Tive imediatamente a idéia de transcrevê-la, no
original alemão, no rótulo traseiro e nas caixas do nosso vinho, os quais eu
mentalmente já projetava com um desenho circular que simbolizaria o “eterno
retorno” nietzcheniano, em que a alma, ou melhor dizendo, a Anima se inscreveria,
de costas como ela costuma aparecer, com o cabelo cor de vinho, e carregada de
figuras, que nos cabelos se transformam em folhas de parreira. Suas formas
seriam as do meu torso, das minhas espáduas, da minha nuca e do meu cabelo, eu
decidi. Eis o desenho que afinal eu realizaria:
(Aqui entra como ilustração o
desenho circular do rótulo)
Abracei Rôdo, e Aline juntou-se a
nós nesse abraço. Nossa esperança nos enchia de euforia, e como crianças,
beijamo-nos nos lábios, tendo Rôdo beijado Aline também, o que me causou um
estranho sentimento. De ciúme? Não, de completude.
Laís entrou na biblioteca nesse
momento, atrasada. Não teve tempo de participar dos abraços e beijos. Resolvi
então, que provaria os lábios daquela bela mulher, já que Rôdo o fizera com Aline.
Não como vingança, mas para que o congraçamento, a união se fizesse completa.
Foi o que fiz, para surpresa dos três. Aproximei-me de Laís e beijei-a nos
lábios, docemente. Ela ficou imóvel, pestanejando, surpresa. Retirei-me com
Aline, que enfiava a unha na minha cintura.
.....................................................................................
No quarto, Aline atirou-se sobre
mim e praticamente me devorou de beijos, mordidas e lambidas, numa sofreguidão
quase furiosa. Apertava meus seios até doerem. Desceu lá em baixo para agarrar
meu clitóris com os dentes, e por um momento temi que ela o decepasse.
Introduzia seus dedos nos meus orifícios, abrindo-os, que chegaram a doer. Eu
gemia, e não tardei a soluçar. Caí num choro copioso, que afinal me dava grande
alívio. Eu precisava disso:
–“Aline, Aline, meu amor,
bata-me, bata-me no rosto, bata-me na bunda. Sou tua guria travessa. Preciso
ser castigada. Ponha-me de castigo. Pegue a vara de marmelo da minha mãe.
Açoite-me. Quero sangrar. Estou sangrando de amor, de esperança, e de sede de
viver. Quero morrer de tanto apanhar, de tanto gozar de amor, contigo. Quero
que bebas aquele vinho na taça dos meus lábios. Também nos de baixo. Quero
tudo, quero tudo, meu amor!”
Aquela noite rolaríamos na cama,
nuas, como duas loucas bacantes, numa celebração condigna, do vinho e do
sangue. Dioniso presidiria também os nossos sonhos, cheios de imagens
auspiciosas, alegres e confusas, enquanto provavelmente sorríamos no nosso
sono, abraçadas, saciadas.
.....................................................................................
Afinal chegou o dia de recebermos
o “expert”, o enólogo, chamado Hermann, que tanto esperávamos. Eu estava tensa
aquela manhã quando fui buscá-lo na estação, com Galdério, na charrete.
Era um cavalheiro de meia idade, de cabelos grisalhos, elegante, num terno muito bem cortado e com uma pasta de couro, belíssima, na mão. Subiu na charrete ao meu lado, um pouco apertado, claro. Como um lord inglês, depois de me ter saudado com certa cerimônia, mas com um sorriso agradável.
Era um cavalheiro de meia idade, de cabelos grisalhos, elegante, num terno muito bem cortado e com uma pasta de couro, belíssima, na mão. Subiu na charrete ao meu lado, um pouco apertado, claro. Como um lord inglês, depois de me ter saudado com certa cerimônia, mas com um sorriso agradável.
Fui descrevendo, melhor,
interpretando alguns acidentes da nossa paisagem, de uma maneira inspirada, que
o fez soltar pequenas gargalhadas. Esse homem era simpático, como o são em
geral os bons conhecedores de vinho, mas eu senti que estava querendo
conquistar a sua simpatia, como se isso fosse influenciar o seu julgamento,
favorável, ao nosso vinho. Uma espécie sutil de suborno, inútil. Os enólogos
costumam ser os mais incorruptíveis profissionais que existem.
Chegando ao casarão, fomos quase
que diretamente para a mesa de almoço. Não serviríamos, claro, nenhum vinho,
mas sim a água puríssima da nossa fonte. Seu paladar deveria estar limpo para a
apreciação solene, de tarde, do vinho da nossa esperança. O vinho supremo dos
meus avós.
O almoço transcorreu alegre,
apesar da curiosidade e estranheza manifestada por Solange e meus cunhados, que
nada sabiam do motivo desta visita. Hermann submeteu-se à algumas perguntas de
Solange, Geraldo e Alberto, que lhe causaram surpresa. Pensava que todos ali
sabiam de sua missão. Disfarçamos bem, Rôdo e eu, como se ele fosse apenas um
amigo nosso, mas Solange, naturalmente, permanecia desconfiada:
–Com que então o senhor conheceu
Rôdo na França, hem? Como nunca ouvimos falar disso, Rôdo? Bem, nada sabemos da
tua vida, não é, meu irmão? És tão misterioso. Não sabemos por onde andas a
maior parte do tempo. Mas é simpático o teu amigo. Percebe-se que é muito
viajado. O senhor reside onde, seu Hermann?
Nosso hospede mostrou-se um tanto
constrangido com a atitude de Solange, e olhava para mim e Rôdo, como pedindo
orientação para lidar com aquela Harpia.
Enrolamos Solange o quanto
pudemos. Queríamos fazer uma surpresa a todos. E Hermann colaborou conosco,
ocultando instintivamente a sua especialidade.
Recolhemo-nos após o almoço, aos
nossos quartos para uma sesta, e o nosso hóspede teve as honras da melhor suíte
da casa. Quanto a mim, saí com Aline e fomos andar abraçadas no jardim florido.
Pusemo-nos logo a fazer o nosso
balé sutil, eurítimico, colocando flores nos cabelos uma da outra, assim que
percebemos que o nosso hóspede nos observava da janela do seu quarto.
Esmerávamo-nos nos gestos, nos toques de mão, nos movimentos de braços, lentos.
Um semi-sorriso de Giocondas nos lábios, para dar mais leveza ainda à nossa
dança... e mistério. Sentimos, dali, a uma certa distancia, o nosso hóspede
fascinado, até que este cerrou a cortina, sonolento. Abraçamo-nos numa
gargalhada cristalina, meio abafada, travessas, sedutoras.
Às quatro horas da tarde,
estávamos no salão para a prova do vinho, Solange, Lúcia, Alberto e Geraldo,
todos. E até as crianças, curiosas. Os adultos, atarantados, sem saber o que
esperar.
O enólogo entrou na sala, com sua
maleta. Abriu-a meticulosamente e retirou uma taça e um lenço imaculado, de
dentro de um estojo. Limpou a taça por fora, com o lenço, olhando-a à
contra-luz, e pousou-a na mesa. Retirou uma outra taça, diferente da primeira,
e repetiu o gesto. Em seguida tirou da pasta uma garrafa de água mineral Perrier,
abriu-a, e enchendo a segunda taça levou-a boca, sorveu na medida certa, e
bochechou. Ia cuspir, mas resolveu engolir. Repetiu a operação. Nós
acompanhávamos, divertidos, senão fascinados. Hermann estendeu então a mão para
mim e apanhou a garrafa sem rótulo que lhe estendi, bastante limpa de sua
poeira, quase polida por mim.
Olhou a garrafa à contra luz por
dois segundos, e a seguir tirou da maleta, de um estojo, um abridor fantástico
em forma de gárgula, antigo. Esse homem queria, certamente, nos impressionar.
Retirou a rolha com enorme perícia, sem perder um único fragmento, eu percebi.
Ergueu a taça, olhou para nós todos, rapidamente, e concentrou-se no exame
visual do vinho que brilhava na taça erguida à altura dos olhos. Julguei
avistar uma centelha, cor de sangue, no maravilhoso brilho transparente daquele
vinho. Em seguida ele desceu a taça até próxima de suas narinas e aspirou o
buquê, com um pequeno gesto circular sob o nariz. Ele segurava a taça somente
pela sua base. A seguir levou-a aos lábios, sempre com um olhar absorto, para
dentro, de grande concentração. Encheu moderadamente a boca, e bochechou
discretamente, ou melhor, fê-lo circular em sua boca, e a seguir engoliu,
olhando um pouco para cima e.. nada disse. Nem sequer sorriu. Nossa tensão
atingiu o auge. Já não agüentávamos mais. Quase explodíamos. Creio que soltei
um gemido.
Ele, sem olhar-nos, disse: “Safra
de 1962, com toda certeza. Um Cabernet, mas com inclusão... de uma cepa alemã,
do Reno. Suave, mas encorpado. Um buquê seco, raro, mas de timbre germânico,
não francês. A cor, de rubi, transparente mas outonal, ouro e sangue, peculiar.
Retro gosto longo. Recuo de memória no contra-pé da papila. Persistência
nostálgica, quase perturbadora, mas de assimilação breve. Falsa ameaça de travo,
produzindo alívio prévio, de charme nórdico, não mediterrâneo. Sabor...
estupendo. O melhor vinho antigo que provei nos últimos 10 anos, dependendo da
confirmação de uma segunda garrafa, pelo menos. Onde o conseguiram?”
Explodimos, Rôdo, Laís, Aline e
eu. As crianças também, começaram a pular, percebendo que se tratava de uma
vitória importantíssima.
Enquanto Hermann, repetia a
operação, agora com uma nova garrafa, nós nos abraçávamos comemorando, aos
beijos e risos, numa alegria que jamais esqueceríamos.
Abracei Hermann, surpreso,
beijei-o na face e perguntei- lhe:
–Diga-nos, diga quanto vale um
vinho desse. Quanto custaria uma garrafa destas num restaurante de luxo, aqui
... e no estrangeiro?
Ele hesitou um momento e, quase
pedantemente respondeu:
– Aqui, R$ 1.850,75 o litro.
Talvez um pouco mais, se souberem anunciá-lo com discrição, somente nos meios,
e tiver um rótulo condigno.
Explodimos novamente. Fazíamos
rapidamente as contas multiplicando essa cifra pelas dez mil garrafas da nossa
safra. Estávamos salvos. A estância estava salva. Solange, que me encarou,
espantadíssima, perguntou:
–Que significa tudo isso, posso
saber? O que é que vocês tramaram? O que está acontecendo aqui?
–Solange, Lúcia, minhas irmãs, e
vocês meus cunhados, ouçam. Não precisaremos vender a nossa estância, temos um
vinho deixado por nossos avós, que descobrimos numa imensa adega sob esta casa.
Dez mil garrafas do melhor vinho do mundo, perdoem-nos os franceses. A herança
verdadeira dos nossos avós. Na verdade Alberto é que a descobriu primeiro, não
é, meu cunhado?–(passei a mão carinhosamente pelo seu rosto rubicundo,
sorridente.)–Vamos tratar de negociar nosso tesouro. Vamos distribuí-lo pelos
melhores restaurantes de Novo Hamburgo a Porto Alegre, de Gramado e Canela, a
Florianópolis e Curitiba, de São Paulo ao Rio de Janeiro, Salvador, Recife, e
depois pelo exterior. Sinto que o mundo precisa conhecer este vinho para o qual
colaboraram os deuses do Olimpo, com os do Walhalla... e com os numes do Rio
Grande. Ele se Chamará “Ara dos Pampas”, e eu desenharei o rótulo, que já
concebi. No verso da garrafa reproduzirei a carta do meu avô. A prosperidade
voltará a este lar, eu prometo a todos vocês.
Solange e Geraldo deixaram cair
os braços, incrédulos ou desapontados. Lúcia sorria para mim, e pela primeira
vez, julguei avistar um brilho no seu olhar. Meu coração estava pleno, e beijei
Aline nos lábios, na frente de todos.
Fim do segundo capítulo
Capítulo Terceiro
O julgamento de Solange
Quando o velho Joachim Welt
plantou o seu vinhedo, os vizinhos, outros estancieiros, vinham zombar. Ele era
motivo de risos, de galhofas. A eles aquilo parecia até mesmo uma plantação
pouco viril, numa terra de gado, de charque, que bebia o sangue da manada,
nutria-se desse sangue, e não do delicado sangue das uvas. O mate, ‘amargo”,
complementava essa virilidade, e tudo o que era essencial se denominava no
masculino. Quanto às uvas e a vinha, a palavra vinhedo era a tentativa de
masculinizar aquela atividade. O preconceito era grande por aqui, e o machismo
era uma característica cantada em prosa e verso, como um timbre glorioso das
qualidades gaúchas. Em compensação suas mulheres eram o apanágio da
feminilidade, e aquela fabulosa Anita não foi facilmente compreendida em sua
época, mas sim bastante detratada, essa é que é a verdade. Mas a História,
felizmente lhe fez justiça. Como agora já se faz àquela mais fabulosa ainda,
Cleópatra, da Antigüidade, de quem já se descobriram até mesmo as virtudes
intelectuais e mesmo científicas. A mais inteligente e sábia mulher de sua
época, única talvez em muitos séculos, com tal grandeza. Nós mulheres sofremos
de uma contradição interna, herdeiras que somos de uma grave parcela do
machismo dos homens, que introjetamos e reproduzimos. Haja visto como as mães
deste nosso país criam seus filhos para perpetuar os papéis estagnados e
estereotipados do macho da guerra e da fêmea reprodutora e dona de casa. Isto é
tão mais contraditório quanto mais queremos, agora, nossas filhas competentes,
concorrendo num mercado “unisex” de trabalho. Como poderão as mulheres
corresponder ao duplo papel que agora lhes cabe, se esses papéis permanecem
dissociados em sua essência? Como fundi-los harmoniosamente? Como conciliar,
como querem os discípulos de Jung, Anima e Animus, na mesma alma? Digo
discípulos, porque, ao que parece, o doutor Jung achava que só o homem tinha
Anima, no seu inconsciente profundo, enquanto a mulher tinha uma multidão de
animus. Uma legião, como ele dizia. Estranha contradição, já que Freud, como os
antigos gregos, acreditava que a mulher, em si, já era a Anima, viva, em carne
e sangue. A teoria, afinal, é dinâmica, e eu, Alma Welt, me reconheço como
mulher total, enquanto mulher-artista. Sou uma Anima-possuída, orgulhosa de
minha feminilidade universal, que me faz amar Aline, tanto quanto amo Rôdo, o
Vati e os outros homens e mulheres que passaram pela minha vida. Sei, no
entanto, que preciso de Animus, em mim, dentro de mim, preciso levantar o
Animus guerreiro, ou sucumbirei, me entregarei à minha vertigem de entrega
amorosa, à minha necessidade de dar-me, até mesmo ser possuída às raias do
aniquilamento prazeroso. Essa tendência em mim, já vitimou-me, mais de uma vez:
fui invadida, ferida, humilhada. E o grande perigo que corro é sempre a minha
própria anuência, minha cumplicidade inconsciente com esses crimes, que me faz
apenas chorar e chorar, voluptuosamente.
_______________________________________________
Tento viver a felicidade de estar
aqui com Aline, Rôdo, Patrícia, Pedrinho, Matilde e Galdério, meu pequeno
universo afetivo, em meio às preocupações que me assaltam, com as pressões
renovadas dos credores. Já recomeçam as cobranças judiciais, as visitas dos
oficiais de justiça, as intimações. Rodo se exalta, quer expulsá-los. Às vezes
o faz, efetivamente, com uma fúria que pode incorrer em retaliações da parte de
homens mais perigosos que o meu irmãozinho. Preciso ter uma nova inspiração.
Ponho-me a orar. A Deus. Mas penso em voltar a conjurar os numes, e os deuses
menores, que parecem um pouco mais cúmplices das paixões humanas do que o
grande Pai, que paira mais alto, mais distante..
A preocupação maior que ainda me
perseguia era Solange vir buscar as crianças, o que podia acontecer a qualquer
momento.Eu temia o confronto que eu sabia seria penoso, talvez violento. Ah!
Como eu estava certa! Chegou afinal esse dia... e foi o Dia da Ira, embora nada
divina.
Tive um sonho com esse confronto,
fruto talvez das minhas preocupações. E isso me fez, felizmente, acordar em pé
de guerra. Pedi a Rôdo que abrisse a sala esquecida, há tanto tempo trancada,
do arsenal de nossa estância. Cheia de estantes de espingardas, carabinas de
grosso calibre, poucas de caça. Rôdo distribuiu as armas pelos peões da
estância, pondo-os de sobreaviso, instruindo-os com um plano de defesa.
Como eu previa, chegou o dia.
Carros sinistros se aproximaram da estância e adentraram a porteira, sem resistência,
estacionando frente a casa e descarregando uma dezena de homens armados.
Solange desceu do primeiro carro, e arrogante, com as mãos na cintura, com seu
tailleur e botas de salto alto, sempre um tanto gorda, o cabelo em coque,
gritou para mim que me encontrava na varanda em frente à grande porta do nosso
solar. Trocamos insultos:
—Alma, sua ladra, entregue-me
meus filhos, sua seqüestradora! Entregue-os já, sua criminosa!
—Criminosa és tu, assassina,
ladra, destruidora da herança sagrada de nossos avós. Tu e teu cúmplice não são
dignos destas crianças. Não as levarás, senão por cima do meu cadáver!
Matilde mantinha Patrícia e
Pedrinho abraçados a ela no meu quarto. As crianças tremiam, depois eu soube,
pondo as mãos nos ouvidos, temendo as explosões que anteviam. Patrícia chorava,
e Pedrinho estava pálido e paralisado. Nossos peões nos cercavam empunhando as
carabinas apontadas para Solange e seus homens, que por sua vez apontavam-nos
as suas. Rôdo ao meu lado empunhava seu clavinote que mais parecia um canhão.
Eu já via a “viola em cacos”, por assim dizer. Bastaria uma faísca para tudo
explodir e eu temia por todos, por mim, por Aline, por Rôdo, por meus homens, e
até por Solange. Estávamos num impasse perigosíssimo. Quando as armas se
apontam mutuamente, a razão está por um fio, que quer romper-se, pelo chamado
ancestral da força. Do primitivo em nós.
Então... Deus interveio. Entraram
pela nossa porteira, cinco viaturas cheias de policiais armados, com o delegado
à frente, acompanhado do doutor Loredano.
Matilde, depois eu soube,
temerosa por todos nós, telefonara para o nosso advogado buscando sua
intercessão junto à polícia, mesmo prevendo o que ocorreria afinal, quanto ao
destino das crianças.
O delegado fez-nos depor as
armas, tomou-as mesmo, de todos, no último momento, pois se demorasse um minuto
a mais para chegar, tudo estaria perdido e estaríamos todos mortos. Mas o que
eu mais temia, aconteceu:
—Delegado,—gritou Solange—Alma
seqüestrou meus filhos. Exijo que os entregue e prenda-a e aos seus cúmplices.
Isto é crime hediondo. Prenda a criminosa!
O delegado perturbou-se, mas o
doutor Loredano cochichou-lhe ao ouvido, e ele ordenou:
—Senhorita Alma, entregue as
crianças à sua mãe. Vamos, onde estão elas?
Eu quis morrer. Levei a mão à
boca para não gritar de dor. Mas respondi, impotente:
—Delegado, a criminosa é ela, que
roubou-nos dez mil garrafas da herança dos nossos avós, e fugiu com o seu
cunhado, seu cúmplice. Onde está ele, aquele covarde, agora não está aqui, não
é? Para não comprometê-la com a sua presença? Estou preservando seus filhos
dessa aliança espúria, criminosa, dessa quadrilha. Delegado, não os leve, eu
lhe imploro!
E caí de joelhos com a mão no
rosto, soluçando.
O delegado hesitou um momento,
mas passou por mim com o doutor Loredano que me pôs a mão no ombro,
significativamente, como querendo dizer: “Calma, Alma, tem de ser assim...
Aguarde...”
As crianças foram trazidas pelas
mãos de Matilde e do delegado. Então, subitamente, desprenderam-se e
agarraram-se a mim, desesperadamente. E eu a elas. As crianças e eu chorávamos
e gritávamos enquanto o delegado e dois policiais tentavam nos separar. Nós
lutávamos para nos manter agarrados e... foi uma cena dramática, ai de nós,
vocês podem imaginar. Tive que ter os braços segurados por trás, para ser
detida, eu gritava como uma louca, e pensei que a dor me mataria. Eu sentia
como que se me arrancassem as crianças do meu útero, como se me amputassem. Não
sei como posso ser assim, eu me desconhecia, toda a minha filosofia se
esvaziara e... eu sangrava como uma mãe recém parida a quem roubassem seus
filhos. Quando lembro disso, ainda me perturbo, e custo a acreditar que eu pude
ser capaz de tudo aquilo. De quase matar, talvez, e de morrer pelos filhos que
não tive e que por algum mistério, eram meus, eram meus!
As crianças foram entregues a
Solange que as pôs no carro, atrás, com um capanga no meio delas, segurando-as.
Elas choravam e gritavam meu nome: Tia Alma, tia Alma!
E eles partiram, todos, os homens
agora desarmados, e eu fiquei ali, jogada no chão, com o meu rosto no solo da
varanda, soluçando, arrasada. “Patrícia... Pedrinho...”
Matilde ajoelhada ao meu lado me
afagava as costas e a cabeça, maternalmente, e chorava também. Rôdo de pé ao
meu lado, tinha os olhos cheios de lágrimas. Aline segurava-me a outra mão e
soluçava. O sol se punha no horizonte, e com ele a minha alma.
________________________________________________
Fiquei muitos dias em depressão
profunda, enquanto Aline cuidava de mim, condoída, minha pobre Aline, tão jovem
e inexperiente, arrastada no turbilhão em que se transformara a minha vida, mas
do qual ela não se queixava. Sua dedicação, o seu amor, estavam sendo testados
e se revelavam sublimes. Eu tinha que me levantar, ser digna dela, e poupá-la
desses sofrimentos por minha causa.
Rôdo continuava a vender as peças
do tesouro, mas eu não me interessava mais, como se a minha missão já tivesse
sido cumprida quanto a isso. Eu só pensava num jeito de tirar os meus sobrinhos
de sua mãe e ficar com eles para sempre, embora soubesse que isso era
praticamente impossível. A menos que eu ganhasse o processo que movia contra a
ela por roubo de herança e... tentativa de assassinato. Para esta última
acusação eu precisava do testemunho de Alberto, meu cunhado bêbado, mas com o
qual eu contava, pois eu conseguira sua lealdade, afinal. Nós nos
encontraríamos todos no tribunal. O doutor Loredano começou a me instruir
quanto aos detalhes do processo, e o que eu devia ou não dizer no tribunal. Ele
se preocupava com o fato inegável do seqüestro que eu praticara, embora
houvesse razões atenuantes para a minha ação. Mas ele sabia que Solange
contra-atacaria e envolveria Aline e Rôdo no seu contra-ataque. Além disso eu
sabia, conhecendo-a, que ela nos caluniaria, levantando e expondo de maneira
escandalosa a natureza da minha relação com Aline... e até mesmo com Rôdo. Ia
ser o escândalo do século na esfera privada, no Rio Grande do Sul.
—————————————————————
Os dias se passaram, as semanas e
alguns meses. Eu perdera minha felicidade. O destino me punia, assim eu via.
Deus me punia, pela minha busca teimosa da felicidade, pelo meu apego às
pessoas, ao amor das pessoas, e talvez, das coisas. Aline estava desolada,
tentava, com parcos recursos, (somente os da sua ternura imensa), levantar-me,
fazer o meu amor voltar para ela, como era antes: cheio de alegria e exaltação
prazerosa. Uma chuva fina caía sobre a minha alma e eu sonhava com uma pátria
escura, cheia de uma nostalgia mais dolorosa que a saudade.
Mas Aline, não pensava em me
deixar. Mesmo nessa travessia soturna, pelo lento rio escuro, subterrâneo, da
minha alma, ela me acompanharia, amada Psiqué, na glória de sua candura, de sua
pureza d’alma inatingível. Ela só temia a minha complexidade, que a desolava,
que ela não podia compreender totalmente. Mas ela esperava.
Uma manhã levantei-me, novamente
mais leve. Eu tinha subido. Eu mesma não sei como, nem quando, durante o sono,
na alta madrugada. Minha alma atingira o fundo? Batera o pé, subira, no mesmo
impulso de sua descida? Tudo são ciclos. Louvado seja o Deus de nossas almas!
Não desamparadas, não sozinhas, afinal.
Estava pronta para o tribunal.
Para o confronto legal e moral. Para abrir meu coração em público, mais do que
o faço aqui, meus leitores sem rosto. Eu escancararia o coração e a alma. O
juíz se comoveria, os jurados se comoveriam. As crianças me seriam devolvidas.
Eu cria nisso.
Alegrete estava em polvorosa. Os
protagonistas de um drama que beirava a tragédia, jogariam com as armas de suas
verdades. Eu, pelo menos. Solange mais provavelmente com as das suas mentiras.
E assim foi.
Ao soar do martelo de madeira
abriu-se a sessão. A sala estava lotada. Meu advogado, que tanto me instruíra,
parecia preocupado, conhecendo a minha impulsividade passional, e tentava me
orientar até o último minuto. Eu, olhando para trás, via Matilde e Galdério,
Lúcia, Rôdo e Alberto olhando-me atentamente. Eles temiam por mim. Que eu me
descontrolasse, como viram um dia. Eles seriam chamados como testemunhas.
Alberto estava quase sóbrio, se pode-se dizer assim. Daria conta do recado? Eu
tinha que confiar, seu testemunho era essencial. Mas eu não era a ré, e sim
Solange, acusada primeiro por mim, de roubo de herança, formação de quadrilha e
tentativa de assassinato. A expectativa se estampava nos rostos de toda a
platéia, e os jornalistas empunhavam seus blocos, as máquinas fotográficas
tinham sido proibidas. Em compensação havia um desenhista que nos observava os
rostos e a postura. Fui desenhada de uma maneira intrusa, e me lembrei do
Guilherme de Faria, meu único retratista autorizado. Ele me faria justiça. Ah!
Vaidade, como persistes!
Depois da advertência do juiz, de
que não toleraria manifestações, Solange foi chamada ao banco dos réus. Gorda,
amarga, com seu rosto duro de kapo nazista, Deus me perdoe!
O promotor a acusou formalmente,
e começou a interrogá-la.
— O nome da senhora, por
obséquio.
— Solange Welt-Mothersohnn— disse ela.
—E és irmã de tua acusadora, Alma
Welt, aqui presente? Sim ou não?
— Sim, ela é minha irmã, para
vergonha de nossa família.
— Protesto, meritíssimo—
interrompeu o promotor.
— Protesto aceito. A ré limite-se
a responder as perguntas do promotor.
— A senhora sabe que é acusada de
tentativa de assassinato de sua irmã Alma, e de furto qualificado de dez mil
garrafas de vinho, que correspondem a parte do espólio de seu pai, a ser
dividido por quatro herdeiros diretos, a senhora mesma e seus três irmãos, bem
como dois cônjuges co-herdeiros: seu marido e um cunhado?
— Não, não reconheço
isso!—respondeu Solange— Alma e Rudolf me esconderam esse item do espólio e
planejaram vendê-lo sem meu consentimento e o do meu marido, para recomprar a
estância toda dos nossos credores que já praticamente a possuíam, despojando-me
assim da minha parte da herança. Eu apenas me defendi, ou ficaria sem nada. E
tenho filhos para criar, ao contrário deles, à exceção de Lúcia.
— Mas não é verdade que tentou
assassinar sua irmã, encerrando-a, naquela adega escura, o que quase a matou,
naquela manhã do dia 14 de Fevereiro de 199... A senhora está consciente da
crueldade inominável do seu ato?
—Não, não reconheço isso. É
calúnia. Não há provas de tal ação. Eu não faria isso, e a prova é a presença
dela aqui. Eu não a matei, estão vendo?
— Meritíssimo, permita-me
dispensar a ré, por ora, e chamar uma testemunha, o sr. Alberto Mothersohnn,
marido da acusada?
O juíz franziu o cenho e disse:
— Não, senhor promotor. O senhor
não sabe que um marido não pode testemunhar contra sua mulher, nem mesmo a
favor? Que absurdo! Prossiga sem esse testemunho.
Ouviu-se um oh! desolado, vindo
da platéia, e também da minha boca. Cobri o rosto com as mãos. O desenhista
esboçou rapidamente esse meu gesto, que apareceria na primeira página do Diário
de Alegrete, e até nos jornais de Porto Alegre, como se fosse eu a ré, envergonhada
e trágica.
A partir daí o julgamento começou
a inverter-se e comecei a ser acusada indiretamente. Fez-se alusão ao meu
seqüestro das crianças, a que Solange deu furiosa ênfase, claro, prenunciando
sua desforra.
Eu via já tudo perdido. Temia ser
cobrada pelo tesouro descoberto, mas Solange ainda não sabia dele, somente
estranhando que já não tivéssemos perdido a estância. Percebi, bem antes de
terminar o julgamento, que Solange seria absolvida, como mãe que defendia os
direitos de seus filhos, e o seu direito de mãe, de sua posse. Eu seria vista
como a vilã da história. Temia mais o que afinal deu-se, num certo momento: ela
acusou-me de “lesbianismo”, “ociosidade”, incesto e seqüestro de seus filhos.
Foi um escândalo. A platéia se agitava, houve empurrões, gritos, assovios,
pateada. Formaram-se dois partidos que se digladiavam, e aquilo se estendeu
para a rua congestionada por uma multidão acalorada. O juiz pediu recesso, saiu
e voltou imediatamente, absolvendo a ré, e dando por encerrado o julgamento. Fomos
assediadas pelos jornalistas, Solange e eu, e saímos aos empurrões, no meio da
multidão. Mulheres tentavam tocar-me, algumas talvez por curiosidade ou
ternura, outras com ódio. Uma mulher puxou o meu decote, que rasgou, e meu seio
pulou para fora. A multidão gritava. Quase desmaiei e fui colocada num carro
que partiu forçando a passagem entre os populares que batiam nos vidros. E eu
ainda pude ouvir Solange gritando com um punho no ar e a outra mão
apontando-me:
— Espere por mim, sua ladra,
seqüestradora! Você verá! Agora é a sua vez!
________________________________________________
Fim do terceiro capítulo
Capítulo quarto
A prisão
Quando crianças, Rôdo e eu,
tínhamos o nosso pacto de fruição sagrada do nosso território, que era tudo o
que a vista podia abarcar, que o nosso olhar não repudiava, por instinto de
curiosidade e de beleza. Nesse aspecto essencial éramos iguais, e isso
legitimava o nosso amor, muito mais que fraternal.
Mas nossa irmã Solange, era um
desses elementos que nossa vista e instinto repudiavam. Ela não era bela, nem
por fora, nem por dentro. Gorda, sardenta e implicante. Uma desmancha-prazeres
sistemática, cuja atuação detestável aprendemos logo a neutralizar, com um
intuitivo cinismo que surgiu em nós, e que Rôdo elevaria à categoria de arte.
Isso serviu, afinal, para ao menos desenvolver uma espécie de humor, que me
serviria para o resto da vida, e que me defenderia do meu próprio dramatismo,
também instintivo.
Assim, nos momentos exasperantes,
ou dolorosos demais, que escapassem a esse termômetro do humor, eu nunca reagi
de maneira meridional. Nunca como, por exemplo, reagem os italianos ou
espanhóis, com fúria e cólera. Mas, eu ficava meio tonta, simplesmente, como
embriagada por uma dor súbita... e desmaiava, o que causava imensa preocupação
em minha mãe e em Matilde.
Solange, maldosamente, buscava
encontrar esse diapasão, que me faria desligar, atingida como por um raio. Isso
não era fácil, pois só o que atingia o âmago da minha sensibilidade era capaz
disso. E ela nunca encontrara a chave, que consistia em tocar o cerne do meu
senso de beleza... e de pureza. É como se eu desmaiasse de vergonha... por
outro ser humano. Como se esse ser humano blasfemasse contra um deus ou uma
deusa da qual eu era uma pequena vestal. E isso, justamente, se referia ao meu
senso de beleza que norteava tudo em minha vida.
Pode parecer exagerado, mas eu
era assim. E, o mais marcante dessa atitude interior, era que o parâmetro de
beleza, para mim, nascia de mim mesma, do meu próprio corpo, de uma beleza que
tocava e comovia as pessoas. Branca como uma pequena estátua de alabastro ou
mesmo mármore de Carrara, os olhos verdes sonhadores e meus lábios e cabelos
rubros e dourados ao mesmo tempo, eu era vista como uma criança sagrada, por
todos... menos pela minha irmã.
Quanto à minha mãe, esta tinha
uma atitude contraditória. Era como se lutasse contra a sua própria reverência,
como se curvar-se a esse aspecto dominante em sua filha fosse incorrer em
heresia de sua parte, em relação à doutrina católica que professava em seu lado
mais sombrio: o que eu viria a chamar, no futuro, de “a doutrina do vale de
lágrimas”.
Era como se minha mãe, olhando
para mim, dissesse: “De que adianta tanta beleza, minha filha, vais sofrer como
todos nós.” Ou “vais envelhecer e morrer, nada somos, tudo é vão. Rezemos
apenas, para não irmos para o Inferno.”
Ai, Muti, tu não foste inócua,
apesar de tudo, e conseguiste contaminar-me pelo menos um pouco, com a
consciência do sofrimento humano... e do meu próprio sofrimento. E isso me
tornou poeta. Será que devo, afinal, isso a ti?
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De volta à estância, com Aline,
eu procurei assimilar esta primeira derrota judicial, e preparei-me para
encontrar uma estratégia de defesa, para o contra-ataque de Solange, que eu
sabia que viria em seguida.
Aline parecia um pouco assustada
com a perspectiva de me ver como ré de um processo de seqüestro, e talvez de
roubo, pelo menos. Quanto às outras ameaças, eu não acreditava que elas
estivessem no código penal, embora incorressem num perturbador escândalo
social.
Eu procurava não me preocupar
demais, mas me reunia metodicamente com o doutor Loredano, para discutir os
aspectos do processo, e os perigos que eu corria.
Afinal chegou a citação. Fui
intimada a comparecer a uma delegacia de Novo Hamburgo, e indiciada por
seqüestro, incesto e lesbianismo. Protestei imediatamente, assistida do doutor
Loredano, e por Aline, que estava muito assustada. Eu não estava disposta a
assumir aquela palavra, pelo tom pejorativo que emprestam a ela, mas o delegado
adiantou que isso fazia parte da acusação, nominalmente, embora não coubesse
pena eventual para esses “crimes”. Isso me pareceu arbitrário e exigi que
retirassem esses dois últimos itens do laudo de indiciação, pois não eram crimes
previstos na lei. Mas o delegado recusou, revelando-se nada condoído da minha
situação. E logo percebi que era, de alguma forma, interesse dele reter-me em
sua delegacia, pois resolveu (pasmem!) encarcerar-me imediatamente até o dia
seguinte, enquanto o doutor Loredano, abalado, saiu afobadamente para
providenciar o habeas-corpus, para que eu pudesse enfrentar o processo em
liberdade. Pelo visto, Solange conseguira testemunhos do meu crime, e eu não
acreditava que isso partisse da pobre Alícia... ou, talvez, esta tivesse sido
pressionada demais, ou mesmo chantageada, já que tinha um filho pequeno.
Eu fiquei aterrorizada, ao ser
levada (enquanto Aline gritava, separada à força de mim), para uma cela
coletiva, cheia de mulheres, já que eu não tinha o superior completo.
O delegado e o carcereiro
botaram-me numa cela onde havia umas doze mulheres, de aspectos diversos, a
maioria prostitutas e ladras, que se alvoroçaram com a minha entrada, e me
devoraram com os olhos. Uma delas, masculinizada, muito forte, exclamou: “Carne
nova no pedaço!” Temi pela minha integridade física. Virei-me imediatamente e
agarrei as grades, o rosto colado a elas, para olhar para fora, tremendo, e
balbuciei baixinho uma súplica, que os carcereiros não levaram em conta,
sadicamente.
Então, uma força divina,
subitamente desceu sobre mim. Virei-me e olhei compassivamente as mulheres
todas, uma a uma, que se aproximavam. Elas estacaram e recuaram, enquanto eu me
dirigi para o centro da roda que formaram, e sentei-me no chão, em posição de
lótus. Elas, então, uma a uma se acocoraram ou sentaram, em torno, no início de
um cerimonial que se impôs pelo olhar, ou pela aura que apareceu em mim, depois
eu soube. Nós iríamos celebrar, juntas afinal, alguma coisa importante para
todas nós mulheres, algo de que estávamos terrivelmente necessitadas, e que nos
congraçava.
De manhã, lá pelas oito horas, o
doutor Loredano, com Aline, chegou com o habeas-corpus que apresentou ao
delegado e a seguir entraram na carceragem. A cena que encontraram iría espantá-los
e comovê-los:
Eu, Alma Welt, estava ali, no
meio das ovelhas desgarradas, cujos olhos apresentavam uma nova pureza e
deslumbramento, atentas à estória que eu contava naquele momento, depois de
tantas pela madrugada, e umas poucas horas de sono sem desfazer aquela roda. Se
tivéssemos mil e uma noites, nós as usaríamos para aquele desfiar de estórias,
que nos fascinavam, que nos redimiam, que nos uniam num mesmo encantamento, a
narradora e as ouvintes atentas e maravilhadas. Eu não me lembraria de um momento,
assim, mais apoteótico, em minha vida de narradora. Minha vida estava
justificada... e mais: estava celebrada!
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Na estância entreguei-me aos
carinhos de Aline e à maternalidade de Matilde, que me era também tão
necessária. Esta dizia:
— Minha guria, que encrenqueira
que tu és, desde pequena! Como podes, sendo tão meiga, arranjares tantas lutas,
tantas batalhas, em tua vida? Se teu pai estivesse aqui, isto não ocorreria.
Ele formava uma barreira aqui, nesta estância, contra tudo o que vinha de mal,
lá de fora. Ah! Como sinto falta do doutor Werner... e do seu piano! Aquela
música afastava todo o mal. Nunca mais a ouvi.
— Matilde, eu a ouço ainda!—eu
protestei— Como podes não ouvi-la? Ao cair da tarde, no crepúsculo, eu a ouço
em meus ouvidos, ou no meu coração, não sei... Mas a ouço distintamente, nota
por nota das sonatas e prelúdios de Chopin... e os lieder de Schubert, que às
vezes ele cantava, com sua linda voz de barítono. Ele continua aqui, Matilde, e
continuará sempre, até para os seus netos, que voltarão a esta casa e aqui
crescerão, tu vais ver. Eu sei! Eu sei!
Matilde, os olhos cheios de
lágrimas, me abraçou e ficamos em silêncio muito tempo. E me pareceu, então,
ouvir muito ao fundo, longinquamente, aquela música, vinda do piano, lá na
biblioteca que era o reino verdadeiro de meu pai.
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O velho Werner Fiedrich amava a
pintura, além da música e a literatura. Mas ele não tinha quadros modernos pela
casa, embora parecesse conhecer muito bem as escolas até depois do
expressionismo: pós- impressionistas, simbolistas, nabis, fauves, cubistas,
etc... até os primeiros abstracionistas. Mas nossa casa, o casarão imenso,
tinha as paredes forradas de quadros que apontavam uma preferência pela pintura
de gênero européia, do século XIX, embora houvesse nesse setor, também alguns
pintores gaúchos do século XX, como Weingartner e Sheffel.
O gênero a que me refiro eram os
interiores com cenas domésticas ou curiosas, algumas francamente enigmáticas,
se posso dizer assim. A jóia de sua coleção era, no entanto, do nosso século,
um Balthus, maravilhoso, comprado ainda antes da guerra, quando o pintor ainda
não havia se tornado o mais caro do mundo, nessa categoria. Mas havia
verdadeiros ciclos de pinturas, de um mesmo autor, que narravam cenas, estórias
que a gente podia acompanhar, como um filme. Eu digo havia, porque estes
ciclos, desgraçadamente agora estão desfalcados, tendo várias telas sido
levadas por Solange e Lúcia, para as suas casas em Alegrete e Novo Hamburgo. E
uma, valiosíssima, foi vendida por Rodo para comprar a sua Ferrari.
Entre estes conjuntos, havia um
que descrevia a saga de uma pequena órfã, pobre, deslumbrada com a sua própria
estória que ela via em quadros nas paredes da casa que a acolhera. Entre eles
havia um em que se via a órfãzinha subindo vestida, e de aventalzinho, a um
grande leito de dossel, vazio, sob o olhar complacente de uma empregada, ama,
ou coisa parecida, (não parecia ser a dona da casa). Essa cena me comovia, e
algo nela me identificava (mesmo antes da morte de minha mãe) com aquela
pequena órfã a quem fora permitido subir, por um momento, num grande leito
matronal, vazio. Nunca saberei o que realmente o pintor descrevia com aquela
cena, mas a mim parecia um retorno, uma volta ao lar, na procura de um grande
útero vazio que acolheria o pequeno ser atirado à aventura do mundo, afinal em
casa, novamente, encontrando, porém, vazia a própria cama materna. E eu queria
chorar quando pensava nisso.
O grande leito de dossel, havia
sim, no quarto dos meus pais. Mas agora sem o dossel... e sem meus pais. E eu
não poria meus joelhos sobre esse leito, porque estava ainda em plena viagem
pelo mundo, e não pudera voltar ao lar, sequer como aquela pequena órfã
acolhida. Assim eu o sentia em minha alma, naqueles dias de luta em que minha
vida estava em perigo e os órfãozinhos de pais vivos estavam ainda tão longe do
verdadeiro leito materno.
Eu sonhava com a cena final
daquele ciclo, onde se veria uma porção de crianças pulando sobre o leito,
brincando, eu entre elas, observadas por um grande rosto sorridente de mulher,
magnânimo e acolhedor. Ah! Quanto eu deveria lutar ainda para que isso se
tornasse real!
O doutor Loredano sentava-se
comigo na biblioteca, para instruir-me quanto ao que eu deveria ou não dizer no
tribunal. Ele temia minha impulsividade, e alertava-me, com aquele axioma dos
juristas: “Aquele que defende a si mesmo, tem um tolo por cliente.” Ele dizia:
“Alma, fica de boca fechada, o mais que puderes, só responda estrita e
objetivamente o que lhe for perguntado, deixa que eu conduza a tua defesa,
porque estás mais encrencada do que pensas. Tua irmã contratou um promotor que
é o meu maior rival, e só não me detesta porque isso não existe, na verdade,
entre nós advogados. Mas ele quererá destruir-me, através de ti, e para isso
lançará mão até mesmo de golpes baixos. Estás preparada para baixezas?
Ai! O peito me apertava ao
imaginar isso, o que, na verdade, eu não conseguia. O que poderiam dizer de
ruim sobre mim, se minha vida sempre fora pautada pela verdade e pelo amor? Mas
o doutor Loredano parecia realmente preocupado por mim e pela minha atuação
naquele processo. Ele dizia:
— Alma, não conheces realmente a
maldade. Serás detratada, eu te advirto, tua irmã dará carta branca para o
doutor Maia fazer como quiser. Ele levantará coisas verdadeiras, mas
emprestando-lhes um sentido que nem sequer podes imaginar. Por isso não te
metas a defender-te, que ele te crucificará. Não imaginas a habilidade desse
homem.
Eu confesso que estava assustada.
Temia por mim, por Aline... e pelas crianças. Eu estava vivendo os dias mais
assustadores da minha vida. E o futuro me parecia sombrio.
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Estávamos a 24 horas do dia do
meu julgamento. Eu fazia uma mala para a viagem a Novo Hamburgo, onde ficaria
num hotel, esperando o momento de me dirigir ao tribunal. Eu ouvira notícias da
formação do corpo de jurados, todos naturalmente desconhecidos para mim. Gente
da classe média, e mesmo um ou dois proletários. Ninguém da chamada classe
dominante, muito menos estancieiros. De qualquer forma, eu estava nas mãos de
Deus, mas ainda assim não conseguia deixar de temer pelo meu destino. “Senhor,
afasta de mim este cálice”, eu pensava, esperando que não fosse uma blasfêmia.
Matilde procurou-me em meu
quarto, abraçou-me, olhou-me profundamente nos olhos, segurando algo em suas
mãos que juntou nas minhas. Seus olhos negros, de cigana, de moura, estavam
tristes e compassivos. Esta mulher me amava como sua filha, e beijando minhas
mãos colocou-me na palma um crucifixo de prata. Ela disse:
—Alma, minha guria, guarde isso,
ponha-o junto ao teu seio, ele te protegerá, como me protegeu desde que o
recebi da minha mãe. Estive mais de uma vez em perigo aqui no Rio Grande e no
Uruguai, e ele me salvou. . Algum dia te contarei. Vamos, fica com ele, ponha-o
no pescoço.
Com o crucifixo cerrado em meu
punho, eu me abracei mais uma vez à minha doce Matilde, e chorei. Chorei e
chorei como nunca, enquanto minha vida e minha felicidade passavam ante meus
olhos, como uma despedida.
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Capítulo quinto
O julgamento
No saguão do hotel, em Novo
Hamburgo, ao balcão, fizemos o check-in, eu e Aline. Pegamos uma suíte, de
casal. Teríamos conforto, e eu, talvez a última refeição decente, de condenada.
Estes pensamentos me vinham, dramática que sou. Era inevitável.
Naquela noite nós iríamos nos
amar como nunca, rolando na cama, aos gritinhos e risos, aos suspiros e
gemidos, mas com uma nota de desespero. Eu queria devorar a minha guria, e ela
a mim. Eu bebia a sua saliva, todos os seus sumos, como o elixir que me daria
forças, a mim, fraca mulher que sou, desprotegida que me sentia, diante das
forças esmagadoras que me ameaçavam. Mas eu não podia assustar Aline com a
minha fraqueza. Esta menina precisava de mim, da minha força, na qual ela
acreditava ainda. Eu não podia decepcioná-la. Até que tarde da noite
adormecemos, nuas e suadas, na quente noite de verão, abraçadas talvez pela última
vez, eu assim pensava antes de apagar, num sono profundo, como o que antecede a
morte.
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A rua, em frente ao tribunal
estava lotada. Nosso carro, dirigido por Galdério, com Matilde ao lado, e nós
duas atrás, foi interceptado pela multidão e pelos fotógrafos. Minhas fotos já
apareciam há dias nos jornais, que faziam o maior alarde, sensacionalistas,
prevendo minha condenação. Com grandes óculos escuros, como se espera, aos
empurrões, adentramos o tribunal que regurgitava, lotado por uma ansiosa
platéia. Mas devo contar que, antes de pôr o pé na soleira, me virei, tirei os óculos escuros e encarei a
multidão, para que vissem a firmeza do meu olhar. Como era de manhã, não
haveria flashes para ofuscar-me, nem para tornar vermelhos os meus olhos
verdes. Essa foto apareceu nos jornais no dia seguinte, e ela me orgulhou.
Tendo tomado o meu lugar ao lado
do doutor Loredano , em meio ao burburinho, onde todos os olhares convergiam
para mim, de repente, um silêncio fez-se, pouco antes da entrada do juiz. Era
Solange, a soturna, que comandou aquele silêncio, seguido de cochichos, a
seguir o juiz com sua toga entrou solenemente e sentando-se bateu o martelo e
abriu a sessão:
—SILÊNCIO NO TRIBUNAL!
A seguir declarou solenemente:
— Vamos proceder ao julgamento da
citada ré, por crime de seqüestro. Promotor, comece com a identificação da
acusada.
Houve um ligeiro burburinho, não
sei bem porquê, já que o público sabia do que eu era acusada, e se dividia
quanto à legitimidade dessa acusação. Creio que uma parte do público,
ignorante, esperava aquelas outras acusações, somadas à de seqüestro.
O promotor aproximou-se de mim,
que, conduzida ao banco dos réus, já o esperava muito tensa.
— O teu nome é Alma Morgado-Welt,
sim ou não?
— Sim, senhor, Alma Welt.
— Solteira ou casada?
—Viúva, senhor—eu disse,
hesitando um pouco.
— Ah! Viúva... e por quanto tempo
permaneceste casada?
— Um mês, senhor, eu era muito
jovem, e...
— Ah! Parece que estamos diante
de uma viúva negra!
Houve uma gargalhada do público,
e burburinho, enquanto meu advogado exclamava:
— Protesto, Meritíssimo!
O juiz, severo, batia o martelo e
disse:
— Protesto aceito. Promotor,
evite brincadeiras e prossiga.
—Então, senhora Welt, ou posso
chamá-la senhorita? Tens filhos?
— Não, senhor—eu respondi.— Tive
um, que perdi...
— Ah! Sinto muito... esse filho
era do teu marido, que morreu?
— Não, senhor, era do violinista
Gino Bertellazzi, com quem vivi um ano.
— Ah! Um ano! Pelo visto a
senhorita não permanece muito tempo casada.
— Protesto, Meritíssimo!—exclamou
mais uma vez o doutor Loredano.
— Protesto aceito, prossiga,
promotor.
— Senhorita, já que de alguma
forma sabes o que é ser mãe e ter um filho afastado de si, podes imaginar o
sofrimento que infligiste à tua irmã, retirando os seus filhos de casa,
levando-os e cercando-os de homens armados, para retê-los, contra a própria mãe
deles? Sim ou não?
— S...sim, senhor, mas...
— Estou satisfeito, meritíssimo,
entrego a ré ao seu advogado, por ora — interrompeu-me o promotor.
Houve um burburinho na sala. Eu
permaneci, perturbada, esperando as perguntas do doutor Loredano, dirigindo-lhe
um olhar de súplica.
Meu advogado olhou-me
profundamente, com um olhar compassivo, bondoso, que me relaxou um pouco.
— Senhorita Alma, és uma pessoa
profundamente maternal, não és?
— Sim, sou, acho que sou —
respondi.
— Alguém mais a considera assim,
quem, por exemplo?
— Não sei, meus sobrinhos, acho,
que são tudo para mim. E Matilde, que me conhece bem...
— Senhorita, essas crianças te amam?
Como se relacionam contigo?
— Maravilhosamente — disse eu,
respondendo primeiro a segunda parte da pergunta.
— E elas te amam? Insisto.
— Sim, claro, e muito, tenho
certeza.
— E por quê a senhorita teve que
retirar as crianças de sua casa e levá-las consigo? Diga primeiro o nome dessas
crianças.
— Patrícia e Pedro... Pedrinho.
Sim, tive que retirá-los de sua casa, era preciso. Eles estavam sofrendo,
presenciavam brigas violentas entre Solange e seu cunhado Geraldo, com quem ela
está vivendo.
Outro burburinho na sala.
— Então, foi no interesse das
crianças que agiste, para protegê-las?
— Sim, claro, doutor, eu as
defenderei com a minha própria vida se for preciso.
— Meritíssimo, não tenho mais
perguntas, por ora. Queria chamar uma testemunha.
— Sim, prossiga, disse o juiz.
— A senhora Alícia Montez, por
favor.
Alícia saiu da platéia, onde
estava praticamente invisível, e sentou-se no banco de testemunhas. Olhou-me
com um olhar assustado e encarou em seguida o meu advogado.
— Senhora Alícia Montez, é o teu
nome, não?
— Sim, doutor.
— És casada, senhora?
— Sim, senhor, mas separada, meu
marido vive com outra.
— Ah! Sinto muito, senhora. E
tens filhos, senhora?
— Sim, mas meu filho mora com a
minha sogra, a mãe do meu marido, sua avó.
— Ah! Mas teu filho está bem, não
é verdade, e defenderias o teu filho de quem quer que ameaçasse sua felicidade,
não é?
— Certamente, senhor. Consegui
esse acordo, justamente porque a nova mulher do meu marido não gosta de
crianças.
— Ah! Muito bem, e não podias
ficar com teu filho, mantê-lo contigo, por quê? Diga-nos a todos, dona Alícia.
— Porque dona Solange não o
queria na casa. Dizia que deixava a casa muito cheia e que interferia no meu
serviço.
— Protesto, meritíssimo! —
interrompeu o promotor.
— Protesto negado, disse o juiz.
Prossiga.
— Dona Alícia, continuou o doutor
Loredano — Amas muito os filhos da tua patroa, és muito dedicada a eles, pois
não?
— Sim , doutor, amo-os como se
eles fossem meus.
— E os protegeria de todo o mal,
no que estivesse ao teu alcance, não é verdade?
— Protesto, Meritíssimo. O
advogado está induzindo a testemunha.
— Protesto negado. Prossiga.
—Sim, doutor, sempre os protegi.
Elas são crianças maravilhosas.
— Então não tiveste nenhuma
hesitação, nenhum escrúpulo em entregá-los à sua tia, naquelas circunstâncias,
naquele dia conturbado, pois não?
— Não, doutor, não hesitei um
segundo. Era para o bem das crianças. Elas estavam sofrendo. Pedrinho chegou
mesmo a telefonar para dona Alma, pedindo que os viesse buscar. Ameaçou mesmo
fugir de casa para ir ao encontro dela, na estância, o que seria impossível,
pois é muito longe, centenas de quilômetros. Eu já não sabia o que fazer. Não
podia tapar os olhos e os ouvidos das crianças, como queria, para protegê-las
dos horrores daquelas brigas, do que falavam já na frente das crianças.
— Protesto, Meritíssimo— exclamou
novamente o promotor. Não há provas dessas discussões!
— Protesto negado, prossiga.
— Meritíssimo juiz, não tenho
mais perguntas por ora.
O promotor, por sua vez, não quis
interrogar Alicia. Eu estava mais aliviada, com o depoimento desta boa mulher,
que ao deixar o banco me olhou com doçura... e gratidão.
Então, o promotor adiantou-se e
chamou a sua testemunha, que me surpreendeu: um antigo peão de nossa estância,
com quem nunca simpatizei, apenas pelo seu olhar.
— Seu nome, senhor.
— Alípio Galdiano, senhor.
— És boiadeiro, na estância Santa
Gertrudes, da ré? Sim ou não?
— Sim, doutor, sou. Há mais de 50
anos, embora já não haja muitos bois por lá, desde os antigos donos, antes
mesmo do velho Joachim Welt.
— E o senhor tem testemunhado
muitas coisas, não é, nesse tempo todo? Tens os olhos bem abertos?
— Certamente, doutor, é o que
tenho. Os olhos bem abertos, embora nada possa fazer.
— O que queres dizer com isso,
senhor Galdiano?
— Que tenho visto muita
pouca-vergonha, esse tempo todo, senhor.
Burburinho na sala.
— Que queres dizer com isso,
senhor Galdiano? Explique melhor, exemplifique.
— Ah! Senhor. Desde que a
senhorita Alma e seu irmão eram crianças, já acontecia aquilo. Foram pegos pela
mãe dos dois, a senhora Ana Morgado, pelados, no pomar, fazendo safadezas.
Foram arrastados pelos cabelos e pelos pulsos, no meio da peonada, que riu
bastante. A dona Ana estava indignada. A senhorita Alma e seu irmão Rodolfo só
lhe causavam desgostos, ao contrário de dona Solange e dona Lúcia, as filhas
mais velhas.
— E que mais viste esse tempo
todo? Diga, seu Galdiano.
— Bem, durante a adolescência
deles, eu observei também os abraços e beijos a toda hora. A coisa prosseguia
entre eles, não cessou. E, ao que parece, até hoje.
— Senhor Galdiano, que mais viste
na estância, a esse respeito?
— Ah! Doutor, agora a coisa é
pior. Depois que Alma voltou de São Paulo, com aquela moça paulista, a
sem-vergonhice é maior.
— Como? Que queres dizer?
— Doutor! É uma coisa estranha.
Elas se beijam na boca, doutor. E cavalgam nuas, como se ninguém as pudesse
ver, no crepúsculo, apenas porque a dona Alma é muito branca e não quer
queimar-se. Banham-se nuas, ao luar, no açude, e acariciam-se, beijam-se. E o
pior, doutor, é o que aconteceu no bosque, não sei se posso contar...
— Conte tudo, senhor Galdiano,
esta é a hora da verdade.
— Protesto, Meritíssimo—
interrompeu o doutor Loredano— o promotor julga o mérito do depoimento, de
antemão.
— Protesto aceito, continue.
— Minha mulher, com outras do
vinhedo, encontrou-as nuas no bosque, adormecidas, abraçadas. As mulheres se
reuniram em volta delas. Havia também algumas meninas. Mas elas acordaram e não
se abalaram, levantaram-se lentamente e saíram de cabeça erguida, no meio das
alas que se abriram, das trabalhadoras, e nem sequer puseram a mão na frente ou
atrás. Andavam altivamente, como se estivessem vestidas e como se ninguém
estivesse ali. Isso, parece que fez as mulheres permanecerem caladas, de tão
espantadas. Elas são feiticeiras, senhor, tenho certeza!
Um burburinho imenso, gritos,
risos, protestos.
—Silêncio, silêncio— gritava o
juiz, martelando — Prossigam!
— Não tenho mais perguntas, por
ora, Meritíssimo—concluiu o promotor.
— Quero interrogar a testemunha,
Meritíssimo, disse o doutor Loredano.
— Prossiga — disse o juiz.
— Senhor Galdiano, eras
empregado, peão, do antigo dono da estância, pois não? Antes de Joachim Welt, o
avô de Alma?
— Sim, doutor, era, desde
pequeno. Cresci naquela estância.
— E eras muito leal àquele
estancieiro. Como era o seu nome?
— Valentim Ferro, senhor. Um
homem sem igual.
— E o senhor Valentim
suicidou-se, não é mesmo? Como foi isso?
— Ah! Senhor. Foi algo terrível.
Ele enforcou-se no sótão do casarão, no dia seguinte à venda da estância.
Estava arruinado, tinha perdido tudo. O comprador já estava se instalando na
casa, e ele ainda nem tinha saído com a família. Era muita humilhação. Mas
morreu como homem, macho, pois tomou o chimarrão até o último momento, que foi
encontrado esparramado no chão, ainda fumegante. Não esquecerei nunca aquela
visão, pois entrei naquele local logo em seguida ao velho Welt.
— E juraste, nesse momento,
vingá-lo, ao seu patrão, não é mesmo?
— Protesto, Meritíssimo—
interveio o promotor.
— Protesto negado. Prossiga.
— Então juraste vingança por teu
patrão, sim ou não?
— Sim, doutor, jurei. Mas não
atino como sabes disso.
— Isso não vem ao caso. E o que
fizeste para essa vingança?
— Ah! doutor, quem sou eu para
poder vingar alguém? Sou um pobre peão, tenho de ganhar a minha vida. E ela é
dura, senhor.
— Mas agora estás te aposentando,
não é mesmo? Não precisas mais trabalhar, não é verdade?
— Protesto, Meritíssimo, isso não
é pertinente.
— Protesto negado. É pertinente,
prossiga.
— Senhor Galdiano, tens um filho,
não é mesmo? Como se chama ele?
— Martim, senhor, mas não está
mais comigo.
— Onde está ele, senhor Galdiano?
— Ele deixou a estância, anos
atrás e nunca mais voltou.
— Por quê? senhor Galdiano, sabes
a razão disso?
— Sim, doutor. Porque Martim se
apaixonou por Alma, e ela nem o enxergava. No entanto, o provocava.
— Como assim, senhor Galdiano? Se
ela não o enxergava...
— Porque a sua beleza é
destrutiva, senhor. Sempre fez mal às pessoas. Mais de um peão brigou por ela,
houve duelos, mortes e... até suicídios. E ela nem tomava conhecimento.
— E teu filho então partiu,
porque sofria, senhor?
— Sim, e partiu-nos, a todos, o
coração.
— E juraste vingança contra Alma,
sim ou não? Diga, seu Galdiano.
A platéia estava atônita. Minha
vida na estância passava ante meus olhos, com detalhes que eu não costumava
evocar na minha memória. Comecei a tremer.
—Não, doutor, quer dizer, sim, de
certa forma, mas só da boca pra fora.
— Da boca pra fora, não é?
Diga-me senhor Galdiano, como vês a senhorita Alma pessoalmente?
— Senhor, não posso encará-la.
Ela é bela demais, e isso é coisa do demônio. Outras pessoas também vêem assim.
Veja a sua pele, é branca demais. Ninguém é assim. E não tem uma mancha, uma
pinta sequer, que se saiba. Com aquele sol todo do Pampa! Isso é impossível!
Ela é da noite! Digo, das trevas. É uma vampira!
A mim, naquele momento, me
pareceu que o doutor Loredano cometera um erro, deixando-o falar assim, até
instigando aquele homem. As pessoas, o júri, ficariam influenciadas por aquelas
imagens terríveis, noturnas, de maldição. Fiquei mais preocupada. Mas o doutor
Loredano parecia acreditar que a ignorância daquele homem, ou o seu
primitivismo, ficaria patente.
A platéia se agitava.
— Meritíssimo, não tenho mais
perguntas.
— Façamos recesso, disse o juiz— disse
o juiz, o que me pareceu péssimo, porque aquelas últimas imagens ficariam
ressoando. E eu como poeta, tinha que reconhecer que elas eram fortes, até
mesmo belas, mas me prejudicavam, me punham em perigo perante a opinião
pública, que é sempre também um tanto primitiva. Fui retirada da sala para uma
outra contígua. Questionei o doutor Loredano, que me disse:
— Calma, Alma, fique tranqüila,
sei o que estou fazendo. O público é na sua maioria simpático a ti, por essa
mesma beleza, que parece ser incompreendida por alguns. Isso era de se esperar.
Afinal, é isso que se está julgando aqui: a tua beleza, Alma. E por isso este é
o julgamento do século, ao meu ver. Vou jogar com isso até o fim! A beleza é
positiva, ela vencerá!
— Espero que o senhor saiba mesmo
o que está fazendo... — suspirei.
————————————————————————
Começo a me lembrar do filho de
Galdiano, aquele que, segundo ele, apaixonou-se por mim. Realmente, eu percebi
isso naquela época, como sempre que isso acontece em minha vida. A vítima da
paixão(se posso dizer assim), não consegue esconder, mesmo que tente, ou que
não consiga expressar diretamente essa paixão, devido a barreiras internas ou
sociais. Mas, evidentemente, eu me faço de desentendida, de distraída, claro.
Não posso deter-me sobre essas paixões, atendê-las de alguma forma, ou minha
vida viraria um caos! Que posso fazer? Tento manter-me o mais distante, o mais
inacessível possível. E no entanto, algumas pessoas romperam essas barreiras...
e me vitimaram com sua paixão. Como aconteceu quando eu era guria, de treze
anos, naquela fazenda em Minas, durante umas férias. E agora, tão recentemente,
aquele Pedro, que ainda me doía, e cujo segredo eu guardava da minha Aline,
para não chocá-la.
Aline, por sua vez, ao ouvir o
depoimento de Galdiano no tribunal, pareceu fechar um pensamento dentro de sua
mente ou de seu coração. Ela me olhava, de longe, ali naquela sala onde se
decidia o nosso destino, com uma nova interrogação no olhar, e eu sabia a que
se referia. Era como se dissesse: “Foi Pedro, não foi, quem te feriu? Ele
também não resistiu... Por quê não me contas? Não me és leal?”
A campainha soou, voltamos ao
recinto do julgamento. Entrei procurando com os olhos Aline na platéia, mas não
a encontrei. O juiz reabriu com uma martelada a sessão. Mas antes fez um
pequeno prólogo. Chamou o advogado e o promotor diante de sua bancada e disse:
— Advirto-os, senhores advogados,
que o que está sendo julgado aqui, é tão somente um crime de seqüestro, por si
só suficientemente grave, de que a ré está sendo acusada. Parece-me que está
havendo desvios. O caso está enveredando por meandros não pertinentes ao crime
em questão. Agora continuem.
O doutor Loredano disse:
— Vou chamar uma nova testemunha,
meritíssimo. A senhorita De Marco, por favor!
Aline entrou, vinda de uma sala
ao lado, e não da platéia. Fiquei bastante surpresa, pois o doutor Loredano não
me avisara disso. Eu não podia imaginar a minha Aline falando qualquer coisa
sobre mim, ou sobre nós, em público. Ela era tão recatada, tão tímida mesmo...
— Senhorita Aline, é o seu nome,
pois não?
— Sim, Aline De Marco, senhor.
— E conheces bem a acusada, a
senhorita Alma, não é mesmo? O que és dela, podemos saber?
Aline fez uma pausa, hesitante,
depois encarou o público e disse:
— Eu... sou o seu amor!
Foi um rebuliço. Eu olhava Aline,
que estava desafiante, e meus olhos procuraram também os do doutor Loredano. O
que esse homem estava fazendo?
— Silêncio, silêncio!— martelou o
juiz— quero silêncio ou mando esvaziar a sala! Não tolerarei comentários, e
muito menos, tumultos. Vamos, prossiga.
— Senhorita Aline, o que queres
dizer com isso? Vocês são amigas, não é mesmo?
— Sim doutor... somos.
— Então me diga, como é a
acusada? Como é Alma Welt?
— Maravilhosa, doutor. Ela é a
melhor, a mais meiga e mais bela pessoa por dentro, que possa existir neste
mundo. E é incapaz de fazer mal a uma mosca.
— Sim , claro, senhorita Aline,
acreditamos nisso, sem dúvida. Por quê então, tu achas que ela está sendo
julgada?
— Por seu amor, doutor, por sua
coragem de interferir... pelo amor que devota aos seus sobrinhos, que só é
comparável ao amor de uma mãe devotada. Ela quis defendê-los.
— Não tenho mais perguntas,
meritíssimo senhor juiz.—disse o meu advogado— Quero dispensar a testemunha.
— Um momento—interrompeu o
promotor— quero interrogar a testemunha!
— Prossiga—disse o juiz.
— Senhorita De Marco, onde e como
conheceste a acusada, a senhorita Alma?
Aline hesitou um pouco, seus
olhos ficaram úmidos, e ela respondeu:
— Em São Paulo, no seu ateliê de
pintura. Eu sou modelo, e ela me contratou para posar para os seus quadros.
— Como são esses quadros, srta
Aline? Tu posavas nua, não é verdade? Era nu artístico?
— S...sim, senhor era.
Neste momento o promotor Maia,
estalou os dedos, teatralmente, e mandou entrar o que espantou a platéia: dois
homens de terno entraram carregando uma grande tela de minha autoria: Aline
nua. Um dos muitos quadros que pintei da minha Aline (como o conseguiram?
perguntei-me).
O quadro foi exibido por uns
minutos, enquanto o burburinho se instalava. O juiz martelou, mas as pessoas se
levantavam, muitas queriam ver mais de perto. O sucesso parecia absoluto. A
beleza da pintura, e do modelo, eram evidentes. O tiro saíra pela culatra para
o promotor. Mas, esse disse, enquanto o juiz pedia para o quadro ser virado
para ele, para que o pudesse admirar:
— Meritíssimo, eis a natureza
lúbrica da relação dessas duas. Está evidenciada, está plasmada nesta tela...
erótica. Vejam os pêlos púbicos, senhores, ralos, para mais exporem as partes
íntimas da retratada. Vejam o brilho... ali, como se... Senhores, isto é
intolerável, que museu ousaria expor uma tela assim? Não vemos nada disso em
nenhum museu. Comparem até mesmo com as Vênus de Ticiano, que parecem recatadas
perto disso. Senhores, essa mulher (e apontou para mim) é uma lúbrica, uma
erótica. Nada sabe de maternalidade. É péssimo exemplo para as crianças, como
bem podem ver. Já perceberam todos: é uma lésbica, uma ociosa, uma leviana, uma
Messalina até mesmo. Tenho provas de inúmeras ligações dessa mulher, com homens
e mulheres. É uma Casanova de saias, mais destrutiva que uma Taís, da
Antigüidade, ou que Nefertiti. Cleópatra perto dela era uma santa. Esta mulher
é até mesmo uma incestuosa, temos fartos indícios disso. Uma mulher assim pode
ser mãe? Pode reivindicar os filhos de outra? De sua irmã, mulher respeitável,
que só quis defender a sua família e sempre quis defender-se do mal que esta
mulher representa dentro de sua própria família? Senhores, jurados, já chega
dessa farsa, peço-lhes a condenação dessa hetaira, dessa prostituta que se faz
de sagrada, e que decididamente está do lado do mal, no seio de uma família de
bem!
A platéia gritava, assoviava,
batia o pé. Eu não sabia o que esse barulho significava. Estavam ao meu favor,
ou contra mim? O que significava essa reação?
O promotor, então, como um tiro
de misericórdia, chamou Solange, minha acusadora, ao banco de testemunhas:
— Senhora Solange, do que acusas
a ré. Fale abertamente, fale tudo, este é o momento da verdade.
— Do seqüestro dos meus filhinhos,
que me foram arrancados de casa, quando saí por momentos. Quando fui buscá-los,
ela apontou as armas de seus capangas, para mim. Quase fomos todos mortos, não
fosse a intervenção da polícia, no último momento quando ela estava preste a
atirar. Meus filhos estavam presos num quarto, guardados por uma mulher,
Matilde, nossa cozinheira traidora, que é sua cúmplice, e que nunca gostou de
mim.
— E a relação de sua irmã Alma
com o seu irmão Rudolf, que ela chama sugestivamente de Rôdo, como aquele
lança-perfume, um narcótico. Como é ele?
— Sim, doutor, é puro incesto.
Ela desesperou-nos desde a sua infância, com aquilo. Era uma sem-vergonhice.
Eles eram amantes. Talvez o sejam até hoje. Sim, sei que são. É visível. Os
abraços, os beijos na boca... até hoje! É intolerável! Essa mulher precisa ser
detida. Não tem o menor senso moral!
Eu estava perdida. A platéia
urrava, e eu não sabia o que queriam dizer com aqueles gritos. Estaria
protestando a meu favor, ou querendo a minha queima? O meu apedrejamento? Eu
estava quase desmaiando. Onde estava Rôdo, por quê não fora chamado? Mas se o
fôsse, seria melhor? Ele era tão exaltado, o escândalo cresceria às raias do
insuportável!
E então, ele foi chamado. O
doutor Loredano não percebera que perdera as rédeas de tudo, que estava
impotente. Nada mais conseguia acertar. Ia ser um desastre:
— Jovem, como te chamas?
— Rudolf, senhor, Rôdo... Welt.
— És o único irmão de Alma, não é
mesmo? O único filho homem. Não é?
— Sim.
— Então, meu jovem, o que dizes
de tua irmã, a acusada. Como é a tua relação com ela? Fala abertamente.
Rôdo, meu irmão, belo como um
príncipe de cabelos negros, olhou a platéia, encarou a todos e disse firmemente:
— Ela também é o meu amor!
Ai! Eu vi tudo perdido. Fiquei
zonza no meio do rumor que parecia uma imensa onda, como um maremoto, cuja
tsunami se abateu sobre mim... e desfaleci.
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Acordei minutos depois deitada
num banco duro, com uma porção de pessoas à minha volta, enquanto Aline me
batia no rosto, o doutor Loredano segurava a minha mão, e um médico tomava meu
pulso na outra.
Puzeram-me afinal sentada, eu via
tudo meio nublado e girando. Mas logo fui me recompondo enquanto o doutor
perguntava:
— Alma, se quiseres peço para
interromper o julgamento por motivo de saúde. Aliás me parece aconselhável,
porque precisamos atenuar os efeitos dos últimos depoimentos. A platéia está
alvoroçada e não sei...
— Não, não, doutor, estou bem.
Vamos, quero acabar logo com isso. Vamos lá. Só ajude a levantar-me.
— Mas Alma, não pareces muito
bem, afinal desmaiaste. Isso é muito forte. Como vais agüentar mais uma rodada?
— Vamos, doutor Loredano. Estou
bem, eu afirmo. Já passou. Foi apenas uma emoção muito forte... e bonita, pelo
meu Rôdo. Ele não me decepcionou, mas eu não esperava...
Voltamos para a sala. O doutor
Loredano confabulou com o juiz. Ia chamar uma nova testemunha, ou iam encerrar
o julgamento com a fala do promotor, a seguir encerrando com a sua, quando
levantei-me e pedi a palavra. O doutor Loredano ficou branco, estremeceu. Era o
que ele temia.
De pé diante do juiz eu disse:
— Meritíssimo, tenho o direito à
minha fala. Quero falar, quero dizer tudo. Tenho esse direito, não tenho?
— Sim, senhorita—disse o juiz—
tens o direito de falar, mas sabes a máxima: “Aquele que defende a si mesmo...”
Mas se assim o queres, fala!
— Obrigada, senhor juiz.
Senhores, senhoras, jurados, Meritíssimo, eu estou aqui, mais nua do que jamais
estive. Parece ser a minha sina.
A platéia riu.
— “Eis a minha vida, senhores,
senhoras. Eu nunca me poupei, eu dei meu coração e meu corpo aos meus amores,
aos que me amaram. Mas sempre por amor, jamais poderão ver em mim outro
interesse, em minha vida. O amor e a poesia. A Arte, senhores, é minha
religião, e o amor é meu Deus. Sempre fui assim, e por isso me vitimaram
algumas vezes, sem conseguirem me destruir. Meu corpo foi atingido, minha alma
foi ferida, mas o meu coração permanece intacto, fiel aos meus amores para
sempre, como eles a mim, agora vejo. Minha vida é gloriosa! Eu sei. Podem me
encarcerar, Deus me deu a Arte e a beleza, primeiramente em mim mesma, depois,
no meu olhar sobre o mundo! Como poderão os maus atingir-me se estou no bem e
na beleza? Estes não são mais fortes? Tenho a consciência tranqüila e tenho
orgulho da minha fidelidade ao amor universal que sinto em mim. Senhores,
poderão encarcerar-me. Mas não poderão tirar-me o amor daquelas crianças, que
está em mim e dentro delas ao mesmo tempo. Eu sei que tentei defendê-las. Não
consegui, ai de mim, elas permanecem naquela casa, e isso dói, pois sei que
sofrem com aquele ambiente... de desamor. Ai! Eu vejo seus braços estendidos
chamando por mim, e sofro, sofro por eles. Tenho as mãos amarradas, já estou no
cárcere. Mas a minha alma voa, meu coração voa até elas, e elas o sentem, elas
serão amparadas por mim, mesmo à distância.
Aline, amor da minha vida, és
sublime, não me renegaste. Rôdo, meu irmão, meu amor, igualmente me reafirmaste
em teu coração perante todos. Eu estou no chão e nas nuvens ao mesmo tempo.
Atirada ao solo, eu flutuo. Nas nuvens, ando com os pés firmes. Ninguém mais
pode me atingir a mal. O amor está comigo!”
Calei-me, os olhos cheios de
lágrimas que me desciam pelas faces.
A platéia veio a baixo. As
pessoas queriam me tocar, levantavam-se de seus assentos, queriam me agarrar,
que sei eu?
Fui levada para fora da sala,
enquanto o juiz com o seu martelo de madeira martelava em meio ao tumulto.
Afinal conseguiu por ordem no ambiente dizendo: “O julgamento está encerrado, o
júri agora vai recolher-se para votar. Nos reuniremos dentro de uma hora.”
Durante esse momentos, deixaram
Aline ficar ao meu lado, segurando a minha mão enquanto as lágrimas corriam em
nós, em silêncio, sorrindo uma para a outra, esperando, nada mais esperando.
Plenas, senão felizes. Até que me chamaram e fui levada para a sala, escoltada,
novamente.
O juiz perguntou ao líder dos
jurados, que voltava:
— Já fizeram seu julgamento, já
chegaram ao veredicto?
—Sim, Meritíssimo, disse o
jurado, entregando a um oficial um bilhete que foi levado ao juiz. Este abriu-o,
olhou-o rapidamente, mas fez um ligeiro suspense antes de declarar:
Levanta-te, Alma Welt. Tu acabas
de ser declarada... inocente. Estás livre, vai em paz!
Os presentes avançaram sobre mim
e me carregaram sobre os ombros, fui levada para fora assim, e colocada em
novos ombros. A multidão gritava por mim, saudando-me e carregando-me para o
meio da rua, por um quarteirão, até os guardas intervirem e me retirarem dos
ombros dos populares, no meio de faixas e cartazes. Pude ver que alguns desses
cartazes diziam: “ Alma Welt é nossa heroína.” Outro dizia: “Alma Welt é
puro amor. Libertem Alma Welt!”
Eu chorava de felicidade e
alívio. Procurei Aline, ela vinha também carregada no meio da multidão.
Estendemos nossas mãos com esforço, para agarrarmo-nos, e afinal estávamos, ali
no meio da multidão, abraçadas num longo beijo, que era saudado, afinal.
Vencêramos. O povo consagrava o nosso amor. E a voz do povo...
Podíamos voltar ao hotel, e
depois... à estância!
————————————————————————
Capítulo sexto
O leito matronal
Deitadas, nuas, na cama do hotel,
repousávamos naquela manhã quente, de verão, após tantas emoções. Estávamos
felizes, Aline e eu, apesar da persistente frustração de ver perdidas as
crianças para mim. Eu não pudera retê-las. Eu não pudera ficar com elas. Era
impossível para mim... tirá-las daquela mãe.
Foi então que, tocou o telefone
na cabeceira, e atendi, prontamente:
“Alô, sim. Alícia? Como estão
as crianças? Como dizes? Solange e Geraldo estão brigando? Sim, estou
ouvindo... que gritaria! O quê está acontecendo, onde estão Patrícia e
Pedrinho? Chorando? Ai, meu Deus! Apavorados!.. Meu Deus, que gritos, estou
ouvindo... Alícia, o quê está ocorrendo? Não! Não! Um revolver! Ai! (Fiquei
imóvel, calada por uns segundos, estarrecida. A seguir, continuei: “Alícia,
Alícia, que barulho foi esse? Um tiro... Solange está caída, ensangüentada...
Ele atirou nela! Onde está ele? Alícia, e as crianças, as crianças, Alícia?
Deixei cair o fone. Gritei:
“Aline, vistamo-nos depressa, aconteceu uma desgraça. Vamos, corramos! Vamos!
Vamos!
Passamos voando pela portaria,
atirando a chave no balcão, e logo estávamos dentro de um táxi, correndo para a
casa de Solange. Em minutos chegamos. A porta estava aberta, as crianças
correram para mim, mas eu não tive tempo de abraçá-las. Corri para dentro,
seguida de Aline e dei com Solange caída na sala, no meio de uma poça de
sangue. Ela estava viva, agonizante. Ajoelhei-me ao seu lado, com os joelhos em
seu sangue. Abracei-a e amparei sua cabeça enquanto ela balbuciava, baixinho:
“Alma, Alma, ouve...”
Aproximei meu ouvido dos seus
lábios e ouvi-a dizer:
—“Alma, minha irmã, minha
irmãzinha... me perdoa. Quero que me perdoes, Alma. Estou arrependida. O
dinheiro da safra vendida... está no meu quarto... salve a estância. Tu tinhas
razão. O amor estava contigo. Eu sempre soube, na verdade... mas eu tinha medo
e ciúme. Tu és tão bonita, como nunca fui. E amada pelo Vati, como eu não era,
e até pela Mutti. Eu nunca pude... Alma, estou morrendo. Fica com as
crianças... são tuas, Sempre foram tuas, porque te amam, muito mais que a mim.
Eu não soube... Ai, Alma está escurecendo, está ficando frio, fecha a sala,
acenda a lareira, Alma, o Vati trouxe a lenha. Conta uma estória tua... para as
crianças dormirem...”
Seu rosto tombou ligeiramente,
embora seus olhos permanecessem abertos, e ela se imobilizou. Alícia chorava,
Aline chorava, as crianças choravam. E eu soluçava pela minha irmã, que eu
amara sempre, sem saber...
————————————————————————
Epílogo
Estamos de volta à estância,
Rôdo, Aline, Matilde, Galdério, as crianças e eu. Lúcia virá em breve com os
gêmeos, Hans e Christian, meus queridos gemeozinhos, que quero unir num só
abraço.
Então, reunidos todos na sala, eu
disse:
— Vamos todos prestar homenagem à
nossa macieira, e agradecer por termos salvo a estância graças à Solange, que
Deus a guarde junto de si. Devemos agradecer também a Ele estarmos juntos
novamente. Levemos as ervas para a nossa Ara, vamos! Quero todos colhendo ervas
e também algumas folhas do mate e da vinha. Vamos acender a pia e render graças
à Deus, aos deuses e aos numes do Pampa, que estão esperando as nossas
homenagens, a prova da nossa gratidão.
As crianças, surpreendentemente
alegres apesar dos acontecimentos trágicos tão recentes, saíram correndo para
todos os lados. Rôdo e Aline, também, como crianças, enquanto eu sorria, feliz.
Chamei Galdério de lado, e na
nossa biblioteca dei a ele instruções precisas:
— Quero que faças uma coisa,
Galdério, pegues as tuas ferramentas, e com caibros fortes, de madeira de lei,
serrote e martelo, parafusos, furadeira, tudo, reforces a cama dos meus pais,
por baixo. Pegue o dossel, que está desmontado, no depósito, e arme-o novamente
encompridando as colunas, se possível, porquê as quero mais altas. Tens a tarde
toda para fazer isso. Vamos, eu te peço. É a tua missão, por agora.
Logo estávamos diante da nossa
macieira, queimando as ervas que fizeram intenso fumo, numa coluna levemente
inclinada pela brisa de verão.
Eu proferi as palavras:
— Ó Ara dos Pampas, minha macieira,
cujas raízes estão no meu coração! Aceita a oferenda da nossa gratidão! Estamos
juntos, o amor venceu, estamos mais uma vez reunidos diante de ti, e assim
faremos sempre, ao longo das nossas vidas, que fizeste tão belas. Conduz
também, no fumo sagrado, a alma de minha irmã e mãe destas crianças, direto
para o céu, se for possível. Ela já sofreu, e se arrependeu. Deus a receberá,
eu sei.
Patrícia tinha lágrimas nos
olhos, Pedrinho soluçava. Estávamos todos comovidos. Era preciso parar de
chorar. Eu me virei para todos e disse: “Agora, meus queridos, vamos voltar
para o solar, para termos uma grande ceia, que Matilde preparou. Quero alegria,
hein? Alegria!..
Ao cair da noite chegaram Lúcia,
os gêmeos, e Alberto, meu querido beberrão. Abraçamo-nos todos, beijei muito os
gêmeos, e Lúcia segurando-me as mãos, disse:
— Minha irmãzinha, tu nos uniste
novamente, em torno de ti, nesta casa. Só tu poderias fazer isso. Até Alberto
voltou, o pobre bêbado. Vais acolhê-lo, não vais?
— É claro, minha irmã. Esse borracho
é precioso. Algum dia lhe contarei por quê. Agora vamos só aproveitar a alegria
e nada de lembrarmos dos momentos difíceis. Vou buscar uma garrafa para ele, na
adega. Bem, ele mesmo o fará (rimo-nos juntas, nos abraçando).
Após a maravilhosa ceia, a mais
alegre das nossas vidas, eu reuni as crianças e disse:
— Agora vão todos vestir os seus
pijamas, pois vou contar uma estória para todos aqui na sala. Depois vocês me
acompanharão, para uma surpresa antes de dormir.
As crianças, curiosas e
excitadas, correram para os seus quartos para vestir os seus pijaminhas.
Patrícia apareceu, linda, com uma camisola branca, bordada, que eu lhe dera.
Todos em torno de mim, inclusive
Matilde, Lúcia, Aline e Rôdo, eu narrei a estória de Anita e Giuseppe
Garibaldi, mas na forma de uma fábula resumida e poética, como aliás fora mesmo
a sua vida. As crianças sonharam acordadas, com o amor e o heroísmo dos dois, e
seus olhos brilhavam úmidos... e voavam naquela saga da nossa terra, cujas
raízes estavam numa estância como esta, em famílias como esta, que se reuniam
numa grande sala para ouvir e contar as estórias de suas batalhas reais... e de
sonho. E eu me sentia gaúcha como nunca, meu coração estava pleno de amor pelo
Pampa, por esta casa, pelo pomar, o jardim e a vinha. Naquela noite eu sentia a
barba branca de meu pai, pairar como um cometa sobre nós, sobre o casarão.
A seguir, apaguei todas as luzes
elétricas, e munidos de castiçais e candeeiros, caminhamos pelos corredores até
o quarto dos meus pais, eu na frente, guiando-os, curiosos. Ali chegando, abri
a porta e acendi a luz, que iluminou claramente todo o grande aposento dominado
pela imensa cama de meus pais cujo dossel pairava mais alto ainda, para o que
eu preparara. Pedi que todos apagassem suas velas e candeeiros. Então subi naquele grande leito, pus-me de pé,
descalça, e estendi a mão para todos. Eu também estava de camisola, e estendia
a mão para todos subirem, como eu. Assim fizeram, inclusive Rôdo e Aline, de
pijamas, descalços todos. Então me pus a pular, bem alto, confiante no trabalho
de reforço de Galdério. Todos aos risos e gargalhadas me acompanharam, pulando,
pulando, e logo começou a luta de travesseiros, com as plumas escapando e
voando numa apoteose branca, que como uma neve, lenta, festiva, caía sobre nós,
que pulávamos e pulávamos, em risos, gritinhos e gargalhadas. A alegria voltara para nós, e eu
imaginava que para sempre.
O grande leito matronal nos acolhia a todos, órfãos que voltávamos ao lar depois de tanto tempo...
O grande leito matronal nos acolhia a todos, órfãos que voltávamos ao lar depois de tanto tempo...
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